26 de julho de 2007

QUIZ: O que têm em comum estes filmes?








Mea culpa! Subestimei a memória cinéfila dos poucos que insistem em ler as minhas dissertações sobre cinema. Têm de admitir que a ideia do QUIZ tem tanto de ingénua quanto de aliciante. E sim, o comentário que recebi estava certo, quanto ao primeiro passatempo lançado: «Vermelho» era a resposta certa. Mas eis que decidi elevar desde já a fasquia com um desafio que creio ser um pouco mais rebuscado... «Anyone»?
Solução do Quiz anterior: Os três filmes têm a cor vermelha no título.
1) Rio Vermelho, de Howard Hawks, 1948
2) Vermelho, de Krzysztof Kieslowski, 1994
3) Dragão Vermelho, de Brett Ratner, 2002.

À esplanada é que se está bem

SOBERBA. «Alguém que não acredita em milagres não é um realista.» BILLY WILDER

Faltam apenas alguns dias para a Cinemateca ir de férias e eu sem pôr os pés nas «Sessões da Esplanada», que o Museu do Cinema promove anualmente em Julho e Setembro, no terraço do café 39 Degraus! Já queria lá ter ido, até porque o ciclo escolhido para este ano é em torno da praia, ou melhor, filmes com uma ligação qualquer à época balnear. Sei que já passaram «Mónica e o Desejo», de Ingmar Bergman, «Tubarão» de Spielberg ou «Ladrão de Casaca», de Hitchcock. E eu aqui, especado, sem apanhar a brisa simpática daquele espaço informal. Mas isto não fica assim: prometo estar mais atento à extensão do ciclo em Setembro e... vou tentar lá ir ver, já nesta sexta-feira às 22h30, o clássico AVANTI!, de Billy Wilder. Primeiro, porque nunca o vi antes. Segundo, porque são poucos os que podem elogiar o dolce fare niente com engenho artístico, como Wilder. Terceiro, porque quero matar saudades do cinema ao ar livre. Ah! E sábado, ainda pode ser que dê para ver a última sessão deste ciclo antes da Cinemateca fechar portas por 30 longos dias. Trata-se de «Tubarão», de Steven Spielberg. Fica o aviso.

O MAIOR PECADO DE... Anthony Hopkins

PREGUIÇA. «'Instinto' é uma manobra de marketing a tentar fazer-se passar por um filme.» ENTERTAINMENT WEEKLY
A propósito de «Ruptura», nada como rever a carreira de um dos mais importantes actores de composição do cinema americano. Sim, as atenções nasceram para Anthony Hopkins graças ao seu desenho dramático de Hannibal Lecter (que explorou até à exaustão em três filmes), mas há também espaço, na sua já longa carreira, para uma série de tiros ao lado. Em particular, no percurso mais recente. Dito, seco e directo, com excepção deste «Ruptura» e «Indian - O Grande Desafio», a carreira de Anthony Hopkins nos últimos 10 anos tem sido feita de trejeitos que já conhecemos, pose de veterano intocável e ausência de qualquer réstia de inventividade. Que ele é um senhor, já o sabemos. Que anunciou há um bom par de anos que se ia retirar do cinema, também. O que é certo é que não o fez... mas, se calhar, deveria tê-lo feito. Ou talvez, filtrar ainda mais as suas interpretações. Em INSTINTO, o artificialismo surge em cada cena e Hopkins tem um desempenho feito à medida do ideal do «grande desempenho» (mas está a milhas desse conceito, na verdade): o actor é, aqui, um cientista que prefere viver entre os animais por já não se vincular com as imposições sociológicas. E defronta um psiquiatra (medíocre Cuba Gooding Junior) numa tentativa de reabilitação. E não é que ela aparece mesmo ao fim de uma série de lugares-comuns, acção de pacotilha, intriga brejeira e uma realização demasiado «by the book» de Jon Turteltaub? O que fica no final? Um imenso vazio e um papel que não chega aos calcanhares do prestígio do actor.

CRÍTICAS DE FUGIR:
- DIÁRIO DE NOTÍCIAS: O pior do «rousseauismo» pomposamente actualizado com tontices «new age» sobre a «bondade natural» do ser humano.
- FILMCRITIC.COM: Filme muito previsível e cansativo.
- SAN FRANCISCO EXAMINER: Um moribundo, ruidoso exercício de filme de prisão.
- CHICAGO SUN-TIMES: Se existe algo pior do que um filme criado a partir de bocados de maus argumentos, é um filme feito de bocados de bons argumentos.

QUIZ: O que têm em comum estes filmes?

Nota: Este é um novo espaço do SIN CINEMA. Reflexo de quem tem muitas ideias e mais nada para fazer... A solução virá no próximo desafio.

25 de julho de 2007

NA SALA ESCURA: Não há crimes perfeitos

IRA. «Mesmo um relógio avariado está certo duas vezes por dia.» TED CRAWFORD (Anthony Hopkins)
Já deve estar prestes a sair das salas, mas só agora me apetece falar dele. Porquê? Porque tive a oportunidade de o ver tardiamente e... gostei do que vi. Na longa senda do thriller, há muito que o cinema comercial tem explorado até à exaustão o modo como pode engendrar noções dramáticas fortes para daí extrair o efeito-surpresa que vai fazer perceber que no jogo do crime, como da justiça, nem sempre as coordenadas visíveis são as reais. Em RUPTURA, do credível Gregory Hoblit (que dirigiu esse ainda mais poderoso filme de tribunal, «A Raíz do Medo»), as cartas postas em cima da mesa são tão claras e simples que incomodam. O que esconde a personagem de Ted Crawford (Anthony Hopkins, com a sua pose ambígua de veterano), que mata a mulher a sangue frio, mas que ninguém consegue prová-lo realmente? Neste envolvente processo que põe em causa as certezas e as minudências da justiça, o segredo está em testar a personalidade do ambicioso Willy (Ryan Gosling), um advogado que sonha alto, mais do que perceber as reais motivações do suspeito. E é aí, na sua postura, que se vai dar a mais incisiva ruptura deste filme, longo e sinuoso, mas também mais amadurecido do que se poderia esperar. Sem grandes surpresas, a surpresa lá surge no final. Mas vem tarde... não é o mais importante. Até porque todos sabemos que não há crimes perfeitos. Principalmente quando envolvem consciências...


RUPTURA
De Gregory Hoblit (2007)
* * *
Bom exemplo do thriller de tribunal inteligente, este filme não se compadece com grandes rodeios na altura de se definir. A história de um jovem advogado que pensa ter o caso mais simples do mundo entre mãos tem motivos de interesse que cheguem: por um lado, um duelo de actores de se lhe tirar o chapéu, depois as múltiplas camadas dramáticas que tornam a obra permissiva a um segundo olhar. Se algo falha é mesmo por o filme incidir num género já demasiado gasto por tanta tentativa menor em querer surpreender. Neste ponto, RUPTURA está inocente de todas as acusações.

23 de julho de 2007

O desabrochar do cinema argentino

AVAREZA. «A proximidade de certos climas e situações retratados ao longo da viagem tem reminiscências em histórias conhecidas e queridas, se converteram num relato autobiográfico.» PABLO TRAPERO, Realizador

Por ano são cerca de 50 filmes e, com um número tão elevado num continente em que a concorrência mais próxima só vem do Brasil, as consequências sentem-se no ecrã: o recente florescimento do cinema argentino gerou a proliferação de pequenas obras, com níveis de produção muito baixos e reveladoras de um esforço das equipas técnicas envolvidas para levarem a produção até ao fim com sucesso. Nomes de cineastas como os de Lucrecia Martel, Lisandro Alonso, Daniel Burman ou Martín Rejtman despertaram a atenção e permitiram que esta indústria, ainda assim bastante apoiada pelo Estado argentino, crescesse e não sentisse os efeitos da crise económica generalizada que afectou o segundo maior país da América do Sul nos primeiros anos deste novo século. A Argentina é, de facto, dos poucos países com graves carências no seu nível de desenvolvimento financeiro que dispõe anualmente de chorudos subsídios estatais para cinema. A maior parte é canalizada para projectos mediáticos, negligenciando obras de natureza marginal que parecem fazer da contenção de meios ingrediente necessário para gerar novas ideias visuais. FAMÍLIA RODANTE, filme de outro nome da nova geração de realizadores argentinos a reter, Pablo Trapero, reflecte esta tendência por aproveitar o conceito de road movie e adaptá-lo à tradição familiar sul-americana. A história resume-se em poucas palavras: Emília (Graciana Chironi), matriarca de uma numerosa família, convoca todos os seus parentes mais próximos para a acompanharem numa viagem de mais de um milhar de quilómetros e assistirem a um casamento onde a velha senhora será madrinha. O meio de transporte é uma apertada autocaravana para doze pessoas e muitos mais conflitos íntimos por resolver. Pouco convencional e sem receio de mostrar os pequenos «nadas» que definem uma personalidade, o filme descreve em pouco mais de hora e meia o fio ténue que liga este clã desconexo, num registo de filmagem quase documental. Em FAMÍLIA RODANTE, as cenas atravessam-se no ecrã de forma episódica, com planos aproximados para evidenciar o espírito de (des)união do vasto núcleo de personagens, interpretado na sua maioria por actores não-profissionais – a enternecedora Emília é, inclusivamente, interpretada pela avó do jovem realizador. Sempre em movimento, a acção desenrola-se também em sucessivos interlúdios que dão pistas para o objectivo pretendido pelo cineasta Pablo Trapero: demonstrar um imenso amor pelas relações humanas e pela tradição rural do seu país.

CINEFILIA: A tal de aura «Tarantinesca» (Julho - 4ª semana)

IRA. «Nunca irei fazer um 'Pulp Fiction 2'. Mas agora que digo isto, acho que poderia muito bem fazer outros filmes com aquelas personagens.» QUENTIN TARANTINO
A razão porque «Pulp Fiction» não consta desta lista é óbvia: trata-se (ainda) do melhor e mais célebre filme do reconfigurador Quentin Tarantino. Como toda a gente já o viu e é essencial em qualquer videoteca que se preze, há, mesmo assim, que lembrar uma das mais curiosas carreiras na realização, dado que À PROVA DE MORTE já aí se encontra, nas salas nacionais, para quem o quiser ver. Tarantino pode não ser o mais súbtil dos novos cineastas norte-americanos. Mas é um dos mais intensos e daqueles que mais apetece ir seguindo com renovado interesse.
- À PROVA DE MORTE: Em exibição nos cinemas, esta parte do projecto GRINDHOUSE (entretanto partido ao meio, ficando a parte de Robert Rodríguez adiada para Setembro) traz novamente Tarantino de volta ao território série B, com um «serial killer» que assedia jovens desinibidas.
- KILL BILL 2: Segunda parte das aventuras de A Noiva e também a mais reveladora. Oportunidade do realizador homenagear filmes de acção orientais sem perder o charme e aproveitando ainda para dar uma aura western à missão de Uma Thurman (como sempre excelente).
- KILL BILL 1: Talvez o mais gory filme de Tarantino. Brilhante amálgama de géneros, mostra ainda que o realizador sabe fazer cinema de acção, com a mestria dos clássicos.
- JACKIE BROWN: Piscadela de olhos à blaxploitation, começando pela escolha da protagonista (a saudosa Pam Grier). Viagem ao mundo negro da corrupção dissimulada, com um elenco de se lhe tirar o chapéu. Samuel L. Jackson e Robert De Niro na linha da frente.
- CÃES DANADOS: O berço de tudo. Um filme minimalista que revolucionou o sopro independente da década de 90. Neste jogo de enganos sangrento, nada é o que parece. Os diálogos são de antologia.

22 de julho de 2007

NA SALA ESCURA: O amor nasce dos corpos

LUXÚRIA. «D.H. Lawrence disse que tentou mostrar a sexualidade como algo que não era vergonhoso, mas a coisa mais natural do mundo. Eu tentei transmitir isso no filme.» PASCALE FERRAN, realizadora
O sopro romântico do ano chegou discreto nas salas nacionais, mas tem mantido uma longevidade impressionante nas salas de cinema e... ainda bem. Por este motivo, tive a oportunidade de ver na sala escura um dos mais belos melodramas dos últimos anos, despojado de artifícios e digno representante de um tipo de cinema em vias de extinção: tonalidades clássicas, filmagem sensível e atenta aos pormenores, construção milimétrica das personagens e abordagem sensual do amor sem cair em demagogias carnais. LADY CHATTERLEY é uma soberba adaptação do romance «O Amante de Lady Chatterley», de D.H. Lawrence, que impressiona pela leveza da sua direcção, incisiva mas profundamente condescendente com as suas figuras. A relação metafórica entre o brotar da Primavera com a transformação interior de Constance (Marina Hands), enclausurada numa relação conjugal sem chama (dado o marido ser um arrogante burguês inválido), assim que se entrega a Parkin (Jean Louis Coullo'ch), o guarda-caça da sua propriedade, é de uma beleza extrema, que culmina com a decoração floril inventiva da personagem genialmente interpretada por Coullo'ch. De mansinho, se constrói um belo tratado do amor impulsivo, de um afecto intimamente ligado ao corpo e aos seus desejos. A relação entre o par protagonista contorna o preconceito de épocas passadas numa bela epopeia sensível e devolve ao cinema europeu a história de amor delineada como o novelo folhetinesco para adultos, que não esconde a entrega carnal, antes a encara como um passo fundamental para a união. Só por isso, e por ser um filme que renova convicções, LADY CHATTERLEY deve ser visto por quem acredita no poder dos sentimentos e se deixa envolver pela intensidade de um retrato que contorna tudo e deixa ver de perto qual é a verve do amor.
LADY CHATTERLEY
De Pascale Ferran (2006)
* * * * *
Jogo de luxúria intenso, mas condigno com o sentimento premeditado das personagens. É uma das obras-primas do ano e um exemplo de como o cinema francês ainda é uma referência na gestão de afectos. Quem o vê peca com o olhar, mas não pela nudez reincidente das personagens, antes por assumir uma veia de voyeur, ao partilhar a intimidade de dois seres que se descobrem, quando já tudo parecia perdido.

O QUE AÍ VEM... Simpsons Movie

GULA. «É altura de ir salvar a minha família!» HOMER SIMPSON

Faltam quatro míseros dias para que a família amarela nos invada os cinemas e... ainda bem, com SIMPSONS - O FILME. Depois de mais de 400 episódios na televisão (caso único para uma produção animada que tem sabido, como nenhuma outra, rejuvenescer por se actualizar na crítica à política, ao preconceito e a tudo o que mexa), Homer, Bart, Marge, Lisa e Maggie tentam esticar a animação habitualmente concebida para os habituais 20 minutos televisivos até hora e meia. Resultado? Estamos para ver se a fórmula imbatível resulta, mas a premissa promete: acidentalmente, Homer polui o rio de Springfield com substâncias tóxicas. Não só perde o trabalho, como obriga toda a população da cidade a evacuar-se para sempre.

18 de julho de 2007

O meu pecado faz um ano!

INVEJA. «- Sabes inglês, Antoine? - Estou a aprender dos discos, mas não é fácil...» Diálogo de BEIJOS ROUBADOS (1968)

Em matéria de datas importantes, passa-me (quase) tudo ao lado. Estou habituado a ter o meu pai a ligar-me a avisar sempre que um familiar faz anos. Mas o meu pai não tem por hábito ler o meu modesto blogue, pelo que assinalo hoje o primeiro aniversário do SIN CINEMA mesmo que ele tenha ocorrido há sete dias. O facto de me ter esquecido não é por acaso: tenho-me sentido, nos últimos tempos, com um certo desnorte. Nada de preocupante, apenas algum cansaço e vontade de ter aquelas férias que não chegam: o tempo parece pequeno para tudo o que gostava de fazer. E é por isso que registo este aniversário com uma alusão a BEIJOS ROUBADOS, de François Truffaut. Não só por ser um dos mais brilhantes e singelos trabalhos do realizador francês, mas porque descreve com minúcia as deambulações do célebre Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) com um pé na adolescência e outro na idade adulta, mais complexa do que poderia parecer. Há um misto de confusão e ímpeto de agir nesta personagem (mesmo que a mesma seja perita em embaraços) com o qual me identifico. E há também uma inocência - talvez ingenuidade - que ainda acredito possuir. É nesta fase de consolidação pessoal, que me congratulo por ter chegado a esta data. Feliz por ter finalmente estabilizado o modelo do meu modesto blogue, feliz por gostar cada vez mais de escrever cinema, feliz porque os poucos que aqui vêm têm crescido nas últimas semanas. Só menos feliz porque falta o tempo que tanto queria para fazer ainda melhor, ir mais vezes à sala escura e crescer ainda mais por aqui... É esse o esforço que vou tentar fazer. Até porque este é um espaço de pecado. E há sempre uns minutos mais para pecar...

CINEFILIA: Nas salas, à espera de ir ver (Julho 3ª semana)

SOBERBA. Já se respira Verão há mais tempo do que nunca e a vontade de ir ao cinema cresce com o calor. Mas por que será que ainda não vi (nem pouco mais ou menos) tudo o que queria? E ainda para mais estamos numa época em que as estreias se fazem a meio gás. E OS SIMPSONS estão aí a bater à porta... Aqui ficam cinco sugestões para ver nas salas.

- DEAR WENDY: Escrita por Lars Von Trier (que anda deprimido), esta sátira à obsessão dos americanos pelas armas parece arrojada mas dá o tiro ao lado, segundo algumas críticas.

- OS INIMIGOS DO IMPÉRIO: Nova aventura carregada de exotismo oriental que, caso a intriga palaciana seja bem fraquinha, as coreografias e jogos cénicos prometem impressionar.

- NO MUNDO DAS MULHERES: Comédia romântica sobre um rapaz a tentar recuperar de desilusão amorosa, parece que é mais convincente devido ao regresso de Meg Ryan.

- TAXIDERMIA: O único filme que já vi desta lista. Bizarra metáfora existencialista, que procura penetrar na carne para fazer ver o seu ponto de vista. Esforço 'indy' do ano, difícil de esquecer.

- HARRY POTTER E A ORDEM DE FÉNIX: Alguém ainda tem paciência para o jovem feiticeiro? As bilheteiras dizem que sim e eu tenho mais curiosidade em ver Ralph Fiennes a parecer marimbar-se enquanto vilão.

12 de julho de 2007

A arte de coleccionar cinema

GULA. «Não posso dizer que é uma loja de cinema 'underground' porque tenho aqui coisas conhecidas de todos, mas é pelo menos mais cuidada» VASCO T. MENEZES

Quem gosta mesmo de cinema não se fica pela sensação vivida no grande ecrã. Compra DVD compulsivamente, colecciona posters, livros, camisolas, porta-chaves e até bases para o rato do computador. Embora não chegue a este extremo, congratulo-me do esforço que um jovem ex-crítico de cinema do jornal Público, Vasco T. Menezes, que conheço, empreendeu: montou a loja Cinecittà para gente apanhada por filmes. Há uns tempos, fiz uma breve reportagem para o extinto suplemento 6ª (do Diário de Notícias) que, muitos meses depois, me apraz recuperar.

Numa parede, Alfred Hitchcock retoma a pose de prestígio com uma gaivota e um corvo nos ombros para nos recordar o medo de OS PÁSSAROS; na outra, Woody Allen revela o seu ar inconformado por debaixo de um chapéu de chuva num pequeno postal a preto-e-branco; ao centro, está uma colecção de posters que recordam James Dean em FÚRIA DE VIVER, Jacques Tati em AS FÉRIAS DO SR. HULOT ou o casal animado do recente êxito de Tim Burton, A NOIVA CADÁVER. Se dúvidas restassem, assim que se entra no número 4 da Avenida Sacadura Cabral (junto à Avenida de Roma), em Lisboa, é a ficção que toma conta do espaço, ou melhor, o cinema revela-se para lá do grande ecrã sob a forma de DVD, postais, livros, porta-chaves, T-shirts e até tapetes para o rato do computador. É este o «argumento» da loja Cinecittà: uma pequena área comercial mas uma grande ideia para os cinéfilos inveterados. «É a loja de cinema que eu gostaria de frequentar, tendo em conta que antes de a abrir não havia nenhuma do género em Lisboa», refere Vasco T. Menezes, ex-crítico de cinema do jornal Público e o grande mentor do espaço que abriu portas em Abril de 2005. Agora, quase um ano depois, a Cinecittà já possui site oficial (www.cine-citta.net), fidelizou um pequeno grupo de clientes, mas ainda se confronta com falta de divulgação e uma área pequena para as ideias de quem a dirige: «Gostava de ter um espaço mais alargado, com uma zona de café e bar que permitisse a conversa e não tornasse a Cinecittà num mero local de compra», acrescenta Vasco T. Menezes. Um olhar rápido pelas prateleiras dos DVD permite concluir que são as edições de luxo, importadas segundo uma lista criteriosa de fornecedores, que predominam e definem o ambiente para quem entra pela primeira vez: a oferta (com preços um pouco mais elevados que o normal devido a custos de importação e a edições raras) passa por obras desconhecidas de realizadores como Wes Anderson (BOTTLE ROCKET) ou Richard Linklater (DAZED AND CONFUSED), clássicos como MEAN STREETS de Martin Scorsese (numa edição com depoimentos do realizador e documentário), filmes de terror, cinematografia oriental e êxitos europeus de Visconti ou Chabrol. «Existem pontos de contacto entre a Cinecittà e outras lojas, mas esta é mais virada para um nicho. Não posso dizer que é uma loja de cinema underground porque tenho aqui coisas conhecidas de todos, mas é pelo menos mais cuidada», sublinha o jovem proprietário, para realçar «que a oferta tem a ver com os meus gostos, mas não é uma loja para o meu umbigo». Há ainda uma secção de compra e venda de DVD e uma livraria um pouco escondida com obras sobre tendências e estilos cinematográficos, listas de prémios ou centradas em ícones como Marilyn Monroe. E é ainda possível adquirir números antigos da revista «Écran». O segredo da Cinecittà é o de «possibilitar novas formas de relacionamento com as componentes gráficas e lúdicas» do cinema. Algo que pode ir de uma obra raríssima do artista Andy Warhol (editada pela distribuidora italiana RareVideo) ou uma camisola com uma estampa dos lábios carnudos que simbolizam THE ROCK HORROR PICTURE SHOW.