
AVAREZA. «E se Deus me desse um claro sinal de que existe? Tal como fazer um depósito generoso em meu nome num banco suíço!» WOODY ALLEN
Nos últimos anos, o cinema com sotaque espanhol tem sobressaído para lá das ficções de cordel de Pedro Almodóvar. Se, por um lado, os cinéfilos começaram a prestar mais atenção à produção sul-americana – casos de México, com a revelação de Gael García Bernal em «Amor Cão» ou «O Crime do Padre Amaro», ou Argentina, nas deambulações emotivas da realizadora Lucrecia Martel –, a própria indústria espanhola tem procurado reinventar-se com géneros de pouca tradição.
Os exemplos sucedem-se e vão do musical, no delicioso «O Outro Lado da Cama», à sátira desbragada aos western-spaghetti¸ como sucedeu no recente «800 Balas».
Em MORRER EM SAN HILÁRIO, é a farsa de tónica quase medieval ao culto dos mortos que domina, centrando a acção numa pacífica aldeia – a que dá título ao filme e que é descrita como um lugar onde ninguém sabe bem onde fica mas que se acaba sempre por ir lá parar – que se encontra na penúria devido aos «tempos modernos».
A razão para a depressão dos seus habitantes deve-se ao facto de, desde a invenção higiénica das agências funerárias urbanas, a principal fonte de rendimento, que são os faustosos funerais e cultos sepulcrais, se encontrar votada ao abandono e em plena decadência. A chegada de um misterioso forasteiro, Piernas Gierman (Lluís Homar), a este território inóspito permite à população recordar velhos tempos ao preparar, por engano, o seu enterro.
Com um ponto de partida rebuscado como este, MORRER EM SAN HILÁRIO já tem o mérito de, pelo menos, merecer a descoberta (a fita, apesar de ter despertado a atenção em Espanha, estreou-se no mercado nacional directamente para DVD, numa edição sem extras além do trailer). Porém, vai muito além por tirar o melhor partido do defunto por antecipação que é, afinal, um delinquente vítima de uma troca de identidade.
E por descrever a rotina da bizarra população com um peculiar sentido de acutilância satírica a lembrar as pormenorizadas narrativas queirosianas.
O resultado final não pretende ser tão sério quanto o tema que convoca, explorando o ritual da morte nas múltiplas vertentes sujeitas ao riso sem desembocar nas armadilhas do humor negro mais primário.
A cena em que o protagonista contempla a janela do quarto onde vai ficar hospedado até à data combinada para a morte chegar, com uma vista para o adorado cemitério local, demonstra que a realizadora catalã Laura Mañá soube tirar partido da prometedora premissa da história para a articular com noções cinematográficas interessantes.
MORRER EM SAN HILÁRIO não é, contudo, isento de fragilidades, até porque decide apostar, perto do final, por um registo mais dramático (que colide com o tom satírico erigido anteriormente). Mas deixa no ar a forma como se pode aligeirar um tema que, por exemplo, a multipremiada série «Sete Palmos de Terra» explorou numa outra componente mais densa e tradicional. Na verdade, a morte pode ter graça. A população excêntrica da bizarra aldeia de San Hilário agradece.
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