10 de agosto de 2009

Até um dia destes











PREGUIÇA. «Pensa devagar, age depressa.» BUSTER KEATON

As coisas estão sempre a mudar, a uma velocidade que impressiona. O próprio cinema muda. Há novos desafios a agarrar, oportunidades que não se podem perder. Ao mesmo tempo, há alturas em que se deve fazer uma pausa. Para depois voltar com a alma revigorada.

O SIN CINEMA vai de férias. Volta num dia destes...

31 de julho de 2009

O QUE AÍ VEM... Alice no País das Maravilhas












GULA. «Em todas as outras versões da história que vi, nunca senti uma verdadeira ligação, não só por causa da natureza da obra que segue uma série de acontecimentos como pelo facto das personagens serem estranhas.»TIM BURTON

Se há cineasta que nos está a fazer acreditar outra vez em contos de fadas é Tim Burton. Quando se pensa que o mesmo não pode ir mais longe, eis que um novo projecto, de cariz bizarro e arriscado, nos faz acreditar novamente no vigor do cinema fantástico.

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS é já o mais desejado filme dos próximos tempos, até porque Burton veio dizer que quer dar à história de Lewis Carroll o tom onírico que ela nunca teve.

Basicamente o que se pode esperar é um filme para toda a família, mas sem ser bem comportado, até porque Tim Burton tem uma paixão secreta (ou, se calhar, não assim tão secreta...) pelo lado negro das coisas. E não há nada de tão cruel do que um conto infantil...

Será preciso esperar ainda uns bons meses para se comprovar como será esta luxuosa produção, mas há alguns detalhes que só aumentam o apetite... Desde logo, Burton convoca os seus parceiros de outros trabalhos para esta fábula, seja a esposa Helena Bonham Carter na pele da Rainha de Copas ou o camaleónico Johnny Depp como o Chapeleiro Louco - na já sétima colaboração com o criador de «Eduardo Mãos de Tesoura».

Pelo aspecto das primeiras imagens, mostra-se que Depp continua a querer ir tanto mais longe na desconstrução do seu aspecto quanto possível...

Para o papel de Alice, a jovem que entra num mundo de coordenadas diferentes, está a quase desconhecida Mia Wasikowska, jovem platinada com leves traços de Gwyneth Paltrow. Mas as surpresas não ficam por aqui: Michael Sheen será o coelho branco (!) e há ainda Anne Hathaway, Alan Rickman, Stephen Fry e o velho parceiro Christopher Lee (cada vez mais perto da bonita idade de 90 anos).

Em matéria de banda sonora, podemos ficar descansados: caberá a Danny Elfman, mais uma vez, traduzir em sons o que vai na mente de Burton.

TIM BURTON TAMBÉM ERRA
O CINEMA COMO CIRCO: ONDE ENTRA BURTON?

30 de julho de 2009

NA SALA ESCURA: Duas formas de rir










SOBERBA. «Posso dar-vos um conselho? Cortem as barbas porque esse ar de Rei Osama parece o de um feiticeiro sujo... ou de um Pai Natal sem abrigo.» Brüno (Sasha Baron Cohen)

Uma vem do outro lado do Atlântico, com paragens no Médio Oriente, em África e génese na pacífica Áustria. A outra quer-se tipicamente britânica, mesmo tendo entre o seu elenco o nome de Philip Seymour Hoffman. Para lá disso, são duas propostas interessantes do cinema comercial em matéria de bom humor. E não é que fazem mesmo rir?

Se, por um lado, BRÜNO representa a mais recente bizarria cinematográfica de Sasha Baron Cohen - cada vez mais interessado em chocar, ainda que em nome da sátira deliciosamente vistosa e nada, nada politicamente correcta -, por outro O BARCO DO ROCK é o mais recente título da Working Title, desejoso de bisar o êxito de outros trabalhos cómicos como «O Diário de Bridget Jones», «Notting Hill» ou «O Amor Acontece».

No primeiro caso, o que temos? Uma visão muito pouco convencional sobre os meandros do mundo da moda e direito a mais uma «personagem-obsessão» de um dos mais interessantes e arrojados fenómenos do cinema comercial.

Sasha Baron Cohen é inclassificável, inteligente e muito convencido das suas potencialidades artísticas. É o actor a fazer-se passar por actor, o artista que se confunde com a personagem, numa perversão sem limites, como que a satirizar o método mais compulsivo de algumas estrelas.

Tal como em «Borat», aqui pouco se percebe onde acaba a ficção e começa a realidade em registo imprudente de apanhados. Sasha Baron Cohen está muito pouco interessado em desfazer as dúvidas. O que se sabe é que há uma persona para alimentar em nome de uma boa ideia.

E quem é este Brüno? Um homem da moda austríaco que decide ser estrela famosa em Hollywood. Para tal, começa por pensar que ser gay estridente lhe pode valer uns pontos na subida ao sucesso, filma-se nas suas tentativas para produzir um programa de celebridades e tenta copiar hábitos de figuras famosas, como adoptar uma criança africana. Mas esta descrição é redutora: a comédia, que foi êxito nos Estados Unidos, é muito mais diabólica e pouco condescendente com moralismos.

Brüno quer ser ousado e consegue-o, enquanto se diverte a desmistificar as incongruências de uma certa mentalidade norte-americana. Sasha Baron Cohen vai, por vezes, longe de mais, expõe-se e expõe o espectador ao embaraço. Quase sempre consegue fazer soltar uma gargalhada, noutras vezes limita-se a repetir números que já divertiam em «Borat».

Ou seja: a figura entra facilmente no registo da galeria de personagens marcantes de Baron Cohen, mas também representa um ponto-limite... Se continuar por este registo, rapidamente se desgastará e o efeito-surpresa pode estar comprometido. BRÜNO diverte, choca, embaraça, satiriza. Mas isso «Borat» também já fazia. Cabe a Sasha Baron Cohen reinventar-se outra vez no próximo projecto.

Num registo mais polido e preparado para agradar ao grande público, O BARCO DO ROCK quer ser uma homenagem à música e ao esforço meritório das rádios-pirata numa época em que os bons costumes gostavam de boicotar movimentos artísticos que rompessem com o estabelecido.

Esse recuar no tempo tem alguma graça e Richard Curtis é hábil na introdução de figuras.

O realizador de «O Amor Acontece» repete, contudo, o mesmo problema da sua obra anterior: tem dificuldade em construir uma história suficientemente sólida para se manter do princípio ao fim. Opta por relatos episódicos, gosta de dispersar-se pelas personagens, como que a evitar maior profundidade narrativa. Algo que eleva o humor, mas que penaliza o efeito global da história.

Ainda assim, o tom ligeiro e descomprometido torna O BARCO DO ROCK numa proposta agradável, das mais consensuais dos últimos meses. A vontade em expor hábitos de outros tempos e de brincar com personalidades mais libertinas também encontra eco no elenco mais cool da temporada: por aqui passam Bill Nighy, Philip Seymour Hoffman (a respirar de alívio dos seus desempenhos mais densos que viveu recentemente), Nick Frost ou Rhys Ifans. Até Emma Thompson faz uma perninha...

Do lado dos vilões, está um caricatural Kenneth Branagh, membro do Governo britânico que sonha em acabar com as rádios-pirata. Se o actor, por um lado, é exímio em ser ridículo com gosto, por outro este lado da autoridade é cansativo e mal explicado em todo o filme.

No entanto, O BARCO DO ROCK quer homenagear a música. E essa vontade em recordar temas de sempre, passando por nomes que vão de Otis Redding, The Beach Boys, Cat Stevens ou David Bowie, é meritória. Uma certeza: dá vontade de ir logo a correr comprar a banda sonora!

BRÜNO
De Larry Charles (2009)
* * *
O registo politicamente incorrecto continua e aqui Sasha Baron Cohen sente-se como peixe na água. A brincar à sexualidade, ao mundo da moda, aos falsos moralismos, à fama, tudo entra nesta bizarra jornada por uma América confusa com o seu glamour. Mas há ainda hilariantes jornadas pelo Médio Oriente e por África. Brüno pode ser demasiado estridente e cansativo, mas é também icónico e ousado. O tom do filme diverte, mas é também um sinal de que Baron Cohen precisa de inovar sob pena de cair em mais do mesmo.

O BARCO DO ROCK
De Richard Curtis (2009)
* * *
O espírito transgressor de quem se dedica à música moderna num tempo de conservadorismos é uma boa ideia. As memórias da rádio pirata são bem resgatadas e o feel good spirit é um bem necessário para o cinema de massas. Aqui, nada a dizer. A história diverte, as personagens também. Falta é alguma solidez em tudo isto... mesmo que a homenagem aos grandes nomes do pop-rock seja bem oleada.

28 de julho de 2009

OS MEUS POSTERS: O Cavaleiro das Trevas







































SOBERBA. Regresso à génese desta secção, que é mostrar cartazes alusivos de um filme que sejam mais do que isso. Neste poster pouco conhecido de O CAVALEIRO DAS TREVAS, consegue-se captar na perfeição a ironia da verdadeira alma (ainda que demoníaca...) deste filme. É também uma forma de lembrarmos Heath Ledger, numa das suas mais complexas e vorazes interpretações. Será que se pode chamar a isto obra de arte?

27 de julho de 2009

O meu amigo escritor

INVEJA. «Toda a gente tem uma ideia para escrever um livro, a dificuldade está precisamente em passar da ideia para o livro. É preciso ganhar coragem para passar da inspiração para a fase da transpiração.» MIGUEL CARDOSO PEREIRA in A Bola

Na capa vem escrito Miguel Cardoso Pereira, mas para mim o autor de AMOR DOS BABUÍNOS será sempre o meu amigo Zé .

Ou melhor, o Zé é Miguel Cardoso Pereira quando se agarra às palavras, as articula numa preciosa mistura discursiva e as molda para dar forma a um confessional romance que não é mais do que uma visão profunda sobre o sentido do amor e da morte. Ou sobre a falta dele.

Quando a apetência se faz sobre o cinema e as suas imagens, li o livro do meu amigo Zé e foram novamente imagens que se formaram na mente, pela hábil capacidade em criar expressões de sentido figurado, metáforas inteligentes e muita ironia. Além de um romântico, Zé é também um observador atento das incongruências do dia-a-dia. O episódio no centro comercial com a avó ou os instantes de alienação no banco de uma sala da faculdade com uma «caneta para halterofilistas» mostram que por aqui as ideias fervilham.

Em AMOR DOS BABUÍNOS, a escrita não é totalmente fluída, impõe constantes travões pela melhor das causas: cada frase tem a postura imponente da singela poesia e o tom cortante das reflexões sobre a condição do ser humano. E o que queremos desta vida? Viver. Sentir na pele as marcas dos momentos que nos definem. Amar. Estarmos juntos.

É certo que na escrita do Miguel passa também aquele tom intimista, melancólico, triste dos que sofrem. Mas quem é que não sente o peso das contradições? Quem é que não tem receios? Ao deixar-se submergir nas vozes (e nos corpos) de um casal, que possuem muitos inícios e fins numa longa jornada sentimental, o Miguel expõe uma escrita madura, crua e muito segura de si.

Exemplos? «Tu, dentro de mim, és escuro, mas é o meu céu. Neste dia és o céu de todos os céus do planeta, ainda que sejas negro, sem luz por dentro, sejas dia sem luminosidade. Sejas um fogo que arde nas cinzas e não nas chamas. Não sei se quero ir, mas vou. Ou melhor: não vou, não é bem isso, não é propriamente uma decisão que tomo, não tenho idade para tomar decisões. As decisões são o contrário dos gostos. Um gosto não é uma decisão.»

Mais um? «A piada é que envelhecer tem destas coisas: cada ano que passa um estranho é mais estranho que antes. Quando eu era miúda, um estranho não estava tão longe como tu pareces estar. O crescimento impede que um estranho entre tão facilmente na nossa vida. Na meninice ninguém é estranho, é uma lei básica da inteligência.»

Mais sobre AMOR DOS BABUÍNOS

Demorei algum tempo a perceber que o meu amigo Zé era também o Miguel da escrita. Há surpresas boas como esta... No dia do lançamento do seu livro, o Miguel (que é também o meu amigo Zé) explicou que partiu a sua história em pequenos capítulos com datas, porque elas simbolizavam os pequenos fins ou começos que definem as nossas lembranças. Ou seja: a memória não é mais do que o filtro que nos remete para algo que começa ou acaba.

Pois bem, O AMOR DOS BABUÍNOS é um gigantesco começo para a vida do Miguel e do meu amigo Zé. É também um começo para quem o lê e o conhece de perto: sabe que este é o ponto de partida para algo muito maior.

18 de julho de 2009

ILUSÕES DE ÓPTICA: Lembrar Captain Blood

Há piratas na Cinemateca!













IRA. «Um casamento? Adoro casamentos... Há bebidas por todo o lado.» Jack Sparrow (Johnny Depp)

É uma questão de bom gosto. Já aqui falei em diversas ocasiões das vantagens de se ver um filme na esplanada. A Cinemateca insiste no óptimo ritual de Verão que, neste mês de Julho, é dedicado inteiramente aos filmes de capa e espada, a tradução possível para um género que fez história em Hollywood: o swashbuckler.

Para tal, recorda não só os clássicos de sempre - começou por exibir A Rainha dos Piratas, do excelente Jacques Tourneur - como o maior êxito moderno dentro deste género, capaz de tornar Johnny Depp numa super-estrela: caso de O PIRATA DAS CARAÍBAS: A MALDIÇÃO DO PÉROLA NEGRA, que está agendado para o próximo dia 25.

E o que prometem estes serões? Um calor motivado por aventuras, rebeldia e vontade em fazer uma forma peculiar de justiça. Há acção, duelos entre heróis e vilões e, especialmente, anti-heróis.

O bom gosto de quem agendou o ciclo «Piratas a Cores na Esplanada» faz com que se lembre, por exemplo, «No Reino dos Corsários», de George Sherman, que será exibido esta noite. Trata-se de mais um trabalho com o inevitável Errol Flynn, herói para toda a família que sai ileso de um género e enaltecido pela força do technicolor. Neste movimentado jogo de encruzilhadas, o duelo será com Anthony Quinn...

Lembra-se ainda «O Barba Negra», de Raoul Walsh ou «Tempestade na Jamaica», de Alexander Mackendrick. Neste excelente «baú de memórias cinéfilas», o melhor mesmo é consultar a programação completa para não se perder pitada. As noites prometem aquecer na Rua Barata Salgueiro.

17 de julho de 2009

Dar umas luzes aos irmãos Lumière (X)











Caros irmãos Lumière,

É estranho o fado do cinema português. Nunca conseguiu recuperar o seu lugar mediático desde que o pequeno ecrã invadiu o quotidiano do povo. Antes, nos tempos áureos da rádio e do convívio de bairro, que é como quem diz no Estado Novo, havia o hábito de ir ao cinema e este nunca teve tanto peso como nesses tempos.

É certo que havia controlo, algum condicionalismo, mas havia graça, sátira e genuíno humor popular. Foi um raro momento (as décadas de 1940 a 60) de compatilidade entre o que se queria filmar e o que se queria ver. Pode dizer-se que era um cinema formatado, pouco criativo e até redutor. Mas a lógica e as barreiras são as que a televisão sofre no dia de hoje: a questão sobre o descontentamento dos produtos é facilmente contornada por quem manda com os níveis de audiência.

Mas será que o cinema deve ser como a televisão é hoje em dia? A meu ver, enquanto arte de apelo global, deve permitir todo o tipo de produtos. Desde os de apelo mais popular, fácil consumo, argumento menos arisco, até ao experimentalismo, produtos de nicho, que testem convenções formais e dramáticas. Só que em Portugal existe um problema: fazer um filme é caro e... não há dinheiro.

Esta constatação transpõe a indefinição do cinema português para o limbo dos critérios de atribuição de subsídios... Pode dar algum orgulho a vontade em apostar em projectos novos, arriscados, mas o cinema não se pode dar ao luxo de ser pensado de costas voltadas para o público.

Sim, neste momento, fazer um filme pode ser uma experiência de tal forma solipsista que até assusta! Há projectos que chegam às salas com 300, 400 bilhetes vendidos, o que é impensável para uma arte que se quer renovar.

E o público precisa de cinema! É por isso que se deve louvar quem consegue um equilíbrio entre arte e devoção pelo espectador.

Lembro-me disso a propósito de «Call Girl» de António-Pedro Vasconcelos. O filme é um novo caso de cinema maduro pela mão do mesmo realizador de «O Lugar do Morto», com uma intriga que tenta reflectir os receios de que o poder pode minar a consciência. Ao articular uma história policial com a corrupção de um autarca, e o jogo de sedução de uma prostituta de luxo, António-Pedro Vasconcelos cria um novelo inteligente, que tenta evitar (sempre que pode...) a mera caricatura, aproveitando ainda óptimos valores de produção, excelente fotografia e bons desempenhos.

Sentem-se por aqui estilhaços de «film noir», uma obsessão por uma mulher que até recorda «O Anjo Azul», de Josef von Sternberg, ecos de «Instinto Fatal». Soraia Chaves é o corpo de quem todos falam, mas é também a musa certa para um filme que encontra rapidamente o seu rumo.

Só é pena que para chegar às massas tenha de condensar no «trailer» todas as cenas de sexo e ousadia que se vislumbram no filme (a maioria bem filmadas, é certo). Mostra que há, por outro lado, uma incapacidade em tornar um filme rentável sem ceder às fórmulas básicas de sempre...

Para onde caminha o cinema português? Sem grande linha definida, lá se vai desenvolvendo à custa de projectos cujo critério de aprovação é dúbio. Mas há honrosas excepções: João Canijo, Marco Martins, Jorge Cramez, Mário Barroso, António da Cunha Teles, Joaquim Leitão e a dupla Tiago Guedes e Frederico Serra são sinais de esperança.

14 de julho de 2009

QUIZ: A que filme pertence esta imagem?












Foi uma descoberta recente, apesar de ter uns bons aninhos que... se recomenda. É um hino à improvisação e a um certo cinema verité, só que em solo norte-americano. Alguém arrisca um palpite?

Solução do QUIZ anterior: Em todos os filmes participa Patricia Arquette. São eles Nicky, o Filho do Diabo, Estrada Perdida e Ed Wood.

10 de julho de 2009

CINEFILIA: As cinco promessas de Julho








SOBERBA. Ainda se sente que este é mês de Verão, até porque chegam às salas novos trabalhos de Van Damme e Steven Seagal, várias obras de terror menor e até as inevitáveis sequelas, que continuam sem abrandar o ritmo, como é o caso do novo capítulo de Harry Potter e a terceira parte de «A Idade do Gelo». Ainda assim, há apostas a reter.

- ELEGIA: Sabe-se que mais vale tarde do que nunca, mas a questão aqui é perceber por que tardou tanto este filme a chegar às salas nacionais. As razões do interesse é o ponto de partida, um célebre romance de Philip Roth, e o duelo de actores. Diz-se que Penélope Cruz nunca foi tão intensa e Ben Kingsley só precisa de ser o que tem sido até agora, a roçar a genialidade. A relação proibida entre professor e estudante promete ser ousada e psicologicamente estimulante.

- A IDADE DO GELO 3 - DESPERTAR DOS DINOSSAUROS: Condescendência às sequelas, até porque a animação do brasileiro Carlos Saldanha costuma resultar pelo tom descomprometido e mordaz. Espera-se que a fórmula surja reforçada até pela entrada em grande dos dinossáurios. E assim constrói mais um êxito...

- HOME - LAR DOCE LAR: A proposta mais arriscada do mês. Isabelle Huppert dá força a esta realização de Ursula Meier centrada numa auto-estrada abandonada e na casa isolada que ali fica perto. A vida de quem lá mora será ameaçada com a abertura da via à circulação de viaturas.

- BRÜNO: Fã de «Borat» e outras bizarrias de Sacha Baron Cohen, é com particular atenção que se quer assistir a esta nova figura, o estilista gay austríaco que vai causar estragos no mundo da moda. O talento para misturar realidade e ficção deve ser a mais-valia deste novo trabalho de Larry Charles. Rir de tudo isto não tem mal nenhum. E há poucas coisas que ainda nos fazem mesmo rir...

- SÉRAPHINE: Martin Provost filma com sensibilidade a vida da francesa Séraphine de Senlis, mulher nascida em 1864 que foi pastora e dona de casa antes de se transformar em pintora e submergir-se na loucura. É a proposta europeia, independente e séria do mês... Os críticos vão adorar.

6 de julho de 2009

NA SALA ESCURA: A nova era do jornalismo












AVAREZA. «Violámos a lei? - Não, a isto chama-se fazer grande reportagem.» Cal McAffrey (Russell Crowe)

Os tempos são outros e já há muito não se via uma tão interessante reflexão sobre o jornalismo e as suas causas. Quando a informação se encontra disseminada em blogues e as notícias disparam ao minuto, que espaço há para a grande reportagem?

No mundo real, este género jornalístico corre perigo de extinção, mas no cinema ainda dá azo a boas peripécias e preenche o propósito de mudar a ordem das coisas. Lembro-me disso ao ver LIGAÇÕES PERIGOSAS, boa adaptação de uma série televisiva britânica pela mão do mesmo realizador de «Touching the Void».

O que Kevin MacDonald alcança neste trabalho é a capacidade de construir um novelo narrativo sem ceder a lugares fáceis ou a mudanças de argumento que comprometam tudo o que foi construído antes. É certo que a fórmula já é conhecida: um crime misterioso, que envolve altas patentes, coloca um grande repórter no terreno. A verdade lá virá ao de cima, mas não se pense que tudo é previsível.

Neste ponto, há que olhar para o esforço de Russell Crowe em ser genuíno. O seu jornalista da velha guarda, Cal McAffrey, tem o faro apurado mas a incapacidade para ver com bons olhos jovens dinâmicos que dão resposta às necessidades da profissão de uma maneira que ele não consegue (nem quer conseguir por sentir que se está a desvirtuar a essência do jornalismo!). É uma personagem imperfeita, realista e com um «à vontade» desarmante.

O modo como Cal se envolve com as suas fontes também coloca em cima da mesa a necessidade de impor limites, mesmo que estes sejam flexíveis e, a espaços, ténues.

Além disso, LIGAÇÕES PERIGOSAS apresenta um cuidadoso punhado de personagens verosímeis e bem interpretadas. Seja a jovem jornalista de Rachel McAdams, a directora que pensa nas tiragens mais do que na isenção, vivida pela excelente Helen Mirren, o congressista dúbio de Ben Affleck ou o «todo-poderoso» de Jeff Daniels.

As cartas são lançadas com uma permanente noção de espectáculo e o filme nunca cede à monotonia. Mesmo quando a história dá uma viragem numa outra direcção, o espectador compreende à primeira a opção e deixa-se levar por uma narrativa que se quer tudo menos estática.

No final, e para lá de uma ou outra ponta mais mal cosida (e até de algum desapontamento face ao desenlace...), LIGAÇÕES PERIGOSAS cumpre os seus objectivos e faz pensar sobre o lugar do jornalismo nestes tempos de omnipresente ruído informativo.

Apesar disso, há uma estética retro neste trabalho que quer fazer crer que o protagonista vive em desadequação com o seu tempo.

Seja no velho carro que conduz ou no computador pesado em que trabalha, a figura do grande repórter de Russell Crowe é espessa e credível. O que torna ainda mais interessante a constatação de que o actor foi a segunda escolha. Tudo porque a ideia do filme era voltar a reunir a dupla Brad Pitt-Edward Norton depois de «Clube de Combate». Os dois nomes abandonaram a produção, mas, em troca, Crowe e Affleck dão bem conta do recado.

LIGAÇÕES PERIGOSAS
De Kevin MacDonald (2009)
* * *
Os que consideram que Russell Crowe é um canastrão sobrevalorizado vão ter de engolir em seco ao verem este interessante filme de suspense. Sim, ele está em grande e, em última instância, o que este trabalho nos quer mostrar é uma história dinâmica, um caso bicudo para resolver, um assassínio misterioso que mexe com altas esferas do poder. E consegue concretizar essa vontade com o fulgor que se pedia, óptimas personagens, diálogos secos e a destilarem ironia. Pode não ser revolucionário e muito inventivo, mas sabe as «linhas com que se cose». E nunca perde o seu tom de policial coeso por um momento. Mesmo que seja centrado no jornalismo, este trabalho pode não ser uma grande «cacha», mas é uma reportagem bem esgalhada.

4 de julho de 2009

OS MEUS POSTERS... Um Eléctrico Chamado Desejo








































INVEJA.
O tom de abismo moral entre as personagens de Marlon Brando e Vivien Leigh deve ser recordado como um dos momentos maiores do cinema. Recordo-me deste grandioso trabalho de Elia Kazan, que é também a melhor adaptação para cinema de uma peça de Tennessee Williams, porque a RTP 2 teve o bom gosto de o exibir esta noite. Além disso, é também uma singela (e redutora) homenagem a Karl Malden, esse eterno grandioso actor secundário, que faleceu no passado dia 1. Além do seu Harold Mitchell deste clássico, há que lembrá-lo em «Há Lodo no Cais», «All Fall Down» ou «Nevada Smith». Até sempre!

3 de julho de 2009

OS SETE PECADOS DE... Junho 2009

INVEJA. Junho foi mês de aniversário e de prendas de pendor cinéfilo. A mais impressionante foi um pack de DVD de Luis Buñuel, esse nome maior do cinema espanhol que levou para o ecrã histórias de forte carga dramática, ainda hoje capazes de impressionar. Amigo do surrealismo e com carreira feita a partir do México, o seu cinema prende o olhar. É o caso da sua versão de O MONTE DOS VENDAVAIS, uma adaptação que se quer muito fiel ao espírito literário da obra de Emily Brontë. Há um tom teatral em tudo, uma forma voraz de encarar os sentimentos e uma bela reconstituição de época.

SOBERBA. A Academia anunciou este mês que a próxima edição dos Óscares não vai contar com cinco nomeados para a estatueta dourada de Melhor Filme, mas com dez! Manobra comercial? Mais uma achega na desejada reforma para conquistar mais audiências? A justificação foi que a ideia é que a entrega de prémios regresse às suas origens, onde era norma ter uma dezena de candidatos ao mais ambicionado prémio. Consequência? As apostas tornam-se mais elevadas dado que, estatisticamente, será mais difícil de acertar à primeira. E desde «Crash», de Paul Haggis, que não há uma grande surpresa por aquelas bandas...

LUXÚRIA. Apesar de conhecer toda a carreira de Woody Allen, ainda existe um ou outro filme que me escapa. Se, recentemente, descobri o início dos inícios com «What's Up Tiger Lilly», caso de humor quase experimental e caótico, também em Junho me deparei com «Alice», deliciosa comédia sobrenatural, sobre uma mulher que está bem na vida mas infeliz. Para dar uma volta à sua existência e cometer o tão esperado adultério, a personagem de Mia Farrow decide consultar um especialista oriental em medicinas alternativas que lhe recomenda... umas ervas. É uma doce alucinação imperdível de Allen, um passo mais ligeiro na fase mais elevada da sua carreira.

IRA. Começa a cansar a moda das sequelas, prequelas e remakes do cinema. A estratégia dá certamente muitos frutos, mas fica-se com a ideia de que a sétima arte tem cada vez menos coisas novas. E o Verão é particularmente redutor neste ponto. Exemplos? «Wolverine», que é uma espécie de spin-off de «X-Men», «A Idade do Gelo 3», a nova vida para «Star Trek», «Exterminador Implacável: A Salvação» ou «À Noite no Museu 2». Socorro!

GULA. Já falta pouco para nos deliciarmos com a última produção da Pixar. «Up! - Altamente» parece que é uma delícia para os olhos, ainda mais com as potencialidades da técnica 3D.

PREGUIÇA. Estão cada vez mais monótonas e rotineiras as matinés de cinema dos canais em sinal aberto. Se não houvesse cabo e videoclubes, a oferta seria escandalosamente medíocre. Será que rende assim tanto usar sempre as mesmas fórmulas?

AVAREZA. As idas ao cinema têm sido escassas. Não é questão de poupança, é questão de falta de tempo... Espera-se que algo mude em breve.

27 de junho de 2009

O palco será sempre dele

INVEJA. «Não gosto de música pop.» MICHAEL JACKSON

Há a música. Mas também há as imagens!

A morte de Michael Jackson é também a morte de um certa forma de espectáculo, quase impossível de repetir nos dias de hoje.

Com excepção de Madonna ou até, de uma certa forma dos U2, o mundo do showbiz já não permite uma escala de êxito tão desmesurada como esta, a de Michael, artista de corpo inteiro que sucumbiu ao lado perverso da fama.

A disseminação de conteúdos, a multiplicidade de plataformas, o ver e o ser visto criam artistas com uma longevidade mais reduzida, que já não vendem a «monstruosidade» de discos que Michael Jackson conseguiu vender.

Foi uma vida de excessos, de chegada ao topo demasiado cedo, de querer ser pioneiro em tudo, de fragilidades emocionais. O herói tinha pés de barro, era uma eterna criança que quis travar a máquina do tempo. Só que esta, inexorável como é, foi particularmente ingrata para com um génio de palco, capaz de criar uma música como ponto de partida para um momento cénico, um espectáculo, uma dança.

É irónico que o «eterno Peter Pan» tenha morrido aos 50 anos. Um número redondo, mas tristemente prematuro para quem era maior do que a vida.

Ao receber a notícia da morte de Michael Jackson apercebi-me disso mesmo: ele não morre. Não pode morrer. O seu nome está inscrito na cultura popular dos últimos 30 anos e ali vai ficar. Não vai morrer como não morreram Elvis, Freddy Mercury ou Kurt Cobain. O seu legado fala por ele.

Como já falava nos últimos dez anos. Afinal, desde que o século mudou que Michael já estava artisticamente morto, assumindo-se como uma sombra, um simulacro que vive à custa da sua condição de ícone cristalizado no tempo.

Para lá das polémicas, é da música que recordaremos. Do seu lado dinâmico, muito pouco discreto, contagiante, frenético. É a soul que abraça o disco sound, que entra pela pop adentro. É Thriller, Billie Jean, Bad ou Black or White.



Este tributo a Michael Jackson é também uma homenagem ao produtor, ao visionário. Jackson foi uma figura extraordinariamente importante no desenvolvimento de novas estratégias visuais. A filmagem em 3D, os efeitos especiais únicos, a capacidade de criar videoclips que eram verdadeiras curtas-metragens muitíssimo dispendiosas... e longas para a estrutura de um teledisco!

Michael Jackson teve o mundo a seus pés. Mas quem é demasiado grande rapidamente desaparece. O que neste caso é até secundário. O génio e o mito nunca estiveram tão vivos. A vida para um artista desta dimensão é só o começo...

23 de junho de 2009

Dar uma luzes aos irmãos Lumière (IX)











Caros irmãos Lumière,

Apetece-me falar do
western, esse género cinematográfico que se quer confundir com as próprias raízes norte-americanas, uma espécie de fado da essência cultural de quem manda no cinema.

É certo e sabido que, neste campo, o cineasta John Ford é o maior de todos. Não só por ter a carreira mais extensa, mas pela capacidade em ilustrar em belíssimos enquadramentos a dimensão humana de histórias que se perdem por paisagens áridas. A essência das aventuras do Velho Oeste resume-se quase sempre a uma missão - de natureza tão simples que até incomoda! - e das múltiplas tentativas para a concretizar.

Pelo meio há as convicções, os laços familiares, a amizade imponderável, os inimigos até ao fim, as perseguições agitadas. Um bom
western é isto. É sentir-se o pulsar de quem desbrava caminhos, de quem ousa. E é talvez a intensidade da sua mensagem que matou o género. O datou num tempo, entendido como de glória.

Hoje, a grande maioria dos esforços para reabilitar o género não são mais do que simples simulacros de algo que já se fez. Há honrosas excepções e aí há que tirar o chapéu a Clint Eastwood e ao seu «Imperdoável», mas a nobreza desse filme estava precisamente na habilidade em perceber que se tratava de uma tentativa de ressurreição. Ao não querer revitalizar o seu património, limitando-se a aceitá-lo, Eastwood explica que ser-se veterano não é para qualquer um.

Há ainda outra característica forte do
western: a sua essência dramática, que se faz de novelos narrativos quase telenovelescos. Mas no bom sentido do termo. Lembro-me disso ao ver «Homens Violentos» (1955), filme de Rudolph Maté.

Aqui, Glenn Ford quer ceder o seu rancho ao maior latifundiário da região, vivido por um apagado Edward G. Robinson, que, para mais, não consegue andar após um acidente. O facto de ser aleijado torna-o ainda mais prepotente e vítima de manipulação quer pela mulher (extraordinária e sempre cínica Barbara Stanwyck), quer pelo seu capataz.

O excesso de poder manifestado pelo vilão da história leva a personagem de Glenn Ford a mudar de ideias e a ficar na sua terra para lutar pela sua propriedade e o direito à independência.

É claro que nada disto será fácil e o rumo de «Homens Violentos» confunde-se com um imenso retrato de personagens desencantadas. Parece que ninguém tem nada a perder e por isso ousa viver no limite.

Aqui o óbvio destaque vai mais uma vez para o papel da mulher irascível vivida por Barbara Stanwyck. Diz-se que, muitas vezes, as mulheres são submissas no
western. Aqui é o oposto: é ela a mais pérfida encarnação do mal. O que torna tudo mais interessante...

«Não me obrigues a lutar porque não vais gostar da minha maneira de lutar», alerta a certa altura John Parrish, o herói tímido de Glenn Ford. No
western, os homens parecem ainda maiores. E dos fracos não reza a história!

22 de junho de 2009

QUIZ: O que têm em comum estas imagens?









São casos de cinema excessivo, carregado nas expressões e no sentido de cinema fantástico. Mas não é essa a semelhança pretendida. É outra... Descobres qual é?

Solução do QUIZ anterior: os elementos fábrica, forca e óculos recordam Dancer in the Dark, de Lars Von Trier

16 de junho de 2009

O QUE AÍ VEM... A Fita Branca












IRA. «Não existe uma só verdade, apenas a verdade pessoal.» MICHAEL HANEKE

É filmado a preto e branco, tem um tom glacial, e deixa-se embrenhar pelo ambiente da guerra.

Ao certo sabe-se ainda que A FITA BRANCA, a última obra do polémico Michael Haneke, regressa à Alemanha rural de 1913.

O espaço da acção é uma escola que é alvo de estranhos acontecimentos, naquilo que parece um ritual de punição.

Sempre habituado a lidar com a violência e a aproximá-la de outras questões mais elevadas, o realizador de «A Pianista» quer analisar com a argúcia de um psicólogo de que forma tudo isso afecta a rotina daquele espaço de ensino e até que ponto se cola tudo isto com o fascismo.

O tema é sério e filmado com aquela crueza que o cineasta já nos habituou em outras ocasiões. A sua câmara estilhaça angústias, que emergem silenciosas, ao mesmo tempo que o medo corrói.

Para ajudar há ainda uma dose de polémica, que acaba por engrandecer o trabalho. Recebeu a mais recente Palma d'Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes, mas a imprensa especializada - ou pelo menos parte dela... - ficou irada com a escolha face a outros títulos a concurso.

Explicações maldosas para a escolha discutível? A presidente do júri no certame deste ano foi a actriz francesa Isabelle Huppert, amiga de Michael Haneke, que a dirigiu implacavelmente em «A Pianista», filme que lhe deu há uns anos a Palma d'Ouro de Melhor Actriz.

No dia da entrega de prémios, Huppert surgiu de branco como que a antever que o resultado da noite já estava mais que certo. O cineasta chegou até a receber o prémio por A FITA BRANCA pelas mãos da própria actriz, quando tal não costuma ser habitual... Os ódios e as tricas no cinema chegam até ao local mais prestigiado de todos. Será que Cannes está cada vez mais parecida com Hollywood?

Efeito número 1 de tudo isto: não vou perder a obra polémica nem por nada. Até porque as obsessões de Michael Haneke são sempre motivo de redobrado interesse.

15 de junho de 2009

OS MEUS POSTERS: O Amor e a Vida Real







































GULA.
Já se suspeitava que Steve Carell é um dos valores mais seguros da nova comédia norte-americana. Vê-lo ao lado de uma luminosa Juliette Binoche a tentar pôr cobro aos sentimentos, enquanto vê a sua unidade familiar posta em causa, é irresistível. O AMOR E A VIDA REAL não é daquelas produções densas, é antes uma hipótese para um retrato humano, uma jornada pelo amor quando já se é adulto e os cabelos brancos insistem em aparecer. O tempo passa e é bem passado nesta inteligente comédia de Peter Hedges.

11 de junho de 2009

Elogio da simplicidade












AVAREZA. «Um caloroso elogio da amizade, do espírito de comunidade, da sociabilidade civilizada, dos rituais compartilhados que unem as pessoas e da unidade familiar Eurico de Barros in Cinema 2000

As melhores coisas são as mais simples. Até no cinema. Lembro-me disso quando vejo CHUVEIRO, cuja mensagem é precisamente a de enaltecer os pequenos nadas que formam a personalidade.

O prazer do convívio, a necessidade de nos sentirmos em família são mensagens universais que o realizador Zhang Yang soube decompor com as doses certas de integridade artística.

E de que nos fala este caloroso filme? Sobre o confronto entre tradição e modernidade, mas de um modo poeticamente singelo, com direito a breves reflexões sobre o que realmente interessa.

Um homem de pele enrugada e corpo seco pelo peso do trabalho parou no tempo. Juntamente com o filho mais novo, que possui atraso mental, dirige um balneário inserido numa pequena comunidade que resistiu até agora à transformação cosmopolita de Pequim.

Neste espaço, o tempo pára e um rol de personagens que se conhecem como a palma da mão usam o ritual do banho público não só para limparem o corpo como também o estado de espírito.

No local, há episódios cómicos que preenchem a história e lhe dão a vivacidade precisa para ser maior. Seja o par de idosos que se insulta diariamente mas que não consegue viver sem a respectiva companhia, o jovem tímido que só ousa soltar a sua voz de rouxinol quando está no banho, ou o casal que recupera a líbido, com uma ajudinha do mestre dos banhos públicos.

A vida dá nova volta quando o filho mais velho, que se havia retirado para a grande cidade em busca de sucesso, regressa a casa preocupado com o estado de saúde do pai. Falso alarme, mas ainda assim o suficiente para se perceber que aquele que saiu à procura do êxito é um estranho. Não só para quem usa o balneário como para o próprio pai e irmão.

Haverá tempo para inverter esta situação? Claro que sim, até porque Zhang Yang não quer falsas surpresas que comprometam a vida destas personagens. CHUVEIRO é caricatural e até previsível, mas só no lado bom destes conceitos.

Os afectos ganham peso de dia para dia, na mesma certeza como os banhos públicos abrem as suas portas para quem quiser limpar o peso da vida quotidiana. A paz tem morada certa em nome de uma tradição que aqui se debate com o futuro massacrante.

A dualidade pode parecer primária e simplista, mas a mensagem deste filme não o é. CHUVEIRO (estreado em 1999, com o título original Xizao) respira relações humanas e «limpa» tudo o que é supérfluo. Só fica aquilo que importa: as coisas simples.

10 de junho de 2009

Dar umas luzes aos irmãos Lumière (VIII)












Caros irmãos Lumière,

Da recente viagem que fiz à Grécia apercebi-me que o país ainda tem grande tradição de sessões de cinema na esplanada, em particular nas suas ilhas. O ritual deu-me saudades e alguma pena por pensar que, com excepção da Cinemateca no Verão, contam-se pelos dedos de uma mão as experiências semelhantes por cá.

Ver cinema ao ar livre é outra coisa. Coloca a brisa da noite como personagem secundária do filme que estiver a dar, enaltece o espírito de experiência colectiva e até permite, em muitos casos, ceder aos vícios de uma bebida ou de um cigarro.

Resumindo: aligeira o acto, sem lhe retirar o mínimo de autenticidade. É certo que para se ver cinema ao ar livre tem de se escolher a noite, período por excelência para a contemplação. Não só porque o luar se assume como a luz perfeita de fundo, mas também porque esta é a altura indicada para digerir as experiências acumuladas durante o dia, além do silêncio. A noite traz consigo o silêncio retemperador que também possibilita mais concentração.

Experiências positivas ao ar livre? Ver A MÚMIA, de Karl Freund, nunca foi tão divertido. Até porque obras ligeiras parecem mais elevadas neste tipo de sessão. O próprio Boris Karloff, apesar do rosto sisudo, combinou bem com as estrelas de um serão soalheiro.

Houve também «Big Fish», esse conto sobre a própria arte de contar um conto que a mão engenhosa de Tim Burton converteu em fantasia intimista; ou «Avanti!», a obra que respira Verão por todos os poros de Billy Wilder, com Jack Lemmon a enterrar um corpo e a soltar o seu numa soalheira e pitoresca Itália.

Vivências deste tipo não se esquecem. Os filmes parece que ficam ainda mais entranhados na retina. Por isso soube bem perceber que ainda há grande tradição do cinema ao ar livre por esse mundo fora. Que tal voltar ao hábito por terras lusitanas?

7 de junho de 2009

NA SALA ESCURA: Culto ressuscitado












SOBERBA. «Live long and prosper.» SPOCK (Leonard Nimoy)

É um bocadinho irritante constatar que o cinema está cada vez mais sem ideias. Ou melhor: percebeu-se que é mais fácil alcançar o êxito, capaz de pagar as contas, se se for repescar um clássico de outros tempos ou inventar uma sequela menor para uma história que já terminou algumas vezes.

Na semana em que se estreou o novo capítulo de «Exterminador Implacável», fui ao cinema ver finalmente o que o criador de «Perdidos» fez com a saga «Star Trek». Com uma agravante: sempre vi as peripécias da nave Enterprise com algum distanciamento, projecto menor face a outros como o «Espaço 1999» ou «A Guerra das Estrelas».

O que me incomodava particularmente era o culto desmesurado perante um projecto que, a meu ver, não o justificava.

Engoli em seco e lá assenti perceber como é que Mr. Spock e companhia chegavam aos tempos de hoje, depois de uma série de filmes pouco expressivos na década de 90. Basicamente era o tudo ou nada na tentativa de reabilitar a saga, mas Hollywood costuma dar-se bem quando parece que o projecto só consegue segurar-se à custa de electrochoques.

E foi o que aconteceu aqui. STAR TREK é um trabalho certeiro por optar em mostrar como tudo começou e, assim, não só se contentam os fãs como os potenciais admiradores da geração de 90. Mas, mais do que isso, o filme possui uma dinâmica imbatível, descarta qualquer tipo de tempo morto e ainda se diverte a refazer chavões e a convocar glórias do passado - até Leonard Nimoy faz uma perninha numa inventiva distorção temporal.

A acção surpreende o olhar, mas sem ser desmesurada. Há até um tom kitsch que reabilita as imagens e os sons de uma certa ficção científica cristalizada no tempo. Depois, os novos actores requisitados, são apostas sólidas apesar de praticamente desconhecidas, com particular destaque para o novo Mr. Spock (Zachary Quinto).

A surpresa é ainda maior quando se vê Winona Ryder num pequeno papel. Sabe bem recordar a actriz, que veio dizer à revista «Empire» que sentiu esta pequena participação à semelhança - e salvo as devidas distâncias! - da de Marlon Brando no primeiro «Superman».

A saga STAR TREK está viva e os números entusiasmantes nas bilheteiras deixam adivinhar sequelas até mais não. O mérito está na realização descomplexada de J. J. Abrams, um dos nomes a reter no futuro. O novo cinema comercial passa por ele. E se tiver sempre a leveza e o sentido de divertimento deste filme estará em boas mãos.

STAR TREK
De J.J. Abrams (2009)
* * *
Quando se quer reabilitar uma saga nada como baralhar e dar de novo, regressando-se às origens. Foi o que Christopher Nolan fez com Batman e é o que J.J. Abrams escolheu para STAR TREK. Assim, percebemos as circunstâncias do nascimento de Kirk, a sua entrada na Academia Starfleet, o seu antagonismo e posterior amizade com Spock e as batalhas contra os Romulanos. Entre o impulso de Kirk e a racionalidade de Spock, constrói-se uma divertida e enérgica acção que tenta justificar as suas opções em nome do bom espectáculo. Não pede para ser levada muito a sério, tem fragilidades como a presença caricatural de Eric Bana enquanto vilão, mas lembra outros tempos. Actualizados com engenho sem perderem a frescura.

5 de junho de 2009

ILUSÕES DE ÓPTICA: Até sempre, David Carradine

CINEFILIA: As cinco promessas de Junho










SOBERBA.
Já começaram a estalar as estreias de Verão que, até ao momento, e com excepção do divertido «Star Trek», pouco têm surpreendido. Este mês, há mais títulos fortes, mas há projectos mais pequenos que convém prestar atenção.

- RUDO E CURSI: É o reencontro de Gael García Bernal e Diego Luna, dupla que descobriu os prazeres da carne no impecável «E a Tua Mãe Também». De novo no México, os dois sonham poupar dinheiro para construir a casa de sonho da mãe. Acabam jogadores de futebol profissionais, com o lado bom e mau dessa opção. Vale pelo tom latino da trama e promete contentar os adeptos do desporto, já a ressacar pela longa temporada estival.

- LIGAÇÕES PERIGOSAS: Russell Crowe, Ben Affleck, Helen Mirren, Jeff Daniels, Robin Wright Penn e Rachel McAdams. Um elenco à prova de bala num elogiado filme policial que se baseia numa mini-série da BBC. Diz-se que o tom da investigação é profundo e que Russell Crowe volta a impressionar. A ver vamos. É do mesmo realizador de «O Último Rei da Escócia».

- EXTERMINADOR IMPLACÁVEL - A SAlVAÇÃO: Sejamos claros, só os adeptos da saga original devem arriscar ir ao cinema ver este ruidoso filme. Ponto alto? Christian Bale, que cada vez mais sabe o que quer no cinema. Ponto menos bom? O realizador McG, sim esse que tem nome de rapper e que nos deu esse filme sofrível que é «Os Anjos de Charlie». E não é que já se ouvem elogios um pouco por todo o lado?

- DUPLO AMOR: O promissor cineasta James Gray faz uma pausa nos filmes de gansters e aproxima-se da comédia romântica. Espera-se que seja sensível. Pelo menos Joaquin Phoenix (antes de se ter passado da cabeça...) e Gwyneth Paltrow são bons augúrios.

- COCO AVANT CHANEL: A moda dos biopics continua. Agora é a vez da doce Audrey Tautou fazer-se ao Óscar interpretando Coco Chanel, a figura que revolucionou o mundo da moda.

2 de junho de 2009

OS MEUS POSTERS: Up - Altamente!







































GULA. A cartada da Pixar para esta temporada também se avizinha um delírio para os olhos e uma referência em matéria de argumento. Não só é já um êxito de bilheteira, como os aplausos se multiplicam um pouco por todo o lado. É caso para dizer que os produtores de «Toy Story» e «À Procura de Nemo» não falham uma. E continuam a fazer magia e a levar o espectador a contar as horas para ir ver o mais recente trabalho. «Up - Altamente!» parece ser o filme perfeito para toda a família. No melhor sentido do termo.

1 de junho de 2009

Os Sete Pecados de... Maio 2009













SOBERBA. Acabadinho de chegar de umas férias pelas praias gregas, de que me apetece falar? Da Grécia, propriamente dita. Da sua história, dos seus filósofos, das suas praias, dos seus contrastes, da sua arte para desenrascar, da sua gastronomia, dos seus barcos. Há uma frescura neste país que contagia. Mais nas suas ilhas (Creta, Santorini, Myconos) do que propriamente na velha Atenas desajustada e suja. O património artístico também é de lembrar, mas neste momento até dá vontade de ir finalmente ver os encantos do megaêxito MAMMA MIA!. Tudo porque se passa nas belas paisagens de Santorini - o ponto alto desta viagem retemperadora.

GULA. Pelo caminho, em Madrid, dei uma espreitadela à Fnac e descobri que há mais edições de coleccionador lá fora do que por cá. Descobri uma de «Pulp Fiction», que inclui lenço alusivo ao filme; outra de «Tróia», carregada de extras. Mas o achado maior trouxe-o comigo: uma edição dupla de «La Dolce Vita» por 6 euros, com uma longa entrevista a Fellini a preencher o segundo disco. É certo que só tem legendas em castelhano, mas custa-me comprar a versão portuguesa da Costa do Castelo, que é quatro vezes mais mais cara - esta é, provavelmente, a editora mais inimiga das promoções.

INVEJA. Finalmente há uma Palma d'Ouro nacional no Festival de Cannes. O mérito foi de João Salaviza que, com «Arena», trouxe para casa o prémio principal na categoria de curta-metragem. Trata-se da história que se estende por apenas 15 minutos de um jovem em prisão domiciliária. Esperemos que a exibição nacional não demore!

PREGUIÇA. Maio foi um mês sem idas ao cinema. Algo que entristece mas que também é sintomático do número de poucas estreias realmente capazes de arrastarem alguém com pouco tempo disponível para a sala escura. Ainda assim, nem a nova versão de «Star Trek» consegui descobrir.

IRA. A morte de Bénard da Costa empobreceu o cinema. Por mais críticas que se lhe fizessem, amou a sétima arte como poucos. E um pouco dela desapareceu com ele no passado dia 21.

LUXÚRIA. A descoberta do mês vai para um western discreto, mas muito forte no modo como eleva a cobiça. Um tesouro grandioso descoberto por Dutch (Glenn Ford) vai levá-lo ao cúmulo da desgraça. Até o seu grande amor, que na verdade é casada, sonha com a sua destruição e quer apenas o seu dinheiro. «Oiro Maldito» tem os ingredientes certos, mas acima de tudo uma presença feminina que vai mais longe do que é costume. A personagem de Ida Lupino coloca a ganância num patamar demasiado elevado. Nada disto pode acabar bem...

AVAREZA. A realização de Ryan Fleck é tão assombrosa na sua contenção em «Half Nelson - Encurralados» que até assusta. No entanto, este filme sobre personagens perdidas só funciona porque há uma força da natureza chamada Ryan Gosling. É um filme sobre a arte de ensinar mas representa quase uma antítese do moralismo de «O Clube dos Poetas Mortos». A vida real não tem graça!

21 de maio de 2009

Adeus, Sr. Cinemateca












INVEJA. «João Bénard da Costa viu muitos filmes, todos os filmes, uma vida inteira de filmes, mas também via sempre filmes que mais ninguém via, porque neles descrevia o que lá estava e não estava, isto é, aquilo que não era aparente e óbvio antes de o lermos nos seus textos.» in nota da Cinemateca

Morreu o «sr. Cinemateca».

Um daqueles símbolos sobre como vale a pena defender o cinema. E como ele foi maltratado no nosso país... Se o Museu do Cinema é a jóia que é hoje deve-o à figura que amava «Johnny Guitar» como ninguém e que explicava o que se escondia para lá das imagens nas folhas A4 distribuídas entre sessões.

Graças a ele olho para «O Retrato de Dorian Gray», de Albert Lewin, de uma forma diferente. Ou para «As Duas Feras», de Howard Hawks.

João Bénard da Costa (1935-2009) faz falta. Mesmo que o cinema continue. O ex-director da Cinemateca procurava transpor em palavras o que os olhos vêem e não esquecem. E contextualizou muitos dos filmes da nossa vida.

20 de maio de 2009

QUIZ: Estes elementos lembram que filme?









Um desafio segundo um modelo já testado. É mais fácil do que parece... Pelo menos para quem se lembrou dele. É. Costuma ser sempre mais fácil para quem sabe desde logo a resposta.

Solução do QUIZ anterior: O Pântano, da argentina Lucrécia Martel.

O MAIOR PECADO DE... Walter Salles












PREGUIÇA. «O estimado realizador brasileiro Walter Salles cai de frente na sua primeira saída por Hollywood com um filme de terror que aborrece até às lágrimas» COLESMITHEY.COM

Ninguém entende o que se terá passado pela cabeça de um dos mais inteligentes e criativos realizadores do novo cinema brasileiro. À primeira tentativa para impressionar Hollywood, um espalhanço de todo o tamanho. Houve até quem receasse que os créditos ganhos com obras tocantes como «Central do Brasil» ou «Diários de Motocicleta» pudessem ficar comprometidos.

Mas não: Walter Salles viu-se obrigado a repensar a carreira e regressou ao território seguro do Brasil de contrastes para produzir o valioso «Linha de Passe». O que se passou mal com ÁGUAS PASSADAS? Tudo, ou quase.

É certo que há uma tentativa por criar uma atmosfera de terror e há ainda o peso pesado que é Jennifer Connelly e os seus olhos claros. De resto, apenas uma nova versão de um filme de terror oriental, igual a tantos outros.

A moda de repescar obras negras asiáticas e dar-lhe um tom de Hollywood, raramente corre bem - OK, há uma excepção de peso: «Entre Inimigos» de Scorsese, mas isso só confirma a regra.

Uma mãe tenta refazer a sua vida depois de um divórcio. Mas há estranhos fenómenos a acontecer na nova casa... Pois, a premissa também não ajuda.

Sabe-se inclusivamente que o próprio Walter Salles não apreciou o resultado final e queixou-se que os produtores lhe adulteraram a montagem final. Pode até dar-se o benefício da dúvida. De resto, é apenas um filme que quer meter medo e não consegue.

Tem um bom tratamento de imagem, alguns planos inventivos, um elenco secundário que não compromete (John C. Reilly, Tim Roth, Pete Postlethwaite). Mas tem também uma vontade forçada de chegar ao seu término, que quer ser surpreendente, e muitos pontos fracos. A «retalhada» na montagem deve ter sido mesmo grande, porque não se vislumbra o dedo criativo do realizador brasileiro...

Críticas de fugir:
- JOÃO LOPES:
A estrutura vai-se decompondo em fáceis mecanismos de «suspense», como se se tratasse apenas de «adiar», por qualquer preço, o desenlace.
- MTV: ÁGUAS PASSADAS afunda-se no peso da sua até cómica previsibilidade.
- BBC: É um falhanço enquanto filme de terror.
- VILLAGE VOICE: Falha na tentativa de criar o efeito-surpresa do twist narrativo que a sua base permitia.

17 de maio de 2009

NA SALA ESCURA: Crescer com barreiras









IRA. «Algumas pessoas chamam-nos racistas. Não somos racistas! Somos realistas!» LENNY (Frank Harper) em Isto é Inglaterra

A infância, quando se aproxima da adolescência, é já um período de convulsão. E é também um momento em que a absorção da realidade circundante se opera de uma forma particularmente evidente.

Estreados há umas semanas nas salas nacionais, eis dois excelentes casos que pensam essa etapa da vida no meio de duas realidades sociais distintas - quer geográfica, quer cronologicamente - e, com isso, configura interessantes pontos de vista sobre a formação da identidade.

De um lado temos os anos 80 num «Reino pouco Unido» em ISTO É INGLATERRA, de Shane Meadows; do outro, mais um exemplo do novo cinema brasileiro que se vinca nas desigualdades urbanas, mas sem miserabilismos comprometedores: o oportuno LINHA DE PASSE, de Walter Salles.

O primeiro é um precioso trabalho, quase documental, sobre uma década de clivagens, quer políticas, quer artísticas. No meio de uma Inglaterra dilacerada pela Guerra das Malvinas, uma criança (verdadeira revelação que é Thomas Turgoose) aproxima-se de um grupo de amigos mais velhos que lhe alteram o visual e as convicções.

Daí, entra-se numa perigosa jornada ideológica, com a entrada de um grupo de personagens nacionalistas extremas - sim, skinheads! - que lhe deformam o pensamento e o levam a pensar que o país não se compadece com estrangeitos «inaptos».

Ao aliar o despertar da adolescência com reflexões sobre o racismo, Shane Meadows consegue mostrar personagens à procura de um rumo sem ceder a facilitismos sentimentais.

Além disso, ISTO É INGLATERRA olha para os anos 80 já com um adequado distanciamento, quase documental, e traz consigo uma pulsão interna que acabará por «rebentar» no momento-chave do filme, caso de terror psicológico muito bem elaborado.

O cinema é aqui maduro, inteligente e ávido por pensar as pessoas. Coisa que LINHA DE PASSE também faz, mas numa lógica totalmente diferente.

Passado num dos múltiplos bairros pobres de São Paulo, este filme quer colocar o olhar do espectador dentro de uma casa sem meios, mas digna. Digna no seu esforço de sobrevivência quando nada ou muito pouco se tem.

Cleuza (Sandra Corveloni, Palma d'Ouro de Melhor Actriz no Festival de Cannes) é a mãe esforçada de quatro jovens, que vivem todos numa apertada casa de paredes escuras. O mais velho distribui encomendas, o segundo vive entre o trabalho num posto de combustível e a fé numa das igrejas que testam o fanatismo, o terceiro sonha ser jogador de futebol e o mais pequeno, preto, vive entre a escola e a vontade em conduzir um autocarro.

As aspirações convivem diariamente com a contrariedade, o vício e a violência. Mas o realizador Walter Salles (a meias com Daniela Thomas), que já nos deu algo de muito bom como «Diários de Motocicleta» ou «Central do Brasil» e algo de mau como «Águas Passadas», está interessado em evidenciar este punhado de personagens segundo a lógica do dia-a-dia, numa vida feita de bons e maus momentos.

Se Cleuza sucumbe muitas vezes ao cansaço e à incapacidade de gerir uma casa onde não existe um pai (na verdade, percebe-se que haverão vários...), por outro há ainda vontade em manter a união e empatia familiar.

LINHA DE PASSE termina em aberto, num instante em que as vidas dos quatro filhos se encontram em momentos-chave. Será que vai dar certo? Ou é a entrada no abismo? No fundo, um teste ao optimismo do espectador, embrenhado numa realidade brasileira que é anti-telenovela.

O que ISTO É INGLATERRA e LINHA DE PASSE têm em comum é mostrarem a dificuldade que é o crescimento. Que engrandece quando se ultrapassam os obstáculos.

Outra crítica de ISTO É INGLATERRA aqui

ISTO É INGLATERRA
De Shane Meadows (2006)
* * * * *

Chegou atrasado este importante filme independente, que pensa a adolescência, mas também a realidade política do Reino Unido dos anos 80. Além disso, expõe as personagens ao estilo e à cultura de uma década que muitos vêem como «maldita». Muito bem dirigido, é um manual sobre a formação da identidade ou a difícil arte em perceber em que lugar se deve estar neste mundo. Seja fisica, seja ideologicamente.



LINHA DE PASSE
De Walter Salles (2008)
* * * *
De repente, nota-se uma enchente do novo cinema brasileiro nas salas nacionais. E ainda bem. Apesar de tematicamente poder ter semelhanças com Cidade de Deus, este retrato familiar vai mais longe. Não há aqui tantas pretensões a nível de moldura social, mas apenas uma forma de conceber a rotina familiar na favela. Com alma verdadeiramente brasileira, o filme é belo plasticamente e filma o futebol de um modo apaixonado. O Brasil é isto!

11 de maio de 2009

O QUE AÍ VEM... Los Abrazos Rotos







AVAREZA.
«O cinema pode preencher os espaços vazios da tua vida e da tua solidão.» PEDRO ALMODÓVAR

Quem não tem saudades de mais uma história de cordel contada pela câmara sensível de Almodóvar que levante o braço.

Ausente desde «Voltar», o cineasta espanhol voltou a convocar a sua nova musa, Penélope Cruz, que deve aparecer novamente esplendorosa, até de cabeleira loura para ser a alma de LOS ABRAZOS ROTOS.

Depois de perder a visão e o amor da sua vida num acidente de carro, um homem vive na obscuridade. É assim que começa mais um conto desencantado, com o realizador espanhol novamente atento aos meandros da sensibilidade.

Ao que parece, são quatro histórias que se imbricam, daquelas de pais e filhos quase à maneira de uma telenovela, que Almodóvar eleva pela sua extraordinária veia dramática e câmara hábil.

É já um dos favoritos para a edição do Festival de Cannes que está aí a estalar. Já às salas nacionais só chega no fim do Verão.