31 de janeiro de 2009

OS SETE PECADOS DE... Janeiro 2009














INVEJA. Quanto mais filmes se vêem, mais se descobre a imensidão que há ainda para ver. A minha descoberta do mês é daqueles grandes embaraços por não se ter visto antes, mas a beleza da mensagem que lhe é inerente merece todos os destaques e mais alguns. CINEMA PARAÍSO, de Giuseppe Tornatore, é das mais belas homenagens que o cinema pôde fazer a si próprio, por tentar expor em imagens o impacto desta invenção junto das pessoas. Além disso, não teoriza sobre o facto, aposta na emoção, que é talvez o efeito mais poderoso de um filme: toca-nos. E tudo isto segundo uma forma de dirigir certeira, que deve muito ao neo-realismo italiano.

PREGUIÇA. O cinema português continua a apostar nas mesmas fórmulas para chegar ao grande público. Neste início de ano, a produção nacional volta a enganar-se a si própria, recorrendo às figuras das revistas, cenas ousadas e acção que copia modelos lá de fora para se impor. «Contrato» e «Second Life» são os mais recentes produtos de um equívoco.

LUXÚRIA. O jogo de traição do mês vai para aquele que se constrói em «Os Três Macacos». A solidão e a vontade de fazer a diferença levam uma mulher a entregar-se à pessoa errada. Desfecho? O desmembramento de uma família, filmada pela belíssima câmara de Nuri Bilge Ceylan.

GULA. A colecção da obra integral de Woody Allen em DVD está cada vez mais próxima de ser uma realidade. É de aplaudir as edições de «Os Dias da Rádio», «Zelig» ou «A Rosa Púrpura do Cairo». O que falta? «Take the Money and Run», «Celebridades» e o excelente (e meu favorito) «As Faces de Harry».

SOBERBA. Alguém explica que decisão foi essa de pôr Hugh Jackman a apresentar a próxima gala dos Óscares? Ele não é propriamente cómico nem se conhecem dons de entretenimento por aí além... Onde está Ellen DeGeneres ou Billy Crystal? Será que ter sido eleito recentemente o homem mais sexy do mundo é requisito para compensar as fracas audiências das últimas edições dos prémios da Academia?

AVAREZA. O cinema despojado de meios técnicos sumptuosos e ruído é cada vez mais uma raridade e um bálsamo para o olhar. Por isso, aqui vai novo aplauso para «Os Três Macacos».

IRA. As guerras entre Paulo Branco e Zon estão muito acesas. Tudo por causa de um cartão que permitiria aos clientes da TV Cabo ver cinema à borla. A questão é: como se explica o Medeia Card? Promoções há muitas e um mercado exigente obriga a lutar para fidelizar os clientes. Cada player deve usar as suas armas e não sucumbir com medo dos seus efeitos. As queixas à Autoridade da Concorrência, que suspendeu para já a campanha, deixam no ar um certo tom de mau perder. Nesse ponto, Paulo Branco nem tem muito com que se preocupar: quem frequenta um King, um Nimas ou um Monumental vai continuar a fazê-lo.

30 de janeiro de 2009

NA SALA ESCURA: 3 grandes surpresas






AVAR
EZA. «Este foi o melhor dia de sempre.» LEE CARTER (Will Poulter) em O Filho de Rambow

A primeira descoberta deu-se logo em Dezembro, num dia chuvoso como este: ou ia ver «Bolt», a última animação sofisticada da Disney, ou uma produção britânica da qual já tinha ouvido falar bem, mas sem grande detalhe. Arriscar no «Filho de Rambow - Um Novo Herói» foi a opção e não podia ter sido mais certeira.

Herdeira de uma tradição de cinema juvenil à qual associamos a década de 80, esta produção hilariante de Garth Jennings, o mesmo realizador de «À Boleia Pela Galáxia», brinca com o próprio cinema, nos tempos do vídeo amador, do VHS, das câmaras de filmar pesadas, da música «punk», dos The Cure, dos Depeche Mode, dos filmes bruscos e básicos de Sylvester Stallone, das cristas no cabelo, das calças justas e brilhantes... de tudo o que convoque a década de 80.

Pelo meio há uma vontade em mostrar como a infância é o lugar do risco, da acção sem constrangimentos, numa energia que passa muito bem para o filme sobre como dois colegas da escola, de feitios contrários, decidem dirigir uma sequela do filme «A Fúria de um Herói».

O que «Filho de Rambow - Um Novo Herói» ajudou a comprovar é que existe ainda um largo espaço para o cinema comercial se aproximar da experimentação de géneros e fórmulas.

Os filmes, numa vez ou outra, até chegam às salas de cinema, mas a promoção dos mesmos é inexistente. São obras de pendor independente, que resultam quer dramática quer tecnicamente, mas como não possuem nenhum valor acrescentado mediatizado escapam à grande maioria.

Mais ainda do que o sólido cinema de autor, que até é bastante impulsionado pela imprensa especializada e encaminhada para salas de cinema específicas. Neste ponto, o início de 2009 comportou mais duas óptimas experiências: «Os Três Macacos» e «A Valsa Com Bashir».

O primeiro caso é mais um sinal de que o novo cinema turco tem pernas para andar. A forma como Nuri Bilge Ceylan domina a câmara permite-lhe obter resultados únicos ao nível do melodrama. É a ruína de uma família que se segue com particular proximidade, num jogo de segredos e enganos elevado por óptimos enquadramentos, planos fixos intensos e gosto por deixar o cinema respirar, dando espaço a silêncios e momentos mais longos para se seguirem gestos e expressões.

O clima entra pelo filme e pelas personagens dentro, que não são mais do que figuras de perdedores à procura de um sentido no meio de um colossal caos afectivo.

Por fim, «A Valsa com Bashir» é um bela obra de arte, em que as imagens se fazem a partir de desenhos de toque artístico e os traumas de guerra são recordados com peculiar ênfase e sensibilidade.

Ao ser um trabalho de animação, este documentário torna-se mais intimista e eficaz no modo como explora as contradições neste tipo de cenário. Raramente se viu uma proposta tão original quanto esta.

Outras críticas AQUI

O FILHO DE RAMBOW - UM NOVO HERÓI
De Garth Jennings (2008)

* * * *

Foi dos mais interessantes exercícios de produção britânica do ano que passou e que merecia muitíssimo mais destaque. A ideia de juntar duas crianças no esforço para realizar um filme de acção é de génio e concretizada com muita imaginação e rebeldia. Daquela saudável e que teve um cunho próprio na década de 80, alvo de certeira homenagem nesta comédia que é também um retrato de descoberta. O cinema ri-se aqui de si próprio.

OS TRÊS MACACOS
De Nuri Bilge Ceylan (2008)

* * * * *
Palma d'Ouro no último Festival de Cannes, Nuri Bilge Ceylan aprofunda o seu estilo e torna-o mais figurativo, ao sabor de uma tragédia familiar. Com óptimos pormenores técnicos e poucos diálogos, esta história despedaçada engrandece-se enquanto melodrama e mostra como a verdade pode ser violenta. A crueza, quer dos sentimentos, quer dos planos, dá uma força brutal a este conto despedaçado.


A VALSA COM BASHIR
De Ari Folman (2008)
* * * *
O filme animado quer ser documental ou o documentário quer ganhar espessura à custa de uma animação de traço pessoal. Os géneros são o menos, até porque o propósito de Ari Folman é usar as imagens como forma de tornar mais expressiva a sua denúncia: o cenário de guerra é absurdo e deixa marcas psicológicas profundas. Seja do lado de quem perde ou de quem ganha. O toque artístico das animações é assombroso.

23 de janeiro de 2009

Óscares: a contagem decrescente começou...

GULA. «Neste momento não sei se sonhava com isto ou não. Mas quando se está no mar tem de se nadar. Ao estar na corrida para os Óscares, logicamente que quero ganhar.» PEDRO ALMODÓVAR, nomeado por «Fala com Ela» (em 2003)

Sem grandes surpresas. Mas com algumas. É assim que se pode analisar à primeira vista as nomeações para os Óscares, anunciadas esta quinta-feira.

SURPRESA número 1: Clint Eastwood foi ignorado na categoria de melhor realizador por «A Troca», que deve sair de mãos a abanar. Até porque o ano parece ser de Kate Winslet nas actrizes e Angelina Jolie já conta com uma estatueta dourada em casa...

SURPRESA número 2: A ascensão meteórica de «Milk», que conta com 8 nomeações para um filme contra-corrente e a nomeação de Gus Van Sant para Melhor Realizador, ele que é um cineasta experimental e pouco interessado em prémios - OK, já tinha sido indicado por «O Bom Rebelde», mas depois afastou-se de campos mais mediáticos.

SURPRESA número 3: A ausência do excelente «Gomorra» de Matteo Garrone dos favoritos ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Vá lá, estão por lá «A Turma» e «A Valsa Com Bashir», a meu ver o provável vencedor da noite;

SURPRESA número 4: A escolha de Richard Jenkins para a nomeação de Melhor Actor por «The Visitor». Nada contra, só a favor: quem o viu, por exemplo, no recente «Destruir Depois de Ler», às ordens dos Irmãos Coen, sabe do que é capaz; Interessante: os recentes Globos de Ouro nem deram por ele.

FACTO ÓBVIO número 1: «O Estranho Caso de Benjamin Button» liderar as nomeações. É um bom prenúncio para um grande filme. Mas, atenção: dizem que «Slumdog Millionaire» pode arrasar nessa noite. Se o filme de David Fincher sair de mãos a abanar, vai ser difícil de superar o trauma. Mas os Óscares de Maquilhagem, Argumento Adaptado, Efeitos Especiais, Fotografia devem ser certos.

FACTO ÓBVIO número 2: «Wall-E» estar nomeado para Melhor Filme de Animação - o Óscar é dele sem dúvidas; tal como o de Heath Ledger, por «O Cavaleiro das Trevas».

FACTO ÓBVIO número 3: A Academia não gosta mesmo de Tom Cruise. Depois de todos os elogios e mais alguns pela sua composição caricatural em «Tempestade Tropical» foi trocado por Robert Downey Junior na categoria de Actor Secundário, pelo mesmo filme.

FACTO ÓBVIO número 4: O equilíbrio entre obras académicas - «The Reader», «O Estranho Caso de Benjamin Button» e «Frost/Nixon» - e mais arrojadas - «Milk» e «Slumdog Millionaire».

Toda a Lista de Nomeados

21 de janeiro de 2009

OS MEUS POSTERS: Benjamin Button

ESPECIAL DAVID FINCHER







































SOBERBA. Fecha-se o ciclo dedicado a David Fincher com um belo poster do seu mais recente filme, O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON. Uma imagem que sintetiza com subtileza o conflito temporal que se vive nesta história. E para onde vai a carreira deste cineasta? Fala-se de Ness, adaptação da BD de Marc Andreyko centrada na figura de Elliot Ness (que será vivido por Matt Damon) e do mundo de gangsters, e da participação em Heavy Metal, obra que deve reunir curta-metragens de vários realizadores em jeito de homenagem ao filme de culto de 1981. O que é certo é que se espera de Fincher que cresça ainda mais como realizador. O futuro do bom cinema-espectáculo passa também por ele.

20 de janeiro de 2009

NA SALA ESCURA: A vida em função do tempo

ESPECIAL DAVID FINCHER
INVEJA. «A vida define-se pelas oportunidades... mesmo aquelas que se perdem.» BENJAMIN BUTTON (Brad Pitt)

O cinema é, na sua essência, uma distorção temporal, ou melhor, uma experiência que subverte em nome de uma intenção o ritmo inexorável e rotineiro dos ponteiros do relógio. É certo e sabido que se consegue condensar uma vida ou as vidas de muita gente em pouco mais de hora e meia, quando esse tempo (por si só!) não é mais do que uma ínfima parte da existência - segundo consta, a média da vida humana faz-se de qualquer coisa como 650 mil horas...

Em O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON o modelo aplica-se, dado que se fica a conhecer a vida de uma personagem única em cerca de duas horas e meia. Mas a forma como se questiona o tempo é elevada ao extremo e com particulares efeitos em matéria de reflexão sobre como nos moldamos em função de segundos e como, por mais voltas que se dê, há uma evolução, uma ordem, um sentido para as coisas. A não ser que se seja Benjamin Button e aí o sentido é completamente distorcido.

É disso que nos fala esta poderosa adaptação do conto de F. Scott Fitzgerald, da capacidade de pensar uma vida que comece pelo fim, ou melhor por um princípio alternativo que é precisamente a velhice. E se o tempo, ao andar para a frente, não comportasse o desgaste do corpo mas antes a sua reabilitação? Se as rugas dessem lugar ao acne e não o inverso? Se a calvície avançasse para a farta cabeleira? Se a fraqueza terminasse em vigor? É algo contraditório com o princípio da oxidação de tudo o que é orgânico mas é também uma premissa de génio que possibilita reflectir sobre como se ajustam os valores e as intenções perante estas circunstâncias.

E assim chegamos a uma forma peculiar de apontamentos existencialistas até porque o protagonista desta prodigiosa metáfora se relaciona e afecta vidas de pessoas «normais». Quem é defensor de que a existência devia começar pelo fim e terminar no colo da mãe não sabe ao certo nas implicações que isso cria e é essa toda a força de O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON.

A profundidade das questões que o filme levanta podia ser facilmente desmascarada pelas incongruências que à primeira vista podem surgir mas a obra mais recente de David Fincher é sólida como um rochedo no modo peculiarmente sensível como descreve a vida imaginária de alguém que se rege por coordenadas antagónicas da vida real. E o cineasta faz bem em envolver a história num certo tom de fantasia humanista, da qual esperávamos ver Tim Burton dirigir, mas nunca o realizador que reinventou o thriller, decompôs o suspense e até psicologizou o policial.

Sim, David Fincher acerta em todas as frentes no território do melodrama e aceita com habilidosa criatividade também repensar a história de amor, que aqui surge e se desenvolve da maneira possível face aos constrangimentos cronológicos.

O ESTRANHO CASO DE DAVID BUTTON pode ser acusado de ser excessivamente polido, académico, xaroposo. É-o até à medula. Mas, neste caso, e como em poucos outros como, por exemplo, «Forrest Gump», a contenção e a rendição perante modelos narrativos e estéticos seguros é admirável porque é necessário recorrer a estes mecanismos para se captar a mensagem. E que, neste caso, ganha espessura graças à inversão temporal do protagonista.

É assim que se percebe o sentido daquele beija-flor que surge no final da história, do temporal omnipresente na acção que se quer valer no presente, da narração que dá excessiva cor a esta fábula. São emotivos mas necessários.

Outra dificuldade nesta missão em contar uma história de alguém que vive de trás para a frente é a gestão dos efeitos especiais. É certo que estes em uma ou outra ocasião se sobrepõem ao drama, mas até aqui David Fincher consegue equilíbrio perante o assombro que é ver um contido Brad Pitt rejuvenescer... Ou uma Cate Blanchett inabalável com quase um século de idade, numa cama de hospital.

Belo e consciente das suas premissas, O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON é uma hipótese séria de melodrama, que repensa e desfaz o mito da eterna juventude. Não, não é do medo de crescer de Peter Pan que aqui se trata... É algo que é de uma disfuncionalidade atroz e que por isso só podia dar uma grande história.

Neste ano que agora começa, este favorito para os principais prémios da Academia (de certeza absoluta!) é um filme que já se inscreve na história do cinema. O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON é já um dos grandes de 2009. E mais um ponto alto na carreira de David Fincher. O cinema não tem segredos para ele!

Outra crítica AQUI

O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON
De David Fincher (2008)
* * * * *
A vida de Benjamin Button é única: nasce velho e vai rejuvenescendo à medida que os anos passam... É esta a base sólida deste filme de David Fincher, que opera aqui uma viragem na sua bem-sucedida carreira. Mas o realizador de Clube de Combate não hesita perante o melodrama e dá forma a uma das mais desconcertantes histórias de amor do cinema recente. Tudo sobre o espectro da temporalidade e dos seus efeitos em personagens que seguem em direcções opostas. A força desta fábula moral está também na excelente direcção de actores (Brad Pitt e Cate Blanchett são irrepreensíveis), na gestão dos efeitos especiais, na fotografia, no cuidado de articular histórias que até possuem especifidades gráficas, nos diálogos sensíveis. Enfim... na vontade em preencher de pequenas subtilezas uma história que possui em si uma força extraordinária e que levanta inúmeras questões. Às quais David Fincher responde com óptimo cinema.

15 de janeiro de 2009

O MAIOR PECADO DE... David Fincher

ESPECIAL DAVID FINCHER
SOBERBA. «Uma personagem como esta nunca consentiria jogar um jogo sobre o qual tivesse tão pouco controlo.» Apollo Guide

Escolher o ponto fraco da carreira de David Fincher é não só difícil como até algo manipulador. No seu breve e sólido percurso não há nenhum mau filme, há apenas dois ou três cuja força não é de obra-prima, mas também não embaraçam ninguém.

Deste lote de obras menos especiais, nos quais se aproximam levemente «Alien 3 - A Desforra» ou «Sala de Pânico», cabe a O JOGO o lugar menos meritório devido justamente a um problema de manipulação.

Se se atender à crítica destacada logo no início deste texto percebe-se que o filme se espalha logo na premissa de levar um empresário inteligente e controlador a ser vítima de um jogo de efeitos perversos. Pois bem: o jogo é apresentado a martelo, vivido pela personagem de forma meramente artificiosa e a sucessão de peripécias não colam dada a desenvoltura moral da figura vivida por um enérgico Michael Douglas.

Não é no efeito de tensão que O JOGO não consegue dar a volta. Esta está muito bem elaborada e a dinâmica da acção deve muito a Kafka e às suas encruzilhadas dramáticas. Porém, as personagens não têm profundidade, Sean Penn é uma mera sombra de uma personagem e nada soa a sério. Tudo bem, não passa de um jogo. Mas o problema é que o próprio filme falha no esforço de querer manter o espectador na dúvida. Na dúvida não quanto ao sentido da história, mas na dúvida quanto à verosimilhança das situações, das figuras, dos diálogos.

Soa a filme que quer ser a última sensação. Mas que está também a meio caminho do embuste. Algo que lhe dá um tom descomplexado e até um certo estilo. Mas a excessiva duração evidencia as lacunas.

Críticas de fugir:
- DECENT FILMS GUIDE: É um filme negro. Demasiado negro. Uma das primeiras falhas do filme está na personagem de Michael Douglas: não é credível.

- GLOBE AND MAIL: As regras? O objectivo? Não sabe a personagem nem nós - inicialmente essa ignorância partilhada até consegue gerar alguma curiosidade.

13 de janeiro de 2009

«Slumdog Millionaire» 4, «Benjamin Button» 0

ESPECIAL DAVID FINCHER
SOBERBA. «O vosso louco e pulsante interesse pelo nosso filme é muito apreciado. Verdadeira e profundamente apreciado.» DANNY BOYLE, realizador de Slumdog Millionaire

Sempre tive interesse por galas de prémios de cinema. Gosto tanto de apostar nos vencedores dos Óscares, Palma d'Ouro, Urso de Ouro ou Globos de Ouro como há quem o faça nas corridas de cavalos. É certo que os melhores filmes raramente arrecadam os melhores prémios, mas também é certo que há sempre vontade em ir ver ao cinema a última Palma d'Ouro de Cannes ou aquele filme que venceu a categoria de Óscar de Melhor Argumento Adaptado.

Ter prémios é sinal de prestígio, atenção mediática e projecção... e é por isso que O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON apesar de todos os aplausos recebeu o seu primeiro grande revés no passado domingo, desiludindo ao não ganhar nenhum Globo de Ouro.

O valor do filme transcende tudo isso, a carreira de David Fincher sai impoluta, mas já era bom ver a Academia premiar um dos mais importantes e sólidos novos cineastas da sua geração. Esta é a primeira e prematura conclusão, até porque não vi ainda quase nenhuma das obras protagonistas desta noite. Em particular «Slumdog Millionaire», o grande vencedor da noite ao ganhar Melhor Filme Drama, Melhor Realizador, Melhor Argumento Original e Melhor Banda Sonora... basicamente todos os grandes prémios para os quais estava indigitado. Mas tenho enorme curiosidade até pelo tom assente num olhar globalizante, descomplexado e próximo de... Bollywood.

No fundo, será que é desta que Hollywood vai premiar aquele filme cómico contra-corrente, artisticamente mais desempoeirado do que os concorrentes? É que «Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos» ou «Juno» tinham méritos para o conseguir. Se assim for, só a frescura dessa decisão será mais valiosa do que vermos a Academia completamente rendida a David Fincher. O seu tempo chegará...

O que é certo é que os Globos de Ouro revelaram-se dinâmicos e com vontade de arriscar, seja pela justíssima opção por Kate Winslet (provavelmente a mais talentosa actriz da sua geração), Heath Ledger ou «A Valsa com Bashir» para Melhor Filme Estrangeiro.

8 de janeiro de 2009

7 momentos inesquecíveis de «Fight Club»

ESPECIAL DAVID FINCHER
IRA.
«Só depois de se ter perdido tudo é que se é capaz de fazer tudo.» TYLER DURDEN (Brad Pitt)

O retrato é negro: o mundo em que vivemos segue o paradoxo de transmitir ideias de liberdade quando nos aprisiona de mil e uma obscuras formas... Esta é a mensagem pessimista de CLUBE DE COMBATE, que David Fincher conseguiu expor como ninguém no cinema.

Mesmo que não se concorde com este retrato negro e violento das inquietações do final do século XX, admira-se o arrojo, a vontade de questionar um certo caos
e seguir teorias interessantes sobre até onde nos pode levar o consumismo.

A escrita de Chuck Palahniuk não é propriamente estimulante, é até demasiado desarticulada com o único propósito de chocar. Mas não é que encaixa como uma luva na câmara oscilante e descomplexada de Fincher? É um dos raros casos em que o filme ultrapassa de longe a obra literária de que parte...

1 - Ver a personagem sem nome de Edward Norton a esmurrar-se a si própria no seu escritório, perante o olhar incrédulo do seu chefe, é mais uma pista para o estado de demência que vive esta interessante figura... Resultado? Sai com uma indemnização choruda e muitos golpes no rosto. Nada de mais para quem se sente fortalecido a levar pancada...

2 - Ver a mesma personagem a ser consolada pelos seios disformes do obeso Robert «Bob» Paulson, logo no início da acção. Não há nada de dúbio aqui, nem nenhuma insinuação sexual. É apenas uma forma de mostrar o tom extremo e desencantado das personagens deste filme. O encontro dá-se numa sessão de auto-ajuda de... vítimas de cancro nos testículos!

3 - Vermos Tyler Durden (Brad Pitt) a revelar as regras do recém-criado Clube de Combate: «The first rule of Fight Club is - you do not talk about Fight Club. The second rule of Fight Club is - you DO NOT talk about Fight Club. Third rule of Fight Club, someone yells Stop!, goes limp, taps out, the fight is over. Fourth rule, only two guys to a fight. Fifth rule, one fight at a time, fellas. Sixth rule, no shirt, no shoes. Seventh rule, fights will go on as long as they have to. And the eighth and final rule, if this is your first night at Fight Club, you have to fight.» É caso para dizer que há demasiadas regras num espaço onde a ideia é escapar às leis sociais.

4 - O hábito desordeiro (mais um) da personagem de Brad Pitt inserir intencionalmente imagens de teor sexual nas fitas de filmes para toda a família. O efeito é genial: se, por brevíssimos instantes, surgir um pénis no meio de uma obra de animação, a mente absorverá a mensagem mas ficará em dúvida sobre se viu realmente o que viu. No fundo, é o cinema a perverter o próprio cinema.

5 - O hábito compulsivo de fumar cigarros de Marla Singer é também uma característica que fica para definir a brilhante personagem de Helena Bonham Carter. O realizador tira o máximo partido logo no início, quando a filma envolta em fumo, num belo plano que até satiriza a imagem da femme fatale do velhinho film noir.

6 - O momento da reviravolta. E lembrar as frases de Tyler Durden: «Hei, criaste-me! Não fui eu que criei um alter-ego loser para me fazer sentir melhor. Assume a responsabilidade!»

7 - O final: vermos o casal principal desta alucinante história no alto de um arranha-céus, com ele esvaído em sangue. Lá fora, os prédios ruem (de modo pitoresco, é certo) ao som do poderoso - e oportuno - tema musical Where Is My Mind.

4 de janeiro de 2009

OS MEUS POSTERS: Se7e Pecados Mortais

ESPECIAL DAVID FINCHER
























TODOS.
É o filme que ajudou a dar forma a este blogue e foi o primeiro a ser referido aqui. Sabe bem lembrar agora o cartaz promocional, até porque este é muito raro. SEVEN é o thriller que melhor domina os seus cânones e os perverte em nome de uma ideia. Uma excelente ideia concretizada por David Fincher.

3 de janeiro de 2009

Dar umas luzes aos irmãos Lumière (V)

ESPECIAL DAVID FINCHER









Caros Irmãos Lumière,

Quem começa a sua carreira de modo convencional, ou seja fazendo anúncios televisivos de marcas sonantes como a Nike, a Coca-Cola, a Pepsi ou a Levi’s, e rodando telediscos de gente do calibre de Madonna, Sting, Michael Jackson, Aerosmith ou Iggy pop, e não o esconde pode ter o caminho dificultado no cinema. Mas há excepções e David Fincher é talvez a maior de todas elas no actual panorama cinematográfico norte-americano.

Aos 47 anos, este cineasta natural do Colorado e criado na Califórnia tem a indústria a seus pés graças a dois filmes: «Sete Pecados Mortais» e «Clube de Combate», obras que reinventaram os seus respectivos géneros e trouxeram ao cinema um novo e possante fôlego, muito comprometido com a violência e o lado marginal dos sentimentos, mas igualmente embrenhado numa certa cultura pop, suja e decadente.

Estes dois filmes representaram dois dos mais importantes filmes da década de 90 por assimilarem um estilo mais arrojado, disseminado por várias imagens e embrenhado num cosmopolitismo desenfreado, ou seja, em desacordo (ou pelo menos em permanente confronto) com as normas vigentes. Há tentativas de suicídio, marcas de tortura, permanentes confrontos de consciência e alguma desorientação.

Foi pelo menos esse lado caótico que lhe trouxe fama e ajudou a construir uma das mais interessantes carreiras para um jovem realizador.
Senão, atente-se: depois de uma estreia algo discreta mas arrojada com «Alien 3 – A Desforra», Fincher lançou três valentes «murros no estômago» dos espectadores impreparados para a sua forma frenética de manipular a câmara e agenciar as imagens, deixando o ruído e os enquadramentos sujos tomarem conta do seu estilo. Além dos fenomenais resultados com «Sete Pecados Mortais» e «Clube de Combate», Fincher lançou os dados de «O Jogo», experiência-limite e carente de orientação para poder ser levado mais a sério.

No entanto, também terá os seus méritos: ajudou a aumentar a sua aura de cineasta comprometido com o excesso e a racionalidade que gosta de pisar o risco da demência. Voltou aos jogos de nervos com outro exercício interessante, «Sala de Pânico», mas mostrou que já passou para o nível seguinte ao criar um novo thriller, o soberbo «Zodiac». Quem esperava um novo «Sete Pecados Mortais» saiu da sala desiludido mas a experiência mostrou que é possível voltar a repensar o policial, colocando o propósito da obra não na descoberta do assassino mas na busca desenfreada de um agente da polícia para o encontrar.

Agora vem a primeira tentativa no melodrama, com «O Estranho Caso de Benjamin Button», que se estreia este mês e que já é dos filmes mais elogiados dos últimos tempos. Mais um novo patamar para o percurso de um realizador que parece estar ainda no começo, mas que, por outro lado, já possui um confortável lugar em Hollywood. Pela forma como aproximou o cinema do experimentalismo característico quer do videoclip quer dos anúncios, por onde começou, e pela sua vontade em não pisar caminhos já percorridos.

É daí que vem o culto em torno da sua obra, muito justificado. E vê-se que não aceita qualquer desafio à primeira: foi chamado para reabilitar as novas imagens de Homem-Aranha ou Batman (felizmente bem entregues nas mãos de Sam Raimi e Christopher Nolan, respectivamente) e rejeitou as propostas de «8MM» (um dos muitos passos em falso de Joel Schumacher) ou «A Dália Negra» (proposta razoável de Brian de Palma). No entanto, para se perceber em poucas palavras do que é feita a sua arte basta recordar o que disse um dia sobre o cinema: «Não percebo muito do que é isso do cinema entreter. Para mim, sempre estive interessado em filmes que deixam marcas. O que gostei em “Tubarão” (1975) é que nunca mais voltei a nadar no oceano novamente.»


NOTA: O mês de Janeiro no SIN CINEMA, e dada a estreia de «O Estranho Caso de Benjamin Button», é inteiramente dedicado a David Fincher.

CINEFILIA: As cinco promessas de Janeiro








SOBERBA.
É o costume: os dois primeiros meses do ano são sempre os mais interessantes em matéria de cinema norte-americano. Entende-se, até porque os estúdios agendam as estreias mais consistentes para este período já a pensar nos Óscares. E assim é em 2009, um mês recheadíssimo de propostas, das quais se torna difícil a selecção. Afinal, não só estamos em crise como o tempo é um bem precioso. E o tempo chuvoso também compromete...

- VALSA COM BASHIR: Numa altura em que os ânimos voltam a estar exaltados lá para os lados do Médio Oriente (terá fim algum dia, este conflito??), a pertinência aumenta neste documentário ambicioso de Ari Folman sobre um israelita a recordar as suas experiências como soldado a combater no Líbano, em 1982. A novidade? Tudo é narrado sob um olhar intimista e com a mais-valia de se formar em torno de animação.

- VICKY CRISTINA BARCELONA: A rotina anual de se estrear um novo filme de Woody Allen mantém-se, felizmente. Agora com o interesse adicional de ser a experiência do realizador em Barcelona, cruzando os talentos da menina Johansson (cada vez mais a sua musa) com os de Penélope Cruz e Javier Bardem. Chegou-se à frente nos Globos de Ouro. O que deve servir de garantia de alguma qualidade. Afinal, Allen é sempre Allen.

- FROST/NIXON: O filme-político e maduro do ano, que já segue na linha da frente para as nomeações para os Óscares. Mesmo que na realização tenha Ron Howard (demasiado académico e certinho, geralmente), parece que é assombroso este encontro dos Estados Unidos com a sua história recente.

- O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON: Outro potencial vencedor na próxima gala dos Óscares, com Brad Pitt e Cate Blanchett a viverem uma estranha relação. Tudo porque ele nasce velho e vai rejuvenescendo com o tempo. A premissa é original e sempre marca a estreia de David Fincher no melodrama.

- A TROCA: O primeiro dos dois filmes de Clint Eastwood que vamos poder ver para já. Diz-se que é um melodrama sensível, sobre os esforços de uma mãe para reencontrar o seu filho. Será o grande desempenho de Angelina Jolie, depois da estatueta dourada com «Vida Interrompida».

2 de janeiro de 2009

QUIZ: O que têm em comum estas imagens?








De volta aos passatempos, aqui fica mais um desafio. Desta vez é acessível... pelo menos para quem o fez.

Solução do QUIZ anterior: Em todos os filmes entra o actor francês Gérard Depardieu.
1 - 1900 (1976)
2 - Nathalie (2003)
3 - O Homem da Máscara de Ferro (1998)