30 de dezembro de 2008

OS SETE PECADOS DE... 2008

Foi um ano de bom cinema do mundo, razoáveis propostas com génese em Hollywood, mas de menores idas à sala escura. É certo que foi período de crise, mas nada de falhas em matéria de criatividade. Para completar o «Top 10» há ainda que referir «A Turma», «4 Noites com Anna» e o simpático «Filho de Rambow: Um Novo Herói», cuja crítica não deve tardar. E venham mais filmes!

AVAREZA. O realizador turco Fatih Akin já é um cineasta extraordinário, mas anteve-se um futuro radioso. A obra do ano chama-se DO OUTRO LADO e é um conto melancólico sobre vidas divididas entre a Alemanha e a Turquia, ao mesmo tempo que se enleia a morte numa teia muito bem urdida. Há contenção de meios, mas não de ideias cinematográficas. O cinema-emoção tem aqui a sua cartada mais forte.

SOBERBA. Olhar o futuro pode dar azo a muitas interpretações, mas certamente redutoras quando comparadas com a visão da Pixar. WALL-E foi a surpresa animada do ano, que apostou em silêncios e muita metáfora existencialista ao dar um enorme coração ao boneco electrónico dos olhos tristes, que se apaixona por uma robot topo de gama. Carregadinho de conceitos e acção elaborada, o filme vai sair de Óscar debaixo do braço. Afinal há futuro para o desenho animado!

INVEJA. Num só ano, dois filmes dos irmãos Coen. Mas o melhor veio antes: ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS representa o regresso às origens da dupla, que voltam a mostrar ser única na altura de descontruir o thriller enraizado no medo, no engano e na figura do perdedor. Levou as principais estatuetas douradas para casa e revelou o pior penteado de sempre... o de Javier Bardem. Já é um clássico.

PREGUIÇA. Podem acusar Wes Anderson de estar preso a um estilo. Nesse contexto, THE DARJEELING LIMITED é um caso de imensa preguiça. Mas da boa para os aficionados da gestão dramática assente nas relações familiares despedaçadas, nos enquadramentos estáticos, nas falas lacónicas e pejadas de ironia e nos décors muito ricos em pormenores estéticos. Adorar esta história tem algum mal? É o filme cool do ano.

IRA. Tentar fugir às regras do mundo ocidental pode dar mau resultado... mas um belo filme. Sean Penn foi longe neste O LADO SELVAGEM, um conto trágico, baseado em factos reais, sobre a vontade de ter a alma (e o corpo) livre de vícios e apegos, mas correndo-se o risco de perder a própria humanidade. Emile Hirsch tem um dos desempenhos do ano. Mas é a própria visão estilhaçada de Sean Penn que dá mais consistência à obra

GULA. Tim Burton gosta de sangue... e a sua veia negra encaixou como uma luva nesta adaptação sumptuosa de SWEENEY TODD, um musical soberbo com Johnny Depp novamente em auto-superação. O cuidado plástico é único e a veia gótica também ainda lá está. As perversas empadas são a gulodice errante do ano.

LUXÚRIA. Espanto de 2008: O SEGREDO DE UM CUSCUZ. É certo que também pode ser entendido como caso de gula, mas é principalmente um belo retrato humano sobre pessoas desajustadas. São os laços familiares que se testam aqui, por onde passam suspeitas de traição. No entanto, este grandioso melodrama é um filme de personagens. Que merecem todo o respeito.

TOP 10 de 2008
1 - DO OUTRO LADO
2 - WALL-E
3 - ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS
4 - THE DARJEELING LIMITED
5 - O LADO SELVAGEM
6 - SWEENEY TODD
7 - O SEGREDO DE UM CUSCUZ
8 - A TURMA
9 - 4 NOITES COM ANNA
10 - FILHO DE RAMBOW: UM NOVO HERÓI

27 de dezembro de 2008

O QUE AÍ VEM...O Caso de Benjamin Button

SOBERBA. «Chamo-me Benjamin Button e nasci em circunstâncias peculiares. Enquanto toda a gente ganhava idade, eu ia ficando mais novo... sozinho.» BENJAMIN BUTTON (Brad Pitt)

Falta ainda cerca de um mês para conhecermos o filme que está nas bocas de todos e é tido como o grande favorito para a próxima temporada de festivais - primeiros sinais? Já recebeu cinco nomeações para os Globos de Ouro. O que é certo é que, independentemente dos galardões, este melodrama extremamente sensível já merecia toda a atenção por representar a entrada de David Fincher neste género.

Espera-se que o realizador de «Se7en» ou «Clube de Combate» seja capaz de reinventar o drama existencial como o fez, quer com o filme de suspense puro, quer com o policial cerebral (sim, estou a referir-me a Zodiac).

De acordo com as primeiras críticas, parece que sim... e o tom fantástico da história, que culmina com um amor impossível, só lhe dá nuances que estávamos à espera de ver pela mão segura e multicriativa de Tim Burton, por exemplo, mas que não se esperava de um realizador aparentemente agarrado a um realismo cru, comprometido com as falhas interiores, e adepto da violência. E o que nos conta O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON? A vida bizarrra de um homem que nasce idoso e... à medida que os anos passam vai rejuvenescendo.

Uma antítese que servirá também para gerar interrogações sobre o sentido da vida. Depois, ao que parece, há um desempenho muito elogiado de Brad Pitt, cada vez mais empenhado em tornar-se um actor que gosta de arriscar e não se importa nada em ocultar a imagem de sex symbol que muitos (ou melhor, muitas) têm dele, e outro de Cate Blanchett - qual é a novidade?

Ainda assim, é o drama inscrito numa triste fantasia que parece estar a convencer multidões e a dar mais uma achas para o rótulo de «melhor cineasta da sua geração em Hollywood» a David Fincher. Quanto ao mote da história, é curto e muitíssimo eficaz: «A vida não se mede em minutos, mas em momentos.»

26 de dezembro de 2008

NA SALA ESCURA: A obsessão de olhar






INVEJA.
«A única coisa mais terrível do que a cegueira é ser a única pessoa que consegue ver.» MULHER DO MÉDICO (Julianne Moore)

Neste final de ano cinematográfico houve duas belas (e muito tristes) histórias com o denominador comum que é a força do olhar. Algo que permite pensar que é esse mesmo sentido que possibilita ao cinema ser a força que é. É pelo olhar que tudo se constrói, que se desfazem dúvidas, até porque, e apesar de poder dar azo a interpretações erróneas, é também o único meio utilizado para erradicar os últimos vestígios de dúvida.

Numa altura em que proliferam as imagens e em que o dito olhar se disciplina em função de múltiplos ecrãs, é interessante que o cinema também procure reflectir sobre as consequências de ver e ser visto.

QUATRO NOITES COM ANNA, do polaco Jerzy Skolimowski, e ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, do brasileiro Fernando Meirelles, têm ainda a mais-valia de serem obras com a sua essência longe de Hollywood - é certo que o segundo caso é uma produção norte-americana, mas à parte de alguns actores, toda a equipa técnica veio dos quatro cantos do mundo. Este é um facto que permite entender as imagens sob uma outra perspectiva e os resultados são diversos - embora igualmente enriquecedores.

No caso de QUATRO NOITES COM ANNA, a noção de olhar é proibida, ou melhor o protagonista desta desesperada história de amor (que caminha a passos largos para a obsessão) quer ver à força a intimidade de uma mulher por quem nutre uma paixão avassaladora. Léon Okrasa (excelente na contenção, Artur Steranko) é um homem triste, com uma noção do real algo atabalhoada, que trabalha no crematório de um hospital - na sequência desta profissão, o início da história aparece estranho.

Aos poucos, fica-se a saber que houve uma violação e que a vítima desse facto é uma jovem enfermeira que trabalha no mesmo hospital. Mais à frente, percebe-se que a mulher de cabelos louros é o interesse romântico deste homem, que aproveita as noites para entrar no seu quarto e contemplá-la longa e ternamente. E é assim que se cria um amor impossível, em que só um olha, tentando daí extrair uma intimidade forçada.

As cenas agenciam-se de forma mais expressionista do que cronológica. Algo que aumenta a intensidade de uma obra que se inscreve precisamente no território das emoções, dos afectos desesperados e que precisa do olhar para concretizar o amor. No meio desta panóplia de sentimentos e actos proibidos, o final não pode ser pacífico...

Já em ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, a missão era hercúlea: adaptar o romance aparentemente inadaptável que é a obra de José Saramago. O brasileiro Fernando Meirelles disse sim e seguiu em frente num dos mais arrojados projectos dos últimos tempos... A história de Saramago parte de uma cegueira colectiva para ajudar a reflectir sobre a Humanidade. Pois bem, o filme capta inteiramente essa essência e dá-lhe uma força conotativa justamente por passar a mensagem em imagens.

Para lá das diferenças entre um livro e um filme, a obra resolve a problemática da cegueira muito bem, expõe todos os medos e inseguranças, transmite a degradação com particular atenção e mostra as personagens assumidas com particular sentido dramático, graças aos esforços de um painel de actores talentosos - com natural destaque para a virtuosa Julianne Moore, uma das actrizes de primeira linha que ainda gosta de arriscar... E é pela personagem da mulher do médico que a problemática do olhar ganha outra dimensão, dado ser ela a única que vê numa terra de cegos. E não, ela não é rainha: é antes a única (naturalmente, além do espectador) que vê as últimas consequências do que é agir sem ver e pior - pensando que mais ninguém o vê!

Apesar das múltiplas críticas, a obra é sólida e faz jus ao património literário de Saramago. Assim, e apesar de serem projectos distintos, estes dois filmes têm algo que os une: fazer pensar sobre os limites do olhar. E eles não são assim tão estreitos.

4 NOITES COM ANNA
De Jerzy Skolimowski (2008)
* * * *
O produtor Paulo Branco continua a saber escolher os cineastas com quem escolhe trabalhar. É certo que Skolimowski estava parado há algum tempo, mas o modo soberbo como constrói planos, ambientes e desmonta os cânones dos afectos tornam este trabalho num dos mais sólidos deste fim de ano. É um belíssimo tratado de amor e sobre até que ponto a ingenuidade pode ser perversa. Da Polónia chega-nos um conto desencantado. Que mostra os tormentos de um homem que quer apenas ser aceite.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
De Fernando Meirelles (2008)
* * * *
Foi o filme-polémica deste último trimestre, mas merecia mais apoio. O realizador brasileiro de «Cidade de Deus» continua a mostrar talento e vontade em elevar as imagens para um plano pouco coincidente com as regras de Hollywood. E é isso que se volta a encontrar nesta tocante e merecedora de aplauso adaptação do romance de José Saramago. «Ensaio Sobre a Cegueira» é um apelo aos sentidos, ora grotesco ora sensível. Muito bom tecnicamente, tira ainda partido da força da natureza que é Julianne Moore.

23 de dezembro de 2008

ILUSÕES DE ÓPTICA: O melhor no Natal

OS MEUS POSTERS: Bad Santa























GULA.
Para assinalar a presente época, escolhi desta vez um filme que é um pouco uma ironia face ao consumismo, o simpático BAD SANTA. Mas, a maior de todas as ironias é que o protagonista acaba por render-se aos seus valores e... ao coração. No fundo, somos todos iguais.

20 de dezembro de 2008

Os 10 melhores filmes segundo Tarantino







SOBERBA.
«Quando as pessoas me perguntam se estudei numa escola de cinema, respondo que não, que aprendi a ver filmes.» QUENTIN TARANTINO

Ainda existem boas ideias: habituada a listas dos «melhores de sempre», a revista britânica «Empire» lançou recentemente os 500 filmes mais importantes de todos os tempos, numa edição ambiciosa que contemplou 100 capas distintas - já antes me referi a esta exuberante edição... Para celebrar o momento, a revista foi ainda mais longe e pediu a pessoas influentes do ramo cinematográfico para também anunciarem a sua lista de filmes preferidos.

O realizador Quentin Tarantino foi um dos convidados e aceitou partilhar o seu «top 10».
O primeiro lugar pertence a O BOM, O MAU E O VILÃO, de Sérgio Leone.

Segue-se um outro
western «Rio Bravo», e «Blow Out», filme de Brian de Palma. O quarto lugar é de «Taxi Driver», de Scorsese, seguidos da paródia «O Grande Escândalo», a obra oriental «5 Fingers to Death», «A Caixa de Pandora», a obra de terror «Carrie», «Odeio-te Meu Amor» e o subtil filme de guerra de Billy Wilder «Cinco Covas no Cairo».

19 de dezembro de 2008

OS MEUS POSTERS: Imperdoável
























IRA.
Uma boa notícia deste final de ano acinzentado pela crise: a Cinemateca está a dar o destaque que Clint Eastwood merece. Recordar a sua carreira ao detalhe é percorrer algumas das melhores memórias de Hollywood. E IMPERDOÁVEL é daqueles clássicos que ficam...

15 de dezembro de 2008

CINEFILIA: As cinco promessas de Dezembro





SOBERBA.
Mês de Natal não é sinónimo de estreias pomposas, até porque os filmes que mais se aproximam das principais categorias para os Óscares e outros festivais de peso só chegam a Portugal lá mais para a frente... O que sobressai na colheita pré-natalícia é muito bom cinema de autor, uma recomendável animação e o esperado regresso de Baz Lurhmann.

-EU QUERO VER: Um documentário peculiar é o que se pode dizer deste filme feito a meias entre Joana Hadjithomas e Khalil Joreige. É através do olhar amadurecido de Catherine Deneuve (que se interpreta a si própria) que se tenta descortinar mais o conflito do Médio Oriente. Uma certeza: a tensão impõe-se, numa guerra sem fim à vista.

-FOME: Já é dos filmes mais elogiados deste ano este trabalho do artista plástico com um nome que nos traz outras recordações - Steve McQueen. O duro retrato de uma prisão no Norte da Irlanda recorda a greve de fome do IRA em 1981. O cinema faz-se à custa da dor.

-AUSTRÁLIA: Chega lá mais para o final do ano este regresso muito esperado do realizador de «Moulin Rouge». É certo que é um épico de fortes convicções - predominam as alusões a «E Tudo o Vento Levou» - e até tem um casal sonante. Mas há quem defenda que este novo filme de Nicole Kidman e Hugh Jackman pode ser uma das grandes promessas falhadas deste final de ano. Será?

- QUATRO NOITES COM ANNA: Já estreou em Novembro, mas recomendo este crepuscular filme polaco. É uma história sobre obsessões, muito bela, com o realizador Jerzy Skolimowski a mostrar-nos como o amor pode ser terno e demente. É intenso, da primeira à última cena.

- BOLT: Ligeirinha, esta comédia da Disney (para lá da Pixar...) habilita-se a ser o filme de animação mais interessante deste mês natalício. O segundo «Madagáscar» que se cuide, porque o herói deste 2008 é um cão que esbate com a aventura. Está já nomeado para o Globo de Ouro de Melhor Filme de Animação.

7 de dezembro de 2008

ILUSÕES DE ÓPTICA: Oliveira por Wenders

OS SETE PECADOS DE... Novembro 2008

GULA. É a altura certa para todas as homenagens: os cem anos de Manoel de Oliveira, que se celebram a 11 de Dezembro, já deram origem a um tributo de respeito. A caixa de DVD recentemente lançada, que contém 21 longas-metragens (algumas das quais, nunca antes editadas em formato digital), livros e documentários merece ser vista com toda a atenção. É uma edição de luxo consistente e apropriada, que nos recorda o século de um cineasta, nem sempre bem aceite, mas fundamental para se entender o cinema português desde a sua génese. Uma boa ideia!

SOBERBA. Juntar a voz de Jack White, dos White Stripes, à soul de Alicia Keys pode não ter parecido a melhor das ideias, mas o resultado do tema do último filme de 007, Another Way to Die, é bastante acima da média. E tem um power que assenta como uma luva ao James Bond com cara de poucos amigos de Daniel Craig.

AVAREZA. Com poucos meios, um grande filme. Volto a insistir em «A Turma», o belo filme que se apresenta em jeito de documentário, mas que quer ser, antes de mais, uma poderosa reflexão sobre a escola e o que é aprender. O realizador Laurent Cantet soube filmar este espaço, cenário de muitas mudanças... e polémicas.

IRA. A crítica lançou-se com unhas e dentes a «Ensaio Sobre a Cegueira», de Fernando Meirelles. As acusações de que simplificam demasiado a obra de Saramago, esvaziando-lhe o seu sentido alegórico é inteiramente exagerada. Um filme é um filme, um livro é um livro. E já se tornou fácil criticar as adaptações, dada a densidade de um bom livro que é impossível de recriar em filme. Pois bem, gosto de ir contra-corrente: a nova obra do realizador de «Cidade de Deus» é um poderoso trabalho, muito cuidado tecnicamente e, sim, que faz juz à excelente narrativa semi-apocalíptica de Saramago. É certo que o livro vai muito mais fundo na análise das consequências de uma misteriosa cegueira, mas Fernando Meirelles capta muito bem os lugares turvos da moralidade e os dilemas de uma nova (e perversa) noção de comunidade. Depois, há uma excelente fotografia, um enorme e meritório esforço em ilustrar a cegueira descrita pelo Nobel português e boas interpretações - com particular ênfase para a extraordinária Julianne Moore. Um grande filme, injustamente condenado.

LUXÚRIA. Ao recordar os primeiros filmes de Woody Allen, voltei a deliciar-me com os jogos «orgásmicos» entre Diane Keaton e Woody Allen (entre outros)... num futuro «já algo nostálgico», em que o prazer carnal surge ao carregar num botão. Hilariante!

INVEJA. Um CD adquirido recentemente compila a música dos muitos filmes de Pedro Almodóvar. As memórias cinematográficas que as canções nos convocam também remetem para o excelente bom gosto do realizador espanhol. Que usa a música como outra espécie de imagem, além de procurar ir às raízes da «sua» Espanha.

PREGUIÇA. As matinés de fim-de-semana dos canais privados estão cada vez mais sensaboronas. Além de repetições de êxitos que já se viram dezenas de vezes, os ditos canais ainda decidem exibir os referidos filmes contra todas as antevisões anunciadas nas secções de televisão de jornais e revistas.

3 de dezembro de 2008

NA SALA ESCURA: Ensinar a aprender







INVEJA.
«Os professores também têm a sua linguagem e é preciso ver como é que essas duas linguagens, a deles e a dos alunos, conseguem coexistir.» LAURENT CANTER in DN

Numa altura em que a realidade escolar está ao rubro, passou pelas salas de cinema um filme que rompe com os cânones da ficção e do documentário, ao articular as duas realidades num esforço meritório para pensar a escola em toda a sua complexidade.

A TURMA, de Laurent Cantet, é um documento de visionamento obrigatório, por olhar para a realidade do ensino sob o ponto de vista do professor, sem descurar a multiplicidade de linguagens inerentes a alunos à procura de uma identidade
.

Sim, é ficção, mas os actores interpretam-se a si próprios - o professor é mesmo professor, os alunos são mesmo alunos. Além disso, nos muitos atributos deste filme, que arrecadou a Palma D'Ouro, está também uma bonita realização de Laurent Cantet que soube tirar partido da sala de aula como espaço cénico.

É ela o palco para estas figuras se moverem num duelo que se constrói e descontrói todos os dias, enquanto se
procura ir mais longe na vontade de aprender. Sim, todos aprendem. E o professor, vivido por François Bégaudeau, é o primeiro a reconhecê-lo. É do seu olhar que tudo parte e é pelo seu olhar que o espectador percebe que a escola é um lugar delicado. Onde se fazem pessoas e cinema. A sétima arte anda aqui de mãos dadas com uma noção genuína de serviço público.

Sim, esse conceito difuso e polémico encaixa aqui na perfeição. Como numa equação matemática.


Outra crítica AQUI

A TURMA
De Laurent Cantet (2008)
* * * *

É já um dos filmes do ano, este olhar realista para o universo da escola. Para lá da sua forma documental, está uma génese ficcional bem urdida, com excelentes enquadramentos, diálogos ajustados e um sentido de denúncia social. Devia ser exibido em todas as escolas. Talvez as fiquemos a entender melhor...

25 de novembro de 2008

QUIZ: O que liga estas três imagens?








A pedido de alguns, regresso à velha modalidade do passatempo difícil de resolver, rebuscado e «pica-miolos». Quem descobrir, é porque precisa de companhia: está a perder demasiado tempo com a ficção...

Solução do QUIZ anterior: Um Divã em Nova Iorque (1996), de Chantal Akerman.

23 de novembro de 2008

Um festival grandioso na sua discrição







SOBERBA.
«Só por razões extraordinárias é que não se fará outra edição do Estoril Film Festival.»
PAULO BRANCO

A segunda edição do Estoril Film Festival chegou ao fim e é altura de balanços. A questão é só uma: alguém entendeu a gestão deste evento, que tem a pujança de um grande espaço de reflexão de cinema, nomes sonantes a condizer, e uma oferta variada, feita a pensar em largas faixas de público? Eu não.

É que tal como apareceu do nada, este grandioso evento, que segundo a organização contou com 20 mil pessoas neste ano, parece continuar à margem em matéria de preparação, divulgação, envolvimento com o público.

Sim, este ano ouviu-se falar. Páginas inteiras de imprensa foram dedicadas ao certame mas Paulo Branco, e tendo em conta a pessoa influente que é, continua a parecer que gosta de que o festival surja de forma atabalhoada e desapareça quase sem deixar rasto. Por cá, conseguem-se fazer coisas muito boas, como é o caso do Fantasporto, do IndieLisboa e do DocLisboa.

Há organização, empenho, edições comemorativas e um envolvimento com um espaço urbano.

No caso do Estoril Film Festival, parece que os nomes grandiosos (e preciosos) que por cá passaram - do calibre de Catherine Deneuve, Stephen Frears, Paul Auster ou Bernardo Bertolucci - são subaproveitados.

Há espaços de debate, masteclasses e tudo isso, mas onde está a vontade de abrir tudo isso ao reconhecimento, à ovação, à surpresa? Estaremos assim de costas tão voltadas para o cinema?

Tenho pena que a tendência se tenha duplicado, mas espera-se que o que aí vier venha com uma atitude mais ajustada perante a realidade nacional e uma vontade de criar envolvimento. Não basta trazer vultos do cinema, é preciso também espectadores. E o Estoril Film Festival tem tudo no sítio para ser muito maior e bem recebido.

Até porque ninguém duvida que Paulo Branco é um produtor visionário, o nome mais elevado de uma indústria que praticamente não existe. Mas existe curiosidade. E essa ainda não foi satisfeita.

NA SALA ESCURA: Crime na era digital







IRA.
«O mundo inteiro quer ver-te a morrer e nem sequer te conhece» OWEN REILLEY (Joseph Cross)

Sinal dos novos tempos em que, no centro de tudo, está uma atormentada Diane Lane, actriz que se tem conseguido manter à tona e que agarra a oportunidade de ser o corpo à disposição de uma intriga que quer alertar para o lado perverso da tecnologia.

A sua personagem é sólida, bem dirigida, mas dificilmente se eleva na história.

INDETECTÁVEL, ao contrário da maioria dos restantes trabalhos de Gregory Hoblit, experiente realizador de filmes de suspense (com «A Raiz do Medo» ou «R
uptura» como pontos altos do seu currículo), é demasiado aproximado da lógica televisiva, prefere os lugares seguros à ousadia dramática e nunca se desprende dos filmes que já conhecemos de cor.

A dimensão é típica de séries como «C.S.I.» e, apesar do clima ser frenético, não chega para preencher todas as medidas
.


É certo que há um cuidado plástico latente, reviravoltas suficientes para manter a tensão, personagens que se movem com a dinâmica de um são policial e até bons planos (e mais ágeis do que seria de supor). Mas nem sempre chega. Ou melhor, é insuficiente para erguer esta proposta até um outro plano que não o do entretenimento ligeiro.

Outra crítica AQUI

INDETECTÁVEL
De Gregory Hoblit (2008)
* *
Eficaz, mas pouco surpreendente.
A obra estreou-se há largos meses nos Estados Unidos e portou-se de forma modesta. A sua premissa e a forma de olhar para o fenómeno da Internet merecem atenção. O resto dificilmente será para mais tarde recordar. Até porque o que não falta, na televisão, são episódios em tudo semelhantes a este filme. Mesmo que sem o empenho e a frescura de Diane Lane.

19 de novembro de 2008

OS MEUS POSTERS... Ponyo on the Cliff























GULA.
Quem é fã do onirismo de Hayao Miyazaki pode começar a salivar. O criador de «A Viagem de Chihiro» tem pronto um novo trabalho que em tudo replica o estilo: animação de traço simples e fantasia. PONYO ON THE CLIFF mete uma criança de cinco anos a relacionar-se com uma princesa presa a um aquário... Aqui, faz tudo sentido.

16 de novembro de 2008

NA SALA ESCURA: Retrato a meio caminho







PREGUIÇA.
«Quem é que tu pensas que és... um Kennedy? És um Bush. Age como tal.»
GEORGE BUSH (James Cromwell)

A crítica vem no rescaldo do aparato mediático que foi, mais uma vez, a eleição presidencial dos Estados Unidos. Algo que ganhou outra dimensão devido à crise financeira mundial, que força o mundo a olhar para a ainda maior economia com um misto de expectativa e incredulidade, tanto culpando-a do desaire financeiro como exigindo uma resolução rápida para algo que começa a sentir-se na economia real.

Ao construir W, Oliver Stone não previu este desaire final para o mandato de George W. Bush, que será, certamente, um dos pontos fulcrais a ficarem na História, desde a sua eleição. E no fundo mais um reflexo, ou de acordo com os seus detractores, um culminar de uma política impulsiva, pensada em função de objectivos estratégicos pouco condescendentes com segundas opiniões.

Bush errou. E errou em pontos que não podia errar. Já para Oliver Stone, e de acordo com a sua última obra, o texano errou de facto, tem muitos defeitos, é um bronco, mas... é assim, pronto!
O que se há-de fazer?

É nesta indecisão e desculpabilização forçada que o trabalho peca.

É certeiro na encenação de algumas medidas, no tropeção de Bush em muitos pontos da sua agenda política, mas falta-lhe ambição em assumir um ponto de vista. Seja em que direcção for. A indiferença em querer tomar uma posição compromete W, torna-o um objecto caricaturalmente interessante, mas despojado de vigor, de linha de orientação.

Oliver Stone, que tem um passado bem sucedido em matéria de análise dos pontos fracos do seu país, parece ter amolecido no seu engenho.

Neste filme volta a ter alguns rasgos na realização (há um cuidado na conjugação de cenas a ter em conta e pormenores deliciosos como a introdução do tema musical «Robin Hood» a meio da acção), mas fica-se a meio caminho.

E a opção só pode ser entendida como preguiça de chegar mais longe, do que vontade em não querer ceder a maniqueísmos. Se foi este o desígnio, foi mal escolhido.

Outra crítica AQUI


W
De Oliver Stone (2008)

* *

Depois de ir à ferida do 11 de Setembro, Oliver Stone decidiu lançar-se no retrato político de uma das mais controversas figuras presidenciais. E constrói essa imagem desde a origem, na tentativa de nos fazer perceber muitas das atitudes do ainda presidente dos Estados Unidos. Apesar de alguma força na sátira, Stone poupa a figura que convoca e isso gera uma fraqueza que quase se torna insustentável no filme. O seu olhar é desprovido de intenção, o que não funciona dado o protagonista em questão ser o Presidente dos EUA. Salva-se a entrega de Josh Brolin e muitos pormenores técnicos.

O MAIOR PECADO DE... Oliver Stone







SOBERBA.
«'Alexandre' é tão ridículo, que se torna difícil de saber por onde começar a listar as suas infelicidades.» MTV

A propósito da estreia recente de «W», é bom recordar os méritos de Oliver Stone como realizador. É provavelmente um dos cineastas vivos mais interessantes e talentosos, não só pela temática densa dos seus filmes, como também pela argúcia que manifesta na construção de planos, no seu agenciamento, e no olhar magnético que detém em função do poder da imagem.

Mas, também na sua carreira memorável (não esquecer os excelentes e já clássicos «Platoon - Os Bravos do Pelotão», «Salvador», «Nascido a 4 de Julho», «JFK» e até, à sua maneira, «World Trade Center») há um ou outro passo em falso.

O maior de todos? ALEXANDRE, um épico desmesurado, em que Oliver Stone não conseguiu desprender-se da sua escala e estampou-se numa má escolha de elenco, cenas penosamente longas, adereços que ridicularizam as personagens (a cabeleira de Colin Farrell foi comparada à de Doris Day...), diálogos minimalistas e ridículos e, acima de tudo, uma estrondosa falta de visão.

Ainda hoje, Oliver Stone tenta levantar-se deste desaire, até porque o investimento foi grande. E quanto mais se sobe, maior é a queda. Um realizador principiante teria ficado comprometido para sempre, mas como se trata de um dos grandes cineastas norte-americanos, a coisa até tende a ser esquecida.

A história? Relatar os feitos épicos de Alexandre, o Grande, que dominou grande parte do mundo conhecido, conquistando milhares de quilómetros e dominando territórios em menos de um década.

Tudo começa a lembrar Orson Welles em «Citizen Kane», por termos uma morte que nos leva a querer saber como foi a vida que ficou para trás. Mas os vícios da homenagem épica estão cá todos. Depois, temos uma Angelina Jolie e um Val Kilmer «à nora» nas suas caricaturas, um penoso Anthony Hopkins e até a suposta homossexualidade do herói é tratada sem querer comprometimento e à luz de uma troca de olhares bacoca.

É certo que há vigor nas cenas de luta, que se denota um esforço na reconstituição de época e que até Colin Farrell faz de tudo para ser convincente. Mas não resulta! De todo.

O que é certo é que, a partir deste enorme flop, os grandes estúdios começaram a relativizar a força de obras como «Gladiador» e «Tróia», dois êxitos de massas, enquanto Oliver Stone procurou voltar a olhar para as fragilidades do seu país, sempre numa escala que não obnubile a sua visão de cineasta.

Críticas de Fugir:

- NEW YORK OBSERVER: Com um custo de 155 milhões de dólares, «Alexandre» qualifica-se como um super-espectáculo em todos os pontos menos em um: no seu neurótico e confuso herói.
- CINEMA EM CENA: Oliver Stone revela uma decepcionante tendência para o melodrama.
- FILM EXPERIENCE: Apesar de alguns rasgos de imaginário vivio e carisma, «Alexandre» não está nem perto de ser «grande».
- BANGOR DAILY NEWS: Grande e desarranjado. Se gosta de uma enorme fatia de falta de controlo em Hollywood, pode ser que aprecie o filme.

15 de novembro de 2008

ILUSÕES DE ÓPTICA: A razão de ser Tim Burton

Dar umas luzes aos irmãos Lumière (IV)











Caros irmãos Lumière,

Há experiências que nos marcam sem darmos quase por elas, como um filme que, ao sair da sala parece esquecido, mas que mais tarde as reminiscências nos levam a perceber que a experiência sentida na sala escura foi mais viva do que se poderia supor.

Senti isso quando fui destacado para assistir a uma aula que o cineasta britânico Stephen Frears veio dar a Lisboa em Julho de 2005, aos alunos de um curso de cinema na Fundação Calouste Gulbenkian.

Conhecia o realizador pelo seu prestígio, a sua forma confessional de fazer filmes, a vontade de trilhar géneros com a maturidade de quem domina a arte das imagens com a fluidez necessária para o puro desfrute de um visionamento.

Pois bem, o cineasta de «Ligações Perigosas», «Anatomia do Golpe» ou «Alta Fidelidade» revelou não só a grandeza dos grandes criadores como a humildade de conseguir falar sobre o seu engenho perante uma plateia de aspirantes.

E o que nos disse ele? Que «em Hollywood se fazem filmes como se fazem carros», que é sempre o primeiro membro do público a testar uma história e que, ao fazer um filme, é preciso estar ligado e distante ao mesmo tempo. «Essa separação que, por exemplo, Woody Allen não consegue fazer.»

Stephen Frears pareceu, a espaços, um daqueles grandes artistas a quem se tenta retirar mil e uma ilações sobre o seu trabalho, mas que ao tentar explicá-lo se reduz a respostas «porque sim».

Mas há mais pérolas: com um passado feito na televisão, o realizador desmistificou os preconceitos do pequeno ecrã como um meio menor, dizendo que a especificidade está no facto do cinema obrigar as pessoas a saírem de casa, enquanto o televisor não implica esse esforço.

A sua simplicidade, e provavelmente o segredo do seu sucesso, levaram-no a reconhecer que ainda não tem muito talento para a escrita de argumentos e, por essa razão, respeita o guionista, da mesma forma que «deixa os actores fazerem o seu trabalho».

O segredo é reunir-se das pessoas mais talentosas e não fingir saber mais do que lhe compete. Ao fim das primeiras palavras, uma plateia rendida.

Stephen Frears, entretanto ovacionado com «A Rainha» (pelo qual chegou a ser nomeado para o Óscar de Melhor Realizador), volta a Lisboa, no âmbito do European Film Festival, no Estoril, para mais um encontro para partilhar experiências. É bom encontrarmo-nos com o cinema. E Stephen Frears permite isso.

Recordo-me ainda que, quando questionado nesse mesmo encontro, sobre o segredo para um bom filme, o cineasta sublinhou que tudo passa por clarificar as coisas desde o começo, concretizando-as de modo nem sempre convencional.

E lembrou um célebre plano-sequência. Aquele que inicia a obra «A Sede do Mal», de Orson Welles, em que por breves segundos se observa um homem a colocar algo num contentor que se revela, minutos depois, uma bomba. O bom cinema é isso: um engenho explosivo para o olhar!

12 de novembro de 2008

NA SALA ESCURA: Caminhos vão dar a Paris







SOBERBA.
«Vejo as outras pessoas a viver. Questiono-me sobre quem serão, para onde vão? Tornam-se heróis nas minhas pequenas histórias.» Pierre (Romain Duris)

Acusam-no de ter um estilo manipulatório e caricatural, mas ele continua a sair-se bem na construção de mosaicos. Até parece que Cédric Klapisch não se consegue desprender deles, precisando de várias figuras para dizer ao que vem.

PARIS volta a insistir na fórmula, já explorada (de forma mais impulsiva) em «A Residência Espanhola» e respectiva sequela.

Os tempos são outros, de melancolia, e aquilo que este novo trabalho ambicioso consegue mostrar é uma forma cautelosa de pensar a morte.

O tom é até adocicado perante tão violenta premissa, mas Klapisch é engenhoso na forma como expõe a doença do protagonista (novamente o excelente Romain Duris, em registo particularmente frágil) mas mais ainda no modo como cruza as restantes personagens no seu caminho.

Cruza e descruza porque a beleza neste retrato urbano está na força também do desencontro, fazendo-nos lembrar que um fim gera novos começos.

Mais do que homenagear uma cidade, palco quase secundário perante as vidas que se expõem sem pedirem licença, o que se faz aqui é homenagear valores, sensações, enganos. A força de estar vivo.

Além da boa encenação, o filme tem uma forte mensagem que vale pela sua simplicidade. Depois, ao trazer desempenhos sentidos como o de Juliette Binoche, até se esquece o abuso pontual no tom folhetinesco da obra ou alguma superficialidade na gestão de emoções. Faz falta mais cinema-sensível. PARIS faz bem à auto-estima.

Outra crítica AQUI

PARIS
De Cédric Klapisch (2008)
* * * *
O tom singelo e humanista deste filme é a sua mais-valia. A história que nos transporta para outras histórias é a do jovem Pierre que descobre ter um coração fraco e pode ter poucas semanas de vida. Consequência? Passa a dar valor aos pequenos nadas, aproxima-se da sua irmã amargurada e guia-nos por uma Paris que se faz de gente sensível e desesperadamente a lutar contra a solidão. Com dinâmica e muito estofo na criação de figuras, Cédric Klapisch acerta no tom e embeleza esta homenagem antropológica da Cidade das Luzes. Para desfrutar, apenas. Sem complexos e falsas ideias de que um filme-mosaico tem de ser absolutamente denso e profundo para encher as medidas.

QUIZ: A que filme pertence esta imagem?










A comédia romântica tem estado na mó de baixo lá por Hollywood. Que tal recordarmos um bom exemplo?

Solução do QUIZ anterior: «Orquídea Selvagem» (1990), de Zalman King.

8 de novembro de 2008

CINEFILIA: As cinco promessas de Novembro








GULA.
Novembro é um mês já forte de estreias, uma tendência que vai crescer até ao fim do ano (não esqueçamos que o Natal está aí à porta). E nem só de 007 se faz este mês. Há ainda o reencontro entre DeNiro e Al Pacino ou o regresso de Ridley Scott com DiCaprio e Russell Crowe. Enfim, há que escolher. Esta é a minha selecção.

- A TURMA: As expectativas estão muito altas para este filme que venceu a Palma d'Ouro de Cannes e que, segundo consta, faz repensar o modelo de ensino e a sua importância. É uma obra quase documental, apesar dos alunos interpretarem à sua maneira a sua vivência enquanto jovens com aspirações. É bom voltar à sala de aula.

- 007: QUANTUM OF SOLACE: James Bond volta a ser cada vez mais músculo e nervo do que elegância e falso pudor. É certo que Daniel Craig já nos convenceu que é o agente certo para o espírito agitado deste novo século, mas a curiosidade aumenta para ver como se dá a personagem com a vingança. Cada filme continua a ser um acontecimento.

- ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA: É o acontecimento do ano, dado representar a adaptação do «nosso» Saramago pelo realizador de «A Cidade de Deus». Há quem diga que o filme desilude, mas é esperar para ver como é resolvida esta bela alegoria sobre a lucidez. O elenco é sólido e liderado pela excelente Julianne Moore. É obrigatório!

- A CIDADE DOS HOMENS: O novo cinema brasileiro continua muito preso à sua realidade de favela. No entanto, este ultra-realismo merece ser descodificado e percebido para lá do fenómeno «A Cidade de Deus». A obra resulta de uma bem sucedida série da TV Globo.

- A FRONTEIRA DO AMANHECER: O filme de travo europeu do mês é de Philippe Garrel, aqui a experimentar um drama rodado a preto e branco. O motivo de interesse é perceber como prossegue o estilo do realizador de «Os Amantes Regulares» (2005).

OS MEUS POSTERS: Coma

























IRA.
Quando as referências desaparecem, custa. Percebe-se que o tempo reina e é por isso que aqui fica a homenagem a Michael Crichton (1942-2008), autor de «Parque Jurássico» ou «A Esfera», mais famoso pela escrita de ficção científica do que pelos méritos de realizador. Ainda assim, o seu ponto alto será este COMA, obra de alta tensão. Que revelou Michael Douglas.

OS SETE PECADOS DE... Outubro 2008







IRA.
Continuo a deliciar-me com o western, o género por excelência norte-americano, que coloca as suas personagens em missões espinhosas enquanto exibe as dores de um país ainda à procura de uma identidade. Recentemente revi a relação agitada entre John Wayne e a glamourosa Marlene Dietrich em «Oiro», mas fiquei mais suspreendido com JUBAL, obra em que Glenn Ford representa um homem do qual sabemos pouco que, ao chegar a uma pequena comunidade, rapidamente ganha a atenção do futuro patrão e da mulher deste. O desempenho de Valerie French é ousado para a época, mas mostra que as missões no Velho Oeste são também dominadas por mulheres. Femininas, submissas e símbolo da família. Neste caso particular, há uma ousadia a reter, elevando esta obra de Delmer Daves a um outro patamar da tradição dos sexos. Só é estranho ninguém ter dado por este filme... Clássicos esquecidos só dão prazer redobrado quando são descobertos.

GULA. Acabo de vir da Fnac onde voltei a sucumbir à loucura do consumismo. Alerta: fãs de Woody Allen fujam das lojas de DVD. Motivo? O lançamento de dois packs cujas obras ainda não estavam editadas em português. São os casos de «Bananas», «Alice», «Setembro», os hilariantes «O Herói do Ano 2000», «O Agente da Broadway» e «Nem Guerra Nem Paz», «Sombras e Nevoeiro» e «Crimes e Escapadelas». O que fica a faltar ver nas lojas? A dupla «As Faces de Harry» e «Celebridades» e os mais atrasados - mas obrigatórios - «A Rosa Púrpura do Cairo», «Zelig», «Os Dias da Rádio» e o felliniano «Recordações». O que é certo é que já faltou mais ter a obra integral do mestre... que é tão amigo do cinema quanto inimigo da carteira!

AVAREZA. A surpresa cinematográfica do mês vai para uma obra sublime, que revela maturidade no modo como imbrica personagens e situações, explorando ainda a morte num contexto multicultural. «Do Outro Lado» é um dos mais sensíveis melodramas que conseguimos encontrar nas salas e a prova que faltava do talento único de Fatih Akin.

LUXÚRIA. O casal de amantes interpretado por George Clonney e Frances McDormand em «Destruir Depois de Ler» é a surpresa extra-conjugal do mês, graças ao lado caricatural de dois perdedores. Ele é um homem inconstante cujo hobby é correr (como que a fugir de si próprio...), ela uma mulher solitária que sonha ter dinheiro para ganhar literalmente uma cara nova. Juntos formam um delicioso par, dos mais hilariantes do novo cinema. Ainda por cima com o selo dos irmãos Coen.

INVEJA. Susan Sarandon passou por cá, no âmbito do Lisbon Film Festival. Foi uma visita há muito esperada, com a mais-valia de representar uma escolha que não se esgota na referência do cinema, mas também nas suas convicções políticas. Frases sonantes? Dizer que não votaria em Hillary Clinton só «porque ela é uma vagina». Ui! Sarandon nunca foi de meias-palavras. Talvez seja por isso que todos a adoramos.

PREGUIÇA. Ainda em matéria de política, esperava-se muito de Oliver Stone e da sua visão de George W. Bush, agora que o presidente dos Estados Unidos está de saída, deixando para trás um país à beira da ruptura financeira. «W» é um retrato a espaços irónico e mordaz, mas fica a meio caminho de conseguir criar um ponto de vista. É certo que rejeitar maniqueísmos pode parecer boa opção, mas nem tudo é defensável nesta figura bem interpretada por Josh Brolin. O que passa no final é que a experiência tem pouco para oferecer além de algumas boas ideias e se deixa levar por um certo oportunismo político.

SOBERBA. A renovada «Premiere» chegou finalmente às bancas e rapidamente ocupou um lugar que esteve demasiado tempo por preencher. Com um excelente papel e capa, só fica a faltar novidades nos seus conteúdos, uma escrita mais apurada e de melhor sentido crítico. Outro ponto fraco no novo número? Escolherem uma imagem desfocada. Algo que já foi ultrapassado na bela homenagem ao 007 que domina o segundo número. Longa vida para a revista é o que se deseja. E que continue a querer sempre ser melhor.

30 de outubro de 2008

NA SALA ESCURA: A dor como passo seguinte







AVAREZA.
«Depois do êxito de 'A Esposa Turca', bloqueei, pensando que não faria outro filme igual» FATIH AKIN

É caso para dizer que não fez outro filme igual, fez um ainda melhor.

Na sua singularidade, DO OUTRO LADO coloca Fatih Akin como um dos mais interessantes cineastas novos, capaz de criar um poderoso imaginário visual, a partir de histórias sólidas, que trazem pessoas lá dentro.

Novamente entre a Turquia e a Alemanha - os dois países que moldam a identidade do próprio realizador -, o filme revela maturidade e um olhar mais denso e calculado do que a pulsão avassaladora que era o excelente «A Esposa Turca».

Desta vez, o que importa é a dor e a forma como um grupo de personagens diverso lida com ela. Neste ponto, Fatih Akin revela engenho na gestão dos diversos retalhos dramáticos que, rapidamente, fazem sentido, gerando uma reflexão poderosa sobre a morte e os seus efeitos em quem sobrevive a ela.

Ao pensar a melancolia e, acima de tudo, a tristeza, o cineasta não cai no sentimentalismo bacoco, optando por criar quadros visuais lacónicos que, por essa natureza, se revelam ainda mais intensos.

Depois, DO OUTRO LADO tem aquele mérito de começar de uma forma para acabar em outra completamente distinta, apesar dos primeiros planos anteciparem o final e favorecerem o reconhecimento do belíssimo plano derradeiro (aliás, exposto no cartaz promocional da obra).

Neste ziguezague entre Alemanha e Turquia, o prazer é redobrado para quem esteve em Istambul e sente a intensidade de uma cidade gigantesca dividida entre Ocidente e Oriente, entre o mundo árabe e o europeu. Até aqui, Fatih Akin é genuíno na capacidade de expor os ambientes mesclados da cidade.

Depois, há ainda a reter as boas interpretações, com o natural destaque para Hanna Schygulla que, num quarto de hotel, protagoniza uma sequência assombrosa. Não é por acaso que o protagonista, vivido por Baki Davrak, lhe diz que foi fácil saber quem ela era num restaurante, por «ser a pessoa mais triste desta cidade». É já um dos filmes do ano.

DO OUTRO LADO
De Fatih Akin (2007)
* * * * *
Um velho operário turco faz um contrato com uma prostituta, que não corre bem e termina com a morte acidental desta. Impressiondo pela tragédia, o filho dele decide encontrar a filha desaparecida dela, que pertence agora a movimentos revolucionários dentro de uma Turquia multicultural e indecisa entre a génese árabe e os novos apelos da vida europeia. Este é só o ponto de partida para um novelo algo folhetinesco, mas que se transcende pela excelente realização de Fatih Akin, que faz da sua dupla identidade geográfica uma mais-valia cinematográfica. O seu cinema é agora calculado, sincero e... melancólico. Uma homenagem à morte e às suas múltiplas consequências. No fundo, o que este sublime filme nos diz é que um fim traz com ele muitos novos começos.

OS MEUS POSTERS: Sangue Por Sangue

























GULA.
Nesta breve homenagem ao bom cinema dos irmãos Coen - até porque não há mau... - nada como voltar às origens, a esse imenso assombro que é SANGUE POR SANGUE. No fundo, parece que desde essa obra, a dupla esteve apenas a operar variações deste modelo. O filme negro faz-se assim...

26 de outubro de 2008

NA SALA ESCURA: A comédia quer-se negra?







IRA.
«Sabes o que aprendemos com isto? Não voltar a fazê-lo...» Chefe da CIA (J.K. Simmons)

Quando todos estavam à espera de ver os Irmãos Coen a ganharem juízo, impulsionados pela consagração (e os Óscares de «Este País Não é Para Velhos»), eis que a dupla resolve voltar às origens e abraçar novo exercício de comédia com travo negro. A diferença é que trazem consigo desta vez um elenco de luxo porque, de resto, a forma como as personagens são conduzidas para o abismo é igual a outras ocasiões.

E isso é um ponto contra DESTRUIR DEPOIS DE LER: trata-se de um mero exercício de estilo, voltar a apostar na fórmula dos perdedores que só se «enterram» mais quando tentam dar a volta e, acima de tudo, revela já algum desgaste nas ideias, até na forma como a comédia se dá a conhecer.

Pontos positivos? Também os há, nomeadamente ao nível das interpretações, com óbvios destaques para Brad Pitt (que incorpora muito bem a superficialidade de um personal trainer) e da excelente Frances McDormand (mais um Óscar para ela, por favor).

E, no fundo, apesar das fraquezas e de algum facilitismo no modo como toda a acção se desenvolve, o filme retoma o princípio de que os Irmãos Coen não conseguem fazer um mau filme.

O tom sarcástico, a inteligência dos diálogos, os twists melancólicos e a alma triste de todas as personagens não o permitem. O que se passa é que este é um filme «menos bom». A provar que o humor negro por si só não chega.

Outra crítica AQUI

DESTRUIR DEPOIS DE LER
De Joel e Ethan Coen (2008)
* * *
Mais um esforço dos irmãos Coen em revitalizarem o humor de dúbio sentido moral, o que neste caso ganha pela intrincada premissa de colocar dois trabalhadores de um ginásio, de perfil perdedor, a quererem ganhar milhões graças às supostas memórias confidenciais de um ex-agente da CIA. Pois, aqui nada é bem o que parece, o que não quer dizer que haja assim tantas surpresas. Apesar da inteligência e ironia dos irmãos Coen, esta fórmula já nós a conhecemos bem. Ao nível de «Crueldade Intolerável» e do remake de «The Ladykillers», este filme ganha pontos na aura de absurdo que atravessa a história e nos bem conseguidos desempenhos. Queremos mais para a próxima!

21 de outubro de 2008

QUIZ: A que filme pertence esta imagem?











Numa altura em que o nome de Mickey Rourke regressa ao cinema comercial (bem, ele tem andado por cá, embora esteja irreconhecível...), que tal lembrar um dos títulos da sua carreira? E mais não digo!

Solução do QUIZ anterior: «Exodus», de Otto Preminger

20 de outubro de 2008

O QUE AÍ VEM... The Wrestler







IRA.
«Se Madonna e David Bowie nos ensinaram algo, é que temos de seguir reinventando-nos.» DARREN ARONOFSKY in Empire

Nos últimos anos - há bastantes mesmo assim... - Mickey Rourke, outrora galã capaz de levar Kim Basinger a tornar-se assídua do seu frigorífico, tornou-se alvo de críticas e rumores, muito por causa da sua obesidade, dos implantes de botox e da má escolha de desempenhos.

Se, há poucos anos, Robert Rodriguez o quis reabilitar com uma personagem mítica em A Cidade do Pecado, agora é a vez de Darren Aronofsky, que já por si possui um currículo longe de ser convencional.

THE WRESTLER é um drama pessoal que gira em torno de um lutador de
wrestling, desporto que tem mais de encenação do que luta, mas que parece ter voltado aos primeiros lugares da ribalta, gerando um culto bizarro.

Rourke é Randy «The Ram» Robinson, um dos mais famosos da arena, mas o realizador do excelente «A Vida Não é um Sonho» e do inclassificável «The Fountain» está mais preocupado em descortinar quem é o homem que se esconde para lá dos músculos.

O desempenho (e, principalmente a transformação) tem sido alvo de elogios, num filme que quer ser levado a sério enquanto melodrama, apesar do seu fundo aparatoso. Para dar mais credibilidade à coisa, aparecem ainda a interessante Marisa Tomei a fazer de stripper e a ousada Evan Rachel Wood no papel da filha do protagonista.

O que se pode esperar daqui? O renascer da carreira de Mickey O'Rourke e uma análise sobre as atribulações de uma vida que se faz de um desporto que é também uma representação. Ou uma representação que é também um desporto.

18 de outubro de 2008

Dar umas luzes aos irmãos Lumière (III)











Caros irmãos Lumière,

Vivemos oficialmente numa crise financeira mundial. Já fiz alusão a ela, mas regresso ao tema pelo seu impacto, por estar a desabar muitas das noções que dominávamos até agora, por interrogar a noção do capitalismo e por ainda ninguém saber até que ponto vai influenciar a economia real, que é como quem diz o meu bolso.

O medo da pobreza, a decadência globalizante e a valorização excessiva de um bem lembram-me os grandes trabalhos do neo-realismo italiano, cujo exemplo mais óbvio (e mais absorvente) é «Ladrão de Bicicletas» de Vittorio De Sica.

No entanto, além desse caso, vi há pouco tempo uma interessante actualização desta história, «Bicicleta de Pequim». O que esta produção chinesa tem de impressionante é que a mesma obsessão de um homem por uma bicicleta - no fundo o seu modo de vida... - se passa nos dias de hoje, globalizante, e numa das nações mais promissoras em termos de crescimento económico dos últimos anos: a China.

«Bicicleta de Pequim» descreve como dois jovens - que sentem na pele a falta de dinheiro - sonham com uma bicicleta. O primeiro usa-a para trabalhar, na entrega frenética de encomendas, sendo este o único meio de transporte infalível numa cidade dominada pelo progresso; o segundo quer o objecto para poder seguir os amigos e sentir-se mais seguro para conquistar o coração de uma colega da escola.

O azar leva-os a terem de aprender a partilhar a mesma bicicleta, algo que eleva este trabalho de Wang Xiaoshuai, um retrato de como é em momentos extremos que se pode gerar a aproximação.

E como filma o realizador tudo isto? Com extrema sensibilidade, um sentimento aqui esquartejado pela rapidez do dia-a-dia de um universo industrializado.

No meio, há ainda a comédia, subtil e quase ingénua, porque mesmo em tempos difíceis o humor encontra forma de se manifestar.

Crónica dos tempos modernos, «Bicicleta de Pequim» faz-nos pensar sobre o valor das coisas e perceber as incongruências deste tempo de crise.


Há quem defenda que a era da prosperidade pode estar à beira do fim, mas o que vemos neste trabalho muito bem dirigido é que ela nunca nos abandonou... e o cinema também se ressente destes períodos de contenção, embora em situações anteriores a sala escura tenha servido de escape enquanto o mundo real desaba lá fora.

12 de outubro de 2008

NA SALA ESCURA: As raízes da máfia








IRA.
«O filme também se diferencia um pouco do livro - que é de denúncia e com uma componente jornalística -, por não ser "contra" a Camorra mas sim "sobre" a Camorra, sobre os seus mecanismos internos, contados de baixo, do ponto de vista de pessoas que vivem condicionadas pelo sistema, numa sociedade onde o crime está omnipresente.» MATTEO GARRONE in DN

O olhar custa a fixar-se em todas as cenas de GOMORRA. É um tema incómodo, habitualmente subreptício, e o ponto de vista escolhido é distinto de visões moralistas, aptas a atribuírem algum gozo por se estar à margem da Lei. Nada disso...

Aqui a máfia é lacónica, grosseira e está enraizada em quem nasceu perto dela.

Ou melhor, em quem nasceu com ela. É por isso que o que mais choca nesta excelente adaptação do já célebre romance de Roberto Saviano (que nunca mais teve um minuto de descanso depois de publicar este livro que disseca a Camorra napolitana) é que nela se embrenha uma juventude carente de referências e que embarca com alguma ingenuidade
num jogo de esquemas obscuros.

Muito bem filmado, o filme quer-se impor como documento realista e consegue-o plenamente. É o «murro no estômago» mais consistente deste ano cinematográfico e merece ser engrandecido perante uma oferta cinematográfica que tem sido pouco generosa para com o novo cinema italiano. A ver.

Outra crítica AQUI


GOMORRA
De Matteo Garrone (2008)
* * * *
São cinco histórias que se entrecruzam e, no meio delas, ou melhor, em torno delas corre o círculo do vício da Camorra, a máfia napolitana que se manifesta na aspereza violenta de quem não tolera a contrariedade. Em todas as personagens, pressente-se o medo, mas choca ver as figuras mais novas a iludirem-se perante a ingenuidade do controlo. O tom é hiper-realista, roça o documentário cru, mas tudo é genialmente decomposto pela mão dolorosa da ficção. Por vezes, chega a cansar a forma como se cola às personagens, mas esta é a análise que distingue este grande filme.

7 de outubro de 2008

NA SALA ESCURA: Interrogações de Ethan Hawke

PREGUIÇA. «Muita coisa má te vai acontecer. As pessoas não te vão retribuir o que sentes e se queres ser levado a sério como artista, esta deve ser a primeira coisa que tens de aprender.» JESSE (Laura Linney)

Ethan Hawke sofre de um estigma tramado: é uma eterna promessa. Daquelas adiadas, apesar de toda a gente saber do valor que tem.

Não é preciso ir aos tempos de «O Clube dos Poetas Mortos» para recordar o seu talento dramático, até porque o díptico «Antes do Amanhecer/Antes do Anoitecer» o mostra, tal como «Dia de Treino» (pelo qual chegou a ser nomeado para um Óscar de Melhor Actor Secundário) ou o muito recente «Antes Que o Diabo Saiba Que Morreste» também.

Mas Ethan Hawke quer ser levado a sério e até já mostrou ser capaz de dar cartas na música e na literatura. Agora avançou para a realização.

Já o tinha feito antes, mas O ESTADO MAIS QUENTE era suposto ser a sua cartada para provar a quem ainda questiona a sua maturidade artística que tem muito para contar.

Pois bem, o filme até se vê bem, tem uma banda sonora country certinha e um par de diálogos inteligentes (as cenas escassas com Laura Linney são do melhor que o filme tem para oferecer), mas rapidamente a obra se arrasta na tentativa de mostrar como uma relação amorosa se pode desfazer em pedaços «sem ai nem ui».

É até demasiado ingénua na forma como segue os passos de William Harding (Mark Webber) para tentar perceber melhor a mente atormentada da mexicana Sarah (a sempre segura Catalina Sandino Moreno).

Então por que não nos rendemos a este exercício pessoal e percebemos que Ethan Hawke é um grande cineasta? Porque ainda não o é, faltando-lhe densidade nas suas intenções e cunho próprio - há, por aqui, muita inspiração no estilo do amigo Richard Linklater.

Ainda assim, o filme vê-se e assimila-se. Mas sem apagar a imagem de que Ethan Hawke ainda não nos mostrou todo o seu potencial. Ou será que já?

O ESTADO MAIS QUENTE
De Ethan Hawke (2007)
* *
Um rapaz embeiça-se por uma jovem cantora e decidem viver juntos. Tudo corre sobre rodas, o amor é lindo e tal, mas subitamente ela decide pôr um travão em tudo e ele passa a viver na margem, um trapo à espera de uma segunda oportunidade. Neste trabalho que pretende reflectir sobre os altos e baixos da paixão, Ethan Hawke sai-se melhor a descrever os bons momentos do que os maus. Neste ponto, o filme arrasta-se sem chama, revelando até ingenuidade na forma como ilustra a dor. No entanto, para lá do artificialismo e da vontade em querer parecer arty, há pontos positivos na história: Catalina Sandino Moreno é luminosa, há um ou outro diálogo que revelam rasgo, a banda sonora merece ser ouvida com atenção e há planos bonitos, bem pensados, com uma fotografia de cores quentes a condizer. Porém, há falta de coesão em tudo, medo de arriscar e muitos desempenhos subaproveitados - casos de Laura Linney, Sónia Braga (pouco mais do que uma caricatura), Michelle Williams e do próprio Hawke (muito desajeitado na pele do pai do protagonista). Ficamos à espera do próximo projecto, Ethan Hawke. Para vermos se te sais melhor!