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8 de março de 2010

Óscares: As surpresas vieram no fim

SOBERBA. "Este prémio é para os homens e mulheres que arriscam todos os dias a sua vida no cenário de guerra, seja no Iraque, no Afeganistão ou em outras partes do Mundo. Voltem em segurança." KATHRYN BIGELOW

Um filme de guerra mas com mensagem de paz: foi assim o serão deste domingo de Óscares, numa cerimónia praticamente sem surpresas, demasiado retalhada pelo medo da monotonia e com a química entre os anfitriões Steve Martin e Alec Baldwin a deixar muito a desejar. Surpresas, surpresas foi mesmo a imensa derrota de 'Avatar' e a consagração de 'Estado de Guerra'.

Com seis Óscares, este estimulante trabalho - que eleva o cinema de acção a um nível particularmente inventivo - permitiu, além de ser considerado Melhor Filme, a Kathryn Bigelow tornar-se a primeira mulher a vencer o Óscar de Melhor Realização. Uma justa consagração, para uma trabalhadora de há muitos anos, adepta de um cinema em nome próprio, musculado e cerebral.

'Estado de Guerra' é mesmo o ponto alto da carreira oscilante de Bigelow e merece agora o reconhecimento depois de uma passagem discreta pelas salas nacionais no ano passado. As deambulações de um trio de militares no Iraque, com a extrema função de desactivarem bombas instaladas pelos rebeldes da Al-Qaeda, são um misto caloroso de vigor e emoção em estado puro, com as belas sequências ritmadas devidamente contrabalançadas com um retrato denso dos seus protagonistas. Foram Óscares merecidos.

De resto, 'Avatar' de James Cameron ficou pelo caminho: venceu apenas três estatuetas douradas de relevo técnico, com particular ênfase para os Melhores Efeitos Especiais. Além disso, o realizador de 'Titanic' teve de se contentar em ser o alvo da chacota da noite: Ben Stiller meteu-se com ele, assim como o realizador do Melhor Filme Estrangeiro (o argentino 'El Secreto de Sus Ojos'), Juan José Campanella: “Quero agradecer à Academia por não entender Na'vi como uma língua estrangeira”, disse no seu discurso.

Outros premiados? Sandra Bullock foi a Melhor Actriz (por 'The Blind Side') e Jeff Bridges (por 'Crazy Heart', que recebeu ainda mais um prémio pela canção). 'Precious' ganhou dois Óscares (Melhor Actriz Secundária, Mo'Nique, e Argumento Adaptado) e 'Up-Altamente!' também (Melhor Banda Sonora e Filme de Animação). Já Christoph Waltz salvou 'Sacanas Sem Lei' de sair da gala com um prémio: o de Melhor Actor Secundário. Para o ano há mais. Espera-se que com uma cerimónia com mais sal...

15 de fevereiro de 2010

As voltas que isto dá

GULA. «O gosto é o resultado de mil desgostos.» FRANÇOIS TRUFFAUT

Seis meses depois, de volta. E o que mudou nestes seis meses? Casei-me, mudei de emprego, andei algo desorientado, reencontrei-me, arranjei um cão.

E no cinema? "Avatar" revolucionou e arrecadou milhões, o cinema 3D está na moda, estrearam-se novos títulos de Coppola, Allen ou Haneke, morreu Eric Rohmer e a arisca Brittany Murphy, nasceu uma estrondosa versão em DVD de 'O Feiticeiro de Oz' e 'E Tudo o Vento Levou'. Houve mais nomeações para os Óscares, os videoclubes estão a fechar, os pedidos de vídeos em casa a subir. Fala-se de novos ecrãs, de novas potencialidades, espera-se a morte dos media convencionais... Apareceu o iPad, quase desapareceu o VHS.

O que fica disto tudo? Uma saudade por não ter acompanhado de perto, aqui e perante a pequena legião de fiéis, estes e outros momentos, mas com a certeza de que as ondas andam agitadas e que o prazer do cinema se mantém. Rejuvenescido, disperso e ansioso por ser traduzido em palavras.

Volto com a vontade de antes e com a certeza de que vêm aí mais instantes para serem partilhados. O SIN CINEMA, apesar da recente ausência, mantém a estrutura e a filosofia de antes: pensar o cinema pelo olhar de quem se deixa submergir por ele. É bom estar de volta!

10 de agosto de 2009

Até um dia destes











PREGUIÇA. «Pensa devagar, age depressa.» BUSTER KEATON

As coisas estão sempre a mudar, a uma velocidade que impressiona. O próprio cinema muda. Há novos desafios a agarrar, oportunidades que não se podem perder. Ao mesmo tempo, há alturas em que se deve fazer uma pausa. Para depois voltar com a alma revigorada.

O SIN CINEMA vai de férias. Volta num dia destes...

27 de julho de 2009

O meu amigo escritor

INVEJA. «Toda a gente tem uma ideia para escrever um livro, a dificuldade está precisamente em passar da ideia para o livro. É preciso ganhar coragem para passar da inspiração para a fase da transpiração.» MIGUEL CARDOSO PEREIRA in A Bola

Na capa vem escrito Miguel Cardoso Pereira, mas para mim o autor de AMOR DOS BABUÍNOS será sempre o meu amigo Zé .

Ou melhor, o Zé é Miguel Cardoso Pereira quando se agarra às palavras, as articula numa preciosa mistura discursiva e as molda para dar forma a um confessional romance que não é mais do que uma visão profunda sobre o sentido do amor e da morte. Ou sobre a falta dele.

Quando a apetência se faz sobre o cinema e as suas imagens, li o livro do meu amigo Zé e foram novamente imagens que se formaram na mente, pela hábil capacidade em criar expressões de sentido figurado, metáforas inteligentes e muita ironia. Além de um romântico, Zé é também um observador atento das incongruências do dia-a-dia. O episódio no centro comercial com a avó ou os instantes de alienação no banco de uma sala da faculdade com uma «caneta para halterofilistas» mostram que por aqui as ideias fervilham.

Em AMOR DOS BABUÍNOS, a escrita não é totalmente fluída, impõe constantes travões pela melhor das causas: cada frase tem a postura imponente da singela poesia e o tom cortante das reflexões sobre a condição do ser humano. E o que queremos desta vida? Viver. Sentir na pele as marcas dos momentos que nos definem. Amar. Estarmos juntos.

É certo que na escrita do Miguel passa também aquele tom intimista, melancólico, triste dos que sofrem. Mas quem é que não sente o peso das contradições? Quem é que não tem receios? Ao deixar-se submergir nas vozes (e nos corpos) de um casal, que possuem muitos inícios e fins numa longa jornada sentimental, o Miguel expõe uma escrita madura, crua e muito segura de si.

Exemplos? «Tu, dentro de mim, és escuro, mas é o meu céu. Neste dia és o céu de todos os céus do planeta, ainda que sejas negro, sem luz por dentro, sejas dia sem luminosidade. Sejas um fogo que arde nas cinzas e não nas chamas. Não sei se quero ir, mas vou. Ou melhor: não vou, não é bem isso, não é propriamente uma decisão que tomo, não tenho idade para tomar decisões. As decisões são o contrário dos gostos. Um gosto não é uma decisão.»

Mais um? «A piada é que envelhecer tem destas coisas: cada ano que passa um estranho é mais estranho que antes. Quando eu era miúda, um estranho não estava tão longe como tu pareces estar. O crescimento impede que um estranho entre tão facilmente na nossa vida. Na meninice ninguém é estranho, é uma lei básica da inteligência.»

Mais sobre AMOR DOS BABUÍNOS

Demorei algum tempo a perceber que o meu amigo Zé era também o Miguel da escrita. Há surpresas boas como esta... No dia do lançamento do seu livro, o Miguel (que é também o meu amigo Zé) explicou que partiu a sua história em pequenos capítulos com datas, porque elas simbolizavam os pequenos fins ou começos que definem as nossas lembranças. Ou seja: a memória não é mais do que o filtro que nos remete para algo que começa ou acaba.

Pois bem, O AMOR DOS BABUÍNOS é um gigantesco começo para a vida do Miguel e do meu amigo Zé. É também um começo para quem o lê e o conhece de perto: sabe que este é o ponto de partida para algo muito maior.

18 de julho de 2009

Há piratas na Cinemateca!













IRA. «Um casamento? Adoro casamentos... Há bebidas por todo o lado.» Jack Sparrow (Johnny Depp)

É uma questão de bom gosto. Já aqui falei em diversas ocasiões das vantagens de se ver um filme na esplanada. A Cinemateca insiste no óptimo ritual de Verão que, neste mês de Julho, é dedicado inteiramente aos filmes de capa e espada, a tradução possível para um género que fez história em Hollywood: o swashbuckler.

Para tal, recorda não só os clássicos de sempre - começou por exibir A Rainha dos Piratas, do excelente Jacques Tourneur - como o maior êxito moderno dentro deste género, capaz de tornar Johnny Depp numa super-estrela: caso de O PIRATA DAS CARAÍBAS: A MALDIÇÃO DO PÉROLA NEGRA, que está agendado para o próximo dia 25.

E o que prometem estes serões? Um calor motivado por aventuras, rebeldia e vontade em fazer uma forma peculiar de justiça. Há acção, duelos entre heróis e vilões e, especialmente, anti-heróis.

O bom gosto de quem agendou o ciclo «Piratas a Cores na Esplanada» faz com que se lembre, por exemplo, «No Reino dos Corsários», de George Sherman, que será exibido esta noite. Trata-se de mais um trabalho com o inevitável Errol Flynn, herói para toda a família que sai ileso de um género e enaltecido pela força do technicolor. Neste movimentado jogo de encruzilhadas, o duelo será com Anthony Quinn...

Lembra-se ainda «O Barba Negra», de Raoul Walsh ou «Tempestade na Jamaica», de Alexander Mackendrick. Neste excelente «baú de memórias cinéfilas», o melhor mesmo é consultar a programação completa para não se perder pitada. As noites prometem aquecer na Rua Barata Salgueiro.

27 de junho de 2009

O palco será sempre dele

INVEJA. «Não gosto de música pop.» MICHAEL JACKSON

Há a música. Mas também há as imagens!

A morte de Michael Jackson é também a morte de um certa forma de espectáculo, quase impossível de repetir nos dias de hoje.

Com excepção de Madonna ou até, de uma certa forma dos U2, o mundo do showbiz já não permite uma escala de êxito tão desmesurada como esta, a de Michael, artista de corpo inteiro que sucumbiu ao lado perverso da fama.

A disseminação de conteúdos, a multiplicidade de plataformas, o ver e o ser visto criam artistas com uma longevidade mais reduzida, que já não vendem a «monstruosidade» de discos que Michael Jackson conseguiu vender.

Foi uma vida de excessos, de chegada ao topo demasiado cedo, de querer ser pioneiro em tudo, de fragilidades emocionais. O herói tinha pés de barro, era uma eterna criança que quis travar a máquina do tempo. Só que esta, inexorável como é, foi particularmente ingrata para com um génio de palco, capaz de criar uma música como ponto de partida para um momento cénico, um espectáculo, uma dança.

É irónico que o «eterno Peter Pan» tenha morrido aos 50 anos. Um número redondo, mas tristemente prematuro para quem era maior do que a vida.

Ao receber a notícia da morte de Michael Jackson apercebi-me disso mesmo: ele não morre. Não pode morrer. O seu nome está inscrito na cultura popular dos últimos 30 anos e ali vai ficar. Não vai morrer como não morreram Elvis, Freddy Mercury ou Kurt Cobain. O seu legado fala por ele.

Como já falava nos últimos dez anos. Afinal, desde que o século mudou que Michael já estava artisticamente morto, assumindo-se como uma sombra, um simulacro que vive à custa da sua condição de ícone cristalizado no tempo.

Para lá das polémicas, é da música que recordaremos. Do seu lado dinâmico, muito pouco discreto, contagiante, frenético. É a soul que abraça o disco sound, que entra pela pop adentro. É Thriller, Billie Jean, Bad ou Black or White.



Este tributo a Michael Jackson é também uma homenagem ao produtor, ao visionário. Jackson foi uma figura extraordinariamente importante no desenvolvimento de novas estratégias visuais. A filmagem em 3D, os efeitos especiais únicos, a capacidade de criar videoclips que eram verdadeiras curtas-metragens muitíssimo dispendiosas... e longas para a estrutura de um teledisco!

Michael Jackson teve o mundo a seus pés. Mas quem é demasiado grande rapidamente desaparece. O que neste caso é até secundário. O génio e o mito nunca estiveram tão vivos. A vida para um artista desta dimensão é só o começo...

11 de junho de 2009

Elogio da simplicidade












AVAREZA. «Um caloroso elogio da amizade, do espírito de comunidade, da sociabilidade civilizada, dos rituais compartilhados que unem as pessoas e da unidade familiar Eurico de Barros in Cinema 2000

As melhores coisas são as mais simples. Até no cinema. Lembro-me disso quando vejo CHUVEIRO, cuja mensagem é precisamente a de enaltecer os pequenos nadas que formam a personalidade.

O prazer do convívio, a necessidade de nos sentirmos em família são mensagens universais que o realizador Zhang Yang soube decompor com as doses certas de integridade artística.

E de que nos fala este caloroso filme? Sobre o confronto entre tradição e modernidade, mas de um modo poeticamente singelo, com direito a breves reflexões sobre o que realmente interessa.

Um homem de pele enrugada e corpo seco pelo peso do trabalho parou no tempo. Juntamente com o filho mais novo, que possui atraso mental, dirige um balneário inserido numa pequena comunidade que resistiu até agora à transformação cosmopolita de Pequim.

Neste espaço, o tempo pára e um rol de personagens que se conhecem como a palma da mão usam o ritual do banho público não só para limparem o corpo como também o estado de espírito.

No local, há episódios cómicos que preenchem a história e lhe dão a vivacidade precisa para ser maior. Seja o par de idosos que se insulta diariamente mas que não consegue viver sem a respectiva companhia, o jovem tímido que só ousa soltar a sua voz de rouxinol quando está no banho, ou o casal que recupera a líbido, com uma ajudinha do mestre dos banhos públicos.

A vida dá nova volta quando o filho mais velho, que se havia retirado para a grande cidade em busca de sucesso, regressa a casa preocupado com o estado de saúde do pai. Falso alarme, mas ainda assim o suficiente para se perceber que aquele que saiu à procura do êxito é um estranho. Não só para quem usa o balneário como para o próprio pai e irmão.

Haverá tempo para inverter esta situação? Claro que sim, até porque Zhang Yang não quer falsas surpresas que comprometam a vida destas personagens. CHUVEIRO é caricatural e até previsível, mas só no lado bom destes conceitos.

Os afectos ganham peso de dia para dia, na mesma certeza como os banhos públicos abrem as suas portas para quem quiser limpar o peso da vida quotidiana. A paz tem morada certa em nome de uma tradição que aqui se debate com o futuro massacrante.

A dualidade pode parecer primária e simplista, mas a mensagem deste filme não o é. CHUVEIRO (estreado em 1999, com o título original Xizao) respira relações humanas e «limpa» tudo o que é supérfluo. Só fica aquilo que importa: as coisas simples.

21 de maio de 2009

Adeus, Sr. Cinemateca












INVEJA. «João Bénard da Costa viu muitos filmes, todos os filmes, uma vida inteira de filmes, mas também via sempre filmes que mais ninguém via, porque neles descrevia o que lá estava e não estava, isto é, aquilo que não era aparente e óbvio antes de o lermos nos seus textos.» in nota da Cinemateca

Morreu o «sr. Cinemateca».

Um daqueles símbolos sobre como vale a pena defender o cinema. E como ele foi maltratado no nosso país... Se o Museu do Cinema é a jóia que é hoje deve-o à figura que amava «Johnny Guitar» como ninguém e que explicava o que se escondia para lá das imagens nas folhas A4 distribuídas entre sessões.

Graças a ele olho para «O Retrato de Dorian Gray», de Albert Lewin, de uma forma diferente. Ou para «As Duas Feras», de Howard Hawks.

João Bénard da Costa (1935-2009) faz falta. Mesmo que o cinema continue. O ex-director da Cinemateca procurava transpor em palavras o que os olhos vêem e não esquecem. E contextualizou muitos dos filmes da nossa vida.

30 de abril de 2009

Independência sempre

AVAREZA. «Através da invenção, da imaginação, da criação, torno-me mais autêntico que os pequenos burocratas.» WERNER HERZOG

Durante o período em que estive mais afastado das lides cinematográficas, começou mais uma edição do IndieLisboa. Um festival de cinema que já vale por si, não precisa de divulgação de alguém que não tem tempo para o explorar como devia.

Apesar disso, faço-o porque respeito a coerência do evento, a ebulição de ideias e a motivação para mostrar outros modos de pensar o cinema, seja longo ou curto, ficcional ou documental, português ou estrangeiro. Cabe tudo no IndieLisboa e ainda bem.

Por isso há que estar atento: até dia 3 de Maio, vale sempre a pena dar uma espreitadela porque há sempre coisas a descobrir. Este ano está-se a relembrar a obra de Werner Herzog, cineasta dúplice, caótico e certamente um dos que melhor define a independência que caracteriza o certame.

Em histórias minimalistas e projectos sempre pessoalíssimos, o seu cinema é um dos mais importantes sinais de que a ousadia merece o seu espaço. A dupla Herzog-Kinski marcou.

Além disso, a sua experiência no cinema documental também merece ênfase. Vai poder assistir-se ao seu primeiro documentário desde «Grizzly Man», ENCOUNTERS AT THE END OF THE WORLD, viagem que o realizador fez com o seu operador de câmara até à Antártica.

Mais uma meditação sobre a força da Natureza, a descobrir domingo, às 16h00, no Cinema São Jorge.

Esta é apenas uma sugestão, num programa gigantesco. Quaisquer destaques são redutores. O melhor mesmo é consultar a programação AQUI.

19 de março de 2009

Natasha Richardson: 1963-2009







IRA.
«Desaparece, assim, um dos símbolos de uma grande família de criadores e artistas ligados ao mundo do teatro e cinema.» JOÃO LOPES in Sound + Vision

Uma morte tem sempre o peso colossal de um vazio que fica. Mas o choque é tanto maior quando surge de forma inusitada.

A britânica Natasha Richardson era um exemplo de charme e contenção, com uma presença sólida no cinema.

Sem precisar de grandes artifícios ou participações em obras de peso comercial. Trazia consigo um peso de património dramático, imediatamente reconhecido na sua mãe, a excelente Vanessa Redgrave, e no seu pai, Tony Richardson.

A mulher do também excelente Liam Neeson desaparece subitamente aos 45 anos, devido a complicações de um acidente de sky. No cinema, foi uma presença discreta, mas deu nas vistas tanto em «Nell», como em «A Condessa Russa», «A Casa da Loucura». ou na comédia da Disney «Pai Para Mim... Mãe Para Ti».

Mas era nos palcos do teatro onde mais gostava de se expor. O cinema volta a ficar mais pobre. E com aquela amarga sensação de ser antes de tempo.

23 de fevereiro de 2009

Os Óscares tentam mudar na 81.ª edição

SOBERBA. «Os meus filhos são muito velhos para se lembrarem disto mas, quando eram muito mais jovens, jurei-lhes que se este milagre alguma vez acontecesse, receberia-o no espírito do Tigre de Winnie the Pooh, e foi assim que acontececeu.» Danny Boyle, Óscar de Melhor Realizador por Quem Quer Ser Bilionário?

À 81.ª edição, o que sobressai além dos prémios foi uma vontade em aligeirar a cerimónia, não só aproximando-a do seu público, como brincando com o fantasma da crise e homenageando o musical.

Este foi o ano de «Quem Quer Ser Bilionário?», que sai da cerimónia com oito estatuetas douradas, num sinal de reconhecimento da Academia perante um tipo de cinema de escala inferior, multicultural e assente na vontade em apostar nos finais felizes que emergem do caos.

O maior concorrente da obra de Danny Boyle, «O Estranho Caso de Benjamin Button, não é de todo um perdedor, mas fica com o amargo sentimento de ter sido considerado apenas nas categorias técnicas: efeitos especiais, maquilhagem e direcção artística. Ainda assim, evita sair do Kodak Theatre de mãos a abanar.

A surpresa da noite deu-se justamente quando todos pensavam que Mickey Rourke iria levar para casa o Óscar de Melhor Actor por The Wrestler, mas houve uma partida que não destoou: Sean Penn levou o Óscar de Melhor Actor, pela segunda vez após Mystic River. A sua composição de Harvey Milk é absolutamente extraordinária e demonstra a vontade da Academia em duplicar a sua reverência perante um dos actores mais talentosos da sua geração, em detrimento de um bad boy que regressa das trevas... Dificilmente Mickey Rourke voltará a ser tão favorito como desta vez.

Já nas actrizes, Kate Winslet vê finalmente o seu talento recompensado, assumindo em palco que estaria a mentir se não dissesse que antes tinha treinado o discurso na casa-de-banho com um frasco de champô. Depois de ter dado um Óscar a Nicole Kidman por «As Horas», o realizador Stephen Daldry vê a actriz levar a única estatueta dourada de «O Leitor» para casa.

Numa noite marcada pelo fantasma da crise, Hugh Jackman brincou com a recessão e mostrou ser um artista de musical de primeira água, deixando as piadas de lado, mesmo quando referiu que, devido à crise, para o ano não faria um filme chamado «Austrália», mas um mais pequeno conhecido por «Nova Zelândia».

Última referência para Espanha, que vê Penélope Cruz levar um Óscar para casa, pelo simpático «Vicky Cristina Barcelona».

Desta vez, e pela primeira, acompanhei tudo aos microfones da Rádio Clube. Foi uma longa maratona, um teste à cultura cinéfila e uma experiência para mais tarde recordar. Tudo em nome do cinema. E de uma entrega de prémios que aos 81 anos esforçou-se por mostrar que ainda pode surpreender.

Tudo sobre a cerimónia AQUI

19 de fevereiro de 2009

SIN CINEMA entra em acção nos Óscares

GULA. «Cada actor, cada realizador, toda a gente precisa de um Óscar. Tens de ter a pequena estatueta em Hollywood, caso contrário não és ninguém!» RITA HAYWORTH, nunca foi nomeada

O ritual volta a repetir-se este ano: no próximo domingo, é dia de estar de olhos postos na televisão, madrugada adentro, à espera de saber quem vai levar a melhor.

Este ano, porém, há uma novidade: o SIN CINEMA entra em acção e alia-se ao portal IOL e à Rádio Clube para comentar em directo vencedores e vencidos.

Mais sobre o ESPECIAL ÓSCARES aqui

Até lá, bons filmes...

Óscares: os prós e contras dos principais nomeados

23 de janeiro de 2009

Óscares: a contagem decrescente começou...

GULA. «Neste momento não sei se sonhava com isto ou não. Mas quando se está no mar tem de se nadar. Ao estar na corrida para os Óscares, logicamente que quero ganhar.» PEDRO ALMODÓVAR, nomeado por «Fala com Ela» (em 2003)

Sem grandes surpresas. Mas com algumas. É assim que se pode analisar à primeira vista as nomeações para os Óscares, anunciadas esta quinta-feira.

SURPRESA número 1: Clint Eastwood foi ignorado na categoria de melhor realizador por «A Troca», que deve sair de mãos a abanar. Até porque o ano parece ser de Kate Winslet nas actrizes e Angelina Jolie já conta com uma estatueta dourada em casa...

SURPRESA número 2: A ascensão meteórica de «Milk», que conta com 8 nomeações para um filme contra-corrente e a nomeação de Gus Van Sant para Melhor Realizador, ele que é um cineasta experimental e pouco interessado em prémios - OK, já tinha sido indicado por «O Bom Rebelde», mas depois afastou-se de campos mais mediáticos.

SURPRESA número 3: A ausência do excelente «Gomorra» de Matteo Garrone dos favoritos ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Vá lá, estão por lá «A Turma» e «A Valsa Com Bashir», a meu ver o provável vencedor da noite;

SURPRESA número 4: A escolha de Richard Jenkins para a nomeação de Melhor Actor por «The Visitor». Nada contra, só a favor: quem o viu, por exemplo, no recente «Destruir Depois de Ler», às ordens dos Irmãos Coen, sabe do que é capaz; Interessante: os recentes Globos de Ouro nem deram por ele.

FACTO ÓBVIO número 1: «O Estranho Caso de Benjamin Button» liderar as nomeações. É um bom prenúncio para um grande filme. Mas, atenção: dizem que «Slumdog Millionaire» pode arrasar nessa noite. Se o filme de David Fincher sair de mãos a abanar, vai ser difícil de superar o trauma. Mas os Óscares de Maquilhagem, Argumento Adaptado, Efeitos Especiais, Fotografia devem ser certos.

FACTO ÓBVIO número 2: «Wall-E» estar nomeado para Melhor Filme de Animação - o Óscar é dele sem dúvidas; tal como o de Heath Ledger, por «O Cavaleiro das Trevas».

FACTO ÓBVIO número 3: A Academia não gosta mesmo de Tom Cruise. Depois de todos os elogios e mais alguns pela sua composição caricatural em «Tempestade Tropical» foi trocado por Robert Downey Junior na categoria de Actor Secundário, pelo mesmo filme.

FACTO ÓBVIO número 4: O equilíbrio entre obras académicas - «The Reader», «O Estranho Caso de Benjamin Button» e «Frost/Nixon» - e mais arrojadas - «Milk» e «Slumdog Millionaire».

Toda a Lista de Nomeados

13 de janeiro de 2009

«Slumdog Millionaire» 4, «Benjamin Button» 0

ESPECIAL DAVID FINCHER
SOBERBA. «O vosso louco e pulsante interesse pelo nosso filme é muito apreciado. Verdadeira e profundamente apreciado.» DANNY BOYLE, realizador de Slumdog Millionaire

Sempre tive interesse por galas de prémios de cinema. Gosto tanto de apostar nos vencedores dos Óscares, Palma d'Ouro, Urso de Ouro ou Globos de Ouro como há quem o faça nas corridas de cavalos. É certo que os melhores filmes raramente arrecadam os melhores prémios, mas também é certo que há sempre vontade em ir ver ao cinema a última Palma d'Ouro de Cannes ou aquele filme que venceu a categoria de Óscar de Melhor Argumento Adaptado.

Ter prémios é sinal de prestígio, atenção mediática e projecção... e é por isso que O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON apesar de todos os aplausos recebeu o seu primeiro grande revés no passado domingo, desiludindo ao não ganhar nenhum Globo de Ouro.

O valor do filme transcende tudo isso, a carreira de David Fincher sai impoluta, mas já era bom ver a Academia premiar um dos mais importantes e sólidos novos cineastas da sua geração. Esta é a primeira e prematura conclusão, até porque não vi ainda quase nenhuma das obras protagonistas desta noite. Em particular «Slumdog Millionaire», o grande vencedor da noite ao ganhar Melhor Filme Drama, Melhor Realizador, Melhor Argumento Original e Melhor Banda Sonora... basicamente todos os grandes prémios para os quais estava indigitado. Mas tenho enorme curiosidade até pelo tom assente num olhar globalizante, descomplexado e próximo de... Bollywood.

No fundo, será que é desta que Hollywood vai premiar aquele filme cómico contra-corrente, artisticamente mais desempoeirado do que os concorrentes? É que «Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos» ou «Juno» tinham méritos para o conseguir. Se assim for, só a frescura dessa decisão será mais valiosa do que vermos a Academia completamente rendida a David Fincher. O seu tempo chegará...

O que é certo é que os Globos de Ouro revelaram-se dinâmicos e com vontade de arriscar, seja pela justíssima opção por Kate Winslet (provavelmente a mais talentosa actriz da sua geração), Heath Ledger ou «A Valsa com Bashir» para Melhor Filme Estrangeiro.

8 de janeiro de 2009

7 momentos inesquecíveis de «Fight Club»

ESPECIAL DAVID FINCHER
IRA.
«Só depois de se ter perdido tudo é que se é capaz de fazer tudo.» TYLER DURDEN (Brad Pitt)

O retrato é negro: o mundo em que vivemos segue o paradoxo de transmitir ideias de liberdade quando nos aprisiona de mil e uma obscuras formas... Esta é a mensagem pessimista de CLUBE DE COMBATE, que David Fincher conseguiu expor como ninguém no cinema.

Mesmo que não se concorde com este retrato negro e violento das inquietações do final do século XX, admira-se o arrojo, a vontade de questionar um certo caos
e seguir teorias interessantes sobre até onde nos pode levar o consumismo.

A escrita de Chuck Palahniuk não é propriamente estimulante, é até demasiado desarticulada com o único propósito de chocar. Mas não é que encaixa como uma luva na câmara oscilante e descomplexada de Fincher? É um dos raros casos em que o filme ultrapassa de longe a obra literária de que parte...

1 - Ver a personagem sem nome de Edward Norton a esmurrar-se a si própria no seu escritório, perante o olhar incrédulo do seu chefe, é mais uma pista para o estado de demência que vive esta interessante figura... Resultado? Sai com uma indemnização choruda e muitos golpes no rosto. Nada de mais para quem se sente fortalecido a levar pancada...

2 - Ver a mesma personagem a ser consolada pelos seios disformes do obeso Robert «Bob» Paulson, logo no início da acção. Não há nada de dúbio aqui, nem nenhuma insinuação sexual. É apenas uma forma de mostrar o tom extremo e desencantado das personagens deste filme. O encontro dá-se numa sessão de auto-ajuda de... vítimas de cancro nos testículos!

3 - Vermos Tyler Durden (Brad Pitt) a revelar as regras do recém-criado Clube de Combate: «The first rule of Fight Club is - you do not talk about Fight Club. The second rule of Fight Club is - you DO NOT talk about Fight Club. Third rule of Fight Club, someone yells Stop!, goes limp, taps out, the fight is over. Fourth rule, only two guys to a fight. Fifth rule, one fight at a time, fellas. Sixth rule, no shirt, no shoes. Seventh rule, fights will go on as long as they have to. And the eighth and final rule, if this is your first night at Fight Club, you have to fight.» É caso para dizer que há demasiadas regras num espaço onde a ideia é escapar às leis sociais.

4 - O hábito desordeiro (mais um) da personagem de Brad Pitt inserir intencionalmente imagens de teor sexual nas fitas de filmes para toda a família. O efeito é genial: se, por brevíssimos instantes, surgir um pénis no meio de uma obra de animação, a mente absorverá a mensagem mas ficará em dúvida sobre se viu realmente o que viu. No fundo, é o cinema a perverter o próprio cinema.

5 - O hábito compulsivo de fumar cigarros de Marla Singer é também uma característica que fica para definir a brilhante personagem de Helena Bonham Carter. O realizador tira o máximo partido logo no início, quando a filma envolta em fumo, num belo plano que até satiriza a imagem da femme fatale do velhinho film noir.

6 - O momento da reviravolta. E lembrar as frases de Tyler Durden: «Hei, criaste-me! Não fui eu que criei um alter-ego loser para me fazer sentir melhor. Assume a responsabilidade!»

7 - O final: vermos o casal principal desta alucinante história no alto de um arranha-céus, com ele esvaído em sangue. Lá fora, os prédios ruem (de modo pitoresco, é certo) ao som do poderoso - e oportuno - tema musical Where Is My Mind.

20 de dezembro de 2008

Os 10 melhores filmes segundo Tarantino







SOBERBA.
«Quando as pessoas me perguntam se estudei numa escola de cinema, respondo que não, que aprendi a ver filmes.» QUENTIN TARANTINO

Ainda existem boas ideias: habituada a listas dos «melhores de sempre», a revista britânica «Empire» lançou recentemente os 500 filmes mais importantes de todos os tempos, numa edição ambiciosa que contemplou 100 capas distintas - já antes me referi a esta exuberante edição... Para celebrar o momento, a revista foi ainda mais longe e pediu a pessoas influentes do ramo cinematográfico para também anunciarem a sua lista de filmes preferidos.

O realizador Quentin Tarantino foi um dos convidados e aceitou partilhar o seu «top 10».
O primeiro lugar pertence a O BOM, O MAU E O VILÃO, de Sérgio Leone.

Segue-se um outro
western «Rio Bravo», e «Blow Out», filme de Brian de Palma. O quarto lugar é de «Taxi Driver», de Scorsese, seguidos da paródia «O Grande Escândalo», a obra oriental «5 Fingers to Death», «A Caixa de Pandora», a obra de terror «Carrie», «Odeio-te Meu Amor» e o subtil filme de guerra de Billy Wilder «Cinco Covas no Cairo».

23 de novembro de 2008

Um festival grandioso na sua discrição







SOBERBA.
«Só por razões extraordinárias é que não se fará outra edição do Estoril Film Festival.»
PAULO BRANCO

A segunda edição do Estoril Film Festival chegou ao fim e é altura de balanços. A questão é só uma: alguém entendeu a gestão deste evento, que tem a pujança de um grande espaço de reflexão de cinema, nomes sonantes a condizer, e uma oferta variada, feita a pensar em largas faixas de público? Eu não.

É que tal como apareceu do nada, este grandioso evento, que segundo a organização contou com 20 mil pessoas neste ano, parece continuar à margem em matéria de preparação, divulgação, envolvimento com o público.

Sim, este ano ouviu-se falar. Páginas inteiras de imprensa foram dedicadas ao certame mas Paulo Branco, e tendo em conta a pessoa influente que é, continua a parecer que gosta de que o festival surja de forma atabalhoada e desapareça quase sem deixar rasto. Por cá, conseguem-se fazer coisas muito boas, como é o caso do Fantasporto, do IndieLisboa e do DocLisboa.

Há organização, empenho, edições comemorativas e um envolvimento com um espaço urbano.

No caso do Estoril Film Festival, parece que os nomes grandiosos (e preciosos) que por cá passaram - do calibre de Catherine Deneuve, Stephen Frears, Paul Auster ou Bernardo Bertolucci - são subaproveitados.

Há espaços de debate, masteclasses e tudo isso, mas onde está a vontade de abrir tudo isso ao reconhecimento, à ovação, à surpresa? Estaremos assim de costas tão voltadas para o cinema?

Tenho pena que a tendência se tenha duplicado, mas espera-se que o que aí vier venha com uma atitude mais ajustada perante a realidade nacional e uma vontade de criar envolvimento. Não basta trazer vultos do cinema, é preciso também espectadores. E o Estoril Film Festival tem tudo no sítio para ser muito maior e bem recebido.

Até porque ninguém duvida que Paulo Branco é um produtor visionário, o nome mais elevado de uma indústria que praticamente não existe. Mas existe curiosidade. E essa ainda não foi satisfeita.

27 de setembro de 2008

O cinema perdeu uma das suas últimas lendas








INVEJA.
«Representar é como ficares com as calças para baixo. Estás exposto.» PAUL NEWMAN

Por detrás dos mediáticos olhos azuis, do charme que sabia que era seu e da entrega a filmes quase sempre maiores devido à sua presença, estava um homem que se viria assumir como pai de família, marido exemplar, adepto de causas humanitárias e homem de convicções.

Paul Newman virou lenda no grande ecrã pela sábia escolha de desempenhos, mas também soube gerir a vida pessoal com punho forte, evitando cair no
cliché de que um «eterno rebelde» na ficção raramente se coloca de pé na vida real.

O modo como incendiava o ecrã, sempre com desempenhos pungentes, podem valer-lhe comparações a Steve McQueen, Robert Redford, Warren Beatty ou até mesmo James Dean, mas Paul Newman soube ser um ás de Hollywood sem perder a sua aura de pessoa influente, alguém assumidamente inteligente por detrás de um rosto perfeito para figurar na liderança de uma qualquer dispendiosa produção.

Um dos méritos de Paul Newman é ter sabido arriscar sempre, tendo a crítica e o público a ampará-lo das elevações dramáticas, percebendo que é deste calibre que se fazem os grandes vultos.

Pontos fortes de uma longa carreira? Há aquele jogo de foras-da-lei com Redford, num western desesperado pelo facto do género estar a desaparecer em «Dois Homens, Um Destino»; há a personagem do marido lesionado, com a ambiguidade sexual a ferir-lhe a alma, enquanto anda às avessas com uma luminosa Elizabeth Taylor em «Gata em Telhado de Zinco Quente»; há o novo encontro com Redford num bem sucedido filme de enganos que é também um divertido jogo de «faz de conta» em «A Golpada»; há o académico que vive o tormento da espionagem em plena Guerra Fria no mal amado «A Cortina Rasgada», às ordem de Hitchcock; há o bem sucedido filme de tribunal «O Veredicto»; há o homem elevado pelo mundo do crime que se prepara para enfrentar o declínio em «Caminho Para Perdição».

No entanto, se tivermos de nomear um único filme, «o filme», ele será o assombroso «A Vida é um Jogo», rodado num memorável preto-e-branco. O seu Eddie Felson, eterno errante que só se consegue evidenciar no snooker é uma das personagens mais possantes do cinema, ao ponto de Martin Scorsese o repescar para uma bem sucedida actualização em «A Cor do Dinheiro», em que o seu Felson, já com rugas no rosto, mostrava as leis do jogo (e da vida...) a um Tom Cruise ainda a largar a puberdade.

Resultado? Uma estatueta dourada para Melhor Actor, mesmo que tenha sido indicado para os Óscares mais nove vezes e recebido dois prémios honorários. Aos 83 anos, sucumbe a uma doença já outrora anunciada e torna o cinema mais pobre. A ideia feita aplica-se, contudo, neste caso. Newman era um herói com os pés no chão e o talento nas alturas.

20 de setembro de 2008

Mudar para ficar na mesma








SOBERBA.
Regressado com o espírito revigorado, apetecem-me coisas novas. O SIN CINEMA é e sempre será o primeiro passo na blogosfera, por isso cheguei a pensar em desfazer-me dele. E até o fiz por alguns dias...

Até que percebi que uma ideia não implica o corte com a outra, pode até enriquecê-la. E, como é tempo de mudança, deixo aqui uma nova secção para juntar às já existentes.

A ideia é simular uma troca de correspondência com os Irmãos Lumière para mostrar como vão as coisas por aqui em matéria de cinema. Ambicioso? Bem, a ideia é fazer algo de diferente...

28 de agosto de 2008

O alemão que gosta de questionar o cinema







INVEJA.
«Passei de um criador de imagens a um contador de histórias.» WIM WENDERS

Para quem não reparou, o canal pago TVCine 2 está a realizar uma importante e muito completa retrospectiva à carreira do alemão Wim Wenders. Daquelas quase dignas de Cinemateca, o que é muito raro no nosso quotidiano televisivo, mesmo nos algo preguiçosos canais especializados (e até de valor acrescentado).

Como me parece que o desafio deve ser repetido, pus-me por instantes a pensar naquilo que Wim Wenders já deu ao cinema... E foi muito!

Quem considera que o cinema é terreno fértil para novas experiências e os lugares seguros só o são até serem ultrapassados, gosta de Wim Wenders.

Um dos mais elogiados realizadores europeus da actualidade, começou por ser exemplo da nova vaga alemã e tem sabido absorver as tendências dramáticas de outros territórios. As influências são mais do que muitas e um filme raramente é semelhante a outro.

Aos 63 anos, tem já um memorável catálogo de obras e um arrojo narrativo que ainda se consegue enquadrar nos modelos contemporâneos para lá de Hollywood.

Nascido em Düsseldorf, começou por estudar medicina e filosofia mas, no atribulado ano de 1968, cedeu ao espírito criativo e entrou para a Academia de Televisão e Cinema de Munique.

O fascínio para a sétima arte já vinha de longe, desde que descobrira a arte das imagens a partir de um velho projector. Admirador confesso de realizadores como Yasujiro Ozu (a sua grande referência) e Nicholas Ray (que dirigiu no tocante «Nick’s Movie»), Wim Wenders começou por dar nas vistas em algumas curtas-metragens. Pelo caminho, escreve em revistas da especialidade e estreia-se, em 1972, nas longas com «A Angústia do Guarda-Redes Diante do Penalty».

«O sexo e a violência nunca foram muito o meu estilo. Sempre estive mais interessado no saxofone e em violinos», ironizou um dia numa entrevista.

Para o lugar selectivo das grandes obras-primas do cinema europeu deixou títulos como «As Asas do Desejo» ou «Paris, Texas» – numa bem sucedida experiência pelos Estados Unidos, terra onde também rodou «Hammett, Detective Privado» ou «Crimes Invisíveis».

Frequentemente requisitado para altos cargos do cinema, nomeadamente a nível europeu, presidiu ao Festival de Cannes em 1989 e chegou a ser nomeado para o Óscar graças ao documentário sobre a música cubana num dos seus mais populares filmes, «Buena Vista Social Club».

Teve ainda a oportunidade de mostrar por diversas vezes o seu fascínio por Portugal, utilizando Sintra para cenário de «O Estado das Coisas» e Lisboa em «Até ao Fim do Mundo».

A capital chegou até a dar nome a um curioso trabalho, «Viagem a Lisboa», inteiramente dedicado à cidade, com direito a uma presença memorável da banda Madredeus.

Sem abrandar o ritmo, está já em pós-produção a longa-metragem «8», em que partilha a realização com sete cineastas do calibre de Jane Campion, Mira Nair, Gaspar Noé, Gus Van Sant ou o jovem actor Gael Garcia Bernal. «Passei de um criador de imagens a um contador de histórias», chegou a dizer também. O cinema precisa dele.