28 de dezembro de 2007

NA SALA ESCURA: Peões em Jogo







IRA.
«Quer acabar com a Guerra do Terror? Sim ou não?» Senador Jasper Irving (Tom Cruise)

O cinema de causas, de discurso abertamente político está, hoje em dia, pouco exposto nas salas de cinema. As mensagens ainda surgem no ecrã, mas muitas vezes camufladas por missões heróicas estereotipadas ou efeitos especiais que quase obnubilam as motivações de quem quer passar uma mensagem.

O que se passa é que há sempre múltiplas orientações, ideologias que confundem, algo que o cinema tende, por motivos diversos (sendo o principal por razões de simplificação dramática face a um espectador que gosta pouco de duplos sentidos...), a sintetizar numa generosa arte maniqueísta.

Para lá desta constatação, Robert Redford constrói em PEÕES EM JOGO um interessante novelo assente nos tempos movediços de hoje, com a ordem internacional sobejamente conhecida e mediatizada, na qual os norte-americanos são mais do que meros «peões».

Por isso mesmo, o filme acerta ao dividir-se em três histórias, esquemáticas é certo, mas que se esforçam por retratar três modalidades discursivas: uma na crença conservadora de avançar sobre o inimigo (no espectacular encontro entre a jornalista interpretada com mestria por Meryl Streep e o senador republicano de Tom Cruise); outra no ideal liberal, algo carente de ideais (conversa entre o professor interpretado por Robert Redford e o seu jovem pupilo); e a da peripécia no terreno de guerra, vivida em alta tensão por dois soldados, de mente aberta ao diálogo, mas que rejeitam cruzar os braços perante os desafios bélicos do seu país.

Neste ambicioso e complexo tecido geopolítico, o realizador Robert Redford volta a demonstrar ser capaz de criar um cinema político sério que, para lá das conotações liberais da sua mensagem, se esforça por mostrar que a guerra se constrói (e manipula) em diferentes campos e que os media têm uma palavra a dizer na elaboração do facto político.

Se há uma personagem que talvez fraqueje na sua espessura, essa é a do próprio Redford, um professor veterano que parece querer copiar o estilo de Robin Williams em «O Clube dos Poetas Mortos». Fora isso, há aqui bom cinema, excelente direcção de actores e um bom argumento, daqueles que nos fazem hesitar perante as notícias que circulam e o espaço entre a verdadeira motivação de um político e a encenação encontrada para a divulgar.


PEÕES EM JOGO
De Robert Redford (2007)
* * * *
Feito há moda dos longos filmes de conspiração política, este novo trabalho de Robert Redford é um tratado de cinema nos dias agitados de hoje, com muitas críticas ao rumo da Governação norte-americana. Concordando-se ou não com o discurso que pende para o liberalismo, o filme é um profundo jogo de actores, que se movem num tabuleiro de xadrez gerido por convicções nem sempre muito homogéneas. Tom Cruise e Meryl Streep são o ponto alto do filme, numa longa conversa digna de antologia. Fora isso, Redford mantém a competência na gestão de duas outras histórias que criam um mosaico sério sobre a convulsão política. E o medo de tomar decisões.

22 de dezembro de 2007

Os MEUS POSTERS: Estranho Mundo de Jack
























GULA.
Enfim, a época natalícia está em pleno e a pausa no trabalho também. Nestes dias de descanso, deixo no ar o imaginário contagiante de O ESTRANHO MUNDO DE JACK. Para quem acredita no lado «enternecedoramente negro» do Natal e no imaginário gótico de Burton. 2008 está à porta...

Novo fôlego aos 99 anos








AVAREZA.
«Não olho para os filmes que fiz.» MANOEL DE OLIVEIRA

A homenagem já vem tardia mas não podia deixar de ser feita: Manoel de Oliveira comemorou 99 anos no dia 11 de Dezembro e decidiu dar entrevistas a tudo o que é órgão de informação, mostrando estar à beira do centenário com uma vitalidade invejável.

Para o comprovar, está a soberba entrevista concedida ao «Expresso» em que o realizador de «Porto da Minha Infância», «A Carta» ou «Vale Abraão» fala dos seus projectos futuros, revela uma imensa consideração sobre a sua arte e, acima de tudo, revela lucidez. Para falar de ética, obra de arte ou memórias cinéfilas.

Mais odiado do que desejado, Manoel de Olivieira será um daqueles cineastas que só daqui a várias décadas terá o valor merecido
.

Não tem uma forma de fazer cinema convencional, fácil, homogénea. Não... O seu estilo é disperso, dengoso, lento e algo conservador. Mas revela o traço prolífico e o cariz erudito de elevar a sua câmara para um espaço cénico que oscila entre o cinema, o teatro ou o puro quadro.

Talvez seja isso: o seu cinema é uma imensa galeria de quadros muito pensados. Com um traço de artista que não se esquece. A vitalidade pode continuar em pleno à beira dos 100 anos. Manoel de Oliveira merece aplausos de pé.

13 de dezembro de 2007

NA SALA ESCURA: A Estranha em Mim







IRA.
«Sempre acreditei que o medo pertencia às outras pessoas. Pessoas mais fracas. Nunca antes me tinha tocado. Até que tocou.» ERICA (Jodie Foster)

Como expor a violência no grande ecrã sem resvalar para o óbvio? A resposta já nos tinha sido dada bem recentemente com o tratado intimista de «Uma História de Violência», em que David Cronenberg revelava a outra pele do aparentemente pacífico Viggo Mortensen. Agora foi a vez de Neil Jordan nos ferir a vista não tanto pela crueza das imagens (que também as há...) mas pelas convulsões interiores de uma mulher.

O facto da história de A ESTRANHA EM MIM se centrar numa mulher acaba por espoletar envolvência emocional e surpresa face à mutação psicológica da personagem de Jodie Foster.

Sem condescendências, o filme desaba sobre nós logo no início, quando Erica, uma apaixonada locutora de rádio perde o seu noivo num abrupto e inexplicável assalto. Mas esse é apenas o ponto de viragem, a força motriz capaz de nos explicar o abalo sentimental que a protagonista sofre.

Em vez de indefesa, a «nova Erica» torna-se uma mulher fria, lacónica e que reage para não sucumbir ao medo. Uma mudança inesperada mas descrita com uma densidade moral inabalável e que comprova o talento de Neil Jordan (quem viu com atenção «Jogo de Lágrimas» ou «O Fim da Aventura» sabe disso muito bem) para a incisão dramática.

Além de brutal e voraz, A ESTRANHA EM MIM tem outra grande qualidade: é muito bem filmado. A forma como o realizador encadeia as imagens do assalto com as que são filmadas pela câmara de um dos criminosos é de uma beleza terrífica, bem como o balancear visual entre as imagens do corpo da personagem de Jodie Foster em coma com os momentos íntimos com o futuro marido (entretanto assassinado).

Há muitas ideias técnicas por aqui e só o final moralmente condenável, a querer forçar o «twist», pode fragilizar um dos mais brilhantes tratados sobre a convulsão de valores e as oscilações de personalidade. Será que Jodie Foster traz o terceiro Óscar de Melhor Actriz para casa?



A ESTRANHA EM MIM
De Neil Jordan (2007)
* * * * *

Uma mulher que vive à procura das «entranhas» da cidade, torna-se uma estranha de si própria quando o seu noivo é assassinado num brutal ataque criminoso. De repente, as mesmas ruas de Nova Iorque que adorava percorrer em busca de sons para o seu programa de rádio tornam-se locais de medo, com personagens estranhas e potenciais ameaças. Sucumbir a esse sentimento podia parecer a opção mais óbvia, mas aí não chegaríamos a um dos mais brilhantes tratados modernos sobre as implicações da violência. Neil Jordan é um realizador de primeira linha e Jodie Foster volta a acertar em mais um desempenho intenso. Que se lhe cola de tal forma à pele, que nem sequer imaginamos outra actriz no seu lugar. Um dos filmes do ano!

QUIZ: A que filme pertence esta imagem?








Não, não era nada fácil o desafio anterior... Como é Natal escolhi uma obra bem mais adequada à época. Esta é bem mais acessível, há que reconhecer.

Solução do QUIZ anterior: Sequência de UMBERTO D., obra neorealista do italiano Vittorio De Sica.

9 de dezembro de 2007

CINEFILIA: As cinco promessas de Dezembro







SOBERBA. Nesta época, quem vai ao cinema é para levar a família atrás e desfrutar uma experiência ligeira, de preferência com doses de fantasia que se fossem de açucar faziam sucumbir um diabético ao fim de poucos minutos. Pelo menos, é o que parecem acreditar os distribuidores. No meio do turbilhão de estreias, há ainda casos de excepção que querem tornar o mês de Dezembro menos gelado do que os termómetros.

- A HISTÓRIA DE UMA ABELHA: Apesar de vir no lote dos filmes para toda a família, esta nova animação com insectos quer ser a fábula moderna e de humor irónico deste Natal. Trunfos? Ter Jerry Seinfeld atrás do projecto e da voz da personagem principal. Por isso, nada de ceder à versão dobrada em português.

- CALL GIRL: António-Pedro Vasconcelos não faz maus filmes e cada nova obra é sempre um ponto a favor para a cinematografia nacional. Todavia, ter puxado por Soraia Chaves, mais uma vez com pouca roupa e de chicote na mão parece, à primeira vista, querer ceder à máxima que filme português tem de ter largas cenas de nudez. Será mesmo assim? Ao menos, que faça esquecer depressa o «bluff» que foi «Corrupção».

- O SONHO COMANDA A VIDA: Chega com grande atraso esta obra dirigida pelo irmão de Gwyneth Paltrow. Mas parece que é daqueles projectos pequeninos mas com muito que se lhe diga. Trata-se da história de um músico em decadência que tem de compor «jingles» para publicidade para sobreviver. Ao questionar o valor do talento no mundo globalizado, o filme conta com Gwyneth, Penélope Cruz, Danny De Vito e o «british» Martin Freeman que, no inspirado cartaz promocional, surgem todos de olhos vendados.

- MY BLUEBERRY NIGHTS: Um dos projectos mais aguardados do ano, não só por ser a tentativa de Wong Kar-Wai no cinema de língua inglesa, mas por mostrar Norah Jones pela primeira vez no grande ecrã. Entre o intimismo e o romance assolapado, a obra narra uma jornada sentimental que dividiu a crítica.

- THE PAPER WILL BE BLUE: No campeonato do cinema europeu de cariz alternativo, esta obra romena promete ser um caso a ter em conta. Motivo? Narrar com profundidade a forma como um soldado abandona o seu pelotão e decide lutar pela causa da revolução que assola o país. Cinema de guerra com neurónios é proposta a reter. E que venha 2008...

OS MEUS POSTERS: Elizabeth - Golden Age

























IRA.
A obra candidata-se a ser uma das desilusões do ano. Porquê? Porque apesar da potente reconstituição de época, do guarda-roupa e de Cate Blanchett, falha em transmitir emoções. ELIZABETH - THE GOLDEN AGE impõe o imaginário histórico, mas torna a acção tão pesada quanto uma velha e supérflua peça de museu.

8 de dezembro de 2007

O QUE AÍ VEM... O Amor nos Tempos da Cólera







SOBERBA.
Ainda meio zonzo com a notícia de que uma produtora norte-americana adquiriu os direitos da obra «O Codex 632», de José Rodrigues dos Santos, para uma futura adaptação audiovisual, eis que chega com estreia discreta aos cinemas norte.americanos uma adaptação do clássico O AMOR NOS TEMPOS DA CÓLERA, de Gabriel García Marquez.

O livro ainda hoje figura nas minhas mais presentes memórias literárias, principalmente porque foi das primeiras obras sólidas que li, ainda adolescente.

Além disso, trata-se de uma soberba história de amor, descrita com aquele rendilhado linguístico que só os grandes escritores latinos parecem evidenciar com paixão genuína. O cruzamento oscilante das vidas de Fermina Daza e Florentino Ariza, que dura longas décadas de desencontros, não deve ser nada fácil de transpor para o grande ecrã sem cair em facilitismos emocionais.

A crítica, aquando da estreia lá fora deste filme de Mike Newell (realizador de «Quatro Casamentos e um Funeral» e «O Sorriso de Mona Lisa»), ficou pouco impressionada. Pontos a favor? Os nomes de Javier Bardem e Fernanda Montenegro no elenco. Pontos desfavoráveis? O academismo esperado na condução da história. Falha que esperemos que «O Ensaio Sobre a Cegueira», de Fernando Meirelles, venha a evitar...

A sátira no devido lugar







LUXÚRIA.
«A diferença entre as minhas personagens e as de um filme de Hollywood? As minhas são reais.» SPIKE LEE
Um dos méritos de «A Última Hora», a obra anterior de Spike Lee a este filme que revi recentemente, era o de permitir, pela primeira vez, olhar de frente para as feridas profundas que os atentados terroristas do 11 de Setembro de 2001 deixaram na auto-estima dos americanos.

Nesse filme, um dos mais ovacionados numa carreira irregular, Lee apostou na contenção dramática e colocou a vivência intimista de um traficante à frente do seu gosto pela análise social agressiva – excepto no já célebre monólogo que a personagem de Edward Norton expressa frente ao espelho.

Dois anos depois, o realizador de «Do the Right Thing» e «Malcom X» superou o luto, regressou à comédia e colocou a sátira no seu devido lugar, isto é, em quase todas as cenas.

ELA ODEIA-ME traz de volta o gosto pela controvérsia – que se verificou inclusivamente na aceitação dividida dos críticos – e muitas ideias sobre as fragilidades emergentes num modelo social cosmopolita.

É um filme partido em dois que começa por apresentar a personagem Jack Armstrong (Anthony Mackie) como executivo de um próspera empresa, despedido ao recusar ficar calado por ter assistido a práticas desprovidas de ética.

Pouco tempo depois, a acção deixa de se assumir como uma análise estilizada sobre corrupção corporativa e muda radicalmente de coordenadas, voltando a colocar Jack no meio de uma intrincada trama. Um reflexo dos tempos modernos: a sua ex-namorada, Fatima (Kerry Washington), agora com uma relação duradoura com outra mulher, pede-lhe para ser o pai biológico dos filhos que ela e a namorada pretendem vir a ter sem recurso à inseminação artificial.

Quando menos espera, Jack torna-se numa espécie de gigolo utilitário para lésbicas bem sucedidas que querem um dador de esperma saudável a troco de dez mil dólares. Este episódio torna ELA ODEIA-ME num filme caricatural sobre novos laços familiares, ainda que a premissa original de Spike Lee não seja explorada com muito equilíbrio – a evolução das personagens «encaixadas» de John Turturro (numa imitação desnecessária de Marlon Brando em «O Padrinho») e de Monica Bellucci são a prova disso mesmo.

No final, mais do que comédia sexual de costumes, o que se verifica em ELA ODEIA-ME é que a veia satírica de Spike Lee não abrandou de tom. Está é mais sofisticada e… concentrada do que nunca. Em perto de duas horas e meia, tecem-se juízos sobre concorrência empresarial, interesses corporativos, xenofobia, homossexualidade, prostituição, novas famílias, justiça e até há analogias forçadas ao caso político de «Watergate».

Para compensar alguma falta de gestão dramática suportada por óptimos diálogos, o filme tem para oferecer uma realização segura, com especial relevo para a fotografia de Matthew Libatique.

A edição digital de ELA ODEIA-ME apresenta a obra com óptima qualidade de imagem e som, embora seja muito parca em matéria de extras. Além do trailer estar ausente, o DVD inclui apenas cenas inéditas que pouco acrescentam à história e outras versões de alguns planos incluídos na montagem final.

2 de dezembro de 2007

OS SETE PECADOS DE... Novembro 2007







AVAREZA.
As descobertas nas lojas de DVD em segunda mão continuam. Numa tarde cinzenta, descubro por entre muitas obras repetidas, o clássico AS IRMÃS DE GION, de Kenji Mizoguchi por meros cinco euros. Trata-se da história de duas orientais que decidem encontrar «ricos patronos» para as suportarem, livrando-se uma delas de um homem que a faz perder tempo e dinheiro. Curioso como sou pelo cinema oriental, senti que voltei mais uma vez a contornar o sistema: este clássico vale pelo menos o triplo do valor por que o comprei!


IRA. Vai inteirinha para a composição de Jodie Foster em A ESTRANHA EM MIM (ainda há traduções livres em português que funcionam, esta é uma delas!). Dirigida por Neil Jordan, a actriz convence na pele da mulher atormentada pela morte abrupta do noivo que se transforma num ser diferente e irracionalmente vingativo. O trabalho de Foster é soberbo, mas a realização de Neil Jordan também é merecedora de todos os elogios. Aqui, a vingança serve-se fria, principalmente quando o sangue gela.

SOBERBA. Mês de Novembro rima cada vez mais com Natal e começa a ser particularmente irritante as estreias obrigatórias dos filmes para toda a família a pensar na época. Como já não há «O Senhor dos Anéis» e «Harry Potter» só para o ano, os produtores tratam de resolver a questão e colocam em exibição um par de filmes que podem ter os seus méritos, mas que são colados ao rótulo de «filmes do fantástico» para justificar o aparato de meios e efeitos especiais. É o caso de BEOWULF ou a ESTRELA DOURADA, obras que ainda não vi mas que já considero o «marketing» de duvidosa orginalidade.

GULA. A reposição de ERASERHEAD no cinema (ainda que na mais discreta sala da capital...) deixa um bom prenúncio: a arte de reviver clássicos ou descobri-los pela primeira vez tem sido um esforço que o produtor Paulo Branco tem conduzido com mérito. Graças a ele, obras de Antonioni, Tati ou Visconti puderam ser recordadas na sala escura. Agora foi a vez de Lynch, mesmo que a experiência seja um caótico e bizarro encontro com a mente abstracta do cineasta. Mesmo assim, queremos mais!

PREGUIÇA. Efeito secundário de se ter adquirido uma televisão de grandes dimensões: não querer saltar do sofá e procurar ver todos os filmes da videoteca, comprados há meses, mais ainda sem tempo de os disfrutar. O LCD é entretenimento puro... e torna-nos mais caseiros.

LUXÚRIA. O triângulo amoroso entre Cate Blanchett, Clive Owen e Abbie Cornish são o amor impossível do mês, apesar da oportunidade desperdiçada de se criar um genuíno retrato sentimental. ELIZABETH-A IDADE DE OURO é um filme histórico sumptuoso, com bons actores, mas falta algo fundamental no cinema: a emoção.

INVEJA. As estreias estão a multiplicar-se todas as semanas. Começa a ser bastante frequente a semana em que chegam aos ecrãs seis ou sete filmes novos. Algo que reflecte maior oferta, mas que dificulta quem gosta de ir ao cinema uma/duas vezes por semana e, mesmo assim, ficar a par do que de bom se vai fazendo. Quem o consegue são os críticos, pagos para verem diariamente o que os outros se têm de desdobrar (e roubar horas ao sono) para fazer. Se a inveja matasse...

OS MEUS POSTERS: Eraserhead

























GULA.
Estranho, irreverente, expressionista, abstracto, bizarro, lento, intimista, asqueroso, surreal, gótico, negro. ERASERHEAD é tudo isto ao mesmo tempo e de cada vez. David Lynch é o único realizador capaz de «brincar» com o espectador desta forma. A obra, essa, descobri-a há dois dias.

28 de novembro de 2007

O pequeno ecrã é... cada vez maior!








SOBERBA.
«Acho a televisão muito pedagógica. Sempre que alguém a liga, vou para outra divisão da casa ler um livro.» GROUCHO MARX
Já o disse a pessoas mais próximas. E todas comentam entre dentes, com um sorriso sarcástico: «Andas a ganhar bem, sim senhor!». Pois bem, quem sabe o que faço sabe que não posso gabar-me de ganhar assim tão bem, mas, sim, poupei uns trocos e comprei um LCD.

Daqueles com mais de um metro de largura, muito elegante, que torna a sala mais imponente e que permite ver até o canal de «teleshop» com redobrado interesse.

Descobri que ainda posso ser «infantilóide» com um novo electrodoméstico, o apelidado pequeno ecrã mas que é cada vez maior. Agora o cinema passa para a frente do sofá, com som estéreo, imagem cristalina e uma proximidade que inquieta. Gostei da experiência. Mas continuo a achar-me um deslumbrado... Sabem que mais? Who cares? Vou mas é ver mais um episódio do clássico «Alfred Hitchcock Presents».

Quem nunca pecou que atire a primeira pedra... mas longe da minha nova televisão.

25 de novembro de 2007

QUIZ: A que filme pertence esta imagem?









Depois das respostas prontas ao desafio anterior, volto a procurar uma sequência menos óbvia, num novo regresso ao preto e branco. Ninguém adivinha?

Solução do QUIZ anterior: Cena de O HOMEM-ELEFANTE de David Lynch.

NA SALA ESCURA: Reminiscências dos Beatles







SOBERBA.
«Tens boa memória para caras? Ainda bem, é que não há espelho na casa-de-banho.» SADIE em Across the Universe
O musical vive dias de esquizofrenia: ou pura e simplesmente não conhece a luz do dia, ou copia os modelos clássicos sem a mínima chama. Depois, há uma terceira hipótese que, por exemplo, «Moulin Rouge» veio desbravar caminho: surgir como um produto alienígena, impregnado de referências, dinâmica de videoclipe, expressionismo gráfico e, em regra geral, uma história simples (até mesmo fraquinha...) a servir de ilustração para uma longa marcha de canções.

ACROSS THE UNIVERSE pertence a essa categoria: a dos musicais que querem rejuvenescer o género e imprimir-lhe alguma autenticidade nesta era de vertigem imagética
.

Qual é a via? A da abstracção sentimental, recorrendo a músicas que todos conhecemos. Neste caso, a ideia foi a de pegar em músicas dos Beatles para, daí, idealizar uma história. Sim, é bom reviver os singles que todos conhecemos, mas esta opção acaba por comprometer as ambições de ACROSS THE UNIVERSE em querer apresentar um argumento mais sólido do que a norma deste género.

A ideia de construir uma história a partir de músicas e não o inverso sabota pretensões mais elevadas e a obra apenas deve ser contemplada enquanto diversão naïve, instrumento para a realizadora dos mais interessantes «Titus» e «Frida», Julie Taymor, voltar a distorcer noções cénicas.

A cineasta bem se esforça por criar um trabalho pop, arty, impetuoso e com aura juvenil, mas a banda sonora volta a travar outros voos.

No fundo, um trabalho também ele esquizofrénico: quer recuperar as canções dos Beatles mas é quando está mais preso a elas que o filme mais fraqueja. Resta-nos o olhar inquieto da realizadora e as boas interpretações do casal juvenil Jim Sturgess e Evan Rachel Wood. Enfim, All We Need is Love...

ACROSS THE UNIVERSE
De Julie Taymor
* *

Já em «I Am Sam», a banda sonora era composta por temas dos Beatles, numa onda revivalista que funcionou porque eram grandes artistas - do calibre de Rufus Wainwright ou Ben Harper - a reviverem uma herança que ainda hoje está impregnada na memória. Neste caso, a ideia foi mais arrojada: criar uma história que justificasse que as personagens passassem a cantarolar cada uma das melodias da banda. O que se passa é que os recursos dramáticos utilizados são banais e desinteressantes, com a história a limitar-se a ser um romance passado numa época agitada e de algum esforço de contra-cultura. Resta-nos o empenho do casal principal e um punhado de boas ideias de abstracção narrativa de Julie Taymor. De resto, a monotonia instala-se. Ficam as intenções...

23 de novembro de 2007

O MAIOR PECADO DE... Arnold Schwarzenegger







SOBERBA.
«Barulhento, desinspirado e interminável.» JONATHAN ROSEMBAUM in Chigago Reader

Para os puristas da saga, o realizador Joel Schumacher veio estragar o que Tim Burton conseguiu fazer em matéria de recuperação do homem-morcego para o grande ecrã. O que é certo é que Batman demorou quase uma década a voltar ao cinema por culpa deste filme. Que é também o ponto mais baixo da carreira do actual Governador da Califórnia.

Inexpressivo e pouco versátil nos diálogos, Arnold Schwarzenegger conseguiu, mesmo assim, afirmar-se como herói de fitas de acção de respeito nas décadas de 80 e 90 por se juntar a realizadores certos, filmes escalados para toda a família. Até que... decide congelar Gotham City e surge quase irreconhecível num fato tão desproporcionado quanto ridículo.

Em BATMAN E ROBIN, Schumacher destrói qualquer tipo de subtileza na saga, abusa dos efeitos especiais e dos ruídos ensurdecedores e cria uma ausência de qualquer cumplicidade entre Batman (George Clooney a querer forçar a sua entrada no cinema comercial) e o seu ajudante (o apagado Chris O'Donnell). Mas nem os vilões (que costumam ser a parte mais interessante desta história...) convencem.

Além de Uma Thurman em transe com a sua desajustada Poison Ivy, é mesmo Schwarzenegger que sai mais a perder.


Uma prova de que o seu talento não é proporcional aos seus músculos e que está dependente de uma boa direcção. Aqui não aconteceu de todo! E Mr. Freeze é capaz de ser o mais imperfeito, caricatural e insensível vilão de um filme que parte de uma banda-desenhada. Até as personagens de desenhos animados de segunda têm mais espessura. De enregelar os ossos!

CRÍTICAS DE FUGIR:
- INTERNET REVIEWS: Insulta a inteligência dos espectadores com interpretações sem vida e um argumento estafado.
- JAM! MOVIES: Os fãs da saga vão ficar estarrecidos!
- FILMCRITIC.COM: É tão mau quanto se está à espera.
- NASHVILLES: As falas de uma linha de Mr. Freeze traem a falta de confiança de Schumacher na fonte original e mostram a sua insistência nos «clichés» de Hollywood.
- SBS.IS: Warner Brothers, «we have a problem»!

17 de novembro de 2007

OS MEUS POSTERS: Exterminador Implacável
























GULA.
O tempo passa mas as referências ficam. Esta semana, ao vir de uma loja de filmes em segunda mão, que filmes trouxe? O EXTERMINADOR IMPLACÁVEL e «A Verdade da Mentira», de James Cameron. Sim, gostava dos filmes do actual Governador da Califórnia... Mea Culpa!

16 de novembro de 2007

A América de novo à beira da colisão







IRA.
«Uma nação debaixo de fogo.» (Mote de Pesadelo Americano)
Mesmo para quem não gostou particularmente de «O Último Rei da Escócia», a estatueta dourada entregue este ano ao actor Forest Whitaker nunca foi posta em causa, não só pelo desempenho intenso na pele do despótico líder do Uganda Idi Amin, mas também porque o Óscar soou a reconhecimento justo para um comprometido talento que há muito se desdobra em projectos marginais, não só como actor, mas também como realizador, produtor e argumentista.

Embora os holofotes raramente se tenham voltado para este texano, Whitaker já deixou (apesar dos altos e baixos) o seu nome inscrito no firmamento de Hollywood, graças a obras-primas como «Bird – O Fim de um Sonho», «Jogo de Lágrimas», «Fumo» ou «Ghost Dog».

Talvez pelo reconhecimento que «O Último Rei da Escócia» lhe ofereceu, foi lançado em DVD um projecto discreto, de grande actualidade narrativa, mas que nunca despertou as atenções da exibição cinematográfica.

PESADELO AMERICANO é um filme-mosaico em que Whitaker, além de protagonista, foi produtor-executivo. A obra, de 2005, chamou pouco à atenção muito por culpa do interesse gerado em torno de «Colisão», filme de Paul Haggis que mostrava uma multiplicidade de personagens que sentiam na pele os efeitos menos positivos do melting pot americano e que levou para casa três Óscares no ano passado.

Em PESADELO AMERICANO, também encontramos um naipe de figuras que se sentem desajustadas num país onde os alunos entram na escolas de armas em punho e a violência é legitimada por uma permanente sensação de insegurança
.

E é precisamente no rescaldo de uma tragédia escolar, em que um jovem mata a sangue frio vários colegas, que esta obra de estreia do desconhecido Aric Avelino encontra as suas premissas, preferindo centrar o foco da acção nas repercussões afectivas e sociais da mãe do jovem assassino (interpretada por uma Marcia Gay Harden em grande forma) e do seu irmão mais novo.

É neste contexto extremo, que entra em cena mais uma densa composição de Forest Whitaker, na pele do director de uma escola obcecado com os impulsos imprevisíveis dos alunos, instalando detectores de metais e comportando-se como um polícia turbulento que tem dificuldade em comunicar com a própria família.

Ao tentar que cada história descodifique os vários paradoxos de uma sociedade que vive na sombra da lei da bala, cada episódio de PESADELO AMERICANO apresenta uma textura visual diferente e não existe a tentação de moralizar as personagens, apenas confrontá-las com um legítimo sentimento de insegurança.

Na verdade, a estética e a aposta narrativa do jovem cineasta Aric Avelino (de quem se espera um futuro risonho na direcção) apontam mais para o minimalismo de «Elephant» do que para a visão exacerbada que Michael Moore criou – e bem! – em «Bowling For Columbine». No final deste mosaico, não há necessidade de querer forçar a união entre as várias histórias expostas, nem mesmo com uma canção – opção que «Colisão», por exemplo, copiou de «Magnólia».

Este é mais um ponto a favor de PESADELO AMERICANO: parece ser feito a pensar no espectador que percebe que, ao centrar-se no tema da violência, raramente se podem vislumbrar no filme finais felizes óbvios. Por outro lado, essa pode ser também a razão para que a obra, que se estreia em DVD apenas com o trailer como extra, tenha aguardado dois anos por uma exibição no circuito comercial.

O QUE AÍ VEM... I'm Not There








AVAREZA.
«O que é o dinheiro? Um homem é um sucesso se se levantar de manhã e for para a cama à noite e, pelo meio, fizer o que sempre gostou de fazer.» BOB DYLAN

Para quem considera que Bob Dylan é dos artistas contemporâneos mais dúplices, ambíguos e profundos do nosso tempo, o realizador Todd Haynes tem a resposta: convocou seis actores (um deles a soberba Cate Blanchett) para vestir a pele do cantautor numa obra que pretende homenagear a lenda, o mito e o talento que se sabe na composição.

Depois de obras arrojadas como «Velvet Goldmine» ou «Longe do Paraíso», nada fazia prever que o próximo projecto de Haynes, I'M NOT THERE, fosse ainda mais inclassificável que os anteriores.

Assim, começamos com um Dylan negro (Marcus Carl Franklyn), seguimos para outros com o rosto de Ben Whishaw (o jovem de «O Perfume»), Christian Bale, Cate Blanchett, Heath Ledger e... Richard Gere!! A ideia é que cada face represente uma fase distinta do trabalho e da vida de Dylan num biopic muito livre e heterogéneo.

Há quem o apelide de OVNI do ano, mas pode ser também uma das mais recompensadoras surpresas cinematográficas de 2007. Até porque Haynes se preocupou, ao que parece, em articular a vida do actor com as diferentes ressonâncias das suas músicas.

Entre os secundários de luxo estão Bruce Greenwood, Charlotte Gainsbourg, Craig Thomas, Michelle Williams e Julianne Moore. Chega?

12 de novembro de 2007

NA SALA ESCURA: Um «check up» à América










IRA.
«Enquanto isso, vou ter com o Governo a ver se o convenço a lavar-me a roupa.» MICHAEL MOORE
.
Michael Moore é uma pessoa incómoda. Daquelas que as pessoas com poder evitam porque sabem que o mesmo não sai de cima caso tenha alguma coisa a dizer. E anda sempre com uma câmara mais incómoda ainda atrás dele. É irónico, demagogo, «esquerdalho», sensacionalista, deturpador, dizem alguns.

É certeiro, justo, polivalente, batalhador, delator, dizem outros. Sim, sabe-se que um documentário de Michael Moore nunca é bem um documentário, no sentido isento do termo. É antes um produto argumentativo, geralmente assente num tema do qual não dá para desviar o olhar e muito bem montado! Pontos negativos? Michael Moore pode ser tão tendencioso quanto as pessoas que condena, como o fez com a Administração Bush em «Fahrenheit 9/11».

Sabe-se que o senhor que manda lá nos Estados Unidos é pouco dado à inteligência, não agiu como devia, mas não é o ser monstruoso que Moore nos quer fazer pintar.

Pontos positivos? Colocar o dedo na ferida, mostrar por «A mais B» que a América é um poço de contradições e vulnerabilidades, algumas inaceitáveis. Fê-lo muito bem em «Bowling For Columbine» e volta a acertar com o seu bisturi em SICKO.

Assim, por mais críticas que se possam fazer ao seu estilo, Michael Moore é ainda quem consegue levar mais gente a ir ao cinema ouvir falar sobre as incongruências da maior economia do mundo. Porquê? Porque independentemente da sua falta de isenção toca em temas indesculpáveis no seu paradoxo, quanto mais ajudam a minar a reputação de uma Nação que se quer líder.

Primeiro com a violência, agora com o sistema nacional de Saúde, Michael Moore cumpre um duplo serviço público: mostra-nos uma realidade pouco evidente - a de que praticamente não existe serviço público nos EUA, estando a maioria dos americanos à mercê de seguros de saúde para pagarem os seus tratamentos - e ajuda-nos a valorizar ainda mais o nosso parco e imperfeito sistema de saúde.

No meio, brinca com os antagonismos da situação, alerta para obscenidades morais do seu país (como puderam os EUA não comparticipar os tratamentos aos problemas respiratórios dos voluntários que ajudaram a recompor o Ground Zero, após o 11 de Setembro?), esbarra no sensacionalismo (a sua incursão a Guantánamo é anedótica) e entra pela vida privada das pessoas a dentro (quando tenta saber quanto ganha um médico francês ou britânico).

Em SICKO, o espectador fica doente perante o que vê e percebe que a América já foi mais sã. Mas não é isso mesmo que Michael Moore adora mostrar?

.
SICKO
De Michael Moore (2007)
* * * *
O «sonho americano» é uma miragem para quem não tem seguro de saúde. Pelo menos, é o que nos mostra o documentário de Michael Moore. Longe de ser um prodígio no seu género - as imagens agenciam-se sem mestria suplementar, cuidados com a fotografia denotam-se pouco, dado que Michael Moore mantém a vontade de criar imagens semiamadoras para evidenciar o tom de revelação e pesquisa aturada -, SICKO é pragmático e apela à reflexão sobre as contrariedades do mundo moderno. E isso basta para ser um objecto cinematográfico a ter em conta.

11 de novembro de 2007

QUIZ: A que filme pertence esta imagem?









Uma imagem vale mesmo mais do que mil palavras? Quem adivinhar a que filme pertence este instante é porque vale realmente!! Pista: é mais fácil do que parece...


Solução do QUIZ anterior: A imagem pertencia de facto (João acertaste!) a «2046», de Wong Kar-Wai.

Novo festival rima com Almodóvar e Lynch







INVEJA.
«A inspiração não surge como uma revelação. Estou a tomar café e as notícias do 'Telediario' despertam-me histórias, assim como aconteceu com o filme 'Saltos Altos'.» PEDRO ALMODÓVAR

Passou discreto, com ar informal e acompanhado de mulheres. Pedro Almodóvar esteve em Lisboa, mas não apareceu em grande, com o foco que talvez merecesse por ser o cineasta prestigiado que hoje é aplaudido.

Veio dar o arranque do primeiro Festival de Cinema Europeu de Lisboa, um projecto em grande que o produtor Paulo Branco conseguiu concretizar.

As ambições do mesmo talvez pareçam desadequadas perante a nossa realidade cinéfila, mas continua a ser importante termos alguém entre nós que pensa em grande, ousa, comete erros, mas que se levanta novamente de cabeça erguida, com mais ideias sumptuosas do que antes. Paulo Branco está por isso de parabéns.

Ainda que a programação desta primeira edição seja extensa e demasiado heterogénea tem retrospectivas a ter em conta, nomeadamente as dedicadas a David Lynch (que é norte-americano, o que se estranha dado este ser um festival que pretende mostrar o que se faz no Velho Continente) e, claro, a Pedro Almodóvar.

O cineasta espanhol foi alvo, mais uma vez, das perguntas da praxe de «Como é que se sente?» e «Gosta de Portugal?». A novidade, dispararam os media portugueses, é que o realizador de «Má Educação» gostava um dia de filmar com Maria De Medeiros. Quando, não especificou... A sua obra é um verdadeiro case study que já tem longevidade suficiente para se perceber as suas tendências, fases e transições.

Depois de um início mais arrojado, ácido e sexualmente desinibido, o percurso de Almodóvar parece agora mais sentimental, maduro e a olhar fixadamente para a ideia de morte. Depois, depois há as mulheres, protagonistas de narrativas dignas da mais realista telenovela que Almodóvar coloca sempre em situações-limite.

Os diálogos são intimistas, o humor é contagiante, as reviravoltas fazem-se mais ao nível do coração do que da acção. Assim, é o cinema de Almodóvar, como se comprova no filme que o tornou num nome sonante, MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS (e que o festival transmite esta quinta-feira, às 17h30): na vida de Gloria (Carmen Maura), o caos afectivo é um passo que tanto a leva à loucura como a torna mais comovente.

10 de novembro de 2007

CINEFILIA: Ninguém esquece andar de bicicleta







GULA. O povo é sábio quando diz que nunca ninguém esquece como aprendeu a andar de bicicleta. E, como uma reminiscência nos conduz logo para outra, tentei recordar-me de como a bicicleta pode ser o meio de transporte indicado para nos lembrarmos de determinado filme. O que é certo é que, ainda a propósito de «Ladrões de Bicicletas», rapidamente cheguei a uma shortlist.

Os cinco filmes são para toda a família e marcaram à sua maneira as salas de cinema. Muito usada como ferramenta de comédia, a bicicleta é nos seguintes cinco filmes uma espécie de actriz secundária. Que, pelo seu carácter minimalista, ajuda a ilustrar o temperamento ingénuo, batalhador e humilde das suas personagens.

- HÁ FESTA NA ALDEIA: Bonito exemplo do humor de Jacques Tati que, neste caso e à semelhança de uma curta-metragem já aqui referida, veste a pele de um carteiro com vontade em inovar os seus métodos de entrega. As longas peripécias com a bicicleta ajudam à comicidade simples.

- MR. BEAN EM FÉRIAS: Rowan Atkinson assumiu que este seria o último filme de Mr. Bean no cinema. O que é certo é que a personagem homenageia justamente Jacques Tati numa competição de bicicletas entre o protagonista e ciclistas profissionais que é colada de «Há Festa Na Aldeia».

- A VIDA É BELA: Roberto Benigni demonstra a sua alegria pela vida ao deslocar-se constantemente de bicicleta, muitas vezes levando a mulher e o filho consigo. Neste drama que dá uma vião diferente e enternecedora do conflito, Benigni conseguiu o que queria: levar o espectador a emocionar-se e a olhar o mundo pelos olhos de uma criança.

- E.T. O EXTRATERRESTRE: Sempre que se pensa em bicicleta no cinema, a primeira imagem que vem à memória talvez seja a deste filme, com E.T. a voar com o jovem Henry Thomas de bicicleta, passando frente a uma lua cheia. Esta cena já faz parte da história de Hollywood.

- BELLEVILLE RENDEZ-VOUS: Em animação, este filme é talvez das melhores combinações entre traço artístico e história apelativa. Não esquecer que o sobrinho de Madame Souza, o tal que é raptado para os Estados Unidos, é ciclista, participante da Volta à França.

8 de novembro de 2007

OS MEUS POSTERS: Ladrões de Bicicletas

























GULA.
Revi há dias o mais bonito exemplo do neo-realismo italiano. Vittorio De Sica constrói um despojado retrato da miséria e do desespero, em torno de um homem que vê o futuro comprometido por um simples roubo. Tão bom quanto «Umberto D», LADRÕES DE BICICLETAS é uma aula genuína de cinema.

7 de novembro de 2007

Nova reverência à Fnac








INVEJA.
«Só pode haver um entendimento entre a mão e o cérebro se o coração servir de mediador.»
MARIA (Brigitte Helm) in Metropolis (1927)

É o lugar mais tentador das redondezas por condensar num só espaço aquilo tudo que gostaríamos de ter em casa. Comparo-a a uma espécie de Toys'r Us para adultos, mas a Fnac é muito mais do que isso: é a biblioteca ideal, a discoteca de causar inveja, a montra de plasmas, portáteis e sistemas de som que um dia queremos ousar vir a ter. E pior de tudo: a videoteca que ultrapassa qualquer videoclube.

Já alguém pensou a razão porque todos os videoclubes têm sempre os mesmos filmes? Na verdade, 90 e tal por cento dos clubes de vídeo assemelham-se aos canais de cinema da televisão por cabo - mostram sempre os mesmos filmes, insistem nas novidades lá do lado de Hollywood e fazem de conta que o cinema europeu, oriental e até o clássico norte-americano nunca existiu.

Pois é, a Fnac até nisso é perfeita: tem secção de documentários, packs para todos os bolsos com obras de western spaghetti, de Kurosawa ou de Ingmar Bergman, ao mesmo tempo que não desdenha os clássicos, as produções marginais ou os filmes que tenham estreado há mais de uma década.

Quando já estávamos rendidos a cem por cento - e a desejar pôr defeitos na oferta para não comprometer (ainda mais...) o orçamento mensal - eis que a Fnac não se dá por satisfeita e toca a lançar obras em DVD que nenhuma distribuidora nacional ousou pegar. Sim, isso mesmo: foi buscar títulos essenciais do cinema que estavam esquecidos.

Desde METROPOLIS, de Fritz Lang, a F DE FRAUDE, de Orson Welles. A última das últimas foi o lançamento de vários títulos dedicados a Jean-Luc Godard e Jim Jarmush. Um aviso: Fnac deixa de ser tão útil e não reveles tamanho bom gosto. É que a gente começa a desconfiar...

6 de novembro de 2007

NA SALA ESCURA: Cansados de fantasia?








SOBERBA.
«Há uma melhor razão para me levares contigo. Talvez precises de um segundo par de mãos.» TRISTAN (Charlie Cox)

A trilogia de «O Senhor dos Anéis» teve um óptimo e um mau efeito sobre o cinema comercial: o bom foi mostrar que o cinema consegue ser fiel a obras de um onirismo aparentemente impossível na tradução para imagens e o mau foi que o seu êxito estrondoso deu origem a uma série de sucedâneos de qualidade pouco recomendável.

No meio desta fornada, houve um título que se destacou pela positiva, mas que ficou perdido pela imagem promocional e um rótulo infligido por antecipação que dificultou a sua carreira comercial. Depois, há ainda o título em português que força alguém com mais de seis anos a fugir a sete pés da sala escura: STARDUST - O MISTÉRIO DA ESTRELA CADENTE.

De facto, o que falhou neste filme não foi a sua história, o elenco bem escolhido e a dose de inventividade que teria sido genial se fosse entregue a alguém com a visão gótica de Tim Burton. O que o comprometeu foi a tentativa de o vender como obra para crianças quando o que o filme consegue muito bem é levar os adultos a embevecerem-se com uma história simpática
, cheia de reviravoltas e que tem ainda Michelle Pfeiffer e Robert De Niro a gozarem com as suas imagens mediáticas.

Assim, por detrás de uma premissa «de encantar», está uma jornada bem alinhavada sobre a perda da inocência que é mais complexa do que se podia fazer crer. E há diálogos saborosos, uma moralidade disfarçada por alguma acutilância mordaz e efeitos especiais que não comprometem o todo.

STARDUST - O MISTÉRIO DA ESTRELA CADENTE é apenas uma diversão para quem já cresceu, um conto que aparenta ser de fadas, mas que são as bruxas que ganham destaque. Na missão do jovem Tristan (Charlie Cox), que prometeu ingenuamente à mulher que julga amar entregar-lhe uma estrela cadente, nada faria antever que a própria estrela (Claire Danes) se poderia tornar o objecto da sua afeição. E pior: é cobiçada pelos filhos de um rei com o ar pomposo de Peter O'Toole e por uma Michelle Pfeiffer com queda de cabelo e mais rugas do que uma camisa assim que sai da máquina de lavar.

Um aviso: esqueçam «As Crónicas de Nárnia», «Os Irmãos Grimm» ou mesmo «Eragon». Lembrem-se do lado encantantório de «História Interminável», da aura de «O Senhor dos Anéis» ou da intriga metafórica de «O Labirinto do Fauno». Agora misturem tudo outra vez. Talvez assim fiquem com uma ideia do que é este filme de Matthew Vaughn.



STARDUST: O MISTÉRIO DA ESTRELA CADENTE
De Matthew Vaughn (2007)
* * *

O ritmo do filme é completamente moderno, mas a sua aura é clássica. As personagem parecem saídas de contos de fadas, mas os diálogos e as reviravoltas quase que poderiam ser descoladas de uma moderna produção. Este «vai e vem» dramático torna o resultado convincente, mas algo disperso. Embora interessante e arrojado, o filme passado no mundo mágico de Stormhold parece datado mas é absolutamente moderno e uma afável «montanha-russa» que chama ao apelo pela aventura. Quem é que não gosta de jornadas capazes de mostrar o bom cinema fantástico?

4 de novembro de 2007

CINEFILIA: As cinco promessas de Novembro







SOBERBA. Se há alguma coisa que pode descrever este mês no cinema é o regresso em força do cinema de autor. Anote-se na agenda: este Novembro, que está a ser mais caloroso do que o costume, traz com ele os regressos de Cronenberg, Gus Van Sant, Wim Wenders ou Ridley Scott à sala escura. Motivos mais do que suficientes para esperar por um Natal aconchegante e com menos uma dose valente de euros no bolso dada a vontade de não deixar passar ao lado nenhum dos cinco filmes que a seguir se recomendam.
.
- EASTERN PROMISES: Este chega só lá para o final do mês, mas depois dos casos superlativos de «Spider» e, principalmente, de «Uma História de Violência», é com grande expectativa que se aguarda o novo encontro entre David Cronenberg e Viggo Mortensen. Ao que parece há semelhanças com «O Padrinho» dado que esta é uma história muito negra de gangsters. Para clarear o ambiente pode-se contar com a sempre intensa Naomi Watts.
.
- PARANOID PARK: Espera-se mais um estranho acontecimento, o intimismo cinéfilo a toda a prova e um outro olhar sobre a juventude. A isso nos habituou a obra de Gus Van Sant, que aqui volta a convocar um elenco de desconhecidos para contar como a vida de um jovem se altera assim que se torna responsável por uma morte.
.
- GANGSTER AMERICANO: Ridley Scott é capaz do genial («Blade Runner») como do medíocre («G.I.Jane»). No entanto, este confronto entre Denzel Washington e Russell Crowe em lados distintos da lei é já falado como um dos próximos alvos das estatuetas douradas. O orçamento é de cem milhões de dólares!!
.
- ACROSS THE UNIVERSE: Aqui está o potencial candidato a musical mais ambicioso, estranho e inventivo do ano. Porquê? Porque a realizadora de «Frida», Julie Taymor, colocou um grupo de adolescentes a cantar o amor, ou melhor, as letras das músicas mais famosas dos Beatles. Não é por acaso que a acção se passa nos anos 60. Onde? A partir dos estaleiros de Liverpool.
.
- BEOWULF: Depois da experiência falhada de «Polar Express», o discípulo de Spielberg na arte da magia do cinema para toda a família, Robert Zemeckis, quer ser o herdeiro do sucesso deste ano de «300». Para tal, conta uma história fantástica, com um guerreiro às turras com um gigantesco vilão. A qualidade gráfica do filme incide sobre animação gerada após imagem real. O elenco tinha de ser de luxo: John Malkovich, Anthony Hopkins, Robin Wright Penn e Angelina Jolie. Pode ser o regresso em grande da fantasia ou mais um contributo para a desgastar no grande ecrã.

QUIZ: A que filme pertence esta imagem?









Há quem continue a acertar no Quiz e isso é sinal de que este é um modelo mais justo do que o anterior. Refere-se a momentos, obriga a testar memórias visuais ou a incitar referências cinéfilas ainda por visionar. Alguém tem resposta para este desafio?


Solução do QUIZ anterior: Em jeito de homenagem ao DOCLISBOA, que parece ter batido novos recordes de público, a solução era realmente um dos mais arrojados e inquietantes documentários dos últimos anos - TARNATION.

3 de novembro de 2007

O cinema em meia dúzia de pinceladas







INVEJA.
«Este é um mundo que se está a tornar progressivamente pior. Podemos concordar ao menos nisso?» BARRIS (Robert Downey Junior)

O futuro. Quantas visões já tivemos dele? Por que será que o gostamos tanto de o prever mesmo que acabemos sempre submersos na sua onda de imprevisibilidade? A ficção-científica tem ganho prestígio nas últimas décadas porque, quando é bem feita, permite que se criem metáforas e abstracções futuristas que funcionam como crítica ao mundo real, actual.

Além do mais, quando é bem feito, este género ficcional gera novas epifanias no que concerne aos limites do humano, do maquinal e, consequentemente, das coordenadas temporais, espaciais e de valores tão sensíveis como o da identidade. Philip K. Dick é uma autoridade neste campo, até porque muito dos seus contos geraram óptimos filmes no grande ecrã.

A sua escrita descomplexada e as ínúmeras questões éticas que levantava nas suas visões nem sempre muito positivas sobre o amanhã ditaram-lhe uma legião considerável de fãs.

Um deles é também um dos mais arrojados e inovadores cineastas do novo meio independente norte-americano (assim, ao estilo de Gus Van Sant, mas ainda com uma carreira mais desconexa!). Richard Linklater, depois de ter reinventado o romantismo em «Antes do Amanhecer/Antes do Anoitecer», ter experimentado a comédia musical com «Escola de Rock» ou, por exemplo, o western em «The Newton Boys», voltou a fundir cinema com pintura e animação, à semelhança do que fizera no poético e muito interessante «Waking Life».

Porém, em A SCANNER DARKLY - O HOMEM DUPLO, Linklater quis tornar as imagens filmadas inicialmente em imagem real e depois pintalgadas por uma elaborada tecnologia digital numa teoria da conspiração intimista, partindo logicamente do conto homónimo de Philip K. Dick.

E o que fica desta história que gira em torno do poder de vigilância no futuro, misturando isso com o vício em torno de uma droga, é um quadro mais uma vez assente nas personagens e nos múltiplos sentidos que elas vão construindo enquanto se questionam num mundo que é apresentado como sendo daqui a sete anos.

Basicamente, a trama gira em torno de um polícia (Keanu Reeves) que tem como missão investigar a rede de distribuição da substância «D», uma droga poderosa que corrói tudo à volta. No trabalho, usa um fato de camuflagem e câmaras de vigilância, mas rapidamente se percebe que ele próprio não só sucumbe ao poder da droga como pode estar também a ser alvo de inspecção alheia.

Com o seu grupo de aparentes amigos - um punhado de actores bem escolhido de onde se destacam Robert Downy Jr. e Winona Ryder - , o protagonista vai sentir na pele a incerteza quanto à identidade e viver momentos de pura introspecção desperdiçada, quase ao jeito de alucinação digna de um adepto do psicadelismo.

Brilhante esteticamente e multisensível, A SCANNER DARKLY é algo hermético e precisa de ser visto mais de uma vez. Com múltiplas texturas argumentativas a despontar, o filme não deixa de ser ele próprio um convite à alucinação dado o arrojo gráfico. No fundo, uma hipótese para filme de ficção-científica para quem desdenha naves e efeitos especiais mainstream. Aqui,as grandes explosões dão-se ao nível da consciência. E Richard Linklater usa e abusa dessa constatação.

30 de outubro de 2007

OS SETE PECADOS DE... Outubro 2007








PREGUIÇA.
É bom ver que o cinema português está aí outra vez em força, mas que os temas, os actores, os valores de produção, os tiques e os trejeitos são sempre os mesmos. JULGAMENTO é mais um retrato estereotipado da Guerra Colonial, enquanto CORRUPÇÃO vai evitar o visionamento de imprensa antes da estreia e João Botelho já afirmou que não vai assinar a direcção devido a imposições dos produtores. Parece que o cinema nacional quer chegar ao grande público, mas da maneira mais óbvia e telenovelesca. Não é por acaso que as televisões, atentas, estão a ajudar o financiamento destes projectos. Valha-nos isso! A boa surpresa do mês é mesmo a simplicidade afectiva de O CAPACETE DOURADO.

SOBERBA. A mudança dos canais Lusomundo para a marca desinspirada TVCINE a partir de 1 de Novembro tem bons e maus argumentos. A razão para a mudança deve-se à vontade de estrear sempre um filme em horário nobre distinto (21h00, 21h30, 22h00, 22h30). Muito bem, sim senhor, mas daí até tornarem quatro canais sem uma linha temática que os distinga torna-os numa oferta excessiva e desenquadrada. Aparentemente... resultado? Um filme pode aparecer em qualquer um dos canais, a qualquer hora, sem outro critério digno de registo. Depois, esta vontade «de agradar a toda a gente sem agradar verdadeiramente a ninguém» certamente que fará reduzir o número de exibições dos filmes clássicos. Algo que já se notara na recente renovação da grelha do Canal Hollywood. Por onde anda o cinema de John Ford, Ingmar Bergman, Eisenstein, Truffaut, Fellini ou Visconti? Nos escaparates da Fnac ou, quanto muito, num serão discreto da RTP2. Pelo sim pelo não, vou continuar a apostar no DVD.

GULA. Os esforços gastronómicos de Catherine Zeta-Jones em «Sem Reservas» são um doce e a actriz acerta no alvo na hora de se exibir como «chef» de um restaurante de prestígio em Nova Iorque. Depois, há ainda as divertidas sequências da protagonista desta comédia romântica ao cozinhar para o seu psiquiatra em vez de ficar sentada no divã.

INVEJA. Estou a ler com renovado interesse a compilação de textos de Woody Allen que surgiu com o título «Pura Anarquia». E o que se encontra aqui? A sua escrita compulsiva, cheia de armadilhas de linguagem, diálogos dignos da sua raíz na «stand-up comedy» e uma criatividade sem limites. Exemplos? A história do escritor convidado para criar obras literárias à pressão a partir de argumentos de filmes, ou da «babysitter» que decide escrever um livro a explicar os podres de um casal são de uma frescura humorística sem precendentes. Queremos mais, Woody!!

IRA. O capítulo final de Jason Bourne, em «A Supremacia», é o melhor plano de vingança em alta voltagem que vimos no cinema mainstream nos últimos tempos. Com planos de poucos segundos, agenciados com violência e a perícia de uma obra que se quer ofegante, tornam esta aventura numa perfeita jornada de acção. E a forma abrupta e seca como Matt Damon arruma os inimigos mete James Bond, Jackie Chan ou Van Damme num canto.

AVAREZA. A prova de que «com-poucos-meios-se-pode-ir-longe-do-mês» é mesmo a comédia «Um Azar do Caraças», que revê a comédia romântica colocando a premissa naquilo que costuma ser o final das histórias de amor. Depois, há um punhado de actores bem dispostos, reviravoltas realistas na acção e um grupo de personagens estranhas. Mas não tão estranhas quanto as da vida real.

LUXÚRIA. Em período de (re)descoberta da obra de Bergman em DVD, sublinho o confronto carnal entre o casal protagonista de DA VIDA DAS MARIONETAS. O filme começa com um crime e imagens avermelhadas, para depois se perceber de facto (e já a preto e branco) o que levou a personagem principal a assassinar uma prostituta e a possuí-la de seguida. Já disse que Bergman é exemplar a fazer-se passar por Freud no cinema?

OS MEUS POSTERS: A Máscara - Persona

























GULA.
Bergman tem um modo psicanalítico de ver a identidade e, em A MÁSCARA, eleva o seu carácter movediço ao extremo. O resultado é brilhante, mas há ainda o poder visual dos planos: o filme mostra o impacto do grande plano como marca de expressão e o preto e branco como recurso implacável na intensidade.

26 de outubro de 2007

NA SALA ESCURA: A comédia em dois actos







GULA.
«O casamento é como uma tensa e nada cómica versão de 'Everybody Loves Raymond', só que não dura 22 minutos. Dura para sempre.» PETE (Paul Rudd) in Um Azar do Caraças

Rir com gosto no cinema começa a ser muito raro. Ou os exercícios são comédias desbragadas e resvalam para o escatológico, ou tornam-se experiências monótonas e rotineiras.

O que se passa é que, de repente, temos em exibição duas comédias que, embora distintas, acabam por ser bons exemplos de como a indústria norte-americana não precisa de gastar balúrdios para acertar na fórmula do humor.


UM AZAR DO CARAÇAS (alguém aniquile quem se lembrou desta tradução estupidificante!) e SEM RESERVAS têm propósitos e targets distintos, mas mostram como a comédia está cada vez mais ligada aos afectos. O primeiro caso é uma inteligente versão de como uma relação pode começar pelo fim, enquanto o segundo é o modelo convencional da comédia romântica de traços dramáticos, cuja mais-valia é passar-se nos meandros do requinte gastronómico.

Tanto um, como o outro prometem abrir o apetite! E tirar a barriga de misérias depois de tantos tiros ao lado no registo da comédia.


UM AZAR DO CARAÇAS
De Judd Apatow (2007)

* * * *
Por que é que esta comédia funciona? Tem humor escatológico, caras pouco conhecidas, brinca com o tema sensível da gravidez e não inova ao nível das relações humanas. A verdade é que, embora não inovando, UM AZAR DO CARAÇAS inverte as coordenadas da comédia romântica e possibilita um toque realista e algo desconexo do amor e de outros sentimentos adjacentes. O par protagonista encaixa como uma luva e anda às turras com a vida real tal como nós. O resultado é genuinamente divertido e humanista, uma combinação em vias de extinção. A melhor comédia do ano!

SEM RESERVAS
De Scott Hicks (2007)

* * *
É um remake do filme Bela Marta (2001), mas funciona tal como funcionou, por exemplo, «The Departed - Entre Inimigos». Este drama que gira em torno de uma chef de cozinha que se vê a ser mãe à força e confrontada profissionalmente por um rebelde é uma espécie de «Ally McBeal» de avental ao peito ou um «Ratatui» em que quem percebe de iguarias é uma (ainda) charmosa Catherine Zeta-Jones. Com todos os ingredientes certos - até o cliché do amor contrariado funciona! - o filme quase que é enjoativo, mas termina na altura certa. Assim, é só um exercício simples e sensível onde se nota o dom do realizador de «Shine - Simplesmente Genial».