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23 de abril de 2010

NA SALA ESCURA: Os extremos da vingança

IRA. «A parte mais difícil não é tomar uma decisão. É viver com ela.» Jonas (Bruce McGill)

Os sentimentos inerentes à vingança são um manancial de ideias para um filme. Traduzir a dor e a angústia por imagens é sempre tão apelativo quanto a perversidade e o prazer de estar finalmente a ajustar contas.

Hollywood sabe disso e é por essa razão que a arte de fazer justiça é o cerne de um punhado de filmes todos os anos, assim como de séries televisivas em catadupa.

A proposta mais arrojada das últimas semanas neste campo chama-se UM CIDADÃO EXEMPLAR e é um trabalho bem executado que respira essencialmente dessa vontade acutilante de alguém se vingar. Só neste conceito está o confronto com a moralidade, o medo e um calculismo que alimenta o thriller, elevando-o para o território da quase demência.

Viver em função de um ajuste de contas pode ser difícil de sustentar por mais de hora e meia e este trabalho de F. Gary Gray ressente-se disso. Cai demasiadas vezes nas fórmulas do policial que se quer inteligente, mesmo quando esse esforço é em vão. Ninguém acredita na dose de maquiavelismo que sustenta a personagem de Gerard Butler, homem forçado a agir pelas próprias mãos, quando a Justiça não pune como deve os assassinos da sua mulher e filha pequena.

No fundo, o espectador está do lado do protagonista ao início, mas rapidamente se desprende quando percebe que as convicções do mesmo são apenas meras ilustrações artificiais de uma vingança que vai perdendo o sentido à medida que a acção avança e os planos do homem amargurado são tão imponderáveis quanto o caso Freeport ficar cabalmente esclarecido nos próximos seis meses.

Entre o filme de tribunal e o thriller de cortar a respiração, UM CIDADÃO EXEMPLAR consegue impor-se, ainda que à força e com a subtileza de um elefante numa loja de porcelanas. Elogia-se a entrega de Butler à sua personagem atormentada, o modo como a obra se desprende dos conceitos viciados de herói e vilão, além de que se tem de dar a mão à palmatória na conjugação de elementos que permitem pensar que um homem pode arruinar tudo à sua volta, mesmo encontrando-se preso numa apertada cela.

Pelo caminho, fica um contido Jamie Foxx como o promotor que tenta transmitir racionalidade neste jogo impróprio para cardíacos, ainda que seja um erro de casting. Afinal, de boas intenções está o inferno cheio e Butler engole Foxx desde os primeiros minutos. O filme é dele. E é ele que concentra os maiores méritos e defeitos deste trabalho musculado, que se deu muito bem nas bilheteira norte-americanas. A vingança pode ser uma obra de arte. Ainda que esta só se concretize no cinema.

UM CIDADÃO EXEMPLAR
De F. Gary Gray (2009)
* *
Depois da morte violenta da mulher e da filha, e quando os assassinos são indevidamente punidos, um homem amargurado demora dez anos a conceber um plano que prevê o fim de todos aqueles que estiveram de algum modo envolvidos na injustiça que lhe desfez o sentido da vida... É esta a premissa de mais um policial inventivo e forçado que o cinema norte-americano tanto gosta de explorar. É certo que testar os extremos da vingança impõe espectacularidade e assegura dramatismo em alguns papéis - Gerard Butler agarra muito bem a sua personagem -, mas também retira credibilidade e força o filme a entrar por caminhos hiperbólicos, que retiram coesão ao produto final. Um filme competente e dinâmico, mas apenas isso.

19 de abril de 2010

NA SALA ESCURA: Dois estilos animados

GULA. «Tudo o que sabemos a vosso respeito está errado.» HICCUP em Como Treinares o Teu Dragão

Já em diversas ocasiões reflecti sobre o estado da animação. Nunca esteve tão forte, imaginativa e tecnologicamente avançada. COMO TREINARES O TEU DRAGÃO, da Dreamworks, e A PRINCESA E O SAPO, da Disney, comprovam-no, ainda que o façam de formas diferentes.

Um sinal de que a indústria tem músculo para inventar, testar novas regras, mesmo que nestes dois casos vá buscar inspiração a modelos por diversas vezes testados, divertindo-se a invertê-los ou, simplesmente, a convocá-los.

O que têm em comum estas duas propostas? Foram êxitos consideráveis nas bilheteiras e são dois bons exemplos de que é possível encontrar um equilíbrio entre técnica e gestão dramática.

No caso de A PRINCESA E O SAPO, que se estreou no início do ano, o prodígio de revitalizar a animação clássica da Disney, optando pelo traço em vez do píxel, é de aplaudir, até porque o filme convoca grande parte do património animado dos estúdios, ainda num tempo pré-Pixar.

A história da princesa que é negra, sonhadora, pouco interessada em futilidades femininas, trabalhadora e modesta, representa também algum arrojo na construção das personagens que é digno de nota. Se não, veja-se: o príncipe é autoritário, preguiçoso e mulherengo em grande parte da acção; a princesa loura e vaidosa, é mimada até ao tutano e insuportável de aturar; os parceiros do par protagonista são animais pouco convencionais - um crocodilo trompetista e um pirilampo desdentado; além disso, os números musicais bebem muito mais do versátil jazz de Nova Orleães do que propriamente de baladas xaroposas.

Tudo excelentes opções, reflexo de uma produção que se quis actualizar sem, contudo, desdenhar das raízes da Disney.

Já COMO TREINARES O TEU DRAGÃO comprova que a Dreamworks continua a fazer sombra à Disney, para lá da saga 'Shrek'. Depois de uma série de tentativas mais divertidas do que profundas, consegue-se aqui também animar os adultos, tal como as crianças.

Esta viagem pelo tempo dos vikings não tem tempos mortos e inverte o imaginário do dragão assustador, cuspidor de fogo. A fábula é carregada de boas intenções, mas tudo é exposto na altura certa, dando espaço às personagens para se desenvolverem.

O 3D utilizado mostra que a técnica está-se a impor com uma rapidez impressionante. Ainda assim, COMO TREINARES O TEU DRAGÃO tira partido dela sem se centrar nela. É um filme que vale por si, com muitos mais méritos do que fraquezas.

Em suma: a animação está bem e recomenda-se. Para gáudio do público e dos bolsos dos produtores de cinema.

COMO TREINARES O TEU DRAGÃO
De Dean DeBlois e Chris Sanders (2010)
* * * *
O imaginário dos vikings foi uma ideia de génio para articular tudo com as criaturas aladas que, à primeira vista, são ameaçadoras, mas que escondem muitos segredos, que um jovem desarticulado com a sua comunidade vai aprender a respeitar. Além de uma óptima animação 3D, este delicioso filme comprova que a Dreamworks consegue quase alcançar o nível máximo dos estúdios Pixar. É caloroso e muito divertido. Está a arrasar as bilheteiras de todo o mundo! Por isso, não deve tardar a sequela...

A PRINCESA E O SAPO
De Ron Clements e John Musker (2009)
* * * *
Quem viu 'O Rei Leão', 'A Pequena Sereia' ou 'A Bela e o Monstro' consegue matar saudadas com este conto de fadas com mais reviravoltas do que é suposto. Divertido e bem construído, este filme tem aura de clássico, embora a sua dinâmica seja moderna. Com óptima animação e música de Nova Orleães, A PRINCESA E O SAPO é um caso raro de bom gosto. Que deve ser desfrutado em família. Foi nomeado para três Óscares - Melhor Filme de Animação e Melhor Canção Original, com os temas 'Almost There' e 'Down in New Orleans'.

5 de abril de 2010

NA SALA ESCURA: O vício em John Travolta

IRA. «Oh! Que se lixe o futuro!» TONY MANERO (John Travolta)

O IndieLisboa, que está prestes a voltar para mais uma edição, tem muitos méritos. O maior talvez seja a possibilidade de fazer chegar aos ecrãs nacionais projectos autorais, de dimensão menor, que de outra forma ficariam esquecidos no contexto cultural dos seus países de produção. Pois bem, TONY MANERO pode chegar com dois anos de atraso aos cinemas, mas ainda bem que o faz em nome do cinema multicultural, diverso, independente.

Estamos no Chile nos finais dos anos 70, com o regime de Pinochet a desintegrar um país sem raízes culturais, desfeito no espartilho político que corrompe a consciência, nas encruzilhadas da desigualdade social. No meio da crise, o cinema pode surgir como escape, ainda que depois sirva para ilustrar o comportamento erróneo de uma personagem que vive à margem.

É assim que nos é apresentado Raul Peralta (soberbo Alfredo Castro), um homem que mora nos subúrbios e que tem uma estranha obsessão: a figura de Tony Manero, personagem icónica de John Travolta em 'Saturday Night Fever'. O seu sonho é copiar-lhe os movimentos, a roupa branca com calças coladas ao corpo e deixar-se levar pela aura funky, ou melhor, disco sound.

À volta desta paixão tudo rui. Há uma rotina centrada numa pequena pensão, feita de personagens tristes que se deixam levar pela música de Raul. Mas este não é um modelo a seguir: além da sua obsessão em Tony, há também uma obscura veia de 'serial killer', que Raul demonstra nas mais inusitadas situações.

TONY MANERO é, por isso, um retrato dúplice de uma realidade chilena bem documentada, assente em personagens profundas e estranhas. O mérito do filme, de imagem granulosa, cores esbatidas e planos cortantes para evidenciar a deambulação do protagonista, é precisamente a figura construída por Alfredo Castro, dividida entre o sonho do disco sound e o pesadelo da morte que lhe corrói a acção.

Realizado em 2008, o projecto é um dos mais interessantes e díspares retratos sul-americanos que nos chegou nos últimos tempos. É bom descobrir este trabalho de Pablo Larraín, um autor preocupado em mostrar figuras humanas até na sua mais insondável inconstância.

TONY MANERO
De Pablo Larraín (2008)
* * *
Chile não é dos países cujo cinema seja mais conhecido por cá, mas há uma nova vaga que merece ser respeitada e discutida. Este trabalho de Pablo Larraín combina drama político, com thriller arrepiante e musical ilustrado pelas bolas de espelhos das discotecas. Apesar de haver alguma dificuldade em lidar com os espaços entre as cenas, o filme é um interessante retrato de personagens desavindas, com particular destaque para a entrega de Alfredo Castro ao seu Raúl, que sonha em ser John Travolta. Daí ao abismo é um curto passo...

22 de março de 2010

NA SALA ESCURA: Jogo de máscaras de Burton

GULA. "Existe um lugar. Como nenhum outro na Terra. Um lugar cheio de beleza, mistério e perigo! Alguns dizem que sobrevivem a ele..." Chapeleiro Louco (Johnny Depp)

Diz-se que era o projecto mais aguardado do ano, mesmo que só se esteja em Março, e percebe-se porquê: ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS é o regresso a um clássico literário na memória colectiva, mas na apropriação única operada por um dos grandes génios da imagem: Tim Burton.

O que o filme consegue fazer com o património dúplice de Lewis Carroll é reactualizar os conceitos gráficos, renovar o sentido de aventura onírica e brincar com as coordenadas da imaginação. Mais do que um filme denso de conteúdo, ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS é mais um soberbo jogo de máscaras que o realizador de "Eduardo Mãos de Tesoura" esculpe com o dom que só ele tem.

A caracterização é de tal forma brilhante, que rapidamente o espectador esquece o virtuosismo do 3D e se deixa levar pelas peripécias de Alice, aqui uma jovem mais crescida do que o costume, numa espécie de sequela perante a fábula que figura na nossa mente.

Se a primeira parte da história tem um singelo tom vitoriano, assim que a protagonista segue o coelho apressado e cai no buraco que dá para "Under Land" e não "Wonderland" o assombro é imediato. Nada foi deixado ao acaso: cada sequência é recheada de cor, cada personagem é trabalhada ao detalhe, cada efeito especial é usado a favor de uma história singular e quase hermética.

Se não fosse Tim Burton a dirigir esta versão, só David Lynch lhe poderia fazer frente. Neste caso, se há algo que pode deixar um amargo de boca é mesmo a incapacidade por ir no lado mais profundo da história ou numa certa condescendência de Burton nas exigências da Disney para travar o tom gótico que o cineasta tanto aprecia.

Ainda assim o que fica? Um sincero filme para toda a família e uma experiência visual para mais tarde recordar.

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS
De Tim Burton (2010)
* * * *
A cumplicidade com Johnny Depp está lá, pela sétima vez, intacta; o tom onírico trabalhado também; as caricaturas fortes permanecem; e o sentido de fantasia visual também. Tim Burton volta a acertar naquele que é já o maior sucesso da sua carreira. É merecido. Apesar de algo superficial na composição de uma história fluída, o filme é um doce. Uma jornada por um espaço que parece uma gigantesca tela, um testemunho fiel à escrita de Lewis Carroll. O cinema de massas só sai a ganhar.

13 de março de 2010

NA SALA ESCURA: Duas faces do melodrama

AVAREZA. «Não me mintas! O amor não quer nada comigo. Manda-me abaixo. O amor viola-me. Faz-me sentir que não valho nada.» PRECIOUS (Gabourey Sidibe)

A ideia da Academia de recuperar a velhinha tradição de ter dez nomeados para o Óscar de Melhor Filme pode ter soado a marketing, mas o que é certo é que se pôde ver filmes na linha da frente, que de outra forma nunca lá chegariam, não por falta de mérito próprio, mas pelas próprias noções inculcadas nos membros que escolhem os nomeados.

Apesar disso, tanto PRECIOUS como NAS NUVENS constariam certamente do leque de melhores filmes se a categoria se mantivesse só com cinco nomeados. A força dramática que os define, bem como o esforço para repensar o melodrama tornam ambos em excelentes exercícios do novo cinema norte-americano, mais próximo da matriz independente do que as fórmulas já gastas do típico blockbuster.

Comecemos pelo primeiro: trata-se de uma adaptação de um romance literário sofrido, uma história profundamente dramática, facilmente capaz de entrar no campo do sofrimento enjoativo. Pois bem: Lee Daniels conseguiu o frágil equilíbrio de traduzir as palavras amargas de Sapphire num belo conto triste.

A protagonista tem o mundo inteiro contra ela: obesa desmesurada, infeliz, analfabeta e com um filho deficiente resultante de uma violação do seu pai, a protagonista tem ainda de lidar com uma nova gravidez indesejada e com os tormentos físicos e psicológicos de uma mãe em estado de combustão permanente (interpretada magistralmente por Mo'Nique, justamente vencedora do Óscar de Melhor Actriz Secundária).

Mas quando se cai no fundo do poço só resta começar a tentar subir e é pelas palavras - a almejada poesia! - que Precious encontra algum conforto. Nisso e nos amigos. Seja a professora que lhe alimenta os sonhos, a um enfermeiro que a ajuda no parto, nas colegas de carteira ou numa funcionária da Segurança Social que quer descobrir o lado negro da personagem principal.

Além de uma contenção dramática impressionante, PRECIOUS reclama para si as linhas com que se cose o drama urbano, familiar e pessoal. Suportado por diálogos crus e bastante dolorosos, o filme tem uma estética bem conseguida, planos assombrosos e uma dinâmica autoral. É um filme com méritos próprios, que cresceu essencialmente do boca a boca.

Já NAS NUVENS, de Jason Reitman, pretende aproximar a comédia romântica com uma reflexão de contornos levemente dramáticos sobre os tempos modernos.

Numa época em que o trabalho já não é para sempre, o medo do despedimento serve de base para se conhecer a figura de fato aprumado e mala omnipresente na mão vivida por George Clooney. O seu trabalho é, precisamente, dar conta do fim do trabalho dos outros. Para tal, existe uma táctica discursiva que o protagonista domina como poucos. E uma vida passada em aeroportos.

É assim que se repensa a globalização, o pertencer a todo o lado e a lado nenhum. Tudo com a leveza das grandes histórias e simplicidade. Além de se questionar as relações humanas, questiona-se a noção de que viver sozinho é mais seguro do que acompanhado. Mas, por mais racional que se seja, o coração ainda consegue pregar partidas... Se Clooney é mais profundo do que a norma, Vera Farmiga e Anna Kendrick são o contraponto desejado. Em suma: um grande filme que aposta tudo na simplicidade. Outro equilíbrio difícil de alcançar. O melodrama está vivo, renovado e... recomenda-se.

PRECIOUS
De Lee Daniels (2009)
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Um minúsculo projecto produzido por Oprah Winfrey cresceu desmesuradamente e ainda bem. Baseado em factos reais, o filme é intenso, realista, profundo e cruel. Como cruéis são algumas vidas desavindas. O belo retrato humano deve muito à câmara de Lee Daniels, mas também a excelentes desempenhos: desde a estreante Gabourey Sidibe à monstruosa Mo'Nique, passando pelas breves presenças de Paula Patton e Mariah Carey. No fundo, é o que de melhor "um caso da vida" pode ser.


NAS NUVENS
De Jason Reitman (2009)
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O cinema de Jason Reitman já tinha impressionado com o simpático "Juno", mas aqui amadurece nas intenções e nos resultados. O homem que despede toda a gente e que gosta de viver sozinho, vai perceber que ainda pode ter surpresas afectivas. Tal como o espectador que aderir a este jogo de personagens muito bem elaborado. Cheio de boas ideias dramáticas e visuais, o filme tem ainda uma bela sequência inicial, com as vistas aéreas a assumirem um interessante lado expressionista e, por vezes, abstracto. A comédia quer-se inteligente assim!

25 de fevereiro de 2010

NA SALA ESCURA: Os tormentos de Scorsese

AVAREZA. "Prefiro viver a vida como um homem do que morrer como um monstro." TEDDY DANIELS (Leonardo DiCaprio)

Tem-se discutido muito que papel assume SHUTTER ISLAND na carreira milagrosa de Martin Scorsese - a par com Clint Eastwood talvez o maior cineasta norte-americano vivo!.Há quem defenda que pouco, mas mostra que o rasgo do realizador de 'Taxi Driver' se mantém, polvilhado de referências cinéfilas e capaz de articular emoção com uma estrutura narrativa madura.

Neste caso é o cinema de sombras que se impõe, estilo que Scorsese já abordou seja no remake de 'O Cabo do Medo' ou no já referido 'Taxi Driver'. Se méritos faltassem a SHUTTER ISLAND, o que se passa é que coloca a estética do film noir na obra de um realizador que ainda consegue surpreender.

Já se sabe que a história decorre numa ilha isolada do Massachussets, em plena Guerra Fria, num penhasco que esconde uma fortaleza onde está instalado um hospital psiquiátrico. Quem o frequenta vive aprisionado fisica e psicologicamente. É aí que chegam dois agentes da polícia para investigarem o desaparecimento de uma doente perigosa. Contar muito mais é estragar este jogo denso de enganos, com constantes reviravoltas. Uma certeza: nada é o que parece e rapidamente o policial dá lugar a um filme de pesadas conotações psíquicas.

No entanto, a forma como tudo é gerido, a descrição do tormento do protagonista, o clima cerrado, os diálogos cortantes, as personagens dúbias, tudo é gerido com uma extraordinária contenção. O cinema de Scorsese mergulha fundo nos mistérios insondáveis da mente e o espectador é que ganha com isso. Porque se deixa envolver numa espiral dramática sem possibilidade de volta.

Além de excelente técnico, Scorsese dirige os seus actores como ninguém e a aposta em Leonardo DiCaprio volta a ser certeira. O actor empresta ao seu Teddy Daniels toda a impetuosidade que lhe é característica, mas também rapidamente se percebe que o protagonista tem coisas mal resolvidas no seu íntimo.

Mesmo nos momentos de abstracção, Scorsese revela a subtileza dos mestres.

Ainda no campo da composição, SHUTTER ISLAND comporta um dos mais sólidos elencos que temos visto nos últimos anos. Ben Kingsley, Patricia Clarkson, Max Von Sidow e Mark Ruffalo deixaram-se embrenhar nesta história de bela fotografia e óptima caracterização.

O efeito de clausura está lá, assim como lá está a vontade em gerir o suspense sem recorrer a fórmulas gastas. Por tudo isso, SHUTTER ISLAND já é o filme mais importante deste ano cinematográfico. Absolutamente imperdível.

SHUTTER ISLAND
De Martin Scorsese (2010)
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Sem dar passos em falso e já com o há muito desejado Óscar de Melhor Realizador no bolso, Martin Scorsese tinha avisado que se ia dedicar a projectos mais pessoais. Isso não quer dizer que descurasse o grande público. Para este tumultuoso conto negro, 'Marty' voltou a chamar DiCaprio numa quarta colaboração de peso e já tão sólida quanto a de De Niro entre os anos 70 e 90. Está tudo no lugar certo, não há pontas soltas. O que se retém é o gosto pelo cinema rico, cheio de falsos sentidos, alçapões secretos e uma vontade imensa em questionar a consciência. Esse elo que nos dá certezas mas também muitas dúvidas. Uma obra-prima.

23 de fevereiro de 2010

NA SALA ESCURA: Cansado de fantasias

PREGUIÇA. «Primeira regra da estratégia de um combate: nunca deixes o teu rival distrair-te.» ANNABETH (Alexandra Dadario)

Pode ter havido épocas em que se desejou que o cinema se desvinculasse do realismo e apostasse na sua componente mais forte de escapismo. Nos períodos do film noir ou da nouvelle vague francesa pode ter-se sentido falta da fantasia. Porém, quando Hollywood descobre uma fórmula usa-a até à exaustão, com a dificuldade acrescida de ter vontade em replicá-la em desnecessárias sequelas.

O grande responsável pela proliferação de histórias fantasiosas vazias de sumo narrativo não é Harry Potter ou o clássico de Tolkien, mas sim o poder dos efeitos visuais. Hoje já tudo é possível de ser recriado sem os constrangimentos de se poder gerar um efeito de falsidade. O digital dispensa o elo humano, os seres mascarados presos por arames ou as doses excessivas de maquilhagem.

O caso mais recente de uma saga que se quer impor entre o público juvenil (aqueles que ditam aos pais o que ver na sala escura...) é PERCY JACKSON E OS LADRÕES DO OLIMPO, já em exibição. Para que tudo na oleada máquina do cinema comercial bata certo nada como recrutar um punhado de actores secundários de relevo - a que custa ver mais por estas andanças é a sempre excelente Catherine Keener! -, uma saga literária de fácil consumo com intermináveis capítulos subsequentes e até um realizador habituado a este tipo de espectáculo, Chris Columbus, que já deu o ponto de partida na saga de J.K. Rowling ao dirigir os dois primeiros capítulos de Harry Potter.

Desenhado ao milímetro para ter sucesso, o filme de Columbus é uma imensa manta de retalhos, fútil, desordenada e carente de ideias novas. Sabemos que temos um herói que não sabe que o é, que tem de partir numa missão absurda que o vai levar ao contacto com os deuses do Olimpo. Ele é, inclusivamente, meio humano, meio Deus, filho de Neptuno. A premissa pode ser simples, mas tem tantas ideias inacabadas que fica desde logo comprometido o efeito de identificação.
O modo atabalhoado como o herói descobre os seus poderes é de um efeito primário indiscritível e isto é só o começo... Pode-se elogiar a dinâmica da acção, a ausência de tempos mortos, mas não se perdoa a ineficácia das personagens, com a espessura de um fio de cabelo.

Por fim, o maior constrangimento vai - como já se disse... - para o elenco de secundários notáveis que aceitaram ganhar uns trocos extra para serem caricaturas andantes. Se, por um lado, Sean Bean ou Rosario Dawson quase passam incólumes, já Pierce Brosnan cai no ridículo e Uma Thurman parece querer repetir o desaire de «Os Vingadores» ou «Batman & Robin». Enfim, o entretenimento pode ser garantido para os fãs da saga literária. De resto, todos os outros ficam à porta.

PERCY JACKSON E OS LADRÕES DO OLIMPO
De Chris Columbus (2009)
*
Entretenimento juvenil não deveria querer dizer entretenimento vazio de conteúdo. Mas neste caso é o que acontece, ainda que mascarado de heroísmo interessado na Grécia Antiga, nos Deuses do Olimpo e em criaturas místicas que remetem para um inteligente imaginário. Neste caso tudo está feito para ser um sucesso de consumo rápido. Não há nenhum rasgo, só acção desenfreada e mistérios básicos para resolver. O cinema fantástico tem rapidamente de crescer, sob pena de ficar enredado nas mesmas fórmulas. Aprendam com Tim Burton, se faz favor.

22 de fevereiro de 2010

NA SALA ESCURA: Regresso ao niilismo de Allen

IRA. "Vêem? Sou o único que vê o filme todo. É o que eles chamam de génio." Boris (Larry David)

Os detractores continuam a insistir na ideia de que Woody Allen faz sempre variações do mesmo filme, mas o que é certo é que quando se vê TUDO PODE DAR CERTO fica-se com a sensação que o cineasta nova-iorquino regressou a território seguro, ao humor polido, às relações humanas desfragmentadas, à inventividade aparentemente ingénua, às neuroses irresistíveis. Sim, já conhecemos este tipo de cinema, mas há muito que ele não nos deliciava tanto.

Não é a primeira vez que Woody Allen se preocupa com o sentido da vida, mas neste caso o seu niilismo desordenado e assente no princípio clássico do "Carpe Diem" parece ter uma aura negra. Ou seja, como se a idade avançada tirasse qualquer réstia de optimismo perante uma ordem das coisas sem ordem alguma ou um desencantamento face ao caos que nos rege. Perante o peso da realidade, resta viver fechado sobre nós próprios e aproveitar. Porque nada mais se pode fazer.

É mais ou menos isto que move Boris, um homem amargurado, que se sente mais consciente do vazio do que a maioria das pessoas e que não tem nada a prendê-lo à vida - sim, há até umas tentativas de suicídio comicamente montadas... Mas aqui Woody Allen resolve converter a grande e rabugenta personagem de Larry David - como peixe na água a fazer de Woody Allen... à sua maneira peculiarmente rezinza - em nome do amor.

É essa inversão que não aconteceu em outros casos como 'Crimes e Escapadelas' - talvez o melhor e mais dramático tratado do cineasta sobre as difusas fronteiras do bem e do mal. TUDO PODE DAR CERTO é por isso uma comédia sensível e esperançosa de que a sorte, apesar de ser o que mais pesa numa existência, possa mudar de um momento para o outro.

Além de excelentes desempenhos, Woody Allen dá com este filme um novo fôlego para quem o criticava de ter superficializado o seu estilo. E aproveita para satirizar as relações humanas, os telhados de vidro, a situação de uma América cosmopolita mas enredada nas aparências. Neste ponto, os pais de Melody (irresistível Evan Rachel Wood) e a sua conversão a uma liberdade até sexual são mais uma tirada de génio de Allen.

TUDO PODE DAR CERTO pode não ser a obra-prima que todos ambicionam, mas é o mais inteligente filme de Woody Allen desde 'Match Point'. Nem sequer falta aquela vontade em testar a relação espectador-filme, colocando o protagonista a interpelar directamente quem está sentado na cadeira de uma sala escura. Já tínhamos saudades de ser assim surpreendidos.

TUDO PODE DAR CERTO
De Woody Allen (2009)

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Nada como regressar à Nova Iorque natal para voltar a filmá-la em tempos agitados e desencantados. Há piadas sobre a recessão, a morte e a modernidade, o que revela que Woody Allen é, além de um cineasta, um excelente observador de comportamentos. O modo como as personagens de Larry David e Evan Rachel Wood (ambos excelentes) evoluem é um caso de coerência narrativa e muito bom gosto. A singeleza da acção que se dá a conhecer a passos lagos é suficiente para continuarmos todos os anos a ansiar por mais um filme de Woody Allen. Esta é a primeira grande surpresa cinéfila do ano. A tradição ainda é o que era...

30 de julho de 2009

NA SALA ESCURA: Duas formas de rir










SOBERBA. «Posso dar-vos um conselho? Cortem as barbas porque esse ar de Rei Osama parece o de um feiticeiro sujo... ou de um Pai Natal sem abrigo.» Brüno (Sasha Baron Cohen)

Uma vem do outro lado do Atlântico, com paragens no Médio Oriente, em África e génese na pacífica Áustria. A outra quer-se tipicamente britânica, mesmo tendo entre o seu elenco o nome de Philip Seymour Hoffman. Para lá disso, são duas propostas interessantes do cinema comercial em matéria de bom humor. E não é que fazem mesmo rir?

Se, por um lado, BRÜNO representa a mais recente bizarria cinematográfica de Sasha Baron Cohen - cada vez mais interessado em chocar, ainda que em nome da sátira deliciosamente vistosa e nada, nada politicamente correcta -, por outro O BARCO DO ROCK é o mais recente título da Working Title, desejoso de bisar o êxito de outros trabalhos cómicos como «O Diário de Bridget Jones», «Notting Hill» ou «O Amor Acontece».

No primeiro caso, o que temos? Uma visão muito pouco convencional sobre os meandros do mundo da moda e direito a mais uma «personagem-obsessão» de um dos mais interessantes e arrojados fenómenos do cinema comercial.

Sasha Baron Cohen é inclassificável, inteligente e muito convencido das suas potencialidades artísticas. É o actor a fazer-se passar por actor, o artista que se confunde com a personagem, numa perversão sem limites, como que a satirizar o método mais compulsivo de algumas estrelas.

Tal como em «Borat», aqui pouco se percebe onde acaba a ficção e começa a realidade em registo imprudente de apanhados. Sasha Baron Cohen está muito pouco interessado em desfazer as dúvidas. O que se sabe é que há uma persona para alimentar em nome de uma boa ideia.

E quem é este Brüno? Um homem da moda austríaco que decide ser estrela famosa em Hollywood. Para tal, começa por pensar que ser gay estridente lhe pode valer uns pontos na subida ao sucesso, filma-se nas suas tentativas para produzir um programa de celebridades e tenta copiar hábitos de figuras famosas, como adoptar uma criança africana. Mas esta descrição é redutora: a comédia, que foi êxito nos Estados Unidos, é muito mais diabólica e pouco condescendente com moralismos.

Brüno quer ser ousado e consegue-o, enquanto se diverte a desmistificar as incongruências de uma certa mentalidade norte-americana. Sasha Baron Cohen vai, por vezes, longe de mais, expõe-se e expõe o espectador ao embaraço. Quase sempre consegue fazer soltar uma gargalhada, noutras vezes limita-se a repetir números que já divertiam em «Borat».

Ou seja: a figura entra facilmente no registo da galeria de personagens marcantes de Baron Cohen, mas também representa um ponto-limite... Se continuar por este registo, rapidamente se desgastará e o efeito-surpresa pode estar comprometido. BRÜNO diverte, choca, embaraça, satiriza. Mas isso «Borat» também já fazia. Cabe a Sasha Baron Cohen reinventar-se outra vez no próximo projecto.

Num registo mais polido e preparado para agradar ao grande público, O BARCO DO ROCK quer ser uma homenagem à música e ao esforço meritório das rádios-pirata numa época em que os bons costumes gostavam de boicotar movimentos artísticos que rompessem com o estabelecido.

Esse recuar no tempo tem alguma graça e Richard Curtis é hábil na introdução de figuras.

O realizador de «O Amor Acontece» repete, contudo, o mesmo problema da sua obra anterior: tem dificuldade em construir uma história suficientemente sólida para se manter do princípio ao fim. Opta por relatos episódicos, gosta de dispersar-se pelas personagens, como que a evitar maior profundidade narrativa. Algo que eleva o humor, mas que penaliza o efeito global da história.

Ainda assim, o tom ligeiro e descomprometido torna O BARCO DO ROCK numa proposta agradável, das mais consensuais dos últimos meses. A vontade em expor hábitos de outros tempos e de brincar com personalidades mais libertinas também encontra eco no elenco mais cool da temporada: por aqui passam Bill Nighy, Philip Seymour Hoffman (a respirar de alívio dos seus desempenhos mais densos que viveu recentemente), Nick Frost ou Rhys Ifans. Até Emma Thompson faz uma perninha...

Do lado dos vilões, está um caricatural Kenneth Branagh, membro do Governo britânico que sonha em acabar com as rádios-pirata. Se o actor, por um lado, é exímio em ser ridículo com gosto, por outro este lado da autoridade é cansativo e mal explicado em todo o filme.

No entanto, O BARCO DO ROCK quer homenagear a música. E essa vontade em recordar temas de sempre, passando por nomes que vão de Otis Redding, The Beach Boys, Cat Stevens ou David Bowie, é meritória. Uma certeza: dá vontade de ir logo a correr comprar a banda sonora!

BRÜNO
De Larry Charles (2009)
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O registo politicamente incorrecto continua e aqui Sasha Baron Cohen sente-se como peixe na água. A brincar à sexualidade, ao mundo da moda, aos falsos moralismos, à fama, tudo entra nesta bizarra jornada por uma América confusa com o seu glamour. Mas há ainda hilariantes jornadas pelo Médio Oriente e por África. Brüno pode ser demasiado estridente e cansativo, mas é também icónico e ousado. O tom do filme diverte, mas é também um sinal de que Baron Cohen precisa de inovar sob pena de cair em mais do mesmo.

O BARCO DO ROCK
De Richard Curtis (2009)
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O espírito transgressor de quem se dedica à música moderna num tempo de conservadorismos é uma boa ideia. As memórias da rádio pirata são bem resgatadas e o feel good spirit é um bem necessário para o cinema de massas. Aqui, nada a dizer. A história diverte, as personagens também. Falta é alguma solidez em tudo isto... mesmo que a homenagem aos grandes nomes do pop-rock seja bem oleada.

6 de julho de 2009

NA SALA ESCURA: A nova era do jornalismo












AVAREZA. «Violámos a lei? - Não, a isto chama-se fazer grande reportagem.» Cal McAffrey (Russell Crowe)

Os tempos são outros e já há muito não se via uma tão interessante reflexão sobre o jornalismo e as suas causas. Quando a informação se encontra disseminada em blogues e as notícias disparam ao minuto, que espaço há para a grande reportagem?

No mundo real, este género jornalístico corre perigo de extinção, mas no cinema ainda dá azo a boas peripécias e preenche o propósito de mudar a ordem das coisas. Lembro-me disso ao ver LIGAÇÕES PERIGOSAS, boa adaptação de uma série televisiva britânica pela mão do mesmo realizador de «Touching the Void».

O que Kevin MacDonald alcança neste trabalho é a capacidade de construir um novelo narrativo sem ceder a lugares fáceis ou a mudanças de argumento que comprometam tudo o que foi construído antes. É certo que a fórmula já é conhecida: um crime misterioso, que envolve altas patentes, coloca um grande repórter no terreno. A verdade lá virá ao de cima, mas não se pense que tudo é previsível.

Neste ponto, há que olhar para o esforço de Russell Crowe em ser genuíno. O seu jornalista da velha guarda, Cal McAffrey, tem o faro apurado mas a incapacidade para ver com bons olhos jovens dinâmicos que dão resposta às necessidades da profissão de uma maneira que ele não consegue (nem quer conseguir por sentir que se está a desvirtuar a essência do jornalismo!). É uma personagem imperfeita, realista e com um «à vontade» desarmante.

O modo como Cal se envolve com as suas fontes também coloca em cima da mesa a necessidade de impor limites, mesmo que estes sejam flexíveis e, a espaços, ténues.

Além disso, LIGAÇÕES PERIGOSAS apresenta um cuidadoso punhado de personagens verosímeis e bem interpretadas. Seja a jovem jornalista de Rachel McAdams, a directora que pensa nas tiragens mais do que na isenção, vivida pela excelente Helen Mirren, o congressista dúbio de Ben Affleck ou o «todo-poderoso» de Jeff Daniels.

As cartas são lançadas com uma permanente noção de espectáculo e o filme nunca cede à monotonia. Mesmo quando a história dá uma viragem numa outra direcção, o espectador compreende à primeira a opção e deixa-se levar por uma narrativa que se quer tudo menos estática.

No final, e para lá de uma ou outra ponta mais mal cosida (e até de algum desapontamento face ao desenlace...), LIGAÇÕES PERIGOSAS cumpre os seus objectivos e faz pensar sobre o lugar do jornalismo nestes tempos de omnipresente ruído informativo.

Apesar disso, há uma estética retro neste trabalho que quer fazer crer que o protagonista vive em desadequação com o seu tempo.

Seja no velho carro que conduz ou no computador pesado em que trabalha, a figura do grande repórter de Russell Crowe é espessa e credível. O que torna ainda mais interessante a constatação de que o actor foi a segunda escolha. Tudo porque a ideia do filme era voltar a reunir a dupla Brad Pitt-Edward Norton depois de «Clube de Combate». Os dois nomes abandonaram a produção, mas, em troca, Crowe e Affleck dão bem conta do recado.

LIGAÇÕES PERIGOSAS
De Kevin MacDonald (2009)
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Os que consideram que Russell Crowe é um canastrão sobrevalorizado vão ter de engolir em seco ao verem este interessante filme de suspense. Sim, ele está em grande e, em última instância, o que este trabalho nos quer mostrar é uma história dinâmica, um caso bicudo para resolver, um assassínio misterioso que mexe com altas esferas do poder. E consegue concretizar essa vontade com o fulgor que se pedia, óptimas personagens, diálogos secos e a destilarem ironia. Pode não ser revolucionário e muito inventivo, mas sabe as «linhas com que se cose». E nunca perde o seu tom de policial coeso por um momento. Mesmo que seja centrado no jornalismo, este trabalho pode não ser uma grande «cacha», mas é uma reportagem bem esgalhada.

7 de junho de 2009

NA SALA ESCURA: Culto ressuscitado












SOBERBA. «Live long and prosper.» SPOCK (Leonard Nimoy)

É um bocadinho irritante constatar que o cinema está cada vez mais sem ideias. Ou melhor: percebeu-se que é mais fácil alcançar o êxito, capaz de pagar as contas, se se for repescar um clássico de outros tempos ou inventar uma sequela menor para uma história que já terminou algumas vezes.

Na semana em que se estreou o novo capítulo de «Exterminador Implacável», fui ao cinema ver finalmente o que o criador de «Perdidos» fez com a saga «Star Trek». Com uma agravante: sempre vi as peripécias da nave Enterprise com algum distanciamento, projecto menor face a outros como o «Espaço 1999» ou «A Guerra das Estrelas».

O que me incomodava particularmente era o culto desmesurado perante um projecto que, a meu ver, não o justificava.

Engoli em seco e lá assenti perceber como é que Mr. Spock e companhia chegavam aos tempos de hoje, depois de uma série de filmes pouco expressivos na década de 90. Basicamente era o tudo ou nada na tentativa de reabilitar a saga, mas Hollywood costuma dar-se bem quando parece que o projecto só consegue segurar-se à custa de electrochoques.

E foi o que aconteceu aqui. STAR TREK é um trabalho certeiro por optar em mostrar como tudo começou e, assim, não só se contentam os fãs como os potenciais admiradores da geração de 90. Mas, mais do que isso, o filme possui uma dinâmica imbatível, descarta qualquer tipo de tempo morto e ainda se diverte a refazer chavões e a convocar glórias do passado - até Leonard Nimoy faz uma perninha numa inventiva distorção temporal.

A acção surpreende o olhar, mas sem ser desmesurada. Há até um tom kitsch que reabilita as imagens e os sons de uma certa ficção científica cristalizada no tempo. Depois, os novos actores requisitados, são apostas sólidas apesar de praticamente desconhecidas, com particular destaque para o novo Mr. Spock (Zachary Quinto).

A surpresa é ainda maior quando se vê Winona Ryder num pequeno papel. Sabe bem recordar a actriz, que veio dizer à revista «Empire» que sentiu esta pequena participação à semelhança - e salvo as devidas distâncias! - da de Marlon Brando no primeiro «Superman».

A saga STAR TREK está viva e os números entusiasmantes nas bilheteiras deixam adivinhar sequelas até mais não. O mérito está na realização descomplexada de J. J. Abrams, um dos nomes a reter no futuro. O novo cinema comercial passa por ele. E se tiver sempre a leveza e o sentido de divertimento deste filme estará em boas mãos.

STAR TREK
De J.J. Abrams (2009)
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Quando se quer reabilitar uma saga nada como baralhar e dar de novo, regressando-se às origens. Foi o que Christopher Nolan fez com Batman e é o que J.J. Abrams escolheu para STAR TREK. Assim, percebemos as circunstâncias do nascimento de Kirk, a sua entrada na Academia Starfleet, o seu antagonismo e posterior amizade com Spock e as batalhas contra os Romulanos. Entre o impulso de Kirk e a racionalidade de Spock, constrói-se uma divertida e enérgica acção que tenta justificar as suas opções em nome do bom espectáculo. Não pede para ser levada muito a sério, tem fragilidades como a presença caricatural de Eric Bana enquanto vilão, mas lembra outros tempos. Actualizados com engenho sem perderem a frescura.

17 de maio de 2009

NA SALA ESCURA: Crescer com barreiras









IRA. «Algumas pessoas chamam-nos racistas. Não somos racistas! Somos realistas!» LENNY (Frank Harper) em Isto é Inglaterra

A infância, quando se aproxima da adolescência, é já um período de convulsão. E é também um momento em que a absorção da realidade circundante se opera de uma forma particularmente evidente.

Estreados há umas semanas nas salas nacionais, eis dois excelentes casos que pensam essa etapa da vida no meio de duas realidades sociais distintas - quer geográfica, quer cronologicamente - e, com isso, configura interessantes pontos de vista sobre a formação da identidade.

De um lado temos os anos 80 num «Reino pouco Unido» em ISTO É INGLATERRA, de Shane Meadows; do outro, mais um exemplo do novo cinema brasileiro que se vinca nas desigualdades urbanas, mas sem miserabilismos comprometedores: o oportuno LINHA DE PASSE, de Walter Salles.

O primeiro é um precioso trabalho, quase documental, sobre uma década de clivagens, quer políticas, quer artísticas. No meio de uma Inglaterra dilacerada pela Guerra das Malvinas, uma criança (verdadeira revelação que é Thomas Turgoose) aproxima-se de um grupo de amigos mais velhos que lhe alteram o visual e as convicções.

Daí, entra-se numa perigosa jornada ideológica, com a entrada de um grupo de personagens nacionalistas extremas - sim, skinheads! - que lhe deformam o pensamento e o levam a pensar que o país não se compadece com estrangeitos «inaptos».

Ao aliar o despertar da adolescência com reflexões sobre o racismo, Shane Meadows consegue mostrar personagens à procura de um rumo sem ceder a facilitismos sentimentais.

Além disso, ISTO É INGLATERRA olha para os anos 80 já com um adequado distanciamento, quase documental, e traz consigo uma pulsão interna que acabará por «rebentar» no momento-chave do filme, caso de terror psicológico muito bem elaborado.

O cinema é aqui maduro, inteligente e ávido por pensar as pessoas. Coisa que LINHA DE PASSE também faz, mas numa lógica totalmente diferente.

Passado num dos múltiplos bairros pobres de São Paulo, este filme quer colocar o olhar do espectador dentro de uma casa sem meios, mas digna. Digna no seu esforço de sobrevivência quando nada ou muito pouco se tem.

Cleuza (Sandra Corveloni, Palma d'Ouro de Melhor Actriz no Festival de Cannes) é a mãe esforçada de quatro jovens, que vivem todos numa apertada casa de paredes escuras. O mais velho distribui encomendas, o segundo vive entre o trabalho num posto de combustível e a fé numa das igrejas que testam o fanatismo, o terceiro sonha ser jogador de futebol e o mais pequeno, preto, vive entre a escola e a vontade em conduzir um autocarro.

As aspirações convivem diariamente com a contrariedade, o vício e a violência. Mas o realizador Walter Salles (a meias com Daniela Thomas), que já nos deu algo de muito bom como «Diários de Motocicleta» ou «Central do Brasil» e algo de mau como «Águas Passadas», está interessado em evidenciar este punhado de personagens segundo a lógica do dia-a-dia, numa vida feita de bons e maus momentos.

Se Cleuza sucumbe muitas vezes ao cansaço e à incapacidade de gerir uma casa onde não existe um pai (na verdade, percebe-se que haverão vários...), por outro há ainda vontade em manter a união e empatia familiar.

LINHA DE PASSE termina em aberto, num instante em que as vidas dos quatro filhos se encontram em momentos-chave. Será que vai dar certo? Ou é a entrada no abismo? No fundo, um teste ao optimismo do espectador, embrenhado numa realidade brasileira que é anti-telenovela.

O que ISTO É INGLATERRA e LINHA DE PASSE têm em comum é mostrarem a dificuldade que é o crescimento. Que engrandece quando se ultrapassam os obstáculos.

Outra crítica de ISTO É INGLATERRA aqui

ISTO É INGLATERRA
De Shane Meadows (2006)
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Chegou atrasado este importante filme independente, que pensa a adolescência, mas também a realidade política do Reino Unido dos anos 80. Além disso, expõe as personagens ao estilo e à cultura de uma década que muitos vêem como «maldita». Muito bem dirigido, é um manual sobre a formação da identidade ou a difícil arte em perceber em que lugar se deve estar neste mundo. Seja fisica, seja ideologicamente.



LINHA DE PASSE
De Walter Salles (2008)
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De repente, nota-se uma enchente do novo cinema brasileiro nas salas nacionais. E ainda bem. Apesar de tematicamente poder ter semelhanças com Cidade de Deus, este retrato familiar vai mais longe. Não há aqui tantas pretensões a nível de moldura social, mas apenas uma forma de conceber a rotina familiar na favela. Com alma verdadeiramente brasileira, o filme é belo plasticamente e filma o futebol de um modo apaixonado. O Brasil é isto!

10 de maio de 2009

NA SALA ESCURA: A arte precisa de vida











SOBERBA. «O que faria eu com algo de valor?» Éloïse (Isabelle Sadoyan)

Já se fizeram livros e mais livros cujo único propósito é tentar explicar o que é, afinal, uma obra de arte. O que a define? Qual é a fronteira entre o valioso e o puro lixo? Arte implica vida, assombro, emoção, teste aos sentidos. Mais do que ser belo tem de se ser autêntico e, de preferência, único.

Mas a subjectividade inerente à estética faz com que uma obra de arte seja tanto alvo de adoração como de ódios.

O bom trabalho que é TEMPOS DE VERÃO, filme francês com passagem muito discreta pelas salas nacionais, pensa mais do que o conceito de obra de arte, a sua utilidad
e.

A conclusão, embrenhada num drama familiar que também reflecte sobre a morte, é poderosa: a obra de arte tem de ter humanidade e esse toque perde-se quando a mesma se encontra exposta num museu.

Para sermos mais claros: uma peça num museu está como um ser humano em cima de um palco. Há uma elevação, um lado contextual que cria também uma certa aura artificial, capaz de enaltecer as qualidades e ocultar os defeitos. Há uma contextualização e, num certo sentido, um vazio. Porquê? Porque não está envolvida no contacto humano, está como que desprovida do seu sentido, ainda que enaltecida.

A desfazer as dúvidas, este precioso filme, encomendado pelo Museu d'Orsay, explica as preocupações de uma matriarca em querer que os seus objectos de valor não desapareçam após a sua morte. Os três filhos querem que a mãe não pense nisso, mas quando a morte chega, imprevisível mas com a sua marca incontornável (paradoxo sumarento...), começam também as clivagens entre eles. A partilha obriga à cisão.

E é aí que a obra de arte passa para o outro lado, o acertado para não se perder, ou seja o do museu, mas também desaparece a autenticidade que a define.

No meio, há um melodrama ténue que conquista pela reflexão em torno da perda.

TEMPOS DE VERÃO
De Olivier Assayas (2008)
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Uma enorme família é obrigada a repensar-se após uma morte. Assuntos mal resolvidos emergem na mesa das negociações sobre o passado e os afectos. Três irmãos têm de viver na pele as partilhas do património familiar. Os actores são excelentes, o drama é sentido. É certo que a acção não se consegue desprender totalmente, que há uma linearidade demasiado contida. Mas há também um belo retrato humano que se joga com a noção de obra de arte. Momento alto? O instante em que a empregada da mansão leva consigo uma peça valiosa, pensando que escolheu a mais superficial e tosca de um imenso conjunto. É nestas pequenas subtilezas que encontramos a verve de Olivier Assayas, aqui num dos seus mais singelos exercícios.

28 de abril de 2009

NA SALA ESCURA: Mais 3D, menos história












GULA. «Posso não ter cérebro mas tenho uma ideia.» B.O.B (Seth Rogen, na versão original)

Depois de uma pausa para descanso, eis-me de volta a reflectir sobre o cinema e os seus novos caminhos. É certo e sabido que o que aí vem passa cada vez mais pela profundidade, ou seja, por dar novo cunho ao olhar. As projecções 3D deslumbram, tal como, por exemplo, a perspectiva deslumbrou na pintura do Renascimento.

Não sei se será o fim do ecrã plano, até porque no passado houve outras experiências que não resultaram - quem esquece os óculos coloridos para ver o clássico «O Monstro da Lagoa Negra»?

No entanto, há um aperfeiçoamento da tecnologia (sim, ainda a precisar de óculos...) que, aliada à animação digital, permite criar um assombro e uma vivacidade que pode dar novo fôlego a um cinema dizimado pela multiplataforma de ecrãs, a cópia, a democratização dos filmes.

Sabe-se também que se testam já novas televisões e há experiências verosímeis que apontam para técnicas que permitem descolar os conteúdos visuais até 40 centímetros do ecrã. As potencialidades são imensas, mas o cinema deve avançar nesse sentido sem descurar o seu imenso património.

A mais recente animação da Dreamworks, MONSTROS VS. ALIENS, é um divertimento em grande, enaltecido por uma técnica aprumada e um conhecimento já muito confortável dos efeitos da tridimensionalidade no olhar de um espectador ávido de novas sensações.

Colorido e com personagens dinâmicas, o filme volta a colocar em alta a indústria da animação, que tem saído fortalecida pela capacidade em entreter não só os mais novos como os adultos. A Pixar ainda é rainha nestas experiências, mas esta paródia à ficção científica não tem nada com que se envergonhar.

Quanto muito, falta-lhe uma história mais coesa, alguma coerência nas suas personagens demasiado caricaturais, mas a vontade em convocar memórias ligadas à ficção científica permitem hora e meia do mais puro divertimento. O cinema também é isso!

Outra crítica ao filme aqui

MONSTROS VS. ALIENS
De Rob Letterman e Conrad Vernon
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Temos uma mulher gigante a lembrar a heroína «série Z» de outros tempos; um insecto com reminiscências de «A Mosca»; um ser aquático muito próximo de «O Monstro da Lagoa Negra» e uma figura gelatinosa que é talvez a mais cómica de todas. Depois, há extraterrestres esquizofrénicos, um presidente dos EUA incompetente e a lembrar «Dr. Estranhoamor» de Kubrick. Sim, é nesta panóplia de lembranças que esta diversão animada ganha pontos. É mais um sucesso global, embora lhe falte uma história que prima pela originalidade. No entanto, a grande técnica 3D e o assumir de que aqui o que conta é mesmo o artificialismo absurdo do excesso dão força e graça a esta obra. Sim, MONSTROS VS. ALIENS é um filme engraçado.

30 de março de 2009

NA SALA ESCURA: A maturidade é isto

INVEJA. «Adoro cada aspecto que envolve a criação de um filme e acho que estou comprometido com isso para toda a vida.» CLINT EASTWOOD

Quem vê um dos seus dois últimos filmes não pode deixar de concluir: já não se fazem filmes assim! Clint Eastwood pertence a outro tempo, apresenta um estilo único, que congrega subtileza artística com sensibilidade dramática. O último dos duros está cada vez mais interessado na complexidade gigantesca que é a consciência.

Aos 78 anos, o cineasta apresenta uma dinâmica de realização imbatível e parece fervilhar de ideias.

Não de meros conceitos, mas de verdadeiras ideias de bom cinema, capazes de criar um efeito de deslumbramento como raramente se descobre nas salas escuras cada vez mais artilhadas.

Se há algo que sobressai tanto em «A Troca» como em «Gran Torino» é uma reflexão sobre o tempo e sobre um certo desajuste entre a cronologia e as suas personagens principais. Com óbvios efeitos mais expressivos no último caso, com o protagonista a sentir-se desenquadrado perante uma América que sofreu uma mudança sociológica mais rápida do que o próprio ex-militar.

Já a figura de Angelina Jolie parece padecer do efeito inverso, assumindo-se como uma mãe solteira, moderna e independente, num período em que isso não era assim tão bem aceite.

Nestas duas belas lições sobre sétima arte que Clint Eastwood nos dá, e com apenas alguns meses a separá-las, há ainda a componente dramática que é trabalhada com perfeita noção. Eastwood elabora as suas histórias sem desdenhar dos pormenores, mas centrando-se em figuras que crescem em densidade cena a cena.

No final, o que temos? O cinema a redescobrir-se a si próprio em exemplares casos em que a tradição se pode modelar para gerar novos efeitos. E a prova de que o último dos duros está ainda lúcido. Como nunca antes o foi. Afinal, a maturidade é isto!

Outra crítica de «A Troca» e de «Gran Torino»

A TROCA
De Clint Eastwood (2008)
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O caso é real e isso só faz aumentar a consternação perante um drama humano que Clint Eastwood constrói recorrendo às armas que conhece melhor: a argúcia, o sentido crítico, o dramatismo a oscilar entre a contenção e o pânico. A jornada de uma mulher em busca do seu filho é desesperante, com Angelina Jolie a revelar-se extraordinária na construção de um papel dúplice. A sua força está exposta num olhar esvaziado. É certo que a sua personagem, a espaços, parece ser demasiado moderna para a sua época, mas a dor é universal. E aí Eastwood não falha. Nem um milímetro.


GRAN TORINO
De Clint Eastwood (2008)
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É muito provavelmente a última vez que se vê Eastwood no grande ecrã. É por isso também que tudo aqui soa a despedida, com o último dos duros a lembrar outros tempos, outras personagens. No entanto, o tempo é outro. E falta pouco para que o protagonista encontre a redenção. Num filme em que a morte e a fé são duas questões por resolver, o cineasta constrói um dos mais perfeitos dramas humanos que temos visto no cinema. E tudo à luz de uma câmara extraordinária, capaz de surpreender com planos assombrosos. Clint Eastwood é um génio. Discreto e muito sensível.

21 de março de 2009

NA SALA ESCURA: Filmar a alegria









AVAREZA. «Não podes fazer toda a gente feliz.» ZOE (Alexis Zegerman)

Há quem diga que o segredo da perfeição está na simplicidade. E uma coisa simples, nas doses certas, é tão difícil de alcançar como ver golfinhos no rio Sado. No cinema, é raro encontrarmos casos de genuína contenção, que representem um equilíbrio entre densidade dramática e aprumo técnico.

Houve recentemente nas salas nacionais uma «pérola dessas», sintoma de que a sétima arte pode ser um bálsamo para a auto-estima sem precisar de recorrer a fórmulas demasiado cruas ou sobre-exploradas.

Simplicidade não quer dizer simplismo. Quer dizer, no caso de «Um Dia de Cada Vez», muito bom gosto e genuíno espaço aos pequenos prazeres que moldam uma personalidade.

O realizador Mike Leigh, habituado a dramas humanos com um peso emocional sempre no limite, abranda nos efeitos do sofrimento e opta por igualmente se estender nos afectos, aqui meramente positivos. Viver não custa, custa é saber viver, parece-nos gritar o cineasta de «Vera Drake». Ou melhor, explica-nos ao ouvido: o segredo está nas pequenas coisas.

Ao construir um filme em torno do dia-a-dia de Poppy, a mais simpática e doce das professoras primárias de Londres, Leigh quer pensar o lugar da felicidade nas sociedades contemporâneas e mostrar que ser bem disposto é possível. Difícil mas possível.

Em jeito de lufada de ar fresco, «Um Dia de Cada Vez» impõe-se levemente ao espectador que se deixa derreter pela vivacidade extraordinária de Sally Hawkins, uma revelação. A mensagem sobre o poder da felicidade passa, sem se precisar de insistir no moralismo. Até porque ser feliz pode causar dissabores, como Poppy também percebe, nomeadamente na relação que ela estabelece com o seu instrutor de condução (aplausos para o desempenho de (Eddie Marsan).

Outra crítica AQUI

UM DIA DE CADA VEZ
De Mike Leigh (2008)
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É o bálsamo do ano de 2008 e merecia ter sido muito mais promovido entre nós. Não só porque esta produção britânica privilegia as suas personagens sem as reduzir a meras caricaturas de uma qualquer sitcom, como o modo como Mike Leigh nos conduz para a vida genuinamente bem disposta de Poppy é altamente criativo e muito bem filmado. Depois há uma extraordinária Sally Hawkins, a mostrar que um bom desempenho alegre pode ser tão ou mais difícil do que os tétricos. A mensagem de carpe diem não enjoa e o realizador de Segredos e Mentiras comprova que é exímio nas análises ao comportamento humano. A felicidade está logo ali ao virar da esquina...