18 de outubro de 2008

Dar umas luzes aos irmãos Lumière (III)











Caros irmãos Lumière,

Vivemos oficialmente numa crise financeira mundial. Já fiz alusão a ela, mas regresso ao tema pelo seu impacto, por estar a desabar muitas das noções que dominávamos até agora, por interrogar a noção do capitalismo e por ainda ninguém saber até que ponto vai influenciar a economia real, que é como quem diz o meu bolso.

O medo da pobreza, a decadência globalizante e a valorização excessiva de um bem lembram-me os grandes trabalhos do neo-realismo italiano, cujo exemplo mais óbvio (e mais absorvente) é «Ladrão de Bicicletas» de Vittorio De Sica.

No entanto, além desse caso, vi há pouco tempo uma interessante actualização desta história, «Bicicleta de Pequim». O que esta produção chinesa tem de impressionante é que a mesma obsessão de um homem por uma bicicleta - no fundo o seu modo de vida... - se passa nos dias de hoje, globalizante, e numa das nações mais promissoras em termos de crescimento económico dos últimos anos: a China.

«Bicicleta de Pequim» descreve como dois jovens - que sentem na pele a falta de dinheiro - sonham com uma bicicleta. O primeiro usa-a para trabalhar, na entrega frenética de encomendas, sendo este o único meio de transporte infalível numa cidade dominada pelo progresso; o segundo quer o objecto para poder seguir os amigos e sentir-se mais seguro para conquistar o coração de uma colega da escola.

O azar leva-os a terem de aprender a partilhar a mesma bicicleta, algo que eleva este trabalho de Wang Xiaoshuai, um retrato de como é em momentos extremos que se pode gerar a aproximação.

E como filma o realizador tudo isto? Com extrema sensibilidade, um sentimento aqui esquartejado pela rapidez do dia-a-dia de um universo industrializado.

No meio, há ainda a comédia, subtil e quase ingénua, porque mesmo em tempos difíceis o humor encontra forma de se manifestar.

Crónica dos tempos modernos, «Bicicleta de Pequim» faz-nos pensar sobre o valor das coisas e perceber as incongruências deste tempo de crise.


Há quem defenda que a era da prosperidade pode estar à beira do fim, mas o que vemos neste trabalho muito bem dirigido é que ela nunca nos abandonou... e o cinema também se ressente destes períodos de contenção, embora em situações anteriores a sala escura tenha servido de escape enquanto o mundo real desaba lá fora.

12 de outubro de 2008

NA SALA ESCURA: As raízes da máfia








IRA.
«O filme também se diferencia um pouco do livro - que é de denúncia e com uma componente jornalística -, por não ser "contra" a Camorra mas sim "sobre" a Camorra, sobre os seus mecanismos internos, contados de baixo, do ponto de vista de pessoas que vivem condicionadas pelo sistema, numa sociedade onde o crime está omnipresente.» MATTEO GARRONE in DN

O olhar custa a fixar-se em todas as cenas de GOMORRA. É um tema incómodo, habitualmente subreptício, e o ponto de vista escolhido é distinto de visões moralistas, aptas a atribuírem algum gozo por se estar à margem da Lei. Nada disso...

Aqui a máfia é lacónica, grosseira e está enraizada em quem nasceu perto dela.

Ou melhor, em quem nasceu com ela. É por isso que o que mais choca nesta excelente adaptação do já célebre romance de Roberto Saviano (que nunca mais teve um minuto de descanso depois de publicar este livro que disseca a Camorra napolitana) é que nela se embrenha uma juventude carente de referências e que embarca com alguma ingenuidade
num jogo de esquemas obscuros.

Muito bem filmado, o filme quer-se impor como documento realista e consegue-o plenamente. É o «murro no estômago» mais consistente deste ano cinematográfico e merece ser engrandecido perante uma oferta cinematográfica que tem sido pouco generosa para com o novo cinema italiano. A ver.

Outra crítica AQUI


GOMORRA
De Matteo Garrone (2008)
* * * *
São cinco histórias que se entrecruzam e, no meio delas, ou melhor, em torno delas corre o círculo do vício da Camorra, a máfia napolitana que se manifesta na aspereza violenta de quem não tolera a contrariedade. Em todas as personagens, pressente-se o medo, mas choca ver as figuras mais novas a iludirem-se perante a ingenuidade do controlo. O tom é hiper-realista, roça o documentário cru, mas tudo é genialmente decomposto pela mão dolorosa da ficção. Por vezes, chega a cansar a forma como se cola às personagens, mas esta é a análise que distingue este grande filme.

7 de outubro de 2008

NA SALA ESCURA: Interrogações de Ethan Hawke

PREGUIÇA. «Muita coisa má te vai acontecer. As pessoas não te vão retribuir o que sentes e se queres ser levado a sério como artista, esta deve ser a primeira coisa que tens de aprender.» JESSE (Laura Linney)

Ethan Hawke sofre de um estigma tramado: é uma eterna promessa. Daquelas adiadas, apesar de toda a gente saber do valor que tem.

Não é preciso ir aos tempos de «O Clube dos Poetas Mortos» para recordar o seu talento dramático, até porque o díptico «Antes do Amanhecer/Antes do Anoitecer» o mostra, tal como «Dia de Treino» (pelo qual chegou a ser nomeado para um Óscar de Melhor Actor Secundário) ou o muito recente «Antes Que o Diabo Saiba Que Morreste» também.

Mas Ethan Hawke quer ser levado a sério e até já mostrou ser capaz de dar cartas na música e na literatura. Agora avançou para a realização.

Já o tinha feito antes, mas O ESTADO MAIS QUENTE era suposto ser a sua cartada para provar a quem ainda questiona a sua maturidade artística que tem muito para contar.

Pois bem, o filme até se vê bem, tem uma banda sonora country certinha e um par de diálogos inteligentes (as cenas escassas com Laura Linney são do melhor que o filme tem para oferecer), mas rapidamente a obra se arrasta na tentativa de mostrar como uma relação amorosa se pode desfazer em pedaços «sem ai nem ui».

É até demasiado ingénua na forma como segue os passos de William Harding (Mark Webber) para tentar perceber melhor a mente atormentada da mexicana Sarah (a sempre segura Catalina Sandino Moreno).

Então por que não nos rendemos a este exercício pessoal e percebemos que Ethan Hawke é um grande cineasta? Porque ainda não o é, faltando-lhe densidade nas suas intenções e cunho próprio - há, por aqui, muita inspiração no estilo do amigo Richard Linklater.

Ainda assim, o filme vê-se e assimila-se. Mas sem apagar a imagem de que Ethan Hawke ainda não nos mostrou todo o seu potencial. Ou será que já?

O ESTADO MAIS QUENTE
De Ethan Hawke (2007)
* *
Um rapaz embeiça-se por uma jovem cantora e decidem viver juntos. Tudo corre sobre rodas, o amor é lindo e tal, mas subitamente ela decide pôr um travão em tudo e ele passa a viver na margem, um trapo à espera de uma segunda oportunidade. Neste trabalho que pretende reflectir sobre os altos e baixos da paixão, Ethan Hawke sai-se melhor a descrever os bons momentos do que os maus. Neste ponto, o filme arrasta-se sem chama, revelando até ingenuidade na forma como ilustra a dor. No entanto, para lá do artificialismo e da vontade em querer parecer arty, há pontos positivos na história: Catalina Sandino Moreno é luminosa, há um ou outro diálogo que revelam rasgo, a banda sonora merece ser ouvida com atenção e há planos bonitos, bem pensados, com uma fotografia de cores quentes a condizer. Porém, há falta de coesão em tudo, medo de arriscar e muitos desempenhos subaproveitados - casos de Laura Linney, Sónia Braga (pouco mais do que uma caricatura), Michelle Williams e do próprio Hawke (muito desajeitado na pele do pai do protagonista). Ficamos à espera do próximo projecto, Ethan Hawke. Para vermos se te sais melhor!

5 de outubro de 2008

OS MEUS POSTERS: Os Inúteis


























GULA.
Para os que se queixam da oferta de cinema na televisão, a RTP2 merece um elogio. Os ciclos de sábado à noite são obrigatórios. Depois de, no mês passado, se ter homenageado Akira Kurosawa, Outubro pertence a Federico Fellini. E à entrada houve logo OS INÚTEIS, filme de viragem sobre as mudanças de quem quer algo mais do que uma pequena comunidade italiana.

1 de outubro de 2008

CINEFILIA: As cinco promessas de Outubro







GULA.
Embora Setembro tenha sido um mês calmo em matéria de estreias na sala escura, as coisas agitam-se agora, com Outubro a figurar como mês da rentrée. As novidades são tantas e tão boas, que nem deu para incluir o novo filme com uma grande interpretação de Julianne Moore, «Desejos Selvagens», a nova produção de Tiago Guedes e Frederico Serra depois de «Coisa Ruim», «Entre os Dedos», e o novo encontro entre De Niro e Al Pacino, no policial de «The Righteous Kill». Depois resta saber quais destas promessas se confirmam bons trabalhos realmente...

- MAL NASCIDA: João Canijo é provavelmente o mais interessante cineasta português da actualidade. Quem viu «Sapatos Pretos» ou «Noite Escura» sabe do que falo. Por isso, espera-se tudo neste filme sobre uma mulher que «mal nascida, é uma mal amada e eterna viúva do seu pai». Espera-se emoção e dor.

- DO OUTRO LADO: Mais um grande regresso, de um cineasta jovem, que mudou muita coisa ao dirigir o soberbo «A Noiva Turca». O turco Fatih Akin regressa à sua Istambul para mostrar a jornada de um homem para encontrar a filha da sua madrasta. Há uma promessa desde já: será uma jornada de intensidade.

- W: O cinema descobriu que odeia George W. Bush. No mês seguinte à estreia do documentário que simula a morte do presidente dos Estados Unidos, Oliver Stone volta a mostrar que é o cineasta mais polémico e aguardado ao questionar a política, colocando Josh Brolin na pele do político que é mais perito em gaffes do que em grandes ideias. O filme, que já gera burburinho por todos os lados, é motivo suplementar de interesse, dada a convulsão financeira da maior economia do mundo.

- DESTRUIR DEPOIS DE LER: O novo filme dos Irmãos Coen é tão obrigatório quanto o novo de Woody Allen, Almodóvar, Kusturica ou Scorsese. É uma dupla que já vale por si e que renasceu com a ovação de «Este País Não é Para Velhos». Agora regressam à comédia desbragada, depois dos seus últimos títulos do género não terem sido bem aceites por toda a gente. Vai valer a pena ver Brad Pitt e Frances McDormand a quererem dar o golpe em Malkovich....

- BERLIM: O realizador de «O Escafandro e a Borboleta» a homenagear a obra de Lou Reed? O projecto, a oscilar entre o documentário e o filme-concerto, merece a atenção por juntar um grande realizador a um grande músico.

29 de setembro de 2008

ILUSÕES DE ÓPTICA: Newman e «The Hustler»

QUIZ: A que filme pertence esta imagem?











Quando Hollywood ainda chora a perda de um dos seus maiores mitos, é altura de apelar às memórias cinéfilas e lembrar um trabalho de Newman. Os olhos azuis do cinema fecharam-se de vez.

Solução do QUIZ anterior: «As Férias do Senhor Hulot» (1953), de Jacques Tati.

27 de setembro de 2008

O cinema perdeu uma das suas últimas lendas








INVEJA.
«Representar é como ficares com as calças para baixo. Estás exposto.» PAUL NEWMAN

Por detrás dos mediáticos olhos azuis, do charme que sabia que era seu e da entrega a filmes quase sempre maiores devido à sua presença, estava um homem que se viria assumir como pai de família, marido exemplar, adepto de causas humanitárias e homem de convicções.

Paul Newman virou lenda no grande ecrã pela sábia escolha de desempenhos, mas também soube gerir a vida pessoal com punho forte, evitando cair no
cliché de que um «eterno rebelde» na ficção raramente se coloca de pé na vida real.

O modo como incendiava o ecrã, sempre com desempenhos pungentes, podem valer-lhe comparações a Steve McQueen, Robert Redford, Warren Beatty ou até mesmo James Dean, mas Paul Newman soube ser um ás de Hollywood sem perder a sua aura de pessoa influente, alguém assumidamente inteligente por detrás de um rosto perfeito para figurar na liderança de uma qualquer dispendiosa produção.

Um dos méritos de Paul Newman é ter sabido arriscar sempre, tendo a crítica e o público a ampará-lo das elevações dramáticas, percebendo que é deste calibre que se fazem os grandes vultos.

Pontos fortes de uma longa carreira? Há aquele jogo de foras-da-lei com Redford, num western desesperado pelo facto do género estar a desaparecer em «Dois Homens, Um Destino»; há a personagem do marido lesionado, com a ambiguidade sexual a ferir-lhe a alma, enquanto anda às avessas com uma luminosa Elizabeth Taylor em «Gata em Telhado de Zinco Quente»; há o novo encontro com Redford num bem sucedido filme de enganos que é também um divertido jogo de «faz de conta» em «A Golpada»; há o académico que vive o tormento da espionagem em plena Guerra Fria no mal amado «A Cortina Rasgada», às ordem de Hitchcock; há o bem sucedido filme de tribunal «O Veredicto»; há o homem elevado pelo mundo do crime que se prepara para enfrentar o declínio em «Caminho Para Perdição».

No entanto, se tivermos de nomear um único filme, «o filme», ele será o assombroso «A Vida é um Jogo», rodado num memorável preto-e-branco. O seu Eddie Felson, eterno errante que só se consegue evidenciar no snooker é uma das personagens mais possantes do cinema, ao ponto de Martin Scorsese o repescar para uma bem sucedida actualização em «A Cor do Dinheiro», em que o seu Felson, já com rugas no rosto, mostrava as leis do jogo (e da vida...) a um Tom Cruise ainda a largar a puberdade.

Resultado? Uma estatueta dourada para Melhor Actor, mesmo que tenha sido indicado para os Óscares mais nove vezes e recebido dois prémios honorários. Aos 83 anos, sucumbe a uma doença já outrora anunciada e torna o cinema mais pobre. A ideia feita aplica-se, contudo, neste caso. Newman era um herói com os pés no chão e o talento nas alturas.

OS SETE PECADOS DE... Setembro 2008








IRA.
Num mês que foi, acima de tudo de férias, a jornada pelo Chile não esteve isenta de cinema. Além do assombro de um país que parece feito de vários países (tal é a heterogeneidade das suas paisagens, das suas gentes, do seu fabuloso património cultural), o que mais espanta são os quase cinco mil quilómetros que distam do norte ao sul. Com a ambição de o querer conhecer de ponta a ponta em duas singelas semanas, não houve outra hipótese além da de passar longas jornadas dentro de um autocarro. A boa notícia é que o Chile possui um bom serviço de transportes, a má é que nem sempre trata bem os filmes que exibe durante longas jornadas que podem superar as 24 horas. Numa destas viagens, o assistente de serviço insistiu em colocar filmes de terror em série, ignorando o olhar de desconforto de menores mais sensíveis. Ainda assim, a insistência permitiu-me descobrir a bela alegoria que é NEVOEIRO MISTERIOSO, a obra de terror apocalíptica de Frank Darabont. A premissa delineada por Stephen King, que isola um grupo de aterrorizadas personagens num supermercado, enquanto lá fora nada se vê mas sabe-se que o pior está para acontecer... É na gestão do «suspense» e no cuidado como o realizador gere a tensão psicológica que está um dos pontos fortes desta obra, meticulosa até na forma como revela com cuidado os indícios «sui generis» de uma ameaça inexplicável. É aqui também que despertam os ódios e os fanatismos ao ponto do terror estar mais presente na essência humana do que na ameaça desconhecida. Um filme de arrepiar, que faz ainda acreditar no poder do susto. A contenção joga a favor deste trabalho, que nem o excessivo final consegue comprometer.


GULA. O regresso fez-se também de uma vontade de experimentar coisas novas no SIN CINEMA. Houve mais uma tentativa frustrada de largar o projecto, mas a consequência que perdurou foi a de querer reforçá-lo ainda mais. Com um acompanhamento mais frequente. Que se tirem conclusões...

AVAREZA. Sou daqueles que duvidou da estatueta dourada entregue a Nicole Kidman por «As Horas». Não que duvide do seu imenso talento, mas porque nesse filme o nariz postiço parecia dar demasiada ajuda para um desempenho que perde em comparação aos de Meryl Streep e Julianne Moore nesse mesmo trabalho. Porém, tirei as dúvidas em «Margot e o Casamento», um melodrama de actores, de Noah Baumbach, que os interessados em cinema norte-americano de travo independente reconhecem de «A Lula e a Baleia». Ora, o novo filme - que não chegou injustamente aos cinemas! - é uma pérola sobre como uma família se pode fragmentar em nome de personalidades que, pura e simplesmente, colidem. Kidman é a Margot do título, mulher dúplice, às turras com a irmã (excelente Jennifer Jason Leigh) que está prestes a casar com um homem patusco e até ingénuo (excelente Jack Black). Quando os traumas disparam e o drama se instala, Kidman mostra o seu empenho dramático num papel que é perfeito pela natureza intimista. No fundo, é um retrato dorido dos laços familiares, muito bem dirigido e que é tão forte que opta por prescindir de banda sonora.

SOBERBA. Com os seus defeitos e qualidades, a revista britânica «Empire» voltou a eleger os melhores filmes de sempre. A lista agora envolve 500 filmes, dá o primeiro lugar a «O Padrinho», de Francis Ford Coppola (o que é de saudar...), mas comporta uma impressionante surpresa: dá a escolher ao leitor que capa quer levar no meio de cem diferentes impressas. É obra! É um sinal de ambição, bom gosto e revela atenção de que o futuro passa pela personalização.

INVEJA. Já que se fala de revistas, saúde-se igualmente o regresso anunciado da portuguesa «Premiere» que vai voltar às bancas em Outubro. Com uma tiragem de 20 mil exemplares, a revista que lutou contra a corrente oito anos no mercado nacional foi ressuscitada depois de um fim abrupto e inexplicável. Esperemos que regresse melhor, com vitalidade e pronta para encarar os tempos que se avizinham. Bem-vinda, outra vez.

PREGUIÇA. Continuo distante da sala escura por cansaço, agenda preenchida e vontade em explorar o cinema em casa. Mas prometo inverter a situação...

LUXÚRIA. Os jogos de infidelidade de «Short Cuts - Os Americanos» merecem ser lembrados, dada a minúcia como Robert Altman desconstrói os afectos. Vermos Tim Robbins a trocar Madeleine Stowe por Frances McDormand tem graça e este é apenas um dos nós do gigantesco novelo de um filme que é o reflexo de uma certa forma de viver «à americana». Mas mais perto da realidade portuguesa do que seria de prever. Grande filme!

24 de setembro de 2008

ILUSÕES DE ÓPTICA: O Chile é assim

Dar umas luzes aos irmãos Lumière (II)












Caros irmãos Lumière,


Os mercados financeiros andam loucos por estes dias. Há quem compare a esquizofrenia bolsista com os tempos amargos da Grande Depressão de 1929, que certamente tiveram o infortúnio de testemunhar. E a culpa é do quê? Além do vício do endividamento, há que apontar as culpas para uma matéria preta, espessa, tão desejada apesar do seu rasto. Algo que me fez lembrar um filme recente, dos melhores que vi desde sempre.

Por isso mesmo, e porque vos quero mostrar como se faz cinema hoje em dia (o bom, principalmente, porque o mau é rapidamente apreensível), vou falar-vos de «Haverá Sangue», de Paul Thomas Anderson.

A primeira sequência deste estrondoso trabalho centra-se no complicado método para encontrar o ouro negro, numa altura em que a técnica era artesanal e saía inteiramente do esforço humano.

Filmada quase sem luz e som, é uma brilhante introdução metafórica para o que se aproxima, um épico cheio de lugares tão negros quanto o da matéria-prima que ainda hoje controla grande parte das carteiras e dos mercados financeiros – vê-se!

Com «Haverá Sangue», o realizador Paul Thomas Anderson pretendeu escalpelizar a história moderna dos Estados Unidos, usando precisamente a descoberta do petróleo como fonte de riqueza para elaborar uma ruptura ao nível dos valores, não só económicos como principalmente morais.

É neste ponto que se percebe que toda a acção do ardiloso filme estará condensada na figura de Daniel Plainview, mais uma estrondosa composição de Daniel Day-Lewis, provavelmente o melhor actor de todos os tempos (e que justamente recebeu uma segunda estatueta dourada para Melhor Actor, depois de «O Meu Pé Esquerdo»).

É ele que se assume como uma combinação de ambição e fé, alguém que rapidamente troca o sangue pelo preto do crude a correr-lhe nas veias. Seguindo-lhe os passos da fortuna, o espectador acaba por se confrontar com uma ardilosa saga de uma família para sempre moldada pelos caminhos do petróleo.

A relação de Daniel com o seu filho também será abalada na evolução sem dó nem piedade de mero prospector de prata a magnata do ouro negro. No entanto, no seu encalço estará também a provação religiosa, em mais um golpe de génio desta habilidosa realização do criador de «Boogie Nights – Jogos de Prazer» e «Magnólia».

Ao tentar aproximar-se da pequena e conservadora cidade de Little Boston, da qual apenas lhe interessa a riqueza que se esconde nas suas entranhas, o anti-herói tem de se aproximar dos seguidores da igreja do pregador Eli Sunday (Paul Dano, actor competente mas que perde em comparação com o «monstro» Daniel Day-Lewis).

Aí, haverá um arrepiante confronto com a fé e o duelo face ao materialismo inconsequente de quem prefere medir a realidade em números, litros e cálculos precisos, em vez de afectos e cumplicidade.

Ao querer evidenciar o pragmatismo até desumano do seu protagonista, o cineasta dá espaço a Day-Lewis para incorporar esta necessidade de afrontar Deus, até porque ele próprio se considera o máximo expoente da divindade.

Pelo caminho, tudo se vai dissipando, até a relação com o seu filho, antigo aliado e agora vítima de um inesperado acidente. Neste ponto, já se percebeu que a vida de Daniel Plainview é uma fonte de líquido pegajoso e obscuro, pronta para assimilar as sequelas da opção de querer viver para reinar.

Baseado no romance literário «Oil», de Upton Sinclair, «Haverá Sangue» é uma alternativa ao modelo de «blockbuster» por recuperar a tradição das grandes sagas familiares.

É posterior ao «western» mas a sua essência comporta a história de vidas marcantes, que serpenteiam os valores em busca de uma obsessão: neste caso, a vontade de controlar o poder, embora correndo o risco de ser sucumbido por ele.

Dar umas luzes aos irmãos Lumière (I)











Caros irmãos Lumière,


Há quem se queixe que as homenagens são sempre póstumas, mas mais vale tarde do que nunca.

Numa altura em que os ecrãs se disseminam em cada esquina e a imagem ganha um pulsar que preocupa os intelectuais adeptos do texto, decidi que estava na hora de partilhar convosco até onde chegou a vossa invenção.

Claro que comparar o cinema de hoje com o bem intencionado e «naïf» cinematógrafo, criado por vós (ou pelo menos, patenteado por vós em 1895) é uma tarefa hercúlea e perante a qual desde logo saboto tamanha intenção.

Não é disso que se trata este diário. É antes uma forma de pensar o cinema hoje, mostrar-vos como virou indústria, que uns preferem desfrutar mais segundo o ângulo do entretenimento, outros dissecá-la nas suas pretensões artísticas.

Tentar achar pontos de contacto, memórias cinéfilas inéditas para vós (sei que o mais novo, Louis, faleceu em 1948, e o mais novo, Auguste, seis anos depois...).

O cinema há tempos que é apelidado de sétima arte, permitiu libertar a fotografia do constrangimento do real e ele próprio foi liberto dessa função com o aparecimento de um ecrã ainda mais pequeno, a televisão, que além de emitir o que deve e não deve, e depois de muitas mortes anunciadas, continua sã e cada vez mais caleidoscópica, com um dos seus tentáculos precisamente ancorado no cinema.

E o que é o cinema? Nas aulas académicas falaram-me de uns óculos que se colocam ao espectador, para que este venha a submergir e a testemunhar imagens que se agenciam em nome de uma intencionalidade, mas independentes da vivência do próprio sujeito.

O que é certo é que o efeito de assombro possui uma carga imensamente distinta da testemunhada pelos boquiabertos espectadores que, na projecção pública do vosso invento a 28 de Setembro de 1895, no sudeste francês, viram funcionários da fábrica a saírem dos seus empregos na minúscula produção «A Saída da Fábrica Lumière em Lyon», ou que fugiram quando viram o comboio a vir em sua direcção (ainda que limitado ao ecrã) na projecção de «Chegada de um Comboio à Estação da Ciotat».

Hoje há a possibilidade do cinema se ver em casa, óculos que testam a tridimensionalidade, há ecrãs que se esquartejam em nome de experiências diferentes, há efeitos digitais nunca vistos. A gravidade, o tempo, o espaço e o real deixaram de ser limites para passarem a ser pontos de partida. O cinematógrafo deu origem ao cinema. E é essa passagem que quero que, desde já, interiorizem.

Para o bem e para o mal, a sétima arte surgiu por vossa causa. Resta-me a mim partilhar convosco as minhas reflexões. Será homenagem ou punição? Depende do dia, ora sentido-me optimista ora detractor. No fundo, precisava de um sujeito ao qual me dirigisse nestes apontamentos. Calharam-me vocês. Não foi por acaso. No cinema, os acasos podem dar boas cenas mas nunca bons argumentos.