25 de dezembro de 2006

Um Natal como peixe na água

Quando, neste período, se liga um canal de televisão (o electrodoméstico mais universal neste tipo de encontros familiares), o cenário nem sempre é o mais aliciante: filmes que repetem todos os anos desde que me lembro (tipo MÚSICA NO CORAÇÃO ou E.T. - O EXTRATERRESTRE), versões manipuladas de novelas já existentes (quem se lembrou de "Morangos com Açúcar - Férias de Natal"?), galas intermináveis com música ligeira portuguesa (quase sempre tão ligeira que nunca é levada à sério, nem pela plateia que está presente nos estúdios) ou uma muita rara emissão de circo de prestígio no segundo canal. Embrenhado que estou pelos prazeres da animação, este Natal, o pequeno ecrã pertence à SIC. Não só porque escolheu transmitir À PROCURA DE NEMO no dia de hoje, como o vai fazer num horário consensual: o início de tarde. Uma excelente medida de bom gosto, já recompensada pela exibição de outros filmes de animação. Neste caso, a aposta é imbatível: trata-se da melhor animação dos estúdios Disney dos últimos anos, que parece sintetizar na perfeição a tradição das fábulas clássicas da animação, com o prodígio visual das técnicas digitais de ponta, mérito da PIXAR. Sedenta de audiências, a SIC tem o trono garantido, porque não só À PROCURA DE NEMO deve juntar a família em volta da televisão, como transmite as emoções que todos temos nestes dias à flor da pele: estar mais próximos daqueles que nos ajudam a perceber o que somos.

Pecado do Dia:
Inveja

À PROCURA DE NEMO
SIC, 14.15 * * * * *
A Pixar promete ser para o século XXI o que a Disney foi para o século XX: ser o estúdio que dita as coordenadas em matéria de animação, conquistando milhões nas bilheteiras e dando excelentes lições de como contar uma boa história. Com uma diferença: depois de alguns percalços, a Disney continua a deter a Pixar, sinal de que quer continuar a reinar neste novo século, onde tanta animação parece querer despontar (muitas vezes, mais preocupada com os cifrões do que com a novidade). À PROCURA DE NEMO é por tudo isso o melhor exemplo de como a tradição só tem a ganhar com os novos tempos. É tão perfeita a alegoria das profundezas do mar, em matéria de organização sociológica, como o traço, o movimento dos peixes, a criação de ironias (os tubarões que querem ser vegetarianos...) e a procura consistente das dimensões moralistas da fábula. Nunca como nesta longa-metragem o património da animação se combinou tão bem com as tendências visuais de ponta... E tudo a partir de uma história simples, até nem muito criativa: limita-se a um peixe-palhaço que se separa do seu pai e vai parar ao aquário de um dentista. Resta a Merlin, o pai, seguir viagem e não desistir enquanto não consegue trazer de volta o peixe que dá nome a esta obra que foi um dos maiores êxitos de animação e Óscar de Melhor Filme do género.

19 de dezembro de 2006

NA SALA ESCURA: Da plasticina para os píxeis

... Em período de festividades natalícias, também eu me rendi à animação. Não há nada a fazer: é tempo de convívio familiar e de desenhos animados. Até mesmo os adeptos fervorosos de "stop motion" Nick Park e Steve Box aceitaram produzir uma obra de financiamento norte-americano em que as doces figuras de plasticina já surgem convertidas aos prodígios do píxel. POR ÁGUA ABAIXO é o divertimento certo para este Natal, com poucos concorrentes à altura, mas já deixa saudades o lado artesanal a que associámos esta dupla. A realização coube desta vez a David Bowers (argumentista de O GANG DOS TUBARÕES), mas é o dedo da produtora britânica que sobressai na construção da história, nos diálogos saborosos e no humor cáustico. Segundo consta, a razão pela opção do digital deve-se às inúmeras cenas envoltas em água (elemento difícil de lidar com os materiais dos bonecos deliciosos da Aardman Productions) e nem tudo correu bem com esta longa-metragem: o orçamento roçou os 150 milhões de dólares e a Dreamworks fez demasiadas pressões sobre a realização. Resultado: nos próximos trabalhos, a Aardman promete voltar a caminhar sozinha. Ainda assim, POR ÁGUA ABAIXO não perdeu com estes solavancos e é um dos mais divertidos filmes de animação desde SHREK. Na verdade, neste Natal, nunca o esgoto pareceu tão apetecível...


Pecado do Dia: Soberba
POR ÁGUA ABAIXO
Nas Salas (Dreamworks) * * *
Os meios são muitos... nota-se na multiplicidade de peripécias em que se envolvem os ratos Roddy (voz de Hugh Jackman) e Rita (voz de Kate Winslet) nesta aventura pelo cano abaixo. O que parece foi que a tradicional história de Rato do Campo, Rato da Cidade foi invertida para os tempos modernos de consumismo e, mesmo nas grandes urbes, existem duas categorias de roedores: os que vivem na pompa de uma habitação e os que convivem no lodo do esgoto. Esta alegoria civilizacional funciona como uma luva para criar as mais diversas personagens e brincar com os preconceitos sociais. Se Roddy é um betinho por ter vivido sempre como animal doméstico, percebe que o mundo no esgoto pode funcionar em comunidade. Nesta fábula distorcida, devido ao ritmo incansável e ácido do humor, a moral está lá, dissimulada, e até mesmo o vilão é patético... O mais importante é a diversão e há momentos de antologia neste novo prodígio digital - as lesmas canoras, o sapo mimo, a habitação oscilante onde Rita convive com a família e algumas armas utilizadas para combater o mal (alguém pensou num pacote de natas para deter um inimigo numas claras em castelo?). Se não for levada demasiado a sério a fragilidade narrativa, POR ÁGUA ABAIXO mantém-se bem à tona enquanto objecto lúdico para todas as idades. O que é que se pode querer mais neste período de festas?

15 de dezembro de 2006

NA SALA ESCURA: Sagas fantásticas rimam sempre com Natal

... O que fazer quando não se pode estender mais a obra de Tolkien (apesar de estar já em pré-produção uma adaptação de HOBBIT) e as aventuras de Harry Potter não conseguem estrear-se com a brevidade que os grandes estúdios desejariam? Procurar potencial literário em outras sagas impregnadas de fantasia e aura medieval. No ano passado, a época natalícia foi dominada por AS CRÓNICAS DE NÁRNIA, mas o resultado foi pouco entusiasmante, motivado por bons meios mas pouca capacidade para amuderecer o ritmo onírico da narrativa e encenar condignamente as batalhas de acção. Este ano, o fantástico volta a marcar presença nas salas e ERAGON é já o candidato principal a campeão de bilheteiras no território do filme fantástico. Parte também de um êxito-surpresa literário (a obra milionária homónima do jovem Christopher Paolini) e tem todos os ingredientes para ser um êxito: histórias com dragões, efeitos especiais de ponta, um enredo pouco complexo, Jeremy Irons e John Malkovich para dar um toque de prestígio à história... e o ímpeto juvenil (mais heróico que HARRY POTTER). Cinema novo... é que nem por isso!

Pecado do Dia: Ira
ERAGON
Nas salas (Castello Lopes) * * *
Eragon (interpretado pelo estreante Edward Sleepers) vive num tempo de temor, dado o domínio territorial do vilão Galbatorix (John Malkovich, num desempenho caricatural tão secundário que roça a figuração), que aniquilou todos os Cavaleiros que lhe pudessem fazer frente. O que não contava era com um ovo de dragão que vai parar às mãos do protagonista e que promete instaurar uma nova ordem de resistência. Com esta obra, o estreante Stefen Fangmeier tem a possibilidade de se estrear no cinema pela porta do grande espectáculo. O resultado, embora pouco inventivo, é competente. Na verdade, ERAGON cumpre todos os requisitos do espectáculo, é verosímil na criação dos dragões, não se dispersa em narrativas secundárias, deixa em aberto a produção de novos capítulos e ainda apresenta um bom desempenho de Jeremy Irons, na pele do obrigatório mentor do protagonista. Magia juvenil, boas cenas de acção e ainda um minúsculo desempenho da cantora Joss Stone dão forma a mais um conto fantástico. Que só fraqueja se se considerar a trilogia de O SENHOR DOS ANÉIS como base de referência.

11 de dezembro de 2006

NA SALA ESCURA: Docudrama despedaçado

... O "timing" da estreia de JUVENTUDE EM MARCHA pode não ser o mais adequado – já se sente o Natal em todos os cantos – ou daí talvez seja o oposto: este novo "murro no estômago" de Pedro Costa alerta para os contrastes urbanos, ou melhor ilustra-os simplesmente, pelo que é até neste período de muito consumismo e suposto sentimento de partilha e união familiar que o embate com este belo e grotesco documento dividido entre a ficção e o documentário de autor (afinal, as personagens são de carne e osso, bem como os espaços onde habitam) pode ser mais forte. Um retrato denso, conduzido por Ventura, o pai de todos e de ninguém. Ou melhor, um anti-Pai Natal, que com a simples presença acaba por dar lições de humanidade a seres à procura de um rumo.

Pecado do Dia: Avareza
JUVENTUDE EM MARCHA
Nas salas (Atalanta Filmes) * * * *
O Bairro das Fontainhas, na Amadora, volta a ser o cenário desfragmentado que Pedro Costa recorreu para criar o seu ocaso de uma trilogia iniciada com OSSOS e estendida com NO QUARTO DE VANDA. Neste seu derradeiro capítulo, o desnorte mantém-se motivado pela possibilidade das personagens passarem para outras habitações, que possibilitam novas condições mas não amparam o desnorte. JUVENTUDE EM MARCHA é, por isso, uma nova poesia triste e melancólica, traduzida pelo olhar pesado de Ventura e por um revisitar tocante sobre algumas personagens (seres humanos, reais) já conhecidas. E o cineasta, que não passou despercebido no último Festival de Cannes, volta a interrogar as inquietações de pessoas à deriva sem procurar dar resposta ou ceder a moralismos. Resta uma combinação negra de drama e observação documental de poucos meios, que possibilitam ao cinema transgredir as suas noções elementares em nome de um olhar. Acima de tudo, um olhar. Despedaçado, carregado de manchas turvas, mas um simples olhar. Que se estende por quase três horas de duração. Este talvez seja o único ponto fraco de JUVENTUDE EM MARCHA, porque torna a obra mais difícil de digerir. No entanto, o toque dramático das vidas em foco, a atenção aos pormenores, a beleza-fealdade cénica tornam este um dos mais sólidos e intensos filmes nacionais. E com uma temática tão forte, nunca poderia ser fácil de digerir. E de assimilar.

8 de dezembro de 2006

Mudar de máscara como Welles

... "É preciso mudar alguma coisa para que fique tudo na mesma." A máxima ficou famosa no clássico O LEOPARDO de Visconti e é aqui apropriada para introduzir um ligeiro "refresh" no SIN CINEMA - o primeiro desde a sua fundação. O conceito, embora não estanque, mantém-se inalterado e o que se pretende, essencialmente, é que estes breves apontamentos sobre obras de todos os tempos (e disponíveis seja em cinema, DVD ou televisão) tenham uma leitura mais atraente. No fundo, seguir sugestões que, a pouco e pouco, começam a chegar dos primeiros leitores assíduos deste modesto "blogue". Ideias há muitas, tempo para as concretizar é que nem por isso... Assim, sem grandes compromissos, além de continuar a encarar a Sétima Arte como 8.º Pecado Capital (como é que eu me lembrei disto?!), tentarei identificá-las melhor. E quem sabe produzir alguns ciclos... Para já, deixo uma recomendação para este feriado de Dezembro: o quase desconhecido RELATÓRIO CONFIDENCIAL, ou a outra realização de Orson Welles em que se percebe que O MUNDO A SEUS PÉS não foi fruto do acaso, dado os pontos de contacto entre os dois filmes.

Pecado do Dia: Soberba
RELATÓRIO CONFIDENCIAL
DVD Prisvídeo * * * *
Com o título original de MR. ARKADIN, este outro retrato megalómano de Orson Welles sobre um aristocrata que não se consegue desprender do vício do poder transmite bem a ideia de que Welles conseguiu, de facto, criar um estilo, elevando sempre o seu cinema para um nível técnico de profundidade e, respirando, já nesta etapa algo densa da sua carreira, as influências que Espanha teve no seu percurso (atente-se nas belíssimas sequências criadas durante as procissões religiosas). Porém, em RELATÓRIO CONFIDENCIAL, o magnata do título é assumidamente um vilão que consome a energia de quem o circunda e acaba por se render ao poder de forma mais perversa do que o célebre Citizen Kane. O que se pretende é o jogo de manipulação psicológica (bem construído sob a premissa de um pedido de Arkadin para que se investigue a sua vida, enquanto vai eliminando as "peças" pelo caminho), com a elipse narrativa habitual e uma composição exageradamente esculpida por Welles (aqui, já com dificuldades para levar os seus projectos de cariz imagético-literário a bom porto). No final, percebe-se que "o monstro tem pés de barro" e, em vez de "Rosebud" Mr. Arkadin possui um vínculo familiar que o pode fazer cair por terra. Mais um ponto alto numa carreira em que o cinema era força, fusão de cena com subtexto. E RELATÓRIO CONFIDENCIAL é um manancial de duplos sentidos, uma história que coloca a moral em cheque em nome de mais uma poderosa "persona". Ou máscara, se se preferir.

4 de dezembro de 2006

Quanto pesam os sonhos?

Há filmes que nos custam admitir que gostamos, que entendemos onde o realizador quis chegar, que percebemos as suas motivações e o seu estilo. Mas que sofre de um arraso global da crítica especializada e que nos leva a sentir vergonha pela empatia gerada connoso. Digo vergonha, porque na maioria das vezes há uma sintonia versátil entre aquilo que admiro e as estrelas que vejo afixadas na coluna de um jornal. Não sou detractor das classificações da imprensa, admiro os discursos cinéfilos de quem antes de eu nascer já se deliciava com os "westerns" de John Ford ou os planos aproximados e afectivos de Bergman (eu próprio tenho tentado contribuir para esse tipo de reflexão e crítica cinematográfica), mas é preciso relativizar o seu peso, até porque quem já viu muito surpreende-se com pouco. Não é obrigatoriamente um defeito, dado que apura o faro, obriga a domesticar o olhar para as "nuances" que verdadeiramente importam, mas leva a que se perca a espontaneidade de um visionamento. E é tão boa a visão ingénua de uma obra, esquecendo-nos que há uma câmara por detrás de cada cena e que tudo o que nos parece novo e imediato é o reflexo de um laborioso trabalho de argumento e realização (um filme envolve sempre, pelo menos, o empenho de duas centenas de pessoas...!). A Ciência dos Sonhos, de Michael Gondry, tem a capacidade de nos rejuvenescer por ser certeiro no modo como oscila entre a realidade e o mundo onírico de Stéphane (Gael García Bernal). A principal crítica negativa que o filme tem sofrido deve-se ao modo como Gondry, mestre da arte do "videoclip", adapta dinâmicas técnicas e visuais para o seu filme deste género estilizado, mas Gondry em vez de reduzir o seu cinema a um simulacro de um teledisco, parece que o abre para outros rumos impregnados de fantasia. E quem não gosta de sonhar numa sala escura?

Pecado do Dia: Soberba
Para quem viu e se deliciou com as deambulações pelas várias dimensões da
consciência de Jim Carrey em O Despertar da Mente, o desafio dramático proposto por Michel Gondry é mais fácil de aceitar. Desta vez, já não há um argumento alucinante de Charlie Kauffman mas antes um projecto de raiz pensado e alinhavado pelo próprio Gondry, que se revela um excelente inventor de cinema. A história de um jovem francês que, insatisfeito com o seu ofício de ilustrar calendários, começa a deixar-se dominar pela ilusão e vai construindo uma paixão genuína pela sua vizinha (Charlotte Gainsbourg), é um conto surrealista que nos propõe um desafio semelhante a A Senhora da Água de Shyamalan. A forma como ambos os filmes rompem com o cinema convencional exige uma predisposição do espectador para se deixar ir pela ilusão e, neste caso, acompanhar as consequências algo esquizofrénicas de um amor que cresce ao sabor da imaginação. Os interlúdios de fantasia, propostos por Gondry, são de uma beleza estética avassaladora e, embora excessivos, trazem contornos algo infantis a um amor do qual se espera o melhor dos finais. Pela capacidade de nos fazer sonhar, Gondry constrói um interessante novelo narrativo feito de afectos e consegue tirar partido do talento de Gael García Bernal para elevar o filme. Espera-se apenas que, no futuro, Gondry não se circunscreva a este género e consiga transpor a sua veia criativa para outros planos. A Ciência dos Sonhos é, por isso, um filme de autor para este novo século, que se constrói a partir de muitas linguagens (sejam elas visuais ou, até mesmo, verbais). * * * *

24 de novembro de 2006

NA SALA ESCURA: A última tentação de Scorsese

Martin Scorsese deixou um aviso: Entre Inimigos será a sua derradeira grande obra, ou melhor, a sua super-produção ao sabor dos caprichos de uma indústria que ainda não o soube compensar com aquilo que já lhe é de direito há um bom par de filmes: a estatueta dourada para Melhor Realizador. Será desta? A questão fica no ar e faz sentido porque esta obra, que representa o regresso de Scorsese ao universo de "gangsters" tem o condão de um trabalho sólido de autor: o enredo elaborado, os planos criativos, as reviravoltas necessárias para manter o interesse ao longo de mais de duas horas e meia e... um encontro há muito esperado. Não, não é o "frente-a-frente" entre Leonardo DiCaprio (sucessor de DeNiro como protagonista das obras mais recentes do cineasta) e Matt Damon. É antes o cruzamento de talentos (como é que nunca ocorreu antes?!) entre Scorsese e Jack Nicholson. Esta dupla faz faísca, não só porque Scorsese percebeu que Nicholson é o contraponto necessário à dupla de infiltrados, como o próprio actor parece deixar-se ir nos caprichos da sua inesgotável fonte de criatividade dramática. A sua personagem é digna de antologia no género de filme de "gangsters" e engrandece uma obra que, embora se trate de um "remake", consegue ter alma própria e um pulsar genuíno para uma proposta de novo cinema de autor. E nunca Scorsese foi tão negro. Será que é desta o Óscar? Nicholson pode já preparar mais uma garantida nomeação...

Pecado do Dia: Ira
Apesar da acção de Entre Inimigos ser em Boston, o dedo mágico de Scorsese para contar uma intrincada história de falsos polícias e criminosos mantém a mesma convicção e verve narrativa dos bons tempos de Tudo Bons Rapazes. Esta nova incursão pelo universo do crime, despojada dos artifícios e excesso de meios explorados nas duas anteriores obras do cineasta, revelam que o âmago de "contador de histórias" negro se mantém inalterado e o jogo de golpes e contragolpes segue a sua missão com grande eficácia. As personagens de DiCaprio (esforçado, no mínimo) e Damon (excelente composição mais perversa do que o costume) caminham pela dicotomia não só de posição face à lei mas enquanto elos identitários. Nesta cadeia de personalidades ambíguas, há ainda um Nicholson como vilão perfeito e uma mulher (Vera Farmiga) envolvida nos dois pólos que configuram o peso central de Entre Inimigos. Tudo bate certo até o final inesperado. Embora reincidindo em temáticas já por diversas vezes exploradas na sua carreira (e de partir de uma base dramática que, para todos os efeitos, não é sua), Scorsese voltou aos velhos tempos e mais profundo e complexo do que nunca. * * * *

22 de novembro de 2006

Morreu o cineasta dos mosaicos narrativos

Altman filmou até ao fim. O seu último trabalho, A Prairie Home Companion, foi rodado já com o cineasta em estado muito débil e com a supervisão de Paul Thomas Anderson para que, no caso do declínio do mestre, o jovem realizador de Magnólia pudesse assumir as rédeas do projecto. Mesmo assim, Altman concluiu aquele que seria o seu derradeiro projecto (morreu ontem, aos 81 anos) e que respeitou, mesmo assim, a tendência narrativa das suas obras mais famosas: mosaicos intensos, interpretados por um leque de grandes estrelas (sempre desejosas de entrarem num novo projecto de um realizador que tinha a interpretação como um dos valores superlativos do seu cinema), uma atenção especial à música e, no fundo, várias vozes para transmitir uma mensagem. Deixa saudades? Certamente que sim, por ter construído (salvo algumas excepções, como o estranho Popeye com Robin Williams...) muitos dos mais sólidos modelos narrativos e questionando sempre as potencialidades do cinema comercial. Nunca recebeu um Óscar como Melhor Realizador, apesar de diversas nomeações, mas a Academia compensou a negligência com uma estatueta dourada de homenagem na última edição (onde Altman lançou algumas farpas no discurso, mostrando estar já com uma aparência frágil, dilacerada pela doença). Obras inesquecíveis? M*A*S*H*, Short Cuts - Os Americanos ou o mais recente Gosford Park. E, claro, O Jogador, obra de transição para um modelo de reabilitação cinematográfica, depois de uma década de 80 mais vulnerável. Mas o próprio Altman era um jogador da indústria do cinema, sabendo fintá-la nos momentos certos para filmar sempre segundo os seus valores. E a câmara de Altman era inteligente como poucas...


Pecado do Dia: Soberba

Tim Robbins é o rosto perfeito para incarnar a personagem dúplice que protagoniza este passeio obscuro pela "feira de vaidades" de Hollywood. Trata-se de Griffin Mill, um produtor de cinema que começa a ser chantageado por um argumentista cuja história foi negligenciada. É assim que Altman constrói um interessante novelo, com paragens obrigatórias em diferentes pontos de uma indústria a olhar para o seu umbigo. O Jogador é, por isso, um jogo de egos, de frases memoráveis ("A única coisa que quero é ver-me livre dos realizadores e actores para ver se chego a algum lugar neste filmes") e um sinal de vitalidade narrativa. O "cameo" final de Bruce Willis e Julia Roberts é tão estranho quanto essencial para dar forma a este caleidoscópio de vícios onde há lugar para todos e mais alguns. * * * *

16 de novembro de 2006

Uma família às avessas com... a religião

A comédia espanhola é um género a considerar, embora o preconceito de ver cada filme de "nuestros hermanos" tomando por referência a fase mais desbragada de Pedro Almodóvar possa comprometer a análise e o desfrute de viver cada cena com um sorriso. A última surpresa neste campeonato pouco expressivo tive-a por intermédio de um lançamento recente em DVD de Querida Família, sátira da dupla Teresa de Pelegrí e Daminic Harari que aborda as repercussões ideológicas de quem herdou genes palestinianos e israelitas, embora toda a acção se desenrole num bairro urbano de Barcelona. Na verdade, Querida Família é mais uma comédia familiar (ou melhor, sobre a inclusão de um namorado na família da amada) que combina o ritmo frenético das "sitcoms" televisivas com os efeitos humorísticos de outras obras mais mediáticas, como Um Sogro do Pior. Porém, aqui as ambições narrativas são mais complexas e os efeitos na moldura familiar mais estridentes também. O que não inviabiliza uma consequente "lufada de ar fresco" na construção de personagens à beira de um ataque de nervos. Rir do próximo é, no fundo, reconhecer nos outros as nossas imperfeições. Ou aquelas que conhecemos mas que voluntariamente evitamos.

Pecado do Dia: Ira

Há um lado negro na história de Querida Família que surpreende: a vida de Rafi (Guillermo Toledo) não vai ser a mesma depois de ir jantar com a família da namorada, de origens israelitas ao contrário deste professor universitário que se orgulha de ser palestiniano. Com este ponto de partida, que dá azo às mais desvairadas peripécias, tudo o que tem para correr mal, acontece mesmo e a família da sua namorada foge a sete pés das convenções: a mãe vive amargurada, o avô é cego e tem traumas de guerra, a irmã é ninfomaníaca e o pai... leva com sopa congelada na cabeça e pode estar à beira da morte. Na verdade, a premissa da ruptura religiosa é só um efeito secundário nesta sátira extrema aos laços afectivos e, apesar de nem sempre o filme conseguir escapar das armadilhas da caricatura, consegue assumir-se como entretenimento ligeiro e constante. Escapando da natureza de seriado televisivo e encenação humorística graças à filmagem ágil. E é como se costuma dizer: "De Espanha, nem bons ventos, nem bons casamentos!" * * *

13 de novembro de 2006

Os vértices clássicos do melodrama

Quando acaba de estrear a versão cinematográfica do romance O Perfume, de Patrick Süskind, veio-me à ideia a problemática da adaptação literária para o grande ecrã. Como traduzir com sucesso as imagens que nos vêm à mente quando se lê um livro? Pela natureza dúplice que o efeito da escrita gera no leitor, o resultado acaba (quase) sempre por ser redutor – ainda que não tenha visto este último trabalho dirigido por Tom Tykwer, a crítica generalizada parece não ter descoberto a "fragrância" deste filme. Porém, mais do que seguir a corrente antes de comprovar o efeito da adaptação (que concorre com a exigente expectativa da leitura...), lembrei-me de um caso relativamente recente em que o filme iguala a fonte literária, senão mesmo a supera... Escrito por Graham Greene, O Fim da Aventura é um romance de tonalidades melodramáticas muito acentuadas, lembrando os jogos de ciúme dos anos 30/40. É para lá que a acção recua cronologicamente e nos mostra um estranho triângulo amoroso entre uma mulher e o seu marido insípido que pede a um amigo para contratar um detective que a siga. O que se passa é que esse amigo é o amante a perseguir... A premissa é inventiva, mas O Fim da Aventura tem muitas mais linhas dramáticas para desfiar, incluindo o peso de uma promessa e as subsequentes consequências religiosas, mesmo para quem não acredita no que quer que seja. Em 1999, Neil Jordan levou a história ao ecrã, numa sumptuosa adaptação, onde todas as subtilezas descobertas na obra literária foram transpostas para cinema. Eis, um clássico moderno ou uma nova roupagem para o melodrama digno herdeiro de Casablanca. Aqui as letras são só o ponto de partida e, afinal, a imagem até consegue condensá-las num instante.

Pecado do Dia: Luxúria

Especialista em criar atmosferas perturbantes (afinal ficou famoso por Entrevista Com o Vampiro e Jogo de Lágrimas), Neil Jordan preferiu a chuva imensa e uma belíssima fotografia esteticamente datada (nomeada para um Óscar, em 2000) para construir um dos mais profundos melodramas dos últimos anos. O Fim da Aventura explora em doses generosas os dilemas do trio protagonista, que transcendem rapidamente a condição aparentemente redutora dos seus papéis - graças a Ralph Fiennes, uma calorosa e brilhante Julianne Moore e Stephen Rea, a acção condensa muito bem os efeitos emocionais de uma história de amor que acaba dilacerada por uma promessa e as suas repercussões ideológicas. Vive-se o medo da guerra, mas os conflitos que se sentem são interiores e afectivos. No meio de uma perfeita estrutura dramática, Neil Jordan aprofunda também de forma artística a relação carnal do par Fiennes/Moore, em cenas de nudez e sexo filmadas com sensibilidade e sensualidade extremas. Neste labirinto de enganos e luxúria, pressente-se o estilo de Graham Greene e até algumas apropriações anexadas nesta adaptação ao grande ecrã (como parte do final) parecem fluir na perfeição e não traem o património litérário. E o romantismo à antiga ressuscita no cinema... * * * * *

6 de novembro de 2006

NA SALA ESCURA: Um fresco histórico de perder a cabeça

Recebeu elogios e apupos na estreia em Cannes e percebe-se porquê: a visão que Sofia Coppola realizou sobre a vida de Marie Antoinette não é a da mais convencional abordagem histórica porque se centra nos pequenos "nadas" de que era feita a vida num palácio em vésperas de Revolução Francesa. O estilo já o conhecemos de Lost in Translation: difuso, interrogador e algo niilista. Porém, com Marie Antoinette a realizadora deixa-se dominar pela opulência, os rituais historicamente datados e dá uma perspectiva moderna do universo controlado da realeza. Kirsten Dunst veste a pele na perfeição porque possui o rosto de menina obrigada a virar rainha, sem contudo perder o ímpeto de quem se vê subitamente espartilhada perante um meio feito de múltiplas linguagens e muitas ironias (principalmente observadas perante os padrões sociais de hoje). E é precisamente esse estilo de filmar, entre o fascínio pelo requinte monárquico e a ironia pura, que a obra convence. Mais do que profundidade histórica, Coppola preferiu o falso deslumbramento.O que não é de todo negativo. É apenas uma forma de filmar diferente para a maioria das obras que se estreiam no circuito comercial de cinema. Mas que começa a ser norma num estilo de uma jovem realizadora a querer (com aparente desinteresse) o prestígio cinéfilo.

Pecado do Dia: Soberba

Como contar a história de Maria Antonieta sem cair na tentação de mostrar o desenlace mais
mediático da sua história? Sofia Coppola não precisa dele... Em vez da guilhotina, a realizadora mostra o destino da jovem rainha de uma forma simbólica numa belíssima cena passada numa das varandas do Palácio de Versalhes. Este é só um detalhe narrativo de uma cineasta que continua a dar cartas num "cinema comercial alternativo" (se é que tal categoria existe). E já se começam a denotar marcas no seu estilo, corroboradas poe este opulento Marie Antoinette: o recurso a banda sonora "rock" nostálgica (para criar um assumido efeito de desenquadramento com o ritmo de vida na segunda metade do século XVIII), uma forma despojada de enquadrar a acção, a aposta nos silêncios e diálogos lacónicos e o olhar para as distâncias e particularismos entre seres humanos – como se comprova na relação mais protocolar do que afectiva entre Antoinette (Dunst) e Luís XVI (Jason Schwartzmann, num registo bem conseguido de sexualidade subtilmente ambígua). Na verdade, o filme é um fresco excessivo sobre a ostentação da realeza e parece ter "pouco sumo" quanto às implicações históricas das figuras em causa. Isso pouco importa aqui... Pode soar a desperdício (as críticas negativas aproveitam muito este argumento), mas é bom observar a ousadia de retratar a figura de uma rainha mais humana, frágil e desenquadrada do que com os facilitismos heróicos. Muita opulência, para pouco, dirão alguns. O suficiente para transmitir as emoções invisíveis mas genuínas que Coppola tão bem caracteriza. Destaque ainda para as presenças de Judy Davis e Marianne Faithful que, no meio de tanto luxo, pouco mais são do que figurantes... O que resulta numoutro sinal de ousadia artística ou, para os detractores, mais uma deixa para o desperdício artístico desta obra. * * *

3 de novembro de 2006

"Hip hop"... hurra!

É um facto: as músicas "hip hop" e "R&B" transformaram-se em música pop por excelência (e símbolo da nova geração MTV), lançando o rock para circuitos menos mediáticos, aspecto que lhe deu novo fôlego em matéria de reconhecimento. Basta olhar para as tabelas de "singles" mais vendidos, as vastas listagens da Billboard ou, à portuguesa, perder um minuto a ver o formato estafado do programa "Top+". Pessoalmente, aprecio as batidas, o ritmo de um ou outro compositor da área – acho que Timbaland, Neptunes, Will.I.Am têm feito excelentes trabalhos na transformação de artistas desinteressantes em intérpretes de música sofisticada, plástica e ritmicamente elaborada. Exemplos? O último disco de Nelly Furtado é uma boa surpresa, a estreia a solo de Pharrell Williams também, sem contar com o novo peso de artistas, já no campo da "neosoul", como Jill Scott, Maxwell, Amp Fiddler, John Legend, Erykah Badu ou Anthony Hamilton. Isto para dizer o quê? Que a música negra norte-americana, inicialmente de "ghetto", ganhou fama, estilizou-se e o cinema obviamente que se interessa pelo fenómeno. Mediaticamente, a visão de Curtis Hanson do fenómeno Eminem (felizmente, descolando-se dele...), em 8 Mile, foi o primeiro passo sério na análise deste género musical, centrando-se nos duelos de improviso de rimas cortantes entre dois ou mais intérpretes que sentem o peso da marginalidade no corpo e depois o traduzem por palavras. 50 Cent tentou também transpôr a sua ascensão no grande ecrã mas deu um tiro no pé, mesmo convocando um dos mais sólidos cineastas contemporâneos, Jim Sheridan, que, com Get Rich Or Die Tryin', conseguiu a proeza de realizar o seu filme menor. O último caso que chamou a atenção da Academia (venceu o Óscar de Melhor Canção no ano passado) é Hustle & Flow, retrato amargurado de um proxeneta que sonha ser artista respeitado de "hip hop". Um sonho que pode ser conseguido pela ordem inversa das coisas. Mais um conto desencantado, já disponível em DVD, que merece ser visto com atenção. Embora musicalmente pouco entusiasmante, é mais uma pista para se compreender a cultura musical que partiu da rua. Com todos os seus preciosismos e desigualdades.

Pecado do Dia: Ira

Djay (soberbo Terrence Howard, justamente nomeado para a estatueta dourada de Melhor Actor graças a uma complexa composição que oscila entre a marginalidade e a busca da redenção pelas rimas) é um homem desenquadrado, misógino, que usa o corpo das mulheres que vivem consigo para ganhar dinheiro. O seu modo de vida promíscuo e rude é, desde logo, descrito no início de Hustle & Flow, num aparente monólogo... A mensagem que passa (e passará ao longo de todo o filme) é performativa: "A vida de um chulo não é fácil!" O realizador Craig Brewer tira partido da amargura do protagonista, para construir uma espécie de "taxi driver" do "hip hop" (perdoe-se a heresia...) que quase vê a luz quando encontra um colega de infância, agora produtor, e a quem convence ajudá-lo a construir um disco. Os meios são escassos e a imaginação também, mas é a verborreia de Djay e a sua noção de ritmo que vão predominar. Mas o "sonho americano" não chega da forma esperada e a vida dura será mesmo assim até ao fim... Hustle & Flow é um murro no estômago e nas convicções do drama social. Musicalmente é estereotipado, mas vive mais pela aspereza dos diálogos, até ao clímax final, embricado na história sem exageros. Um olhar interessante para as novas tonalidades do "hip hop", que demora a desprender-se da retina... * * *