
Foi uma descoberta recente, apesar de ter uns bons aninhos que... se recomenda. É um hino à improvisação e a um certo cinema verité, só que em solo norte-americano. Alguém arrisca um palpite?
Solução do QUIZ anterior: Em todos os filmes participa Patricia Arquette. São eles Nicky, o Filho do Diabo, Estrada Perdida e Ed Wood.
14 de Julho de 2009
QUIZ: A que filme pertence esta imagem?
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10 de Julho de 2009
CINEFILIA: As cinco promessas de Julho





SOBERBA. Ainda se sente que este é mês de Verão, até porque chegam às salas novos trabalhos de Van Damme e Steven Seagal, várias obras de terror menor e até as inevitáveis sequelas, que continuam sem abrandar o ritmo, como é o caso do novo capítulo de Harry Potter e a terceira parte de «A Idade do Gelo». Ainda assim, há apostas a reter.
- ELEGIA: Sabe-se que mais vale tarde do que nunca, mas a questão aqui é perceber por que tardou tanto este filme a chegar às salas nacionais. As razões do interesse é o ponto de partida, um célebre romance de Philip Roth, e o duelo de actores. Diz-se que Penélope Cruz nunca foi tão intensa e Ben Kingsley só precisa de ser o que tem sido até agora, a roçar a genialidade. A relação proibida entre professor e estudante promete ser ousada e psicologicamente estimulante.
- A IDADE DO GELO 3 - DESPERTAR DOS DINOSSAUROS: Condescendência às sequelas, até porque a animação do brasileiro Carlos Saldanha costuma resultar pelo tom descomprometido e mordaz. Espera-se que a fórmula surja reforçada até pela entrada em grande dos dinossáurios. E assim constrói mais um êxito...
- HOME - LAR DOCE LAR: A proposta mais arriscada do mês. Isabelle Huppert dá força a esta realização de Ursula Meier centrada numa auto-estrada abandonada e na casa isolada que ali fica perto. A vida de quem lá mora será ameaçada com a abertura da via à circulação de viaturas.
- BRÜNO: Fã de «Borat» e outras bizarrias de Sacha Baron Cohen, é com particular atenção que se quer assistir a esta nova figura, o estilista gay austríaco que vai causar estragos no mundo da moda. O talento para misturar realidade e ficção deve ser a mais-valia deste novo trabalho de Larry Charles. Rir de tudo isto não tem mal nenhum. E há poucas coisas que ainda nos fazem mesmo rir...
- SÉRAPHINE: Martin Provost filma com sensibilidade a vida da francesa Séraphine de Senlis, mulher nascida em 1864 que foi pastora e dona de casa antes de se transformar em pintora e submergir-se na loucura. É a proposta europeia, independente e séria do mês... Os críticos vão adorar.
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6 de Julho de 2009
NA SALA ESCURA: A nova era do jornalismo

AVAREZA. «Violámos a lei? - Não, a isto chama-se fazer grande reportagem.» Cal McAffrey (Russell Crowe)
Os tempos são outros e já há muito não se via uma tão interessante reflexão sobre o jornalismo e as suas causas. Quando a informação se encontra disseminada em blogues e as notícias disparam ao minuto, que espaço há para a grande reportagem?
No mundo real, este género jornalístico corre perigo de extinção, mas no cinema ainda dá azo a boas peripécias e preenche o propósito de mudar a ordem das coisas. Lembro-me disso ao ver LIGAÇÕES PERIGOSAS, boa adaptação de uma série televisiva britânica pela mão do mesmo realizador de «Touching the Void».
O que Kevin MacDonald alcança neste trabalho é a capacidade de construir um novelo narrativo sem ceder a lugares fáceis ou a mudanças de argumento que comprometam tudo o que foi construído antes. É certo que a fórmula já é conhecida: um crime misterioso, que envolve altas patentes, coloca um grande repórter no terreno. A verdade lá virá ao de cima, mas não se pense que tudo é previsível.
Neste ponto, há que olhar para o esforço de Russell Crowe em ser genuíno. O seu jornalista da velha guarda, Cal McAffrey, tem o faro apurado mas a incapacidade para ver com bons olhos jovens dinâmicos que dão resposta às necessidades da profissão de uma maneira que ele não consegue (nem quer conseguir por sentir que se está a desvirtuar a essência do jornalismo!). É uma personagem imperfeita, realista e com um «à vontade» desarmante.
O modo como Cal se envolve com as suas fontes também coloca em cima da mesa a necessidade de impor limites, mesmo que estes sejam flexíveis e, a espaços, ténues.
Além disso, LIGAÇÕES PERIGOSAS apresenta um cuidadoso punhado de personagens verosímeis e bem interpretadas. Seja a jovem jornalista de Rachel McAdams, a directora que pensa nas tiragens mais do que na isenção, vivida pela excelente Helen Mirren, o congressista dúbio de Ben Affleck ou o «todo-poderoso» de Jeff Daniels.
As cartas são lançadas com uma permanente noção de espectáculo e o filme nunca cede à monotonia. Mesmo quando a história dá uma viragem numa outra direcção, o espectador compreende à primeira a opção e deixa-se levar por uma narrativa que se quer tudo menos estática.
No final, e para lá de uma ou outra ponta mais mal cosida (e até de algum desapontamento face ao desenlace...), LIGAÇÕES PERIGOSAS cumpre os seus objectivos e faz pensar sobre o lugar do jornalismo nestes tempos de omnipresente ruído informativo.
Apesar disso, há uma estética retro neste trabalho que quer fazer crer que o protagonista vive em desadequação com o seu tempo.
Seja no velho carro que conduz ou no computador pesado em que trabalha, a figura do grande repórter de Russell Crowe é espessa e credível. O que torna ainda mais interessante a constatação de que o actor foi a segunda escolha. Tudo porque a ideia do filme era voltar a reunir a dupla Brad Pitt-Edward Norton depois de «Clube de Combate». Os dois nomes abandonaram a produção, mas, em troca, Crowe e Affleck dão bem conta do recado.
LIGAÇÕES PERIGOSAS
De Kevin MacDonald (2009)
* * *
Os que consideram que Russell Crowe é um canastrão sobrevalorizado vão ter de engolir em seco ao verem este interessante filme de suspense. Sim, ele está em grande e, em última instância, o que este trabalho nos quer mostrar é uma história dinâmica, um caso bicudo para resolver, um assassínio misterioso que mexe com altas esferas do poder. E consegue concretizar essa vontade com o fulgor que se pedia, óptimas personagens, diálogos secos e a destilarem ironia. Pode não ser revolucionário e muito inventivo, mas sabe as «linhas com que se cose». E nunca perde o seu tom de policial coeso por um momento. Mesmo que seja centrado no jornalismo, este trabalho pode não ser uma grande «cacha», mas é uma reportagem bem esgalhada.
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4 de Julho de 2009
OS MEUS POSTERS... Um Eléctrico Chamado Desejo

INVEJA. O tom de abismo moral entre as personagens de Marlon Brando e Vivien Leigh deve ser recordado como um dos momentos maiores do cinema. Recordo-me deste grandioso trabalho de Elia Kazan, que é também a melhor adaptação para cinema de uma peça de Tennessee Williams, porque a RTP 2 teve o bom gosto de o exibir esta noite. Além disso, é também uma singela (e redutora) homenagem a Karl Malden, esse eterno grandioso actor secundário, que faleceu no passado dia 1. Além do seu Harold Mitchell deste clássico, há que lembrá-lo em «Há Lodo no Cais», «All Fall Down» ou «Nevada Smith». Até sempre!
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3 de Julho de 2009
OS SETE PECADOS DE... Junho 2009
INVEJA. Junho foi mês de aniversário e de prendas de pendor cinéfilo. A mais impressionante foi um pack de DVD de Luis Buñuel, esse nome maior do cinema espanhol que levou para o ecrã histórias de forte carga dramática, ainda hoje capazes de impressionar. Amigo do surrealismo e com carreira feita a partir do México, o seu cinema prende o olhar. É o caso da sua versão de O MONTE DOS VENDAVAIS, uma adaptação que se quer muito fiel ao espírito literário da obra de Emily Brontë. Há um tom teatral em tudo, uma forma voraz de encarar os sentimentos e uma bela reconstituição de época.
SOBERBA. A Academia anunciou este mês que a próxima edição dos Óscares não vai contar com cinco nomeados para a estatueta dourada de Melhor Filme, mas com dez! Manobra comercial? Mais uma achega na desejada reforma para conquistar mais audiências? A justificação foi que a ideia é que a entrega de prémios regresse às suas origens, onde era norma ter uma dezena de candidatos ao mais ambicionado prémio. Consequência? As apostas tornam-se mais elevadas dado que, estatisticamente, será mais difícil de acertar à primeira. E desde «Crash», de Paul Haggis, que não há uma grande surpresa por aquelas bandas...
LUXÚRIA. Apesar de conhecer toda a carreira de Woody Allen, ainda existe um ou outro filme que me escapa. Se, recentemente, descobri o início dos inícios com «What's Up Tiger Lilly», caso de humor quase experimental e caótico, também em Junho me deparei com «Alice», deliciosa comédia sobrenatural, sobre uma mulher que está bem na vida mas infeliz. Para dar uma volta à sua existência e cometer o tão esperado adultério, a personagem de Mia Farrow decide consultar um especialista oriental em medicinas alternativas que lhe recomenda... umas ervas. É uma doce alucinação imperdível de Allen, um passo mais ligeiro na fase mais elevada da sua carreira.
IRA. Começa a cansar a moda das sequelas, prequelas e remakes do cinema. A estratégia dá certamente muitos frutos, mas fica-se com a ideia de que a sétima arte tem cada vez menos coisas novas. E o Verão é particularmente redutor neste ponto. Exemplos? «Wolverine», que é uma espécie de spin-off de «X-Men», «A Idade do Gelo 3», a nova vida para «Star Trek», «Exterminador Implacável: A Salvação» ou «À Noite no Museu 2». Socorro!
GULA. Já falta pouco para nos deliciarmos com a última produção da Pixar. «Up! - Altamente» parece que é uma delícia para os olhos, ainda mais com as potencialidades da técnica 3D.
PREGUIÇA. Estão cada vez mais monótonas e rotineiras as matinés de cinema dos canais em sinal aberto. Se não houvesse cabo e videoclubes, a oferta seria escandalosamente medíocre. Será que rende assim tanto usar sempre as mesmas fórmulas?
AVAREZA. As idas ao cinema têm sido escassas. Não é questão de poupança, é questão de falta de tempo... Espera-se que algo mude em breve.
1 de Julho de 2009
27 de Junho de 2009
O palco será sempre dele
INVEJA. «Não gosto de música pop.» MICHAEL JACKSON
Há a música. Mas também há as imagens!
A morte de Michael Jackson é também a morte de um certa forma de espectáculo, quase impossível de repetir nos dias de hoje.
Com excepção de Madonna ou até, de uma certa forma dos U2, o mundo do showbiz já não permite uma escala de êxito tão desmesurada como esta, a de Michael, artista de corpo inteiro que sucumbiu ao lado perverso da fama.
A disseminação de conteúdos, a multiplicidade de plataformas, o ver e o ser visto criam artistas com uma longevidade mais reduzida, que já não vendem a «monstruosidade» de discos que Michael Jackson conseguiu vender.
Foi uma vida de excessos, de chegada ao topo demasiado cedo, de querer ser pioneiro em tudo, de fragilidades emocionais. O herói tinha pés de barro, era uma eterna criança que quis travar a máquina do tempo. Só que esta, inexorável como é, foi particularmente ingrata para com um génio de palco, capaz de criar uma música como ponto de partida para um momento cénico, um espectáculo, uma dança.
É irónico que o «eterno Peter Pan» tenha morrido aos 50 anos. Um número redondo, mas tristemente prematuro para quem era maior do que a vida.
Ao receber a notícia da morte de Michael Jackson apercebi-me disso mesmo: ele não morre. Não pode morrer. O seu nome está inscrito na cultura popular dos últimos 30 anos e ali vai ficar. Não vai morrer como não morreram Elvis, Freddy Mercury ou Kurt Cobain. O seu legado fala por ele.
Como já falava nos últimos dez anos. Afinal, desde que o século mudou que Michael já estava artisticamente morto, assumindo-se como uma sombra, um simulacro que vive à custa da sua condição de ícone cristalizado no tempo.
Para lá das polémicas, é da música que recordaremos. Do seu lado dinâmico, muito pouco discreto, contagiante, frenético. É a soul que abraça o disco sound, que entra pela pop adentro. É Thriller, Billie Jean, Bad ou Black or White.
Este tributo a Michael Jackson é também uma homenagem ao produtor, ao visionário. Jackson foi uma figura extraordinariamente importante no desenvolvimento de novas estratégias visuais. A filmagem em 3D, os efeitos especiais únicos, a capacidade de criar videoclips que eram verdadeiras curtas-metragens muitíssimo dispendiosas... e longas para a estrutura de um teledisco!
Michael Jackson teve o mundo a seus pés. Mas quem é demasiado grande rapidamente desaparece. O que neste caso é até secundário. O génio e o mito nunca estiveram tão vivos. A vida para um artista desta dimensão é só o começo...
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23 de Junho de 2009
Dar uma luzes aos irmãos Lumière (IX)

Caros irmãos Lumière,
Apetece-me falar do western, esse género cinematográfico que se quer confundir com as próprias raízes norte-americanas, uma espécie de fado da essência cultural de quem manda no cinema.
É certo e sabido que, neste campo, o cineasta John Ford é o maior de todos. Não só por ter a carreira mais extensa, mas pela capacidade em ilustrar em belíssimos enquadramentos a dimensão humana de histórias que se perdem por paisagens áridas. A essência das aventuras do Velho Oeste resume-se quase sempre a uma missão - de natureza tão simples que até incomoda! - e das múltiplas tentativas para a concretizar.
Pelo meio há as convicções, os laços familiares, a amizade imponderável, os inimigos até ao fim, as perseguições agitadas. Um bom western é isto. É sentir-se o pulsar de quem desbrava caminhos, de quem ousa. E é talvez a intensidade da sua mensagem que matou o género. O datou num tempo, entendido como de glória.
Hoje, a grande maioria dos esforços para reabilitar o género não são mais do que simples simulacros de algo que já se fez. Há honrosas excepções e aí há que tirar o chapéu a Clint Eastwood e ao seu «Imperdoável», mas a nobreza desse filme estava precisamente na habilidade em perceber que se tratava de uma tentativa de ressurreição. Ao não querer revitalizar o seu património, limitando-se a aceitá-lo, Eastwood explica que ser-se veterano não é para qualquer um.
Há ainda outra característica forte do western: a sua essência dramática, que se faz de novelos narrativos quase telenovelescos. Mas no bom sentido do termo. Lembro-me disso ao ver «Homens Violentos» (1955), filme de Rudolph Maté.
Aqui, Glenn Ford quer ceder o seu rancho ao maior latifundiário da região, vivido por um apagado Edward G. Robinson, que, para mais, não consegue andar após um acidente. O facto de ser aleijado torna-o ainda mais prepotente e vítima de manipulação quer pela mulher (extraordinária e sempre cínica Barbara Stanwyck), quer pelo seu capataz.
O excesso de poder manifestado pelo vilão da história leva a personagem de Glenn Ford a mudar de ideias e a ficar na sua terra para lutar pela sua propriedade e o direito à independência.
É claro que nada disto será fácil e o rumo de «Homens Violentos» confunde-se com um imenso retrato de personagens desencantadas. Parece que ninguém tem nada a perder e por isso ousa viver no limite.
Aqui o óbvio destaque vai mais uma vez para o papel da mulher irascível vivida por Barbara Stanwyck. Diz-se que, muitas vezes, as mulheres são submissas no western. Aqui é o oposto: é ela a mais pérfida encarnação do mal. O que torna tudo mais interessante...
«Não me obrigues a lutar porque não vais gostar da minha maneira de lutar», alerta a certa altura John Parrish, o herói tímido de Glenn Ford. No western, os homens parecem ainda maiores. E dos fracos não reza a história!
22 de Junho de 2009
QUIZ: O que têm em comum estas imagens?



São casos de cinema excessivo, carregado nas expressões e no sentido de cinema fantástico. Mas não é essa a semelhança pretendida. É outra... Descobres qual é?
Solução do QUIZ anterior: os elementos fábrica, forca e óculos recordam Dancer in the Dark, de Lars Von Trier
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16 de Junho de 2009
O QUE AÍ VEM... A Fita Branca

IRA. «Não existe uma só verdade, apenas a verdade pessoal.» MICHAEL HANEKE
É filmado a preto e branco, tem um tom glacial, e deixa-se embrenhar pelo ambiente da guerra.
Ao certo sabe-se ainda que A FITA BRANCA, a última obra do polémico Michael Haneke, regressa à Alemanha rural de 1913.
O espaço da acção é uma escola que é alvo de estranhos acontecimentos, naquilo que parece um ritual de punição.
Sempre habituado a lidar com a violência e a aproximá-la de outras questões mais elevadas, o realizador de «A Pianista» quer analisar com a argúcia de um psicólogo de que forma tudo isso afecta a rotina daquele espaço de ensino e até que ponto se cola tudo isto com o fascismo.
O tema é sério e filmado com aquela crueza que o cineasta já nos habituou em outras ocasiões. A sua câmara estilhaça angústias, que emergem silenciosas, ao mesmo tempo que o medo corrói.
Para ajudar há ainda uma dose de polémica, que acaba por engrandecer o trabalho. Recebeu a mais recente Palma d'Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes, mas a imprensa especializada - ou pelo menos parte dela... - ficou irada com a escolha face a outros títulos a concurso.
Explicações maldosas para a escolha discutível? A presidente do júri no certame deste ano foi a actriz francesa Isabelle Huppert, amiga de Michael Haneke, que a dirigiu implacavelmente em «A Pianista», filme que lhe deu há uns anos a Palma d'Ouro de Melhor Actriz.
No dia da entrega de prémios, Huppert surgiu de branco como que a antever que o resultado da noite já estava mais que certo. O cineasta chegou até a receber o prémio por A FITA BRANCA pelas mãos da própria actriz, quando tal não costuma ser habitual... Os ódios e as tricas no cinema chegam até ao local mais prestigiado de todos. Será que Cannes está cada vez mais parecida com Hollywood?
Efeito número 1 de tudo isto: não vou perder a obra polémica nem por nada. Até porque as obsessões de Michael Haneke são sempre motivo de redobrado interesse.
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15 de Junho de 2009
OS MEUS POSTERS: O Amor e a Vida Real

GULA. Já se suspeitava que Steve Carell é um dos valores mais seguros da nova comédia norte-americana. Vê-lo ao lado de uma luminosa Juliette Binoche a tentar pôr cobro aos sentimentos, enquanto vê a sua unidade familiar posta em causa, é irresistível. O AMOR E A VIDA REAL não é daquelas produções densas, é antes uma hipótese para um retrato humano, uma jornada pelo amor quando já se é adulto e os cabelos brancos insistem em aparecer. O tempo passa e é bem passado nesta inteligente comédia de Peter Hedges.
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11 de Junho de 2009
Elogio da simplicidade

AVAREZA. «Um caloroso elogio da amizade, do espírito de comunidade, da sociabilidade civilizada, dos rituais compartilhados que unem as pessoas e da unidade familiar.» Eurico de Barros in Cinema 2000
As melhores coisas são as mais simples. Até no cinema. Lembro-me disso quando vejo CHUVEIRO, cuja mensagem é precisamente a de enaltecer os pequenos nadas que formam a personalidade.
O prazer do convívio, a necessidade de nos sentirmos em família são mensagens universais que o realizador Zhang Yang soube decompor com as doses certas de integridade artística.
E de que nos fala este caloroso filme? Sobre o confronto entre tradição e modernidade, mas de um modo poeticamente singelo, com direito a breves reflexões sobre o que realmente interessa.
Um homem de pele enrugada e corpo seco pelo peso do trabalho parou no tempo. Juntamente com o filho mais novo, que possui atraso mental, dirige um balneário inserido numa pequena comunidade que resistiu até agora à transformação cosmopolita de Pequim.
Neste espaço, o tempo pára e um rol de personagens que se conhecem como a palma da mão usam o ritual do banho público não só para limparem o corpo como também o estado de espírito.
No local, há episódios cómicos que preenchem a história e lhe dão a vivacidade precisa para ser maior. Seja o par de idosos que se insulta diariamente mas que não consegue viver sem a respectiva companhia, o jovem tímido que só ousa soltar a sua voz de rouxinol quando está no banho, ou o casal que recupera a líbido, com uma ajudinha do mestre dos banhos públicos.
A vida dá nova volta quando o filho mais velho, que se havia retirado para a grande cidade em busca de sucesso, regressa a casa preocupado com o estado de saúde do pai. Falso alarme, mas ainda assim o suficiente para se perceber que aquele que saiu à procura do êxito é um estranho. Não só para quem usa o balneário como para o próprio pai e irmão.
Haverá tempo para inverter esta situação? Claro que sim, até porque Zhang Yang não quer falsas surpresas que comprometam a vida destas personagens. CHUVEIRO é caricatural e até previsível, mas só no lado bom destes conceitos.
Os afectos ganham peso de dia para dia, na mesma certeza como os banhos públicos abrem as suas portas para quem quiser limpar o peso da vida quotidiana. A paz tem morada certa em nome de uma tradição que aqui se debate com o futuro massacrante.
A dualidade pode parecer primária e simplista, mas a mensagem deste filme não o é. CHUVEIRO (estreado em 1999, com o título original Xizao) respira relações humanas e «limpa» tudo o que é supérfluo. Só fica aquilo que importa: as coisas simples.
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