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6 de abril de 2010

OS SETE PECADOS DE... Março 2010

LUXÚRIA. É um clássico daqueles... mesmo que só agora se tenha descoberto. Ver Ingrid Bergman a enlouquecer numa terra áspera, permanentemente ameaçada por um vulcão, na Itália profunda, é o trunfo de Roberto Rossellini em STROMBOLI. A personagem feminina chega ao ponto de trair o marido, numa gruta, com um pescador que lhe promete aliviá-la do pesadelo. Nada mais errado, porque aqui o caminho é mesmo para o precipício...

PREGUIÇA. É bom ver que a revista portuguesa 'Premiere' percebeu que precisa de se renovar para fazer a diferença. Com um novo naipe de nomes, textos mais incisivos e menos presos a sinopses desajustadas, além de fazer um esforço para apostar em exclusivos, a publicação tem a alma revigorada. Mas continuar a chegar às bancas com duas semanas de atraso face ao início do mês, é daqueles tiros no pé que vão custar caro... É assim que se quer conquistar leitores?!

GULA. A Valentim de Carvalho Multimédia teve uma boa ideia: pegar na obra de François Truffaut, já editada pela Costa do Castelo, e agrupá-la em dois packs de muito bom gosto e a um preço bem mais acessível: depois das aventuras de Antoine Doinel, acaba de chegar o conjunto 'O Amor e as Mulheres', que aglutina, nada mais nada menos, do que 'Jules e Jim', 'Angústia', 'As Duas Inglesas e o Continente', 'Uma Bela Rapariga', 'O Último Metro' e 'A Mulher do Lado'. Vale a pena.

IRA. Estou prestes a acabar de fazer uma colecção de cinema de guerra. Para lá de algumas desilusões (como a nova versão de 'Quatro Penas Brancas'), óptimas surpresas: o jogo de nervos de 'Submarino U-571' é um entretenimento a toda a prova, com óptima dinâmica e um excelente trabalho de Jonathan Mustow com a câmara... Até o canastrão Matthew McConaughey se sai bem. Mesmo que a tripulação real da história tenha sido britânica e não norte-americana como é mostrada no filme. Subtilezas típicas de Hollywood.

AVAREZA. A forma como o cinema Nimas, bem localizado em Lisboa, deixou de passar filmes e se dedica a espectáculos está mal explicada. Mais uma boa sala independente que desaparece da vida cultural lisboeta. Sem ai nem ui.

INVEJA. A animação já consegue ir a todo o lado. Quando ainda suspirávamos pela óptima passagem da Disney pela imagem tradicional de 'A Princesa e o Sapo', eis que nos chega 'Como Treinares o Teu Dragão', da Dreamworks, a aliar uma boa história ao cada vez mais omnipresente 3D. Já não há limites!

SOBERBA. Os livros de Ian Fleming sobre 007 acabam de ser relançados em edições muito bem feitas, com capas sugestivas - graças a estilizadas representações das 'Bond Girls'. O difícil vai ser resistir...

27 de fevereiro de 2010

OS SETE PECADOS DE... Fevereiro 2010

IRA. Neste mês de regresso a SIN CINEMA houve um pecado maior de todos: ver ANTICRISTO, o último abismo visual de Lars von Trier. Já nos habituámos ao estilo violento, cru e misógino, mas sempre se retira alguma mensagem das suas histórias. Neste último caso, há dificuldade em dizer se se gostou do filme. Plasticamente belo, tem boas interpretações mas a vontade da transgressão vai longe de mais. A tortura esvazia por completo o casal protagonista e gera a dúvida sobre as motivações de von Trier, que diz ter feito este filme para curar uma depressão. O que é certo é que se von Trier não fosse realizador de cinema, seria certamente um psicopata!

SOBERBA. Na minha vontade de (re)descobrir westerns eis que me confronto com 'O Ouro de McKenna', grande aventura de um naipe de personagens atrás de um mítico desfiladeiro de ouro. Há emoção, grandes reviravoltas e uma dinâmica que não quer nada com a monotonia. O xerife de Gregory Peck e o vilão Colorado de Omar Shariff são outros pratos fortes. Depois, há belas imagens do deserto, mas este projecto ousa demasiado nos efeitos especiais: a montagem de algumas cenas a cavalo é trapalhona e o tremor de terra final feito com muito pouco jeito. A esta distância já se consegue perceber como se evoluiu na vontade de ser verosímil.

GULA. Já cheira a Óscares e ainda bem. Este ano a colheita é variada e mais sumarenta do que a norma. Se 'Avatar' se arrisca a dar cabo da concorrência, por outro lado seria bom a ex-mulher de James Cameron, Kathryn Bigelow, conseguir levar a melhor com 'Estado de Guerra'. O que ainda falta ver dos principais nomeados: 'Nas Nuvens', 'Precious', 'Uma Educação' ou 'District 9'. O tempo não dá para tudo...

INVEJA.
É discreto e muito bem localizado e inclui um cartaz que foge à lógica do blockbuster tradicional e lembra até a selecção de um estimável Quarteto. Descobri na semana passada o Cinema City Alvalade. Parece mais próximo da vontade de recuperar o cinema de bairro e tem bastante bom gosto na decoração. Com salas mais pequenas, parece querer assumir-se como uma boa alternativa ao King.

AVAREZA. O Fantasporto já começou mas quase ninguém deu por ele... De quem é a culpa? Mário Dorminsky queixa-se da falta de apoios e ameaça retirar o festival da cidade que o viu nascer. Será que ainda vamos ter um Fantaslisboa? Espera-se que não e, por outro lado, que a prometida colecção de DVD com os melhores filmes do historial do festival sempre se concretize.

PREGUIÇA. Não tenho nenhuma vontade em ir ver 'A Bela e o Paparazzo', de António-Pedro Vasconcelos. Admiro o realizador, a sua carreira, mas confesso que nada do seu novo projecto me atrai ao ponto de me fazer ir à sala escura. Vi o trailer, o Nuno Markl, a sátira aos famosos, a Soraia Chaves a querer parecer diferente da sua personagem do interessante 'Call Girl' e... esperarei pelo DVD.

LUXÚRIA. O caso da traição do mês vai para a bela e talentosa Evan Rachel Wood, que decide trair a personagem de Larry David em 'Tudo Pode Dar Certo'. Woody Allen não só nos desvia a atenção da dupla protagonista de modo inteligente como ainda vai mais longe: repete a ideia de um 'menage a trois' com a personagem vivida por Patricia Clarkson, depois de ter gostado da fórmula com 'Vicky Cristina Barcelona'.

3 de julho de 2009

OS SETE PECADOS DE... Junho 2009

INVEJA. Junho foi mês de aniversário e de prendas de pendor cinéfilo. A mais impressionante foi um pack de DVD de Luis Buñuel, esse nome maior do cinema espanhol que levou para o ecrã histórias de forte carga dramática, ainda hoje capazes de impressionar. Amigo do surrealismo e com carreira feita a partir do México, o seu cinema prende o olhar. É o caso da sua versão de O MONTE DOS VENDAVAIS, uma adaptação que se quer muito fiel ao espírito literário da obra de Emily Brontë. Há um tom teatral em tudo, uma forma voraz de encarar os sentimentos e uma bela reconstituição de época.

SOBERBA. A Academia anunciou este mês que a próxima edição dos Óscares não vai contar com cinco nomeados para a estatueta dourada de Melhor Filme, mas com dez! Manobra comercial? Mais uma achega na desejada reforma para conquistar mais audiências? A justificação foi que a ideia é que a entrega de prémios regresse às suas origens, onde era norma ter uma dezena de candidatos ao mais ambicionado prémio. Consequência? As apostas tornam-se mais elevadas dado que, estatisticamente, será mais difícil de acertar à primeira. E desde «Crash», de Paul Haggis, que não há uma grande surpresa por aquelas bandas...

LUXÚRIA. Apesar de conhecer toda a carreira de Woody Allen, ainda existe um ou outro filme que me escapa. Se, recentemente, descobri o início dos inícios com «What's Up Tiger Lilly», caso de humor quase experimental e caótico, também em Junho me deparei com «Alice», deliciosa comédia sobrenatural, sobre uma mulher que está bem na vida mas infeliz. Para dar uma volta à sua existência e cometer o tão esperado adultério, a personagem de Mia Farrow decide consultar um especialista oriental em medicinas alternativas que lhe recomenda... umas ervas. É uma doce alucinação imperdível de Allen, um passo mais ligeiro na fase mais elevada da sua carreira.

IRA. Começa a cansar a moda das sequelas, prequelas e remakes do cinema. A estratégia dá certamente muitos frutos, mas fica-se com a ideia de que a sétima arte tem cada vez menos coisas novas. E o Verão é particularmente redutor neste ponto. Exemplos? «Wolverine», que é uma espécie de spin-off de «X-Men», «A Idade do Gelo 3», a nova vida para «Star Trek», «Exterminador Implacável: A Salvação» ou «À Noite no Museu 2». Socorro!

GULA. Já falta pouco para nos deliciarmos com a última produção da Pixar. «Up! - Altamente» parece que é uma delícia para os olhos, ainda mais com as potencialidades da técnica 3D.

PREGUIÇA. Estão cada vez mais monótonas e rotineiras as matinés de cinema dos canais em sinal aberto. Se não houvesse cabo e videoclubes, a oferta seria escandalosamente medíocre. Será que rende assim tanto usar sempre as mesmas fórmulas?

AVAREZA. As idas ao cinema têm sido escassas. Não é questão de poupança, é questão de falta de tempo... Espera-se que algo mude em breve.

1 de junho de 2009

Os Sete Pecados de... Maio 2009













SOBERBA. Acabadinho de chegar de umas férias pelas praias gregas, de que me apetece falar? Da Grécia, propriamente dita. Da sua história, dos seus filósofos, das suas praias, dos seus contrastes, da sua arte para desenrascar, da sua gastronomia, dos seus barcos. Há uma frescura neste país que contagia. Mais nas suas ilhas (Creta, Santorini, Myconos) do que propriamente na velha Atenas desajustada e suja. O património artístico também é de lembrar, mas neste momento até dá vontade de ir finalmente ver os encantos do megaêxito MAMMA MIA!. Tudo porque se passa nas belas paisagens de Santorini - o ponto alto desta viagem retemperadora.

GULA. Pelo caminho, em Madrid, dei uma espreitadela à Fnac e descobri que há mais edições de coleccionador lá fora do que por cá. Descobri uma de «Pulp Fiction», que inclui lenço alusivo ao filme; outra de «Tróia», carregada de extras. Mas o achado maior trouxe-o comigo: uma edição dupla de «La Dolce Vita» por 6 euros, com uma longa entrevista a Fellini a preencher o segundo disco. É certo que só tem legendas em castelhano, mas custa-me comprar a versão portuguesa da Costa do Castelo, que é quatro vezes mais mais cara - esta é, provavelmente, a editora mais inimiga das promoções.

INVEJA. Finalmente há uma Palma d'Ouro nacional no Festival de Cannes. O mérito foi de João Salaviza que, com «Arena», trouxe para casa o prémio principal na categoria de curta-metragem. Trata-se da história que se estende por apenas 15 minutos de um jovem em prisão domiciliária. Esperemos que a exibição nacional não demore!

PREGUIÇA. Maio foi um mês sem idas ao cinema. Algo que entristece mas que também é sintomático do número de poucas estreias realmente capazes de arrastarem alguém com pouco tempo disponível para a sala escura. Ainda assim, nem a nova versão de «Star Trek» consegui descobrir.

IRA. A morte de Bénard da Costa empobreceu o cinema. Por mais críticas que se lhe fizessem, amou a sétima arte como poucos. E um pouco dela desapareceu com ele no passado dia 21.

LUXÚRIA. A descoberta do mês vai para um western discreto, mas muito forte no modo como eleva a cobiça. Um tesouro grandioso descoberto por Dutch (Glenn Ford) vai levá-lo ao cúmulo da desgraça. Até o seu grande amor, que na verdade é casada, sonha com a sua destruição e quer apenas o seu dinheiro. «Oiro Maldito» tem os ingredientes certos, mas acima de tudo uma presença feminina que vai mais longe do que é costume. A personagem de Ida Lupino coloca a ganância num patamar demasiado elevado. Nada disto pode acabar bem...

AVAREZA. A realização de Ryan Fleck é tão assombrosa na sua contenção em «Half Nelson - Encurralados» que até assusta. No entanto, este filme sobre personagens perdidas só funciona porque há uma força da natureza chamada Ryan Gosling. É um filme sobre a arte de ensinar mas representa quase uma antítese do moralismo de «O Clube dos Poetas Mortos». A vida real não tem graça!

5 de maio de 2009

Os Sete Pecados de... Abril 2009












LUXÚRIA. O DVD continua a permitir descobrir filmes que, de outro modo, seria muito difícil encontrar para lá de algum ciclo discreto da Cinemateca ou de uma ou outra exibição mais arrojada da RTP 2. Foi assim que me deparei com O MEDO, filme de tensão psicológica de Roberto Rossellini, aqui a dirigir uma angustiada Ingrid Bergman. Depois de trair o marido, uma mulher abastada começa a ser chantageada pela ex-companheira do seu amante. Interessante jogo de tensão, com Bergman à beira da loucura. Apesar de não ser o filme mais citado da carreira de Rossellini, ajuda a perceber o seu estilo e a sua vontade em aproximar-se dos rostos dos protagonistas.

AVAREZA. Retratar os contrastes de um Brasil suburbano, sem cair em moralismos fáceis, é o que consegue Walter Salles no seu interessante «Linha de Passe». A história de uma mãe solteira que luta para criar os seus quatro filhos é tocante e rodada com particular engenho também em matéria de enquadramentos e boa fotografia. Algum defeito a apontar? A discreta passagem pelas salas.

INVEJA. O IndieLisboa foi, mais uma vez, um êxito. Indiferente a qualquer crise, mostrou capacidade em levar a cabo nova edição, com um tom cada vez mais profissional e uma oferta inabalável. O Grande Prémio de Longa-metragem foi para o norte-americano «Ballast». Terá exibição comercial?

PREGUIÇA.
Numa ida recente ao Monumental passei pela loja da Medeia Filmes no piso de cima. Há posters, DVD da Atalanta Filmes, camisolas e revistas. A oferta agrada, mas a apresentação nem por isso. O espaço continua com um ar quase amador. Bem, mas sempre vim com uma camisola de «Eraserhead», de David Lynch, debaixo do braço. A veia cinéfila fala sempre mais alto...

GULA. Como paródia à ficção científica e apetite para os olhos dado o aprumo da técnica 3D, «Monsters vs. Aliens» é o rebuçado animado do mês.

SOBERBA. A época dos blockbusters está a chegar. O primeiro passo foi dado por «Wolverine» e as bilheteiras lá se encheram outra vez. O filme é que parece ter desagradado aos críticos... Quanto aos restantes meses, esperam-se as sequelas do costume!

IRA. Belo retrato humano, o de «Isto é Inglaterra», dirigido por Shane Meadows. Ambientado na década de 80, aborda o movimento skinhead, mas pelo lado realista da coisa, centrando-se no olhar de uma criança. O cinema independente britânico está vivo e as memórias dos anos 80 também. O trabalho é óptimo, cru e arrebatador, e só demorou foi a chegar. Quem o viu, não esquece.

7 de abril de 2009

Os sete pecados de... Março 2009

IRA. Numa incursão insistente pelo género western deparei-me com um interessante filme em que a personagem determinante de toda a história é... uma arma. WINCHESTER '73 respira clássico por todos os poros e, além de uma realização dinâmica de Anthony Mann, há ainda planos ousados para o género do Velho Oeste e uma interpretação de James Stewart mais aguerrida do que o previsto. Nesta jornada pela posse da tal arma, há muitos que ficam pelo caminho. Mas no meio dos resistentes há uma mulher: a extraordinária Shelley Winters. Era bom que todos os filmes fossem assim: reactivos e muito interessados em reflectir sobre valores, sem com isso descurar a força artística que deve fazer mover um filme.

SOBERBA. Em cada ida ao videoclube, uma nova constatação de que devia ir mais vezes ao cinema... O que ficou por ver no grande ecrã? «Nós Controlamos a Noite», a interessantíssima obra de James Gray, que insiste em querer parecer-se com Scorsese ou Coppola, na forma como se deixa embrenhar no mundo do crime. Pois bem, a história está muito bem contada, tem as reviravoltas que se lhe pedia e duas interpretações estrondosas, tanto de Joaquin Phoenix como de Mark Wahlberg. Depois o cuidado no tratamento das imagens é profundo e há aqui uma mística muito pouco presente no moderno cinema norte-americano. Uma boa surpresa. Carregada de intensidade!

PREGUIÇA. No outro dia alguém me disse: os DVD piratas são melhores do que os originais. Pelo menos, não temos aqueles irritantes e obrigatórios vídeos a alertarem para o facto de nunca se roubar a carteira de quem está ao lado. É um pouco paradoxal, não? As cópias estão livres disso enquanto que quem paga do seu bolso por um DVD tem de aturar a lição toda... «O download é um crime». Sim, tudo bem. Mas parece que quem paga mais as favas é quem não o faz.

GULA. A moda dos DVD com jornal continua. Parece que «Expresso» e «Visão» se articularam para distribuir grande parte dos títulos de Almodóvar. Boa ideia! Até porque as edições a distribuir são cuidadas e apresentam capas muito bonitas.

AVAREZA. Sabemos que os multiplexes vieram para ficar e os cinema mais pequenos... estão a esforçar-se por sobreviver. Mas, ainda assim, convém ter algum cuidado. Poupar a todo o custo pode levar ao descontentamento do cliente: no outro dia fui ao Fonte Nova, cinema que prezo muito, mas quase tive de suplicar para me venderem um bilhete. Não estava ninguém na cabine. Tive de esperar cinco longos minutos para ser atendido... já na sala, as luzes demoraram uma eternidade a apagar e, no final, nem chegaram a acender já depois dos créditos terem terminado. Resultado? Foi uma saída às apalpadelas.

LUXÚRIA. Foi a desilusão do mês: o triângulo formado por Gwyneth Paltrow, Martin Freeman e Penélope Cruz prometia muito em «O Sonho Comanda a Vida», mas desemboca numa reflexão atabalhoada sobre o poder dos sonhos. Há um superficialismo bacoco no olhar desencantado da personagem de Freeman e Cruz não faz mais do que querer parecer uma musa de poucas falas. Já Paltrow safa-se às ordens do irmão, mas não chega para evitar o bocejo.

INVEJA. Diz-se que Zack Snyder fez um óptimo trabalho na aproximação do cinema à BD de «Watchmen». Os aplausos parecem ser mais que muitos. E eu que não arranjei um tempinho para o ver em sala...

3 de março de 2009

Os sete pecados de... Fevereiro 2009

AVAREZA. A grande surpresa do mês vem tardia, descoberta no clube de vídeo quando deveria ter sido na sala escura. ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE MORRESTE é um trabalho irrepreensível do veterano Sidney Lumet, um conto despedaçado sobre dois irmãos que se tornam fantasmas, reféns de um golpe condenado desde o início. Este belo conto sobre perdedores é elevado por extraordinários desempenhos (Philip Seymour Hoffman é grandioso, Ethan Hawke coeso como nunca o tínhamos visto antes, Albert Finney desesperado, Marisa Tomei sublime na sua imperfeição tristonha), mas acima de tudo por uma câmara que sabe sempre onde estar. Nós, espectadores, somos testemunhas trocidadas por uma história de implicações morais terríveis. Mas no meio de tudo isto, há cinema. Belo cinema! Assente em rostos. E na dor que há neles.

SOBERBA. Mês de Óscares... Hollywood enche-se de glamour neste tempo de crise e rende-se a uma história de amor que emerge da pobreza indiana. «Quem Quer Ser Bilionário?» levou a melhor sobre «O Estranho Caso de Benjamin Button» e a Academia deu assim um sinal de que quer mudar alguma coisa... Algo que se viu na exuberante gala da entrega de prémios. Mais virada para o seu público e para as pessoas que fazem do cinema uma arte. Aplausos!

LUXÚRIA. O triângulo amoroso entre Scarlett Johansson, Javier Bardem e Penélope Cruz (vencedora digna do Óscar de Actriz Secundária) é a descoberta do mês. «Vicky Cristina Barcelona» é o Woody Allen de que se estava à espera, só que mais atrevido e luminoso.

AVAREZA. Outra das descobertas retardadas do mês chama-se «Tsotsi», Óscar de Melhor Filme Estrangeiro há um par de anos. Centrado no meio pobre da África do Sul, é mais uma história de crime e desigualdades sociais, mas a bela fotografia e o tom intimista mostram que a contenção de meios consegue ainda gerar efeitos emocionais de assinalar.

IRA. «Watchmen» estreia ou não estreia? Parece que está próximo o dia, depois de muitos avanços e recuos. Será a melhor adaptação de uma BD de sempre ou antes uma imensa desilusão? Aceitam-se apostas.

PREGUIÇA. A ida à Fnac está a ser substituída pela compra do jornal ao fim-de-semana. Erradamente, eu sei, mas não é que há cada vez mais DVD a preço de saldo? E há até compras realmente surpreendentes... O «Público» distribuiu o «Censurado» de Brian De Palma e o «DN» optou pelo «O Barbeiro» dos Irmãos Coen. Atenção: para a semana sai o excelente «Pecados Íntimos» do Todd Field. Quem é que paga isto?

INVEJA. A Prisvídeo reeditou grande parte das obras de Pedro Almodóvar, com edições que primam pelo esforço em incluir extras e, além disso, capas bonitas de se ver, com figuras de traços coloridos aos quais associamos as tramas quase novelescas do mais famoso dos realizadores espanhóis. É uma boa oportunidade para adquirir títulos em falta, porque o cuidado estético e técnico convencem.

31 de janeiro de 2009

OS SETE PECADOS DE... Janeiro 2009














INVEJA. Quanto mais filmes se vêem, mais se descobre a imensidão que há ainda para ver. A minha descoberta do mês é daqueles grandes embaraços por não se ter visto antes, mas a beleza da mensagem que lhe é inerente merece todos os destaques e mais alguns. CINEMA PARAÍSO, de Giuseppe Tornatore, é das mais belas homenagens que o cinema pôde fazer a si próprio, por tentar expor em imagens o impacto desta invenção junto das pessoas. Além disso, não teoriza sobre o facto, aposta na emoção, que é talvez o efeito mais poderoso de um filme: toca-nos. E tudo isto segundo uma forma de dirigir certeira, que deve muito ao neo-realismo italiano.

PREGUIÇA. O cinema português continua a apostar nas mesmas fórmulas para chegar ao grande público. Neste início de ano, a produção nacional volta a enganar-se a si própria, recorrendo às figuras das revistas, cenas ousadas e acção que copia modelos lá de fora para se impor. «Contrato» e «Second Life» são os mais recentes produtos de um equívoco.

LUXÚRIA. O jogo de traição do mês vai para aquele que se constrói em «Os Três Macacos». A solidão e a vontade de fazer a diferença levam uma mulher a entregar-se à pessoa errada. Desfecho? O desmembramento de uma família, filmada pela belíssima câmara de Nuri Bilge Ceylan.

GULA. A colecção da obra integral de Woody Allen em DVD está cada vez mais próxima de ser uma realidade. É de aplaudir as edições de «Os Dias da Rádio», «Zelig» ou «A Rosa Púrpura do Cairo». O que falta? «Take the Money and Run», «Celebridades» e o excelente (e meu favorito) «As Faces de Harry».

SOBERBA. Alguém explica que decisão foi essa de pôr Hugh Jackman a apresentar a próxima gala dos Óscares? Ele não é propriamente cómico nem se conhecem dons de entretenimento por aí além... Onde está Ellen DeGeneres ou Billy Crystal? Será que ter sido eleito recentemente o homem mais sexy do mundo é requisito para compensar as fracas audiências das últimas edições dos prémios da Academia?

AVAREZA. O cinema despojado de meios técnicos sumptuosos e ruído é cada vez mais uma raridade e um bálsamo para o olhar. Por isso, aqui vai novo aplauso para «Os Três Macacos».

IRA. As guerras entre Paulo Branco e Zon estão muito acesas. Tudo por causa de um cartão que permitiria aos clientes da TV Cabo ver cinema à borla. A questão é: como se explica o Medeia Card? Promoções há muitas e um mercado exigente obriga a lutar para fidelizar os clientes. Cada player deve usar as suas armas e não sucumbir com medo dos seus efeitos. As queixas à Autoridade da Concorrência, que suspendeu para já a campanha, deixam no ar um certo tom de mau perder. Nesse ponto, Paulo Branco nem tem muito com que se preocupar: quem frequenta um King, um Nimas ou um Monumental vai continuar a fazê-lo.

30 de dezembro de 2008

OS SETE PECADOS DE... 2008

Foi um ano de bom cinema do mundo, razoáveis propostas com génese em Hollywood, mas de menores idas à sala escura. É certo que foi período de crise, mas nada de falhas em matéria de criatividade. Para completar o «Top 10» há ainda que referir «A Turma», «4 Noites com Anna» e o simpático «Filho de Rambow: Um Novo Herói», cuja crítica não deve tardar. E venham mais filmes!

AVAREZA. O realizador turco Fatih Akin já é um cineasta extraordinário, mas anteve-se um futuro radioso. A obra do ano chama-se DO OUTRO LADO e é um conto melancólico sobre vidas divididas entre a Alemanha e a Turquia, ao mesmo tempo que se enleia a morte numa teia muito bem urdida. Há contenção de meios, mas não de ideias cinematográficas. O cinema-emoção tem aqui a sua cartada mais forte.

SOBERBA. Olhar o futuro pode dar azo a muitas interpretações, mas certamente redutoras quando comparadas com a visão da Pixar. WALL-E foi a surpresa animada do ano, que apostou em silêncios e muita metáfora existencialista ao dar um enorme coração ao boneco electrónico dos olhos tristes, que se apaixona por uma robot topo de gama. Carregadinho de conceitos e acção elaborada, o filme vai sair de Óscar debaixo do braço. Afinal há futuro para o desenho animado!

INVEJA. Num só ano, dois filmes dos irmãos Coen. Mas o melhor veio antes: ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS representa o regresso às origens da dupla, que voltam a mostrar ser única na altura de descontruir o thriller enraizado no medo, no engano e na figura do perdedor. Levou as principais estatuetas douradas para casa e revelou o pior penteado de sempre... o de Javier Bardem. Já é um clássico.

PREGUIÇA. Podem acusar Wes Anderson de estar preso a um estilo. Nesse contexto, THE DARJEELING LIMITED é um caso de imensa preguiça. Mas da boa para os aficionados da gestão dramática assente nas relações familiares despedaçadas, nos enquadramentos estáticos, nas falas lacónicas e pejadas de ironia e nos décors muito ricos em pormenores estéticos. Adorar esta história tem algum mal? É o filme cool do ano.

IRA. Tentar fugir às regras do mundo ocidental pode dar mau resultado... mas um belo filme. Sean Penn foi longe neste O LADO SELVAGEM, um conto trágico, baseado em factos reais, sobre a vontade de ter a alma (e o corpo) livre de vícios e apegos, mas correndo-se o risco de perder a própria humanidade. Emile Hirsch tem um dos desempenhos do ano. Mas é a própria visão estilhaçada de Sean Penn que dá mais consistência à obra

GULA. Tim Burton gosta de sangue... e a sua veia negra encaixou como uma luva nesta adaptação sumptuosa de SWEENEY TODD, um musical soberbo com Johnny Depp novamente em auto-superação. O cuidado plástico é único e a veia gótica também ainda lá está. As perversas empadas são a gulodice errante do ano.

LUXÚRIA. Espanto de 2008: O SEGREDO DE UM CUSCUZ. É certo que também pode ser entendido como caso de gula, mas é principalmente um belo retrato humano sobre pessoas desajustadas. São os laços familiares que se testam aqui, por onde passam suspeitas de traição. No entanto, este grandioso melodrama é um filme de personagens. Que merecem todo o respeito.

TOP 10 de 2008
1 - DO OUTRO LADO
2 - WALL-E
3 - ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS
4 - THE DARJEELING LIMITED
5 - O LADO SELVAGEM
6 - SWEENEY TODD
7 - O SEGREDO DE UM CUSCUZ
8 - A TURMA
9 - 4 NOITES COM ANNA
10 - FILHO DE RAMBOW: UM NOVO HERÓI

7 de dezembro de 2008

OS SETE PECADOS DE... Novembro 2008

GULA. É a altura certa para todas as homenagens: os cem anos de Manoel de Oliveira, que se celebram a 11 de Dezembro, já deram origem a um tributo de respeito. A caixa de DVD recentemente lançada, que contém 21 longas-metragens (algumas das quais, nunca antes editadas em formato digital), livros e documentários merece ser vista com toda a atenção. É uma edição de luxo consistente e apropriada, que nos recorda o século de um cineasta, nem sempre bem aceite, mas fundamental para se entender o cinema português desde a sua génese. Uma boa ideia!

SOBERBA. Juntar a voz de Jack White, dos White Stripes, à soul de Alicia Keys pode não ter parecido a melhor das ideias, mas o resultado do tema do último filme de 007, Another Way to Die, é bastante acima da média. E tem um power que assenta como uma luva ao James Bond com cara de poucos amigos de Daniel Craig.

AVAREZA. Com poucos meios, um grande filme. Volto a insistir em «A Turma», o belo filme que se apresenta em jeito de documentário, mas que quer ser, antes de mais, uma poderosa reflexão sobre a escola e o que é aprender. O realizador Laurent Cantet soube filmar este espaço, cenário de muitas mudanças... e polémicas.

IRA. A crítica lançou-se com unhas e dentes a «Ensaio Sobre a Cegueira», de Fernando Meirelles. As acusações de que simplificam demasiado a obra de Saramago, esvaziando-lhe o seu sentido alegórico é inteiramente exagerada. Um filme é um filme, um livro é um livro. E já se tornou fácil criticar as adaptações, dada a densidade de um bom livro que é impossível de recriar em filme. Pois bem, gosto de ir contra-corrente: a nova obra do realizador de «Cidade de Deus» é um poderoso trabalho, muito cuidado tecnicamente e, sim, que faz juz à excelente narrativa semi-apocalíptica de Saramago. É certo que o livro vai muito mais fundo na análise das consequências de uma misteriosa cegueira, mas Fernando Meirelles capta muito bem os lugares turvos da moralidade e os dilemas de uma nova (e perversa) noção de comunidade. Depois, há uma excelente fotografia, um enorme e meritório esforço em ilustrar a cegueira descrita pelo Nobel português e boas interpretações - com particular ênfase para a extraordinária Julianne Moore. Um grande filme, injustamente condenado.

LUXÚRIA. Ao recordar os primeiros filmes de Woody Allen, voltei a deliciar-me com os jogos «orgásmicos» entre Diane Keaton e Woody Allen (entre outros)... num futuro «já algo nostálgico», em que o prazer carnal surge ao carregar num botão. Hilariante!

INVEJA. Um CD adquirido recentemente compila a música dos muitos filmes de Pedro Almodóvar. As memórias cinematográficas que as canções nos convocam também remetem para o excelente bom gosto do realizador espanhol. Que usa a música como outra espécie de imagem, além de procurar ir às raízes da «sua» Espanha.

PREGUIÇA. As matinés de fim-de-semana dos canais privados estão cada vez mais sensaboronas. Além de repetições de êxitos que já se viram dezenas de vezes, os ditos canais ainda decidem exibir os referidos filmes contra todas as antevisões anunciadas nas secções de televisão de jornais e revistas.

8 de novembro de 2008

OS SETE PECADOS DE... Outubro 2008







IRA.
Continuo a deliciar-me com o western, o género por excelência norte-americano, que coloca as suas personagens em missões espinhosas enquanto exibe as dores de um país ainda à procura de uma identidade. Recentemente revi a relação agitada entre John Wayne e a glamourosa Marlene Dietrich em «Oiro», mas fiquei mais suspreendido com JUBAL, obra em que Glenn Ford representa um homem do qual sabemos pouco que, ao chegar a uma pequena comunidade, rapidamente ganha a atenção do futuro patrão e da mulher deste. O desempenho de Valerie French é ousado para a época, mas mostra que as missões no Velho Oeste são também dominadas por mulheres. Femininas, submissas e símbolo da família. Neste caso particular, há uma ousadia a reter, elevando esta obra de Delmer Daves a um outro patamar da tradição dos sexos. Só é estranho ninguém ter dado por este filme... Clássicos esquecidos só dão prazer redobrado quando são descobertos.

GULA. Acabo de vir da Fnac onde voltei a sucumbir à loucura do consumismo. Alerta: fãs de Woody Allen fujam das lojas de DVD. Motivo? O lançamento de dois packs cujas obras ainda não estavam editadas em português. São os casos de «Bananas», «Alice», «Setembro», os hilariantes «O Herói do Ano 2000», «O Agente da Broadway» e «Nem Guerra Nem Paz», «Sombras e Nevoeiro» e «Crimes e Escapadelas». O que fica a faltar ver nas lojas? A dupla «As Faces de Harry» e «Celebridades» e os mais atrasados - mas obrigatórios - «A Rosa Púrpura do Cairo», «Zelig», «Os Dias da Rádio» e o felliniano «Recordações». O que é certo é que já faltou mais ter a obra integral do mestre... que é tão amigo do cinema quanto inimigo da carteira!

AVAREZA. A surpresa cinematográfica do mês vai para uma obra sublime, que revela maturidade no modo como imbrica personagens e situações, explorando ainda a morte num contexto multicultural. «Do Outro Lado» é um dos mais sensíveis melodramas que conseguimos encontrar nas salas e a prova que faltava do talento único de Fatih Akin.

LUXÚRIA. O casal de amantes interpretado por George Clonney e Frances McDormand em «Destruir Depois de Ler» é a surpresa extra-conjugal do mês, graças ao lado caricatural de dois perdedores. Ele é um homem inconstante cujo hobby é correr (como que a fugir de si próprio...), ela uma mulher solitária que sonha ter dinheiro para ganhar literalmente uma cara nova. Juntos formam um delicioso par, dos mais hilariantes do novo cinema. Ainda por cima com o selo dos irmãos Coen.

INVEJA. Susan Sarandon passou por cá, no âmbito do Lisbon Film Festival. Foi uma visita há muito esperada, com a mais-valia de representar uma escolha que não se esgota na referência do cinema, mas também nas suas convicções políticas. Frases sonantes? Dizer que não votaria em Hillary Clinton só «porque ela é uma vagina». Ui! Sarandon nunca foi de meias-palavras. Talvez seja por isso que todos a adoramos.

PREGUIÇA. Ainda em matéria de política, esperava-se muito de Oliver Stone e da sua visão de George W. Bush, agora que o presidente dos Estados Unidos está de saída, deixando para trás um país à beira da ruptura financeira. «W» é um retrato a espaços irónico e mordaz, mas fica a meio caminho de conseguir criar um ponto de vista. É certo que rejeitar maniqueísmos pode parecer boa opção, mas nem tudo é defensável nesta figura bem interpretada por Josh Brolin. O que passa no final é que a experiência tem pouco para oferecer além de algumas boas ideias e se deixa levar por um certo oportunismo político.

SOBERBA. A renovada «Premiere» chegou finalmente às bancas e rapidamente ocupou um lugar que esteve demasiado tempo por preencher. Com um excelente papel e capa, só fica a faltar novidades nos seus conteúdos, uma escrita mais apurada e de melhor sentido crítico. Outro ponto fraco no novo número? Escolherem uma imagem desfocada. Algo que já foi ultrapassado na bela homenagem ao 007 que domina o segundo número. Longa vida para a revista é o que se deseja. E que continue a querer sempre ser melhor.

27 de setembro de 2008

OS SETE PECADOS DE... Setembro 2008








IRA.
Num mês que foi, acima de tudo de férias, a jornada pelo Chile não esteve isenta de cinema. Além do assombro de um país que parece feito de vários países (tal é a heterogeneidade das suas paisagens, das suas gentes, do seu fabuloso património cultural), o que mais espanta são os quase cinco mil quilómetros que distam do norte ao sul. Com a ambição de o querer conhecer de ponta a ponta em duas singelas semanas, não houve outra hipótese além da de passar longas jornadas dentro de um autocarro. A boa notícia é que o Chile possui um bom serviço de transportes, a má é que nem sempre trata bem os filmes que exibe durante longas jornadas que podem superar as 24 horas. Numa destas viagens, o assistente de serviço insistiu em colocar filmes de terror em série, ignorando o olhar de desconforto de menores mais sensíveis. Ainda assim, a insistência permitiu-me descobrir a bela alegoria que é NEVOEIRO MISTERIOSO, a obra de terror apocalíptica de Frank Darabont. A premissa delineada por Stephen King, que isola um grupo de aterrorizadas personagens num supermercado, enquanto lá fora nada se vê mas sabe-se que o pior está para acontecer... É na gestão do «suspense» e no cuidado como o realizador gere a tensão psicológica que está um dos pontos fortes desta obra, meticulosa até na forma como revela com cuidado os indícios «sui generis» de uma ameaça inexplicável. É aqui também que despertam os ódios e os fanatismos ao ponto do terror estar mais presente na essência humana do que na ameaça desconhecida. Um filme de arrepiar, que faz ainda acreditar no poder do susto. A contenção joga a favor deste trabalho, que nem o excessivo final consegue comprometer.


GULA. O regresso fez-se também de uma vontade de experimentar coisas novas no SIN CINEMA. Houve mais uma tentativa frustrada de largar o projecto, mas a consequência que perdurou foi a de querer reforçá-lo ainda mais. Com um acompanhamento mais frequente. Que se tirem conclusões...

AVAREZA. Sou daqueles que duvidou da estatueta dourada entregue a Nicole Kidman por «As Horas». Não que duvide do seu imenso talento, mas porque nesse filme o nariz postiço parecia dar demasiada ajuda para um desempenho que perde em comparação aos de Meryl Streep e Julianne Moore nesse mesmo trabalho. Porém, tirei as dúvidas em «Margot e o Casamento», um melodrama de actores, de Noah Baumbach, que os interessados em cinema norte-americano de travo independente reconhecem de «A Lula e a Baleia». Ora, o novo filme - que não chegou injustamente aos cinemas! - é uma pérola sobre como uma família se pode fragmentar em nome de personalidades que, pura e simplesmente, colidem. Kidman é a Margot do título, mulher dúplice, às turras com a irmã (excelente Jennifer Jason Leigh) que está prestes a casar com um homem patusco e até ingénuo (excelente Jack Black). Quando os traumas disparam e o drama se instala, Kidman mostra o seu empenho dramático num papel que é perfeito pela natureza intimista. No fundo, é um retrato dorido dos laços familiares, muito bem dirigido e que é tão forte que opta por prescindir de banda sonora.

SOBERBA. Com os seus defeitos e qualidades, a revista britânica «Empire» voltou a eleger os melhores filmes de sempre. A lista agora envolve 500 filmes, dá o primeiro lugar a «O Padrinho», de Francis Ford Coppola (o que é de saudar...), mas comporta uma impressionante surpresa: dá a escolher ao leitor que capa quer levar no meio de cem diferentes impressas. É obra! É um sinal de ambição, bom gosto e revela atenção de que o futuro passa pela personalização.

INVEJA. Já que se fala de revistas, saúde-se igualmente o regresso anunciado da portuguesa «Premiere» que vai voltar às bancas em Outubro. Com uma tiragem de 20 mil exemplares, a revista que lutou contra a corrente oito anos no mercado nacional foi ressuscitada depois de um fim abrupto e inexplicável. Esperemos que regresse melhor, com vitalidade e pronta para encarar os tempos que se avizinham. Bem-vinda, outra vez.

PREGUIÇA. Continuo distante da sala escura por cansaço, agenda preenchida e vontade em explorar o cinema em casa. Mas prometo inverter a situação...

LUXÚRIA. Os jogos de infidelidade de «Short Cuts - Os Americanos» merecem ser lembrados, dada a minúcia como Robert Altman desconstrói os afectos. Vermos Tim Robbins a trocar Madeleine Stowe por Frances McDormand tem graça e este é apenas um dos nós do gigantesco novelo de um filme que é o reflexo de uma certa forma de viver «à americana». Mas mais perto da realidade portuguesa do que seria de prever. Grande filme!

5 de agosto de 2008

OS SETE PECADOS DE... Julho 2008








INVEJA.
Na habitual abordagem às revistas de cinema lá de fora (sim, porque por cá a oferta não existe...), houve um surpreendente motivo de orgulho. Na prestigiada «Sight & Sound», o filme do mês de Junho foi o português JUVENTUDE EM MARCHA. Sim, o poderoso olhar de Pedro Costa para Ventura e outros habitantes (quase fantasmagóricos...) do Bairro das Fontainhas mereceu duas bonitas páginas desta publicação britânica. E os elogios não faltam: a fotografia é comparada ao «chiaroscuro» das pinturas clássicas, as imagens lembram «fotografias estáticas». O crítico apela a mais do que um visionamento deste trabalho de um «dos realizadores mais talentosos a nível europeu», para se perceber de perto todas as subtilezas de um documento doloroso mas, mais do que tudo, humano. Sabe bem ver que o reconhecimento merecido ainda encontra o seu lugar.


LUXÚRIA. Já havia lido com particular agrado o livro de Somerset Maugham, mas só agora tive a oportunidade de contemplar o entusiasmante desempenho de Annette Bening em «As Paixões de Júlia». Sim, o seu jogo de interesses para se manter no topo das melhores actrizes de teatro resulta numa competente adaptação, sem grande novidade, até demasiado certinha e seguidista dos filmes de género, mas que se supera com o furacão Bening, aqui a oscilar entre um casamento sem sexo com um Jeremy Irons low profile e a relação voraz com um jovem oportunista. O palco é todo seu!

IRA. A natureza pode virar-se contra nós, avisa-nos M. Night Shyamalan no seu mais recente filme, «O Acontecimento», mal aceite pela crítica e que voltou a colocá-lo longe dos dias de glória de «O Sexto Sentido» ou «Sinais». Ainda assim, mais um bom teste de suspense, com premissa aliciante e cenas de terror que assustam, de facto. O talento ainda não se escapou.

GULA. A colecção que o jornal «Público» elaborou a partir de um catálogo da revista «Cahiers du Cinéma» acabou em beleza: um excelente documento sobre o português Manoel de Oliveira, à beira do centenário, é a melhor homenagem que um jornal de referência lhe podia fazer. Muito bem escrito e com olhar minucioso para uma história que se estende por todo o cinema português, este trabalho de Mário Jorge Torres merece ser bem recebido não só pelos cinéfilos, mas também por todos os que se interessam pela cultura nacional. O serviço público andará por aqui...

AVAREZA. Um filme de fantasmas, falado em espanhol e passado numa mansão pode não parecer novo, mas é. «O Orfanato» volta a colocar o terror intimista na ordem do dia e confirma Guillermo Del Toro não só como excelente realizador, mas também como produtor interessado no ponto de vista do espectador.

PREGUIÇA. Aos fins destes meses de mudança, ainda poucos terão entendido a razão porque os quatro canais de cinema premium, agora TV Cine, terão mudado de perfil. Se antes apostavam em géneros, agora cada um exibe os filmes do outro ao lado, pelo que nada os distingue. A pergunta impõem-se perante esta estratégia: por que razão são então quatro e não apenas dois?

SOBERBA. Ir a uma «Sessão na Esplanada» na Cinemateca é um luxo. Daqueles muito simples, é certo, mas que sabem sempre bem. Já são um ritual anual. Este ano a sessão foi «Pintores e Raparigas», uma comédia muito ligeira com Dean Martin a cantar e Jerry Lewis a fazer das suas, enquanto ambos sonham com a glória e tornarem-se artistas de relevo na banda desenhada. A pin up de serviço é «uma estreante» Shirley MacLaine.

3 de julho de 2008

OS SETE PECADOS DE... Junho 2008








LUXÚRIA.
No meio de uma semana de férias, fui ao cinema descobrir que a comédia juvenil pode ser romanticamente violenta e, ainda assim, não ceder na inteligência. Próximo do nível de «Um Azar do Caraças» - não é por acaso que é dos mesmos produtores - UM BELO PAR DE PATINS (título terrível para «Forgetting Sarah Marshall») é já um dos trabalhos mais bem dispostos dos meses quentes, apesar de lidar sem grandes pudores com a dor da traição. O olhar é ousado, divertido e intelectualmente estimulante. Isso é possível? Parece que sim... Até mete ao barulho uma ópera com marretas a simular a história de Drácula. Cheio de ideias, só se alonga demasiado na sua premissa de descodificar os afectos quando o coração fica em cacos. É pena.


INVEJA. De vez em quando uma boa ideia: apesar de continuar a usar e a abusar dos anúncios no início das sessões, a Lusomundo começou a fazer intervalos de dez minutos onde insere um ou outro «trailer». Uma maneira sagaz para gerir os 10 minutos do desconforto. Quem quiser, vai à sua vida, quem preferir, fica a saber o que aí vem.

SOBERBA. Numa altura em que a colecção de DVD está tão apinhada que estou a fazer uma pausa nas aquisições, fiz anos e pedi apenas um filme. Ou melhor, uma deliciosa compilação de curtas-metragens: trata-se da série «A Ovelha Choné», produzida pelos estúdios Aardman (sim, dos mesmos criadores de «Wallace & Gromit» e «A Fuga das Galinhas») e que está a ser apadrinhada - e bem! - pela RTP. Tratam-se de pequenas histórias para os mais novos protagonizadas por um rebanho de ovelhas caprichosas, feitas de plasticina e muito espertas. O único que parece mais lento nos pensamentos e nas reacções é o seu dono. São pérolas de pouco mais de cinco minutos, com humor «very british», absolutamente imperdíveis.

GULA. Apesar da pausa na compra de DVD, não cedi à tentação. Em liquidação total, o «Daily Price» da Av. de Berna possibilitou a seguinte pechincha: comprei os filmes «Apanha-me Se Puderes», de Spielberg, «2046», de Wong Kar-Wai, a obra oriental «O Bordel do Lago», o ardiloso «The Heist - O Golpe» de David Mamet, e «A Pantera Cor-de-Rosa», de Blake Edwards, por um total de 12,5 euros (!!!). Sim, isso mesmo. Foi só desta vez...

IRA. É certo que David Cronenberg descobriu que a violência pode ser filmada num nível muito elevado. Depois do soberbo «Uma História de Violência», só há pouco descobri «Promessas Perigosas», que é um olhar desencantado sobre a máfia americana. Por isso, e pelo ambiente de negrume que perpassa toda a fita, a obra é novamente para aplaudir. Cronenberg continua a ser certeiro nos «socos no estômago».

PREGUIÇA. Alguém compreende a lógica de programação do canal MOV? Aquele de filmes e séries que a Zon já disponibiliza no pacote clássico e no outro, o «Funtastic Life» em HD, sendo que os exibe sem horas fixas, sem linha de orientação... Há bons filmes para ver, não se percebe é quando. Nestas coisas, a bem do espectador, há que ser um pouco previsível. Não na oferta, mas nos momentos de exibição.

AVAREZA. Não sou egoísta. Nunca fui, mas sempre que empresto um filme e ele fica semanas e semanas, depois meses e meses, em casa alheia, sinto algum desconforto. Pequenino, mas sinto. «Mea culpa!»

4 de junho de 2008

OS SETE PECADOS DE... Maio 2008

AVAREZA. A colecção de livros de cinema «Cahiers du Cinéma» que o jornal «Público» está a distribuir semanalmente tem permitido algumas descobertas até sobre os ícones com pouco de novo para revelar. Já se sabia que Chaplin não teve uma vida fácil, mas os inúmeros tropeções que a sua carreira teve - quase sempre causados pela instabilidade na vida real, nomeadamente o seu gosto por mulheres de tenra idade - não obnubilaram um génio. Aquele que redescobri em duas deliciosas curtas-metragens, «O Emigrante» e «À Beira Mar». Filmes anteriores à década de 20! Chaplin é imortal: a sua visão ainda hoje enternece.

GULA. Atenção: a moda dos DVD a preços baixos continua. Se, por um lado, o «DN» já distribuiu «Matador», «Ali» ou «Lua de Mel, Lua de Fel» pelo preço dos dois jornais ao fim-de-semana, o «Correio da Manhã» voltou a entrar na corrida e, às sextas-feiras, distribui filmes por mais 1,95 euros. A semana passada foi o engenhoso «O Senhor da Guerra». Segue-se o curioso «Infamous», sobre Truman Capote. A questão é: será assim tão rentável para os jornais o investimento? Resposta: não quero saber, desde que a colecção vá engrossando a preços nunca vistos. Qualquer dia ainda nos pagam...

SOBERBA. Indiana Jones está vivo e de boa saúde em nome do cinema de aventuras revivalista e mais revitalizado do que se esperava. «Indiana Jones e a Caveira de Cristal» é divertimento puro, «à antiga», ainda que a espaços tonto. No fundo, o que importa é que Harrison Ford e Spielberg ainda sabem como dar a volta ao espectador sem trair a saga original. Isso chega.

IRA. A morte de Sydney Pollack embaraçou o cinema comercial. Porquê? Porque mostrou que este dificilmente será o mesmo sem a ousadia e o olhar inteligente do realizador de «África Minha». O que nos deixou Pollack? Um legado de boas memórias e uma forma íntegra de agenciar as imagens. Em Maio, o cinema ficou ainda sem Harvey Korman e, por isso, mais triste.

LUXÚRIA. Na maré de «biopics» que tem inundado Hollywood, parece que a história do criador de «Playboy» vai dar um filme. Hugh Hefner já veio dizer que quer Robert Downey Jr. a fazer de si no grande ecrã. Escolha acertada, não parece?

INVEJA. Depois de muitas polémicas, a Feira do Livro lá abriu as portas. Passei por lá numa noite e é bom ver como a Cinemateca mantém a sua banca. Boa oportunidade para vender catálogos antigos. Há coisas memoráveis por aqui...

PREGUIÇA. Pode parecer que custa ir ao cinema ver fitas românticas como «Vestida Para Casar». Não custa nada, na verdade. E isso também não é obrigatoriamente bom. Contudo, depois de um dia de intenso trabalho, a mente agradece a falta de estímulos exacerbados. O cinema também pode somente distrair.

7 de maio de 2008

OS SETE PECADOS DE... Abril 2008







LUXÚRIA.
No mês em que me fiz sócio de um videoclube da vizinhança, aproveitei para redescobrir um par de obras do cinema comercial recente que estava em falta. O jogo de luxúria de BEOWULF foi uma agradável surpresa, ainda que a tecnologia digital não esteja suficientemente apurada. Ou melhor, no filme vê-se que foram usados os mais modernos métodos, mas ainda não chega para que a fluidez se sobreponha ao artificialismo. Resta uma boa história, uma interessante noção medieval de aventura e a pena de não ter visto a versão tridimensional que chegou aos cinemas.

AVAREZA. Descobri que alugando filmes poupo dinheiro e isso fez com que reduzisse consideravelmente as aquisições do mês de Maio. Mantenho-me, contudo, fiel à colecção de cinema do jornal «Público» e à de clássicos de «western».

IRA. Por falar em descobertas no Velho Oeste, este mês de Maio trouxe uma boa surpresa: descobri «O Comboio das Três às Dez», excelente jogo de personagens entre Glenn Ford e Van Heflin, um mau e outro bom, quando no fundo são apenas dois homens em lados opostos da Lei. Ao que parece, o original é bem melhor do que a versão revisionista com Christian Bale e Russell Crowe que estreou há uns meses. Há uma ambiguidade moral e um bom sentido de suspense que tornam a obra numa interessante jornada a preto e branco.

GULA. Apesar de ter reduzido nas revistas de cinema, não resisti à edição deste mês da britânica «Empire», que além de dar a capa ao novo capítulo de Indiana Jones, ainda traz uma revista extra onde revê tudo o que gira em torno do célebre aventureiro que está mesmo quase a regressar aos ecrãs.

PREGUIÇA. A vontade de ir ao cinema continua em alta, a concretização é que nem por isso... Sou cada vez mais um cinéfilo de sofá, há algum mal nisso? Os puristas dirão que sim, mas nunca descobri tanto cinema como agora. Mesmo que mais afastado da calendarização das estreias na sala escura.

SOBERBA. Impecável, o trabalho que Robert De Niro fez em «O Bom Pastor». Outra das grandes descobertas do mês. Matt Damon é um extraordinário actor e personifica de forma surpreendente a dualidade de quem vive na sombra. A espionagem ainda consegue suspender o olhar.

INVEJA. De mansinho, o IndieLisboa continua a confirmar que é um dos mais sólidos eventos da vida cinematográfica nacional. A edição de 2008 parece que correu sobre rodas. Venham mais cinco!

3 de abril de 2008

OS SETE PECADOS DE... Março 2008







SOBERBA.
Já se sabia que o cinema de Douglas Sirk era uma referência em matéria de sensibilidade, emoção quase telenovelesca. Mas a forma como o realizador joga com o dramatismo de personagens imersas em modelos comunitários opressores, testa luzes, planos, sombras e assume um certo classicismo na forma de filmar foram uma boa surpresa do mês. O QUE O CÉU PERMITE é um belo exercício dramático, um filme que pode parecer presunçoso pela perfeição tanto técnica quanto narrativa. Que fazer? Dos modestos também não reza a história...


GULA. A visita a Londres permitiu descobrir também o British Film Institute, a «Cinemateca lá do sítio» que é muito bem organizado, tem um espaço junto ao Tamisa digno de registo, uma loja com livros e DVD de tirar o fôlego e uma programação muito activa. Num mesmo mês ia receber Daniel Craig ou Tony Curtis para darem palestras de cinema... Vim de lá com um «pack» de filmes de Akira Kurosawa debaixo do braço.

AVAREZA. Apesar da diferença de níveis de vida, Londres parece tratar bem a cultura. Os filme existem para todos os preços, mas a maioria dos filmes estão de 8 a 12 euros. Depois, as promoções sucedem-se com um nível de ousadia que por cá não se vê... Exemplos? Ver obras de Spike Lee, Tim Burton, Spielberg ou Hitchcock a 3 libras (cerca de 4,5 euros). Foi por esse preço que trouxe uma edição de coleccionador de «Dois Homens e um Destino».

IRA. Num espaço de menos de 30 dias, o luto do cinema estendeu-se a Anthony Minghella, ao britânico Paul Scofield (de «Um Homem Para a Eternidade») e, mais recentemente, ao cineasta Jules Dassin. Chega?

PREGUIÇA. O tempo para ir ao cinema - aquele mesmo na sala escura... - continua a escassear. Apesar disso, as duas últimas vezes renderam cada cêntimo do preço do bilhete. Tanto «Este País Não É Para Velhos» como «O Assassinato de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford» são trabalhos exemplares.

LUXÚRIA. O Canal Hollywood tem insistido em transmitir o já clássico «Instinto Fatal». Apesar de se conhecer o filme de cor, o cruzar de pernas de Sharon Stone, bem como a teia em que Michael Douglas se vai embrenhando, continua a cumprir os seus propósitos. Mas ficou por aí, porque a sequela era apenas um simulacro esbatido da pulsão sexual do capítulo original.

INVEJA. A Pixar lançou um DVD onde compila todas as suas curtas-metragens, aquelas que iniciam sempre a sessão de uma nova longa-metragem. São sempre apetitosas produções, tão perfeitas que também irritam, até porque o estúdio insiste em não falhar. Mesmo quando não acerta, é sempre muito melhor que a concorrência... Recomenda-se!

2 de março de 2008

OS SETE PECADOS DE... Fevereiro 2008








AVAREZA.
Quando se pensa que já se viu tudo, o cinema francês ainda consegue pregar algumas partidas. A descoberta em DVD deste mês foi AMOR SUSPEITO, título português inapropriado para «La Moustache», um estranho caso de esquizofrenia espoletada após um mero corte de bigode. No entanto, a acção delineada por Emmanuel Carrère não é convencional e após as primeiras linhas de paranóia realista, rapidamente desemboca na alucinação com direito a uma incursão pelo Oriente...


INVEJA. A cerimónia dos Óscares foi célere e até mais sólida do que é costume. Senão repare-se: o filme mais académico, o interessante e xaroposo «Expiação», saiu quase de mãos a abanar, deu-se finalmente o Óscar aos Irmãos Coen e os prémios de interpretação somente a actores europeus. Curioso ter premiado «Ultimato» nas categorias técnicas. Enfim, até Jon Stewart coube bem na fotografia, não escondendo as piadas políticas e gozando com a nova condição americana: afinal, além do sangrento «Sweeney Todd», os principais nomeados mostraram Javier Bardem versão «Exterminador Implacável», um melodrama «Expiação» e até um épico «Haverá Sangue». A América parece não hesitar em «mostrar as entranhas»...

GULA. Os DVD continuam a grande altura. Porém, a nova colecção do «Público» tem a sua mais-valia nos livros, 25 excelentes obras que ajudam a perceber por que é que Spielberg já não faz filmes apenas para a criança dentro de nós ou tudo (mas mesmo tudo!) o que Scorsese penou para a Academia se lembrar de lhe dar o Óscar em vida... e não cometer o mesmo erro que fez com Chaplin (agraciado apenas com um prémio honorário) ou com Hitchcock (este ficou mesmo de mãos a abanar...).

PREGUIÇA. Quando o trabalho não abranda de ritmo, o primeiro a ressentir-se é o SIN CINEMA. Por isso, a pausa. Mas a vontade de voltar a escrever foi crescendo. À mesma velocidade com que as estreias de cinema se vão multiplicando nas salas. Alguém consegue acompanhar o ritmo?

IRA. Se James Cameron é um cineasta como Truffaut ou Hitchcock, reconheço que pode ser discutível, mas que o mesmo é de primeira linha em matéria de espectáculo em larga escala, disso tenho a certeza. Foi por isso que me deliciei a rever «A Verdade da Mentira», aquele histriónico filme em que Schwarzenegger faz de espião, dança tango, assiste a uma dança erótica de Jamie Lee Curtis, mergulha no gelo, entra com um cavalo por um hotel a dentro e, uff!, pilota aviões militares por entre os arranha-céus. Falta alguma coisa? Talvez espessura dramática, mas o divertimento está cá todo!

SOBERBA. Tim Burton voltou a acertar no expressionismo com «Sweeney Todd» e contornou os espartilhos do musical. A direcção artística é excelente e Johnny Depp nunca teve uns olhos tão carregados! Mesmo com grandes meios, Burton continua a aperfeiçoar a marca autoral. Excelente!

LUXÚRIA. Não se pode considerar traição, excepto aos olhos da jovem Briony, mas é filmada como tal: a cena de sexo na biblioteca entre as personagens de Keira Knightley e James McAvoy é relativamente intensa, bem filmada e dá um toque mais lascivo a «Expiação».

1 de janeiro de 2008

OS SETE PECADOS DE... 2007









Fim de ano sem balanços não é a mesma coisa e, já sob pena de ir um pouco atrasado, aqui ficam os sete melhores pecados de 2007, por ordem de relevância. Se quiséssemos completar o «top 10», teria ainda de incluir, na 8ª posição, o português «O Capacete Dourado», em 9º «Ultimato» e, por fim, «À Prova de Morte» de Quentin Tarantino.


GULA. Já se sabe que a Pixar não tem concorrentes à altura no que à animação de prestígio diz respeito. Com um terceiro Shrek já algo estafado, o ano dos desenhos animados (e mesmo da imagem real) foi de RATATUI, talvez a melhor combinação dos últimos anos de animação de ponta com uma história irresistivelmente inventiva.

LUXÚRIA. O cinema francês voltou a transcender-se nesta nova e muito sensível adaptação do clássico de D. H. Lawrence, «O Amante de Lady Chatterley». Discreto e muito belo, LADY CHATTERLEY é ainda um sincero hino ao amor. Carnal, acima de tudo.

AVAREZA. Como desmistificar os «telhados de vidro» da classe média norte-americana? Numa espécie de anti-«Donas de Casa Desesperadas», o realizador Todd Field voltou a reincidir no melodrama para contar como Kate Winslet se envolve com Patrick Wilson. Porém, PECADOS ÍNTIMOS tem a habilidade de ir mais longe e de segredar-nos ao ouvido ruidosas incongruências de vidinhas à beira do colapso.

IRA. Que Jodie Foster é arrebatadora quando quer já o sabíamos desde «Taxi Driver». Que o volta a ser em A ESTRANHA EM MIM, também não há dúvidas quando se contempla a sua assombrosa interpretação. Além disso, neste tratado sobre os limites da violência, Neil Jordan tem o mérito de o filmar com a densidade que precisava.

INVEJA. Passou discreto nas salas de cinema mas deixou marcas: AS VIDAS DOS OUTROS, Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, é um importante filme humano sobre como regimes políticos perseguiram artistas, mas também moldaram consciências e humanizaram egos embrenhados em ideologias vigilantes. Um grande melodrama, vindo da Alemanha e que recorda quando o país estava dividido em dois.

SOBERBA. Uma perseguição em torno de um assassino em série que se torna obsessão. Não, não é «Sete Pecados Mortais», embora tenha representado o regresso em grande de David Fincher. Baseado em factos reais, ZODIAC conseguiu mostrar que as obras em torno de um crime podem ser mais cerebrais do que de mera acção.

PREGUIÇA. Para quem quis ir ao cinema e encontrar mero divertimento de acção, THE HOST - A CRIATURA foi a proposta certa do ano. Da Coreia do Sul, esta inventiva obra sobre um monstro que assola os subterrâneos tem os ingredientes certos, descontrói as fragilidades de uma família modesta e... não tem medo de filmar o monstro de perto!

2007: «Top 10» dos melhores filmes
1) RATATUI
2) LADY CHATTERLEY
3) PECADOS ÍNTIMOS
4) A ESTRANHA EM MIM
5) AS VIDAS DOS OUTROS
6) ZODIAC
7) THE HOST: A CRIATURA
8) O CAPACETE DOURADO
9) ULTIMATO
10) À PROVA DE MORTE

2 de dezembro de 2007

OS SETE PECADOS DE... Novembro 2007







AVAREZA.
As descobertas nas lojas de DVD em segunda mão continuam. Numa tarde cinzenta, descubro por entre muitas obras repetidas, o clássico AS IRMÃS DE GION, de Kenji Mizoguchi por meros cinco euros. Trata-se da história de duas orientais que decidem encontrar «ricos patronos» para as suportarem, livrando-se uma delas de um homem que a faz perder tempo e dinheiro. Curioso como sou pelo cinema oriental, senti que voltei mais uma vez a contornar o sistema: este clássico vale pelo menos o triplo do valor por que o comprei!


IRA. Vai inteirinha para a composição de Jodie Foster em A ESTRANHA EM MIM (ainda há traduções livres em português que funcionam, esta é uma delas!). Dirigida por Neil Jordan, a actriz convence na pele da mulher atormentada pela morte abrupta do noivo que se transforma num ser diferente e irracionalmente vingativo. O trabalho de Foster é soberbo, mas a realização de Neil Jordan também é merecedora de todos os elogios. Aqui, a vingança serve-se fria, principalmente quando o sangue gela.

SOBERBA. Mês de Novembro rima cada vez mais com Natal e começa a ser particularmente irritante as estreias obrigatórias dos filmes para toda a família a pensar na época. Como já não há «O Senhor dos Anéis» e «Harry Potter» só para o ano, os produtores tratam de resolver a questão e colocam em exibição um par de filmes que podem ter os seus méritos, mas que são colados ao rótulo de «filmes do fantástico» para justificar o aparato de meios e efeitos especiais. É o caso de BEOWULF ou a ESTRELA DOURADA, obras que ainda não vi mas que já considero o «marketing» de duvidosa orginalidade.

GULA. A reposição de ERASERHEAD no cinema (ainda que na mais discreta sala da capital...) deixa um bom prenúncio: a arte de reviver clássicos ou descobri-los pela primeira vez tem sido um esforço que o produtor Paulo Branco tem conduzido com mérito. Graças a ele, obras de Antonioni, Tati ou Visconti puderam ser recordadas na sala escura. Agora foi a vez de Lynch, mesmo que a experiência seja um caótico e bizarro encontro com a mente abstracta do cineasta. Mesmo assim, queremos mais!

PREGUIÇA. Efeito secundário de se ter adquirido uma televisão de grandes dimensões: não querer saltar do sofá e procurar ver todos os filmes da videoteca, comprados há meses, mais ainda sem tempo de os disfrutar. O LCD é entretenimento puro... e torna-nos mais caseiros.

LUXÚRIA. O triângulo amoroso entre Cate Blanchett, Clive Owen e Abbie Cornish são o amor impossível do mês, apesar da oportunidade desperdiçada de se criar um genuíno retrato sentimental. ELIZABETH-A IDADE DE OURO é um filme histórico sumptuoso, com bons actores, mas falta algo fundamental no cinema: a emoção.

INVEJA. As estreias estão a multiplicar-se todas as semanas. Começa a ser bastante frequente a semana em que chegam aos ecrãs seis ou sete filmes novos. Algo que reflecte maior oferta, mas que dificulta quem gosta de ir ao cinema uma/duas vezes por semana e, mesmo assim, ficar a par do que de bom se vai fazendo. Quem o consegue são os críticos, pagos para verem diariamente o que os outros se têm de desdobrar (e roubar horas ao sono) para fazer. Se a inveja matasse...