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18 de março de 2010

O QUE AÍ VEM... Inception

SOBERBA. «O filme lida basicamente com diversos níveis de realidade e de percepções da realidade, algo que é do meu interesse.» CHRISTOPHER NOLAN

Entre colaborações frutíferas com Martin Scorsese, Leonardo DiCaprio escolhe projectos a dedo, com realizadores de prestígio, para se afirmar cada vez mais como um dos melhores actores da sua geração.

Quando nos cinema ainda nos envolve com a duplicidade de 'Shutter Island', há já um novo filme em marcha, desta vez centrado no cinema de acção futurista: INCEPTION, que, segundo consta, terá o título em português "A Origem", é não só o regresso de DiCaprio, como também do realizador Christopher Nolan, que está nos píncaros devido à sua nova visão da célebre personagem 'Batman'.

Agora, e apesar dos valores de produção envolvidos, Nolan parece querer voltar a premissas mais complexas e interrogadoras, à semelhança da sua carreira inicial - "Memento" ainda é das melhores coisas que o cinema norte-americano nos deu na viragem dos séculos...

Num misto de 'Relatório Minoritário', 'Cubo' ou 'A Cela', a história deste novo filme que nos chegará pelo Verão assenta na ideia de que tudo pode acontecer dentro da arquitectura da mente. O mote? "Num mundo onde a tecnologia existe para entrar na mente humana através da invasão de sonhos, uma só ideia pode ser a mais perigosa arma ou a mais valiosa."

Sabe-se ainda que DiCaprio será Cobb, um especialista em tecnologia que vem acompanhado de uma equipa - os excelentes Ellen Page, Joseph Gordon-Levitt e Tom Hardy. Chega? Não, não chega. Há ainda os contributos Ken Watanabe, Marion Cotillard, Michael Caine, Lukas Haas e até de Tom Berenger.

Com um colossal orçamento de 200 milhões de dólares, INCEPTION pode ser o grande triunfador do Verão cinematográfico norte-americano. Espera-se é que não se perca no seu próprio labirinto narrativo...

31 de julho de 2009

O QUE AÍ VEM... Alice no País das Maravilhas












GULA. «Em todas as outras versões da história que vi, nunca senti uma verdadeira ligação, não só por causa da natureza da obra que segue uma série de acontecimentos como pelo facto das personagens serem estranhas.»TIM BURTON

Se há cineasta que nos está a fazer acreditar outra vez em contos de fadas é Tim Burton. Quando se pensa que o mesmo não pode ir mais longe, eis que um novo projecto, de cariz bizarro e arriscado, nos faz acreditar novamente no vigor do cinema fantástico.

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS é já o mais desejado filme dos próximos tempos, até porque Burton veio dizer que quer dar à história de Lewis Carroll o tom onírico que ela nunca teve.

Basicamente o que se pode esperar é um filme para toda a família, mas sem ser bem comportado, até porque Tim Burton tem uma paixão secreta (ou, se calhar, não assim tão secreta...) pelo lado negro das coisas. E não há nada de tão cruel do que um conto infantil...

Será preciso esperar ainda uns bons meses para se comprovar como será esta luxuosa produção, mas há alguns detalhes que só aumentam o apetite... Desde logo, Burton convoca os seus parceiros de outros trabalhos para esta fábula, seja a esposa Helena Bonham Carter na pele da Rainha de Copas ou o camaleónico Johnny Depp como o Chapeleiro Louco - na já sétima colaboração com o criador de «Eduardo Mãos de Tesoura».

Pelo aspecto das primeiras imagens, mostra-se que Depp continua a querer ir tanto mais longe na desconstrução do seu aspecto quanto possível...

Para o papel de Alice, a jovem que entra num mundo de coordenadas diferentes, está a quase desconhecida Mia Wasikowska, jovem platinada com leves traços de Gwyneth Paltrow. Mas as surpresas não ficam por aqui: Michael Sheen será o coelho branco (!) e há ainda Anne Hathaway, Alan Rickman, Stephen Fry e o velho parceiro Christopher Lee (cada vez mais perto da bonita idade de 90 anos).

Em matéria de banda sonora, podemos ficar descansados: caberá a Danny Elfman, mais uma vez, traduzir em sons o que vai na mente de Burton.

TIM BURTON TAMBÉM ERRA
O CINEMA COMO CIRCO: ONDE ENTRA BURTON?

16 de junho de 2009

O QUE AÍ VEM... A Fita Branca












IRA. «Não existe uma só verdade, apenas a verdade pessoal.» MICHAEL HANEKE

É filmado a preto e branco, tem um tom glacial, e deixa-se embrenhar pelo ambiente da guerra.

Ao certo sabe-se ainda que A FITA BRANCA, a última obra do polémico Michael Haneke, regressa à Alemanha rural de 1913.

O espaço da acção é uma escola que é alvo de estranhos acontecimentos, naquilo que parece um ritual de punição.

Sempre habituado a lidar com a violência e a aproximá-la de outras questões mais elevadas, o realizador de «A Pianista» quer analisar com a argúcia de um psicólogo de que forma tudo isso afecta a rotina daquele espaço de ensino e até que ponto se cola tudo isto com o fascismo.

O tema é sério e filmado com aquela crueza que o cineasta já nos habituou em outras ocasiões. A sua câmara estilhaça angústias, que emergem silenciosas, ao mesmo tempo que o medo corrói.

Para ajudar há ainda uma dose de polémica, que acaba por engrandecer o trabalho. Recebeu a mais recente Palma d'Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes, mas a imprensa especializada - ou pelo menos parte dela... - ficou irada com a escolha face a outros títulos a concurso.

Explicações maldosas para a escolha discutível? A presidente do júri no certame deste ano foi a actriz francesa Isabelle Huppert, amiga de Michael Haneke, que a dirigiu implacavelmente em «A Pianista», filme que lhe deu há uns anos a Palma d'Ouro de Melhor Actriz.

No dia da entrega de prémios, Huppert surgiu de branco como que a antever que o resultado da noite já estava mais que certo. O cineasta chegou até a receber o prémio por A FITA BRANCA pelas mãos da própria actriz, quando tal não costuma ser habitual... Os ódios e as tricas no cinema chegam até ao local mais prestigiado de todos. Será que Cannes está cada vez mais parecida com Hollywood?

Efeito número 1 de tudo isto: não vou perder a obra polémica nem por nada. Até porque as obsessões de Michael Haneke são sempre motivo de redobrado interesse.

11 de maio de 2009

O QUE AÍ VEM... Los Abrazos Rotos







AVAREZA.
«O cinema pode preencher os espaços vazios da tua vida e da tua solidão.» PEDRO ALMODÓVAR

Quem não tem saudades de mais uma história de cordel contada pela câmara sensível de Almodóvar que levante o braço.

Ausente desde «Voltar», o cineasta espanhol voltou a convocar a sua nova musa, Penélope Cruz, que deve aparecer novamente esplendorosa, até de cabeleira loura para ser a alma de LOS ABRAZOS ROTOS.

Depois de perder a visão e o amor da sua vida num acidente de carro, um homem vive na obscuridade. É assim que começa mais um conto desencantado, com o realizador espanhol novamente atento aos meandros da sensibilidade.

Ao que parece, são quatro histórias que se imbricam, daquelas de pais e filhos quase à maneira de uma telenovela, que Almodóvar eleva pela sua extraordinária veia dramática e câmara hábil.

É já um dos favoritos para a edição do Festival de Cannes que está aí a estalar. Já às salas nacionais só chega no fim do Verão.

15 de março de 2009

O QUE AÍ VEM... O Anticristo











IRA. «Um filme deve ser como uma pedra no sapato.» LARS VON TRIER

Lars von Trier vai realizar uma obra de terror. Os seus detractores interrogar-se-ão: mas não é isso que ele tem feito em grande parte da sua carreira? Corroendo as suas protagonistas até ao limite, jogando forte na cartada da misoginia? Que o digam Emily Watson, Björk ou até Nicole Kidman...

Pois, mas desta é que é. Não será apenas terror emocional. É mesmo terror, enquanto género cinematográfico. O ANTICRISTO vai chegar às salas mundiais ainda este ano e conta como trunfos dois actores de se lhe tirar o chapéu: Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg.

Pouco se sabe sobre esta história mas custa a crer que Lars von Trier se vai limitar a seguir os chavões que todos conhecemos dos filmes de terror. E não é que a premissa é tão banal que até dói? Tudo gira em torno de um casal que se muda para uma cabana isolada, depois da morte do filho único. A partir daqui, o sobrenatural fala mais alto...

Onde é que isto já se viu? Esperemos que em lado nenhum e que von Trier utilize o seu modelo de câmara ao ombro, personagens em ruptura e muita crueza para desconstruir o filme de terror. Diz-se até que neste enredo o mundo é criado por Satanás e não por Deus...

Filmado na Alemanha, O ANTICRISTO será um trabalho de duração abaixo da média (menos de 100 minutos) e está a ser muito aguardado por ser o primeiro filme de Lars von Trier depois de um assumido bloqueio criativo e de uma depressão. Ao ponto deste projecto ter estado em risco de nunca se concretizar...

No entanto, von Trier parece estar de volta. Em cima da mesa está já outro trabalho: «Wasington», que deverá contar com Udo Kier.

27 de dezembro de 2008

O QUE AÍ VEM...O Caso de Benjamin Button

SOBERBA. «Chamo-me Benjamin Button e nasci em circunstâncias peculiares. Enquanto toda a gente ganhava idade, eu ia ficando mais novo... sozinho.» BENJAMIN BUTTON (Brad Pitt)

Falta ainda cerca de um mês para conhecermos o filme que está nas bocas de todos e é tido como o grande favorito para a próxima temporada de festivais - primeiros sinais? Já recebeu cinco nomeações para os Globos de Ouro. O que é certo é que, independentemente dos galardões, este melodrama extremamente sensível já merecia toda a atenção por representar a entrada de David Fincher neste género.

Espera-se que o realizador de «Se7en» ou «Clube de Combate» seja capaz de reinventar o drama existencial como o fez, quer com o filme de suspense puro, quer com o policial cerebral (sim, estou a referir-me a Zodiac).

De acordo com as primeiras críticas, parece que sim... e o tom fantástico da história, que culmina com um amor impossível, só lhe dá nuances que estávamos à espera de ver pela mão segura e multicriativa de Tim Burton, por exemplo, mas que não se esperava de um realizador aparentemente agarrado a um realismo cru, comprometido com as falhas interiores, e adepto da violência. E o que nos conta O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON? A vida bizarrra de um homem que nasce idoso e... à medida que os anos passam vai rejuvenescendo.

Uma antítese que servirá também para gerar interrogações sobre o sentido da vida. Depois, ao que parece, há um desempenho muito elogiado de Brad Pitt, cada vez mais empenhado em tornar-se um actor que gosta de arriscar e não se importa nada em ocultar a imagem de sex symbol que muitos (ou melhor, muitas) têm dele, e outro de Cate Blanchett - qual é a novidade?

Ainda assim, é o drama inscrito numa triste fantasia que parece estar a convencer multidões e a dar mais uma achas para o rótulo de «melhor cineasta da sua geração em Hollywood» a David Fincher. Quanto ao mote da história, é curto e muitíssimo eficaz: «A vida não se mede em minutos, mas em momentos.»

20 de outubro de 2008

O QUE AÍ VEM... The Wrestler







IRA.
«Se Madonna e David Bowie nos ensinaram algo, é que temos de seguir reinventando-nos.» DARREN ARONOFSKY in Empire

Nos últimos anos - há bastantes mesmo assim... - Mickey Rourke, outrora galã capaz de levar Kim Basinger a tornar-se assídua do seu frigorífico, tornou-se alvo de críticas e rumores, muito por causa da sua obesidade, dos implantes de botox e da má escolha de desempenhos.

Se, há poucos anos, Robert Rodriguez o quis reabilitar com uma personagem mítica em A Cidade do Pecado, agora é a vez de Darren Aronofsky, que já por si possui um currículo longe de ser convencional.

THE WRESTLER é um drama pessoal que gira em torno de um lutador de
wrestling, desporto que tem mais de encenação do que luta, mas que parece ter voltado aos primeiros lugares da ribalta, gerando um culto bizarro.

Rourke é Randy «The Ram» Robinson, um dos mais famosos da arena, mas o realizador do excelente «A Vida Não é um Sonho» e do inclassificável «The Fountain» está mais preocupado em descortinar quem é o homem que se esconde para lá dos músculos.

O desempenho (e, principalmente a transformação) tem sido alvo de elogios, num filme que quer ser levado a sério enquanto melodrama, apesar do seu fundo aparatoso. Para dar mais credibilidade à coisa, aparecem ainda a interessante Marisa Tomei a fazer de stripper e a ousada Evan Rachel Wood no papel da filha do protagonista.

O que se pode esperar daqui? O renascer da carreira de Mickey O'Rourke e uma análise sobre as atribulações de uma vida que se faz de um desporto que é também uma representação. Ou uma representação que é também um desporto.

6 de agosto de 2008

O QUE AÍ VEM: Burn After Reading








SOBERBA.
«É uma coisa engraçada: as pessoas acusam-nos de ser condescendentes com as nossas personagens de alguma maneira - isso para mim é inexplicável.» JOEL COHEN

Que fazer depois de um Óscar? Tudo igual ao que se fazia antes, dizem os irmãos Coen. Se houve algo que mudou com a atenção dada a «Este País Não é Para Velhos» é que se recuperou o prestígio, que desde «O Grande Lebowski» andava algo arredado entre os mais puristas, e ganhou-se mais meios para seguir em frente.

Independentemente dos seus méritos artísticos, o próximo trabalho dos irmãos Coen, BURN AFTER READING, tem já o prémio de ter o elenco mais cool da temporada
: a Brad Pitt e George Clooney juntam-se a recém-oscarizada Tilda Swinton, a sempre excelente Frances McDormand e John Malkovich.

O ponto de partida volta a ser prometedor: um disco que contém as memórias de um agente da CIA vai parar às mãos de dois trabalhadores de um ginásio sem escrúpulos que tentam posteriormente vendê-lo.

Esperemos que seja mais na onda do cinismo de «Fargo» do que no superficialismo de «O Quinteto da Morte».

7 de junho de 2008

O QUE AÍ VEM... Kung Fu Panda







SOBERBA.
«Nem por um segundo, olho para mim mesmo como o homem mais sexy do mundo.» JACK BLACK

A animação continua a reinar nos meses de Verão, com os grandes estúdios a fazerem de tudo para que o aprumo da imagem digital consiga ir ainda mais longe, colocando os mais novos nas filas e, com eles, logicamente, os seus pais.

Enquanto não chega a nova aposta da Pixar - sim, ainda é ela que reina neste campeonato - toda a gente está a falar de KUNG FU PANDA
.

Uma animação frenética, com um grupo de personagens cujo desenho é promissor e a garantia de uma combinação aceitável de humor com artes marciais. A história segue os passos de animais preguiçosos que têm de se virar para protegerem o habitat. «Virar» implica serem mestres do pontapé e do soco...

A estreia correu bem tanto nos Estados Unidos como no Festival de Cannes e tem como trunfo a voz de Jack Black na pele do panda protagonista. Ainda bem. Black neste campo continua sem concorrência à vista. Resta saber se a Dreamworks (a produtora desta grande produção) consegue fazer sombra ao poder da Disney.

O que é certo é que nos últimos tempos - sempre com a excepção de «Shrek» - não o tem conseguido... É altura de mudar?

9 de maio de 2008

O QUE AÍ VEM... I'm a Cyborg But That's OK

INVEJA. «Não gosto de ver filmes que evoquem a passividade. Se se precisa desse tipo de conforto, não percebo porque é que não se vai a um spa.» CHAN-WOOK PARK

Quem não ficou vidrado com o extremismo emocional de «Oldboy» levante o braço. Parece ter sido o registo encontrado pelo sul-coreano Chan-Wook Park para mostrar o seu cinema, ao ponto de construir uma das mais ousadas trilogias, logicamente centrada no tema da violência e da vingança.

Alguém o imagina a fazer uma comédia romântica surrealista? A primeira parte nem tanto, mas a componente surreal só podia lá estar... É o que parece ter feito com I'M A CYBORG BUT THAT'S OK, ou melhor, esta é a forma que encontrou para mostrar que até é um sentimentalão...

Será que os robôs também amam? E aqueles que o julgam ser? Nesta fantasia bizarra, muito cuidada graficamente parece que a psicologia é um lugar estranho.


Trata-se de uma obra mais suave do que as suas dispersões anteriores, mas parece que consegue ser igualmente extrema no modo como narra a jornada de uma mulher que julga ser um cyborg e que, por isso, vai parar a um asilo.

Nesse espaço impessoal imagina armas, máquinas, confrontos impossíveis e... apaixona-se. Será ela a louca ou a única sã? Quem não parece muito normal é mesmo Chan-Wook Park. Ainda bem.

29 de março de 2008

O QUE AÍ VEM... El Orfanato







IRA.
«Seria um 'cliché' dizer que, por ser mexicano, consigo ver a morte de uma certa maneira.» GUILLERMO DEL TORO

O dom para as alegorias, a bela plasticidade visual (a lembrar Tim Burton ou Peter Jackson, por exemplo) ou o engenho na construção de planos tornaram Guillermo Del Toro a coqueluche dos realizadores fora de Hollywood que se convertem aos seus padrões sem abdicarem de um importante sentido criativo.

A culpa foi de «O Labirinto do Fauno», obra de tal forma importante que permitiu ao seu realizador ser apontado como o responsável pela adaptação de «Hobbit», a obra mais desejada depois da reverência com a trilogia de «O Senhor dos Anéis», também de Tolkien. Antes disso, Del Toro foi também adquirindo espessura enquanto produtor e é ele que está por trás de um dos mais badalados filmes espanhóis dos últimos meses.

EL ORFANATO, co-produção entre Espanha e México, é uma obra de terror intimista a fazer lembrar, por exemplo, «Os Outros», de outro realizador latino, Alejandro Aménabar
.

A premissa deste conto negro, que tem acumulado cinco estrelas em inúmeras revistas de cinema? Trata-se do regresso de uma mulher ao orfanato onde fôra criada, com o intuito de o reabrir. O cenário adensa-se quando o seu filho cria um amigo imaginário, capaz de causar calafrios.

O realizador Juan António Bayona esforça-se por actualizar o tom de fábula de terror, à maneira clássica, sem necessitar de derramar muitos litros de sangue. Depois, diz quem viu, que o maior mérito da obra é a forma como a história é contada, capaz de reabilitar o mito da casa assombrada. Aquela em que ninguém quer morar, mas da qual não se consegue resistir a ir dar uma espreitadela. O mundo continua misterioso nas mãos de Guillermo Del Toro.

2 de março de 2008

O QUE AÍ VEM... Aritmética Emocional







SOBERBA.
«Não me importa se as personagens são moralmente boas ou más, porque não tenho que gostar delas para as interpretar bem.» MAX VON SYDOW

Devem contar-ser pelos dedos de uma mão os actores vivos que tenham o currículo e a densidade interpretativa de Max Von Sydow. O Padre Merrin de «O Exorcista» ou Anthonius de «O Sétimo Selo» já possui a grandiosidade dos vultos clássicos e foi bom recebê-lo numa justa homenagem no Fantasporto deste ano.

Por cá, dissertou sobre a estranheza de ser actor, desmistificou o método de rodagem de Ingmar Bergman (ao que parece muito mais prático do que a profundidade inabalável que conseguia imprimir na tela) e disse como se consegue surpreender com mais de 130 longas-metragens no currículo.

Entre os seus mais recentes trabalhos, o próximo a chegar às salas nacionais é ARITMÉTICA EMOCIONAL, sobre as vidas de três personagens que vivem para sempre ligadas às memórias partilhadas num campo de concentração da Segunda Grande Guerra.

Obviamente que Von Sidow é um dos veteranos deste melodrama, do desconhecido Paolo Barzman. Pontos a favor? A raiz canadiana da história e o sólido elenco onde se inclui Susan Sarandon, Christopher Plummer ou Gabriel Byrne.

Numa história de cicatrizes, há uma citação que promete ficar no ouvido: «Se me perguntarem se acredito em Deus, sou forçado a responder - e Deus acredita em nós?»

4 de janeiro de 2008

O QUE AÍ VEM... Righteous Kill








SOBERBA.
«O talento está nas escolhas.» ROBERT DE NIRO

Para quem ainda hoje suspira ao recordar-se do breve encontro entre De Niro e Pacino, nos dois lados da Lei, em «Heat - Cidade Sob Pressão», é confortante saber que os dois (ainda) mais prestigiados actores da sua geração vão voltar a partilhar o ecrã, já com os cabelos grisalhos e o ar de quem já viveu muito.

RIGHTEOUS KILL volta a aproximar os veteranos das intrigas policiais, mas agora são os dois agentes da polícia que se unem na perseguição de um assassino
em série, especialista em escrever poemas sobre os crimes acabados de cometer.

O que é certo é que a realização está a cargo de Jon Avnet, que deu mais cartas enquanto produtor do que realizador na última década, mas pode ser que a versatilidade dos dois actores torne este o encontro merecido de quem domina as leis do bom cinema como ninguém. A espera faz-se até à Primavera...

8 de dezembro de 2007

O QUE AÍ VEM... O Amor nos Tempos da Cólera







SOBERBA.
Ainda meio zonzo com a notícia de que uma produtora norte-americana adquiriu os direitos da obra «O Codex 632», de José Rodrigues dos Santos, para uma futura adaptação audiovisual, eis que chega com estreia discreta aos cinemas norte.americanos uma adaptação do clássico O AMOR NOS TEMPOS DA CÓLERA, de Gabriel García Marquez.

O livro ainda hoje figura nas minhas mais presentes memórias literárias, principalmente porque foi das primeiras obras sólidas que li, ainda adolescente.

Além disso, trata-se de uma soberba história de amor, descrita com aquele rendilhado linguístico que só os grandes escritores latinos parecem evidenciar com paixão genuína. O cruzamento oscilante das vidas de Fermina Daza e Florentino Ariza, que dura longas décadas de desencontros, não deve ser nada fácil de transpor para o grande ecrã sem cair em facilitismos emocionais.

A crítica, aquando da estreia lá fora deste filme de Mike Newell (realizador de «Quatro Casamentos e um Funeral» e «O Sorriso de Mona Lisa»), ficou pouco impressionada. Pontos a favor? Os nomes de Javier Bardem e Fernanda Montenegro no elenco. Pontos desfavoráveis? O academismo esperado na condução da história. Falha que esperemos que «O Ensaio Sobre a Cegueira», de Fernando Meirelles, venha a evitar...

16 de novembro de 2007

O QUE AÍ VEM... I'm Not There








AVAREZA.
«O que é o dinheiro? Um homem é um sucesso se se levantar de manhã e for para a cama à noite e, pelo meio, fizer o que sempre gostou de fazer.» BOB DYLAN

Para quem considera que Bob Dylan é dos artistas contemporâneos mais dúplices, ambíguos e profundos do nosso tempo, o realizador Todd Haynes tem a resposta: convocou seis actores (um deles a soberba Cate Blanchett) para vestir a pele do cantautor numa obra que pretende homenagear a lenda, o mito e o talento que se sabe na composição.

Depois de obras arrojadas como «Velvet Goldmine» ou «Longe do Paraíso», nada fazia prever que o próximo projecto de Haynes, I'M NOT THERE, fosse ainda mais inclassificável que os anteriores.

Assim, começamos com um Dylan negro (Marcus Carl Franklyn), seguimos para outros com o rosto de Ben Whishaw (o jovem de «O Perfume»), Christian Bale, Cate Blanchett, Heath Ledger e... Richard Gere!! A ideia é que cada face represente uma fase distinta do trabalho e da vida de Dylan num biopic muito livre e heterogéneo.

Há quem o apelide de OVNI do ano, mas pode ser também uma das mais recompensadoras surpresas cinematográficas de 2007. Até porque Haynes se preocupou, ao que parece, em articular a vida do actor com as diferentes ressonâncias das suas músicas.

Entre os secundários de luxo estão Bruce Greenwood, Charlotte Gainsbourg, Craig Thomas, Michelle Williams e Julianne Moore. Chega?

24 de outubro de 2007

O QUE AÍ VEM... Kantoku Banzai







AVAREZA.
«Uma coisa que odeio nos filmes é quando a câmara começa a andar em círculos sobre as personagens. Acho isso uma total falsidade.» TAKESHI KITANO

O cinema dentro do cinema já é por si um desafio suficientemente intrigante e uma premissa que convida à divisão de opiniões. Foi isso mesmo que conseguiu Takeshi Kitano com a sua mais recente obra KANTOKU BANZAI (ou na versão mais acessível em língua inglesa «Glory to the Filmmaker») na edição mais recente do Festival de Veneza.

E o que nos propõe o realizador de «Brother - Irmão» ou «Zatoichi» em mais um exercício em nome próprio (certamente a resvalar para o egocentrismo)? Uma sátira excêntrica em que o realizador faz de uma abstracção de si próprio como um realizador esforçado através de diferentes géneros para conseguir levar o seu mais recente projecto a bom porto. Começa a receber os louros por fitas de gangsters mas o que a sua personagem pretende é mesmo mudar de coordenadas artísticas.

Há quem diga que o filme deve ter funcionado melhor no papel do que no ecrã e que Kitano dispara em todas as direcções: tanto quer homenagear a ficção-científica quanto o cinema pessoalíssimo de Yasujiro Ozu.


Pode ser Kitano em versão «pop»? Arty? Os rótulos aqui são o que menos interessa. Quer-se é que o filme não demore muito a chegar...

10 de outubro de 2007

O QUE AÍ VEM... Ensaio Sobre a Cegueira







INVEJA.
«Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.» in LIVRO DOS CONSELHOS
Vai ainda demorar uns bons pares de meses para podermos ver o que é que o realizador de «A Cidade de Deus» fez com o património literário de José Saramago.

No entanto, e tendo em conta a obra anterior de Fernando Meirelles, tudo leva a crer que a escolha do brasileiro foi certeira. Se é que é possível traduzir a alegoria de ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA em imagens.

Vamos acreditar que sim, até porque a obra é imbatível nas suas repercussões sociais e emocionais (superior, por exemplo, a «As Intermitências da Morte», que também é capaz de dar um bom filme). O que esperar desta produção valiosa de 2008? Arrojo visual e um elenco de luxo que inclui a excelente Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal e Sandra Oh (a médica oriental de «Anatomia de Grey»).

Boa combinação de actores para um orçamento de 25 milhões de dólares. Alguém imaginou todo este investimento em torno de uma obra literária portuguesa? Esperamos para ver o resultado e fazemos figas para que dê certo...

22 de setembro de 2007

O QUE AÍ VEM... Cidade dos Homens







IRA.
«A expressão 'cosmética da fome' sugere que fazemos uma estética publicitária, mas isso é vazio de sentido.»
PAULO MORELLI, Realizador

Quando estive há pouco no Brasil, o filme tinha acabado de chegar às salas. A polémica instalou-se sob críticas de que a adaptação para cinema da série televisiva era uma forma de recuperar o imaginário estilístico e narrativo de «Cidade de Deus».

Na verdade, A CIDADE DOS HOMENS procura apresentar um desenvolvimento emocional das personagens Acerola (Darlan Cunha) e Laranjinha (Douglas Silva), previamente apresentada na bem sucedida série homónima que a Rede Globo exibiu com relativo sucesso.

Agora há que enfrentar a idade adulta: o primeiro tenta encontrar o pai desconhecido, enquanto o segundo tenta melhorar a vida para sustentar o filho pequeno. Para completar e dificultar a história que insiste no realismo despedaçado dos subúrbios brasileiros, há ainda nesta história de Paulo Morelli uma guerra entre duas facções do tráfico de droga que coloca a dupla de amigos em campos opostos.

À parte dos méritos dramáticos do filme, CIDADE DOS HOMENS relançou uma discussão no Brasil: aceitar o impacto de «Cidade de Deus» no contexto contemporâneo da dramaturgia brasileira.

É inegável que a obra de Fernando Meirelles (a rodar nos Estados Unidos a adaptação de «Ensaio Sobre a Cegueira» de José Saramago) mudou alguma coisa não só no cinema brasileiro como mundial ao expor com habilidosa paleta visual o universo decadente e contraditório das favelas. Mas o filme não é bem aceite por ter minado a visão exterior do cinema brasileiro. Daí a expressão «cosmética da fome», insistentemente referida para descrever a obra de Meirelles e à qual o próprio Morelli não consegue escapar.

De costas voltadas perante o fenómeno «favela pop», os críticos brasileiros não cedem nos seus egos perante a exposição (exagerada, certamente) crua de um Brasil diferente dos postais turísticos.

Pois bem: para lá dessa recusa, «Cidade de Deus» é um belíssimo mosaico social, marcado por um novelo dramático rico, que expõe com clareza vidas estilhaçadas. Além disso, é uma produção esteticamente poderosa que, de facto, marcou o novo cinema urbano, graças à sua montagem agressiva e à sua fotografia de cores quentes - atente-se, por exemplo, no sul-africano «Tsotsi» para se perceber a sua influência.

Houve quem o copiasse descaradamente, mas não parece ser o caso deste novo CIDADE DOS HOMENS. Afinal, podem haver abordagens distintas do mesmo universo...

20 de agosto de 2007

O QUE AÍ VEM... Sweeney Todd

INVEJA. «Sempre gostei de personagens estranhas.» TIM BURTON

Se há dupla que tem funcionado no cinema comercial é a que se criou entre Tim Burton e Johnny Depp. Cada vez que cineasta e actor se voltam a reunir uma promessa fica no ar: filme negro, quase gótico e... profundamente irónico. Logo depois da reconciliação de Burton com o cinema familiar em «Charlie e a Fábrica dos Chocolates», vamos ter de esperar ainda uns bons meses para vermos SWEENEY TODD, o musical macabro de Stephen Sondheim que parte do serial killer Benjamin Barker, já adaptado anteriormente para cinema e televisão. Porém, a visão curiosa de Tim Burton (alguém duvida de que ele é dos mais geniais realizadores contemporâneos?) será como nova e as peripécias do barbeiro de ímpetos nefastos tem tudo para triunfar a nível artístico. Pistas? As presenças de Helena Bonham Carter, Sasha Baron Cohen («Borat») e Alan Rickman no elenco e o rigor plástico do costume (a imagem de cima não parece retirada da animação «Noiva Cadáver»?). Agora é só esperar até 2008...

11 de agosto de 2007

O QUE AÍ VEM... Indiana Jones IV

GULA. «Não faço de duplo. Só corro, salto e caio. Depois de 25 anos de carreira, sei exactamente o que faço.» HARRISON FORD

A imagem foi tirada no dia 21 de Junho e é a prova de que vai mesmo haver um novo capítulo da saga Indiana Jones. Há quem defenda que a trilogia bastava, mas Hollywood está mais atenta às sequelas e não poderia perder a oportunidade de actualizar o maior herói do cinema de aventuras das últimas décadas (não, Jack Sparrow, não chegaste lá...). Com rugas no rosto, ar cansado, Harrison Ford volta a vestir a pele do arquéologo e a encontrar-se com o par romântico do primeiro filme: a doce Karen Allen. De resto, que se sabe mais? Muito pouco. Apenas que será novamente dirigido por Spielberg, que chega aos cinemas para o ano e que a revelação Shia LaBeouf (o impetuoso protagonista de «Transformers» e «Paranóia») fará de seu filho - e, certamente, vai assegurar a continuação da saga no futuro, quando o Indiana Jones original sofrer da próstata e do reumático... Mais nomes do elenco (muito coeso por sinal)? Cate Blanchett, Jim Broadbent e John Hurt. A maior ausência é mesmo a de Sean Connery, como pai de Indy. Porquê? Porque o actor disse estar muito feliz a gozar a sua reforma. Resta saber se a aura de aventura se vai manter e se o público do século XXI ainda não esqueceu a personagem do chapéu e chicote.