12 de julho de 2007

«Déjà vu»? Venha ele!

SOBERBA. «Obrigado por verem o meu filme. Espero que gostem. Dziekuje.» BORAT


Já é tradição... chegam os meses de Verão e há sempre uma acolhedora sala de cinema que exibe aqueles filmes que nos escaparam no ano cinematográfico anterior e, ainda por cima, a preço reduzido. Este ano, a sala escolhida é o discreto Cinema Nimas, em Lisboa, e o preço de cada bilhete fica por 3,5 euros. Do que é que estão à espera? Eu aguardo por OBRIGADO POR NÃO FUMAR, BORAT, EM PARIS ou CARTAS DE IWO JIMA. Sim, estes ciclos retardatários são ideais para quem se tem desleixado um pouco com tanta estreia semanal. Deixo aqui apenas a programação de Julho... mas o ciclo estende-se até Setembro.

Sexta, 13 ............... TRANSE
Sábado, 14 ............. A DÁLIA NEGRA
Domingo, 15 ........... OS FILHOS DO HOMEM
Segunda, 16 ............ MANUAL DE AMOR
Terça, 17 ............... A SENHORA DA ÁGUA
Quarta, 18 .............. A RAINHA
Sexta, 20 ................ PARIS, JE T'AIME
Sábado, 21 .............. BASTIDORES DA RÁDIO
Domingo, 22 ............ OBRIGADO POR FUMAR
Segunda, 23 ............. A CIÊNCIA DOS SONHOS
Terça, 24 ................ VIÚVA RICA, SOLTEIRA NÃO FICA
Quarta, 25 ............... BABEL
Sexta, 27 ................ BORAT
Sábado, 28............... JUVENTUDE EM MARCHA
Domingo, 29 ............ O GRANDE SILÊNCIO
Segunda, 30 ............. EM PARIS
Terça, 31 ................ THE DEPARTED - ENTRE INIMIGOS

10 de julho de 2007

NA SALA ESCURA: As vísceras do dia-a-dia

GULA. «Talvez o possamos definir, não como um filme de terror, mas uma ópera de terror.» JOÃO LOPES in Cinema 2000

Para quem se queixa que as salas de cinema nacionais são cada vez mais invadidas pelo mesmo tipo de cinematografias, nomeadamente os blockbusters do costume, esta bizarra proposta austro-húngara é talvez um dos mais inclassificáveis projectos alguma vez estreados entre nós. E, só por isso, já merece atenção. Trata-se de uma alegoria excessiva, marcada pela crueza da carne, que propõe um olhar enigmático e disruptivo sobre o sentido da vida. TAXIDERMIA é ambicioso, caótico, extremo, desconfortável, grotesco, visualmente repelente, mas inventivo e extremamente dinâmico. Ao decidir contar três gerações marcadas por um dantesco sentido carnal da existência, o realizador György Palfi cria um transgressor objecto que é até difícil de expor em termos narrativos. Se começa como um burlesco retrato de um homem que vive num curral e simula fantasias excessivas com as mulheres da casa, rapidamente passa por uma ode crítica ao comunismo e ao seu predomínio no Leste graças à história seguinte de um homem que se torna campeão na arte de comer até rebentar e que casa com uma mulher com igual dom... No final, é a vida solitária do seu filho, um taxidermista que sonha com o corpo e os limites do impossível que consegue fazer com ele, que ganha forma num dos finais mais impressionantes dos últimos anos. E o que ganhamos com isto tudo? Ganhamos uma experiência cinematográfica única, que nos dá uma visão surrealista e crua da vida, enquanto ironiza sobre as necessidades corporais de cada um. TAXIDERMIA ironiza o corpo, dá-lhe novas fronteiras, cruza-as e trespassa-as com um golpe de faca de talho para nos mostrar que por dentro de cada um há vísceras e um sentido iminentemente caótico em cada um de nós. Só por isso também já vale a pena testemunhar este freak show, embora não seja aconselhável a estômagos sensíveis.

TAXIDERMIA
de György Palfi (2006)
* * *
Deu nas vistas em Cannes e venceu um prémio no Fantasporto, mas a verdade é que esta produção europeia arrasa sensibilidades e corta a monotonia por onde quer que passe. A forma despudorada como lida com o corpo, o corrompe, o desfigura e, no final, tudo parece não passar de uma negra declaração de amor à física visceral do ser humano, é desarmante. TAXIDERMIA merece um lugar de destaque nas propostas mais inventivas e surreais dos últimos tempos, até porque aproveita a sua falta de ligeireza e o seu excesso de choque visual assumido para também extrair críticas à política e às relações afectivas de três gerações distintas. Crise de valores? Emocionais, sim. Mas graficamente muito ousados!

8 de julho de 2007

CINEFILIA: Três vivas para o novo cinema nacional (Julho - 2ª semana)

SOBERBA. Nesta semana que se avizinha quente, o destaque vai mesmo para o novo cinema português, dada a estreia do novo filme de Manoel de Oliveira. Apesar das críticas, há que reconhecer o esforço no sentido artístico da cinematografia nacional, sendo os cinco exemplos apresentados de seguida o mais díspares do que possível. A oferta é acessível e aconselhável a quem gosta de ver filmes sem preconceitos.

- CERROMAIOR: É já amanhã, pelas 19.30, que a Cinemateca exibe este trabalho de Luís Filipe Rocha, inspirado no romance homónimo de Manuel da Fonseca, que se embrenha nas raízes profundas dos homens do campo no Alentejo.

- TRANSE: A propósito da revisão da matéria dada que o cinema Nimas exibe até Setembro, a próxima sexta-feira (dia 13) é preenchida com o último trabalho de Teresa Villaverde. Um conto sufocante protagonizado por uma tétrica Ana Moreira.

- BELLE TOUJOURS: Um conto nostálgico, que pega nas personagens do clássico BELLE DE JOUR, de Luis Buñuel, é o que propõe o quase centenário Manoel de Oliveira. As críticas, ao contrário do que é costume, têm sido amigas deste filme feito de afectos e em exibição nos cinemas nacionais.

- A FILHA: O mês de Julho é, na RTP2, dedicado em parte ao cinema português. No próximo sábado, o segundo canal recupera este estranho e intenso drama, com uma grande interpretação de Nuno Mello. Realização de Solveig Nordlund.

- COISA RUIM: Para encerrar a semana, nada como revisitar um dos mais consistentes sopros comerciais falado em português. O filme é também o maior esforço de sempre para elaborar uma história de terror com pés e cabeça, recorrendo ao imaginário e crenças rurais.

7 de julho de 2007

O QUE AÍ VEM... Cassandra's Dream

AVAREZA. «Espero que gostem do filme, senão podem pedir o dinheiro de volta.» WOODY ALLEN
Quem é fã de Woody Allen está sempre a contar os dias até à data de estreia da próxima comédia que, nas salas nacionais, costuma chegar em Janeiro. Depois de SCOOP, Woody Allen convocou Ewan McGregor e Colin Farrell para protagonizarem o seu último esforço londrino, apresentado há alguns dias, pela primeira vez, em Espanha. Woody, o realizador de Nova Iorque parece estar cada vez mais europeu... E do que fala o aguardado CASSANDRA'S DREAM? Da história de dois irmãos do sul de Londres e da relação que ambos estabelecem com uma jovem (Haylley Hatwell) recém-chegada à cidade. Consciente do efeito que tem sobre os dois, a protagonista vai fazer deles gato e sapato e levá-los por caminhos um pouco mais negros do que o costume nas comédias sentimentais de Woody Allen (será um regresso a ambivalência dramática de MATCH POINT?). Enquanto a espera toma conta, registe-se que o realizador nova-iorquino já fez saber que o filme seguinte será rodado em Barcelona novamente com Scarlett Johansson e com os espanhóis Penélope Cruz e Javier Bardem.

Dar o litro até ser estrela

AVAREZA. «Cresci em Jackson Height, Queens, sem dinheiro. Ensinaram-me a não tomar nada por garantido.» LUCY LIU

Sabe-se que o mercado de trabalho não é coisa fácil, até para aqueles que insistem em tirar uma licenciatura (incluindo eu próprio...). Mas, para se tornarem estrelas mundialmente reconhecidas, também alguns dos actores sonantes de hoje começaram da estaca zero. E eu, numa das minhas pesquisas «inúteis», descobri inícios de carreira muito curiosos. Com uma garantia: são verídicos! Aqui fica a lista de primeiros empregos de gente aparentemente insuspeita. Futuro risonho: há esperança!

LUCY LIU .................. professora de aeróbica
DANNY DE VITO........... cabeleireiro
SEAN CONNERY ........... limpa-caixões (!)
WHOOPI GOLDBERG ..... maquilhadora de funerais
HARRISON FORD .......... carpinteiro
MICHAEL DOUGLAS ....... homem do gás
SYLVESTER STALLONE .... limpa-jaulas

6 de julho de 2007

Ninguém escreve como Somerset Maugham

SOBERBA. «O mundo é um palco e todos os homens simples actores.» WILLIAM SHAKESPEARE
Deve ter sido um cínico de primeira, um burocrata insuportavelmente vaidoso... mas escrevia como ninguém. Falo de Somerset Maugham, escritor no topo das minhas preferências pela sua capacidade de usar a ironia, o estilo omnisciente na composição das suas personagens (longe de serem modelos de conduta) e uma mordacidade contagiante. Se O FIO DA NAVALHA é dos romances mais intensos que li desde sempre, eis que há algumas semanas terminei a leitura de AS PAIXÕES DE JÚLIA, onde novo assombro e admiração literária se instalou... É que Maugham é brilhante ao desconstruir a figura de uma actriz, verdadeiramente uma diva dos palcos, mas incapaz de sentir e viver as emoções da sua vida real. Basicamente, uma mulher que virou simulacro e que, bem no final da história, tem uma das reflexões mais espantosas que alguma vez testemunhei. Por isso, ouso reproduzir:
«O mundo é um palco e todos os homens e mulheres simples actores.» Mas há a ilusão, através da arcada; somos nós, os actores que somos a realidade. Eis a resposta ao Roger. Os outros são a nossa matéria-prima. Nós somos o significado das suas vidas. Pegamos nas emoções ridículas e transformamo-las em arte, com elas criamos beleza, e a sua importância é que constituem o público de que precisamos para nos realizarmos. São os instrumentos em que tocamos e de que serve um instrumento sem alguém para tocar?
Com uma apropriação desarmante, Júlia, a actriz dominadora, prefere a realidade da máscara. Parece simples, mas não é... Consta que esta obra do argumentista britânico foi adaptada com algum empenho para cinema, pela mão de István Szabo, mas o filme foi essencialmente elogiado pela composição de Anette Bening (nomeada para o Óscar). Ainda não o vi... mas o prazer da leitura da obra já ninguém me tira.

NA SALA ESCURA: Uma fábula vezes três

GULA. «Bem, não seria inadequado presumir que não sei exactamente dizer onde Shrek está, dado que isso é só parcialmente incorrecto.» PINÓQUIO in Shrek, o Terceiro


Depois da moda dos remakes, a última vaga de Hollywood são, além das adaptações de heróis de Banda Desenhada, as imensas sequelas. Tivemos trilogia de O PIRATA DAS CARAÍBAS, duas IDADES DO GELO (para já...), quatro DIE HARD, parece que INDIANA JONES também vai regressar e... claro, como «mina de ouro das bilheteiras» que é, o ogre Shrek viu a sua terceira parte chegar aos cinemas com a promessa de que a quarta irá chegar em 2010. Faz tudo parte das regras do jogo, até porque sabe bem ver a evolução prodigiosa das técnicas de animação digital na animação, bem como conhecer mais detalhes sobre o rumo de um punhado de personagens que vai buscar a sua inspiração às fábulas infantis. E é neste ponto que está a mais-valia de SHREK, O TERCEIRO. É que, embora este seja o capítulo menos impressionante em matéria dramática da saga, e já com o rumo das personagens centrais definido, há que abrir novas fronteiras humorísticas e ir buscar nuances ficcionais do enorme manancial nos contos infantis. É por isso que Pinóquio aparece mais vezes e ganha mesmo o momento mais cómico de todo o filme ao contornar os vilões com o seu atabalhoado discurso para não mentir. É por isso também que o biscoito de gengibre vê a sua vida andar para trás numa rápida e irresistível sequência de imagens. É também por isso que Rapunzel, Branca de Neve, Merlin ou até a Bela Adormecida (com os seus divertidos ataques de narcolepsia) ganham destaque. SHREK, O TERCEIRO é um imenso manancial de referências ficcionais, com uma dinâmica bem gerida e que consegue superar o desgaste dos protagonistas. Mesmo o Burro continua a conseguir manter a sua personagem à tona, mesmo que a história em si já não prenda a atenção. Mas também para quê tamanho investimento? O dinheiro das bilheteiras é sempre garantido. E este filme ainda é a proposta mais consistente para toda a família nos dias de Verão.


SHREK, O TERCEIRO
de Chris Miller (2007)

* * *
Vira o disco e toca o mesmo? É verdade que Shrek já não pode evoluir muito, nem Fiona, nem o Burro ou mesmo Gato das Botas. Contudo, os argumentistas desta terceira aventura são espertos que nem um alho e criam um dilema monárquico que obriga os heróis a debruçarem-se em mais uma longa jornada para descobrirem um novo herdeiro. A personagem de Justin Timberlake é desinteressante, mas o mesmo não se pode dizer do naipe de secundários resgatados dos contos infantis. A dinâmica é imbatível e ainda se consegue rir a bom rir de um par considerável de piadas. Aguarda-se o quarto capítulo. Mas sem grande expectativa. Não seria melhor parar? Não, até porque há contas a pagar...

5 de julho de 2007

O QUE AÍ VEM... Erik Nietzsche

IRA. «Não se pode fazer um filme e, ao mesmo tempo, estar-se deprimido.» LARS VON TRIER
Os seus filmes eram extremos, mas ninguém estava à espera da notícia surgida há poucas semanas: Lars Von Trier, o cineasta dinamarquês de ONDAS DE PAIXÃO e DOGVILLE está deprimido. Ao ponto de não conseguir filmar. Que a sua mente tem algo de misógino e deve ser um verdadeiro quebra-cabeças, não havia dúvidas... mas vamos sentir falta do seu cinema brusco e emocionalmente agressivo. Por cá, MANDERLAY, a sequela de DOGVILLE vai chegar nos próximos dias directamente para o vídeo, mas há uma estreia para breve a registar: ERIK NIETZSCHE, em que Von Trier surge como argumentista. Atrás das câmaras está Jacob Thuesen, um discípulo dinamarquês assumidíssimo do realizador de DANCER IN THE DARK. A história? Neste caso não é o mais importante, mas aborda justamente o processo criativo de construção de um argumento. Vai demorar ainda alguns meses a estrear, mas é a única notícia que vamos ter de Lars Von Trier nos próximos tempos...

2 de julho de 2007

O MAIOR PECADO DE... Bruce Willis

PREGUIÇA. «Numa escala de 1 a 10 de má comédia, esta classifica-se no 11.» BOB STRAUSS, Los Angeles Daily News

Sim, a carreira dele tem obras-primas como O SEXTO SENTIDO ou PULP FICTION, filmes de acção estrondosos como a saga DIE HARD ou O QUINTO ELEMENTO. E depois... tem filmes destes! Ou melhor, nenhum tão fraquinho quanto esta sequela de 2004, de uma comédia que não era assim tão engraçada (e que só justificou sequela porque, inesperadamente, amealhou uns dólares a mais). Em FALSAS APARÊNCIAS 2 não há grande história - para não dizer que não há história nenhuma! - e Willis é aqui um esboço para uma caricatura de um gangster que quer ter piada, mas que... não tem piada nenhuma. Oz (Matthew Perry) volta a ser o dentista que, desesperado, consulta Jimmuy (Willis), o mafioso que vive pacificamente porque toda a gente pensa que morreu, porque a sua namorada (Natasha Hesntridge) foi raptada pela máfia húngara... Sim, um argumento sem piada que apenas dá azo a gags medíocres, acção descompensada e um Willis penoso a arrastar-se até ao fim. Felizmente, o filme recebeu críticas tão más e receitas de bilheteira tão fraquinhas, que não há o risco de voltar a haver novo capítulo para encerrar uma potencial trilogia. Apesar das falsas aparências que Hollywood gosta de contrariar...


Críticas de fugir...
- WAFFLEMOVIES.COM: 'Falsas Aparências 2' falha em tantos aspectos que até é difícil saber por onde começar.
- DALLAS MORNING NEWS: Um exercício de humilhação para todos os envolvidos.
- CHICAGO TRIBUNE: Embora ligeiramente mais bem escrito e realizado do que o primeiro, este filme é grande e vazio, cheio de maneirismos de estrelas, energia artificial e piadas que simplesmente não funcionam.

CINEFILIA: Bruce Willis é o mais «cool» da vizinhança (Julho 2007 - 1ª semana)

SOBERBA. Esta semana, dado existirem poucas novidades a não ser o regresso de John McClane, ou melhor Bruce Willis, à bem sucedida série DIE HARD, a semana vai inteirinha para a carreira de um dos mais divertidos actores de Hollywood. Bruce Willis é mesmo a prova, pela sua carreira a oscilar entre bons espectáculos de acção e um ou outro filme transgressor, que é capaz de ser um dos actores mais cool das últimas duas décadas. Vai uma aposta? Aqui ficam cinco exemplos, um deles em exibição nos cinemas nacionais, os restantes em DVD.

- DIE HARD 4.0.: O regresso de Willis à saga que lhe deu fama no cinema parece que até é bem feita, remete para o ciberterrorismo e tem-se safado nas bilheteiras. Chega?

- ASSALTO AO ARRANHA-CÉUS: Como tudo começou... As peripécias de um polícia para derrotar um bando de criminosos são dignas de antologia. Willis é um herói consensual.

- PULP FICTION: Se queres transcender-te enquanto actor respeitado, junta-te a Tarantino. Foi o que Willis fez e com toda a pertinência. As carícias com Maria de Medeiros não saem da memória cinéfila.

- HÁ DIAS DE AZAR: Outro esforço de Willis para se juntar ao cinema de golpe com neurónios. O esforço é bem intencionado, até porque aqui passam também Sir Ben Kingsley e Morgan Freeman.

- SIN CITY - A CIDADE DO PECADO: A obsessão de Bruce Willis pela personagem de Jessica Alba é enternecedora neste neo-clássico negro e estilizado pela batuta de Robert Rodríguez.

1 de julho de 2007

A aura negra de Edgar Allan Poe

IRA. «Na ficção-científica, o monstro deve ser sempre maior do que a actriz principal.» ROGER CORMAN
Pois é... o cansaço traiu-me e não cheguei a marcar presença na «premiere» de Roger Corman na Cinemateca. «Mea culpa!» Ainda assim, recordo as impressões que senti ao ver o clássico O FOSSO E O PÊNDULO, que vai passar no ciclo do Museu do Cinema e que está disponível também em DVD. Já se sabe que as obras de suspense se sobrepuseram à veia poética de Edgar Allan Poe. A sua escrita aliava o terror gótico com intrincadas narrativas em que a lógica expressionistas deixava antever consideráveis potencialidades cinematográficas. A transposição para o grande ecrã do universo enigmático de O CORVO ou A MÁSCARA DA MORTE VERMELHA coube a Roger Corman, produtor e realizador que se especializou, nos anos 60, em filmes de baixo orçamento sempre com o mesmo actor em destaque: Vicent Price. Tinha uma expressão cínica, com olhar vítreo e sobrancelhas carregadas, além de uma voz rouca e um ar maquiavélico. Vincent Price é o símbolo por excelência do cinema de terror poético (quase sempre de contornos medievais) e o protagonista do clássico O FOSSO E O PÊNDULO, obra de 1961. A história deste thriller sumptuoso e sinistro, com a acção a decorrer nos diversos espaços de um castelo espanhol, descreve os vários passos de Don Nicholas Medina (Price) em direcção à mais extrema demência. Impressionado com a cave da sua casa real, local recheado de instrumentos de tortura da época da Inquisição, Medina não consegue ultrapassar o trauma da misteriosa morte da amada, Elizabeth (Barbara Steele). Aos poucos, o solitário viúvo começa a pressentir a presença de Elizabeth em todos os cantos do castelo, aspecto que também intriga Francis Bernard (John Kerr), o irmão da mulher «que morreu de medo», que vem para esclarecer o que de facto se passou. Nesta história que ajuda a perceber muito do universo estilístico do contemporâneo Tim Burton (que, curiosamente, convidou o já idoso Vincent Price para uma pequena participação em EDUARDO MÃOS DE TESOURA - na pele do criador da bizarra criatura interpretada por Johnny Depp), a atmosfera que Corman consegue produzir é a do terror lendário, próximo das adaptações de DRÁCULA, de Bram Stoker (clássico que faz 110 anos em 2007).

Recordar um último mergulho

AVAREZA. «Uma vida sem liberdade não é uma vida.» Ramón Sampedro (Javier Bardem)
Num dos extras da edição dupla de MAR ADENTRO, o realizador Alejandro Amenábar explica que a única reincidência dramática nas suas três longas-metragens mais mediáticas – além deste melodrama, dirigiu ainda o conto de fantasmas OS OUTROS e DE OLHOS BEM ABERTOS – é a morte. Não por ser um crente fervoroso na metafísica da alma, mas por se sentir incomodado com a ideia de fim. A seu ver, quando um corpo morre volta tudo a ser como era antes de se nascer e restam as memórias para fazer permanecer a identidade. MAR ADENTRO é, por isso mesmo, um conto nostálgico e expressionista sobre um homem que, preso a uma cama há cerca de 30 anos, deseja ter o direito de pôr termo à vida, aquela que um mergulho descuidado o tornou num simulacro desconfortável. Para evitar cair na claustrofobia de um caso verídico que levou a Espanha a ter de lidar com a problemática da eutanásia, Amenábar desdenha o ambiente negro que havia optado nas deambulações de Nicole Kidman pela casa cheia de portas fechadas em OS OUTROS e ilustra toda a acção deste filme com uma intensa luminosidade que entra pela janela do quarto onde Ramón Sampedro (Javier Bardem) passou os anos mais longos da sua vida. É por esse rectângulo de luz que a personagem sonha com a liberdade, contempla o horizonte e perde-se em fantasias aladas. E é por este elemento metafórico que o realizador espanhol consegue mostrar ao espectador que Sampedro, apesar de ser obcecado pela morte, era uma pessoa cheia de vida. Exercício de hiper-realismo e contenção, MAR ADENTRO foi um dos maiores êxitos de bilheteira em Espanha no final de 2004 e viria a conquistar o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Com ele, reavivou-se o caso amargo de Sampedro, um homem acarinhado por uma família modesta, mas que lutou judicialmente para morrer. Em seu torno giram ainda duas mulheres: Júlia (Belén Rueda), uma frágil advogada que está disposta a apoiar a decisão do ex-marinheiro, e Rosa (Lola Dueñas), uma vizinha que se vai aproximando do protagonista e se deixa envolver pela sua estranha capacidade de sedução – Sampedro era bem humorado porque dizia que, estando imóvel durante tanto tempo, tinha aprendido «a chorar, rindo». Na edição cuidada de dois discos de MAR ADENTRO, além do «trailer» e da apresentação de cenas cortadas, a produção apresenta um detalhado documentário que acompanha todas as fases de rodagem, desde a escrita do argumento à montagem. E é neste documento visual que se aprofunda a relação obsessiva do actor Javier Bardem com a personagem de Ramón Sampedro: trata-se de um caso único de «incorporação», reflexo de um dos maiores talentos do momento que não se deixa dominar pelo poder da maquilhagem e deixa passar as emoções, muitas vezes, apenas com um olhar. Em busca do «último mergulho».