30 de setembro de 2006

NA SALA ESCURA: A poesia do caos, cinco anos depois

Muita gente tem questionado a razão por que um realizador que reincide no "politicamente incorrecto" se deixou submergir por uma tragédia como o 11 de Setembro de 2001 e rodou um filme patriótico, melodramático, centrado na experiência poderosa de dois membros da Autoridade Portuária de Nova Iorque, que conseguiram escapar com vida à queda das Twin Towers. Oliver Stone já dissecou o Vietname por três vezes, o assassinato de JFK também. Fez a apologia da violência, denunciou regimes políticos repressivos na América Latina e traçou o percurso de Nixon. O seu cinema é, naturalmente, de grandes causas, porque este cineasta (talvez o melhor do cinema contemporâneo "mainstream") usa as imagens - manipula-as com requinte, seria melhor dizer... - para delinear retratos profundos, quase sempre fracturantes. Depois do desaire de Alexandre, O Grande (ainda ninguém percebeu muito bem por que é que este épico falhou, apesar de ambicioso e esteticamente interessante, mas, acima de tudo, vazio...), Stone foi mexer num trauma recente da história norte-americana e, pelas consequências globalizantes de hoje, mundial, usando menos intervencionismo crítico perante a situação em redor, mas centrando-se no limiar da vida/morte de dois homens, presos durante longas horas nos escombros do World Trade Center. Homem de esquerda, Stone poderia ter criticado a postura de Bush, elaborado rebuscadas teorias da conspiração ou colocar um olhar mais azedo numa obra que chega aos ecrãs cinco anos depois do dia em que o mundo mudou. E que colocou nas nossas vidas, directa ou indirectamente, um receio, uma suspeita, um olhar de soslaio para alguém de cor diferente... Stone procura com este soberbo World Trade Center a redenção, não só com os espectadores que possam ter ficado desiludidos com as suas últimas experiências cinematográficas, mas com uma Nação que só agora começa a retratar os seus maiores traumas no ecrã. Numa era de tecnologia de ponta e multi-informação, quanto tempo demora a olharmos de frente para um tragédia, a ficcioná-la ou até mesmo a rirmo-nos dela? Cada vez menos... Com World Trade Center, o que Stone consegue fazer é levar o espectador a jogar as mãos na consciência para questionar os limites da maldade humana.


Pecado do Dia: Avareza

Contenção é a palavra de ordem que domina a visão de Oliver Stone sobre a tragédia do 11 de Setembro de 2001. World Trade Center prefere usar as imagens televisivas sobre a tragédia do que encenar em grande escala o embate dos dois aviões nas torres mais elevadas de Nova Iorque. A primeira colisão só é visível numa sombra, a outra é anunciada por telefone. O efeito é perturbante e revela a mestria de Stone em brincar com as convicções do espectador, porque apesar deste não voltar a ver no ecrã o que já conhece de cor, toma o embate como garantido, justamente pelas imagens que viu na televisão aquando da tragédia. Depois, há que centrar um monumental acontecimento na vida de dois homens, bombeiros, que ficam soterrados nos escombros da primeira torre. É aqui que se entra na poesia do caos, na tragédia de quem é inocente e vê a sua vida corrompida por um enorme colapso. As personagens de Nicolas Cage e Michael Peña fazem-nos acreditar que há esperança e conseguem envolver o espectador quase sem se mexerem na maior parte da acção - o esforço de Cage é mesmo de louvar... Depois vêem-se as suas famílias, espectadoras de uma tragédia que não compreendem. Oliver Stone usa um microcosmos social, mas que aborda as várias nuances imediatas do 11 de Setembro de 2001. Não optou pela análise política, pelas repercussões estratégicas internacionais ou pelo medo do terrorismo. Fez antes um poderoso melodrama, que faz recuar este acontecimento à sua essência, a dos sentimentos. E ajudou-nos a perceber que, muitas vezes, quando assistimos a uma tragédia pelos média, esta já vem filtrada. Com World Trade Center temos a ilusão de ter estado mais perto de um colapso. Pelo menos, o sentimento parece chegar até nós. Será que Oliver Stone se rendeu ao seu país e aceitou os seus inúmeros defeitos? Não. O que não quer dizer que não possa filmar belíssimos casos de vida. * * * *

27 de setembro de 2006

As imagens também dançam

Por motivos diversos (muito trabalho, mudanças, contenção de custos e cansaço apesar da semana de férias há bem pouco tempo...), tenho estado quase de costas voltadas para o cinema em sala escura. Um pecado que prometo compensar um dias destes... Solução imediata para este mal? Consultar a pilha de DVDs que tenho lá por casa (e que consegui reordenar novamente por ordem alfabética, devido a mudança necessária) e escolher ao acaso um filme que me pode marcar o serão pelas melhores razões. Billy Elliot não foi escolha minha... mas ainda bem que o revi, no outro dia, à noitinha, na companhia da pessoa certa. Revi-o pela quarta ou quinta vez e chego cada vez mais à conclusão que este musical inglês (dos produtores de Quatro Casamentos e um Funeral ou O Diário de Bridget Jones) é mais um manual de uma adolescência à descoberta de si própria pela dança do que um mero seguidor dos cânones do musical dançado. E, no final, deu-me vontade de dançar ao acaso, como nas crises de criatividade do jovem protagonista (excelente Jamie Bell). E logo eu, que não sou fã de musicais - há Moulin Rouge, Toda a Gente Diz Que Te Amo e pouco mais do que os clássicos Chapéu Alto ou Serenata à Chuva. O que torna Billy Elliot excepcional é a sua capacidade de restituir o espírito rebelde e ingénuo da juventude, transportando a música para a história como escape para uma realidade mais crua. Esta inserção nada poética e até abrupta é absolutamente performativa. E dá vontade de ver de novo.

Pecado do Dia: Inveja

Foi uma estreia certeira, digna de causar muita inveja pela consistência de uma primeira obra:
Stephen Daldry, hoje ainda mais respeitado porque após Billy Elliot construiu o elenco feminino mais sólido dos últimos anos em As Horas, surpreendeu toda a gente com uma história simples, passada numa Inglaterra provinciana, dilacerada por greves de mineiros durante a governação de Margaret Tatcher, em que um jovem rapaz que deveria praticar boxe, se deixa seduzir pelos movimentos graciosos do ballet. É uma história contada em jeito de Patinho Feio - o número final de O Lago dos Cisnes sintetiza a analogia na perfeição - com a música a ilustrar as imagens com uma imensa comoção. Mais do que isso, há a veracidade dos desempenhos, seja Jamie Bell a construir uma personagem em mutação psicológica permanente, ou uma Julie Walters como a professora de ballet cheia de frustações e exigências. Este conto que é um valente sopro para auto-estimas mais fragilizadas mostra que as imagens também dançam. Sejam as do ecrã ou as que se colam na nossa cabeça. * * * * *

19 de setembro de 2006

Jornais à procura de um lugar ao sol

E, subitamente, o mercado jornalístico entrou em polvorosa devido à estreia de um semanário com nome de tablóide britânico que, desde o primeiro número, assume que não cede a promoções e espera, em poucas semanas, tornar-se líder do seu sector. Mas alguém acredita que, verdadeiramente, possa fazer mossa ao "saco de plástico"? Há uns meses diria que não, hoje com o "lusco-fusco" gerado dou o largo benefício da dúvida. A estreia foi, de facto, em grande, com um visual arejado (talvez demasiado tabloidizado no que concerne ao caderno principal), muitas ideias e um descomprometimento que já há alguns anos fazia falta. Mas onde está o suplemento de cultura? A boa edição fotográfica? O "Sol" é jovem e ambicioso e precisa apenas de limar umas arestas. A sua entrada no mercado só pode ser louvável, até porque obrigou o "Expresso" a mudar de visual e a perder o quase monopólio dos semanários (depois, gerou um dano colateral: o encerramento há muito anunciado do "Independente", um jornal que guardo num cantinho privilegiado da minha memória). No meio desta picardia, importa não esquecer que, mais do que projectos em constante renovação, o jornalismo precisa de deixar de ser preguiçoso, escrito sempre a partir da secretária, menos dependente das agências externas e procurar histórias próprias. Toda a gente sabe disso, mas como investir quando as vendas caem todos os dias e os gratuitos ganham terreno a cada nova semana? O que é certo é que o jornalismo está a mudar a sua essência com uma rapidez estonteante e, parece-me, que no futuro a informação será cada vez mais um bem "de borla". Este paradoxo será interessante de observar de perto. Muitas vezes, longe da visão saudosista do grande ecrã.

Pecado do Dia: Avareza

Neste período de convulsão jornalística, apeteceu-me recuar às origens, às aulas académicas de jornalismo e à figura de um certo professor de sotaque norte-americano que me deu a ver pela primeira vez, como o cinema de meios escassos e múltiplas ambições deu cartas há mais de 60 anos no olhar atento sobre o jogo de influências que rodeia a imprensa. Apesar de algo datada, a comédia O Grande Escândalo, de Howard Hawks, é um excelente exemplo de como os meandros jornalísticos podem ser os mesmos do cinema clássico. Claro que há um olhar romântico e uma caricaturização excessiva do par protagonista, Cary Grant e Rosalind Russel, em verdadeiro rodopio para conseguirem a "cacha" sobre um condenado à pena de morte. Exemplo perfeito do género "screwball comedy", O Grande Escândalo" apresenta uma guerra dos sexos ambígua, críticas à honestidade do repórter sem escrúpulos, mas acima de tudo, transmite o sentimento genuíno de prazer que a profissão de jornalista comporta. É uma relação de amor-ódio, que invade muitas vezes a esfera pessoal, onde o mérito se negligencia, mas onde, no final, tudo acaba por ter o seu sentido. O mestre Howard Hawks move-se neste meio com a profundidade com que abordou o melodrama ou o western. Ficou famoso em Hollywood por isso mesmo, por uma perfeccionista versatilidade. Neste caso, teve um dos seus pontos altos, criando uma obra-mestra para a comédia e um tratado anedótico sobre as perversidades de uma profissão que, embora hoje muito mais dependente da tecnologia, mantém os níveis de inconstância e adrenalina. Para quem lhe veste verdadeiramente a camisola. Depois há sempre o desabafo da personagem de Rosalind Russel para a de Cary Grant: "Now, get this, you double-crossing chimpanzee, there ain't going to be any interview and there ain't going to be any story. (...) I wouldn't cover the burning of Rome for you if they were just lighting it up. If I ever lay my two eyes on you again, I'm gonna walk right up to you and hammer on that monkeyed skull of yours 'til it rings like a Chinese gong! ." * * * * *

14 de setembro de 2006

NA SALA ESCURA: O fantasma feminino de Almodóvar

Almodóvar nunca escondeu o seu fascínio pelas mulheres. Munido de uma imensa sensibilidade (que gosta de transpor para o grande ecrã), o realizador espanhol filma os trejeitos femininos mesmo quando os seus protagonistas são homens - atente-se em Má Educação ou Fala Com Ela. Nos seus últimos filmes, articulou a sua veia de contador de histórias de cordel, nem sempre muito distantes da dinâmica de folhetim, com um sopro de poesia carnal, bastando recordar o modo como filmou os corpos em Em Carne Viva ou a morte no caso do já referido Fala Com Ela. Com o seu último filme, Voltar, o realizador espanhol parece querer respirar fundo, recordar as suas memórias de infância (a personagem de Carmen Maura, velha companheira nos filmes de Almodóvar que se afastou do mestre há quase 20 anos por desentendimentos pessoais, é assumidamente baseada na figura materna do cineasta) e voltar a homenagear o sexo feminino. Uma homenagem sentida, com reminiscências no cinema italiano clássico, subnarrativas de faca e alguidar e ainda um regresso à comédia, levando o espectador a rir da morte e, consequentemente, da vida. Este pequeno interlúdio numa evolução de carreira que parecia cada vez mais séria e intimista (ninguém duvida que o anterior Má Educação é a obra mais auto-biográfica da sua já extensa carreira) recebe-se com um sorriso e, apesar de já não existirem grandes surpresas no estilo, o resultado volta a surpreender pela figura do "fantasma", que afinal é capaz de ser a mais realista de todas as personagens. Com Voltar, Almodóvar comprova que pode filmar o que quiser porque o engenho e a sensibilidade já ninguém lhe tira. E, como grande cineasta das emoções que é, o resultado final é sempre alvo de admiração.

Pecado do Dia: Inveja

Já se disse que Voltar é um filme mais ligeiro que os seus antecessores e que representa um regresso do realizador espanhol aos lugares confortáveis da sua filmografia: comédia burlesca, intrigas rebuscadas, conflitos familiares, piscadelas de olho à morte e uma enorme vénia às mulheres. Na verdade, as mulheres são tudo neste filme, numa espécie de homenagem em que o fascínio roça a inveja pela luminosidade das suas vidas, a sua força em relação aos homens (o único que aparece é apunhalado em três tempos...) e o seu imenso sorriso. Penélope Cruz tem, neste filme, um presente imenso de Almodóvar - é mesmo, até ao momento, o desempenho da sua vida - ao incarnar a alma desse filme e o paradigma feminino dos filmes do mestre espanhol. O seu visual de diva clássica latina, as suas deambulações entre lágrimas e sorrisos ajudam a empurrar o filme para uma história em que o misticismo também é uma farsa, porque o que conta são as emoções, mesmo as que se apresentam ao olhar de forma brutal. Melodrama de cores vivas, Voltar surpreende pouco quanto a inventividade narrativa. Mas é tão forte nas emoções e reflecte tanto um estilo que já é recebido à partida com carinho, que só pode ser bem aceite. Vencedor do Prémio de Melhor Interpretação Feminina para o grupo de actrizes que lideram o elenco no Festival de Cannes deste ano, o filme é mais uma obra perfumada que Almodóvar dedica à sensibilidade de todos nós. * * *

13 de setembro de 2006

Um chá (e uma noite) no deserto

Costuma dizer-se que o que é bom acaba depressa. Concordo inteiramente e, nove dias depois, já estou de volta às pequenas coisas do dia-a-dia, à vida de sempre, ao trabalho, a casa. Mas estou diferente! Nem que seja por um bocadinho. A razão é simples: de toda a viagem que realizei por terras marroquinas (espaço de contrastes, de mescla de cheiros e sabores, de carências, de caos...), aquilo que mais retenho na memória é a breve passagem pelo deserto, com porta de entrada na pequena cidade de Zagora. É o chavão de quem se aventura pelas areias, com direito a passeio de dromedário e tudo (o meu, baptizei-o convenientemente de "Areias"), mas o silêncio e a paisagem feita de tudo que é o nada nunca mais me vai sair da cabeça. Dormir numa tenda de pano, com direito a música local, chá quente e lições de filosofia berbere fizeram-me crescer a mim e a quem foi comigo mais um bocadinho. O deserto é mais uma força da natureza que de tão deslumbrante nos faz sentir ligados à terra. Enterrar os pés na areia, sentir os pingos de chuva que só acontecem uma vez por ano (e que, felizmente, se manifestaram na noite em que lá estive) e ver o nascer do Sol no horizonte, fizeram-me sentir vivo. Senti esta experiência ao lado da pessoa certa e, agora, percebo que os dilemas do dia-a-dia são mais pequenos e sem sentido do que se podia imaginar. Grande é o monte de areia que, por causa do vento, nunca é igual todos os dias. É bom estar de volta!

Pecado do Dia: Soberba

Já se disse que Marrocos é também palco de cinema. Em Ouarzazate, pequena localidade interior (com uma estação de autocarros de fugir...), há um imenso estúdio de cinema que é possível visitar quando nenhuma rodagem estiver a decorrer. Obras que o tiveram como cenário primordial? Lawrence da Arábia, de David Lean, e Um Chá no Deserto, de Bernardo Bertolucci. O primeiro é tão grandioso que quero voltar a ele na altura certa (talvez quando esta experiência no deserto revelar-se demasiado nostálgica), o segundo parece-me mais imediato porque o revi recentemente. A história do casal de artistas norte-americanos Moresby (interpretados por uma irreconhecível Debra Winger e John Malkovich) é densa e entranha-se como os grãos de areia quando o vento puxa. Neste jogo de enganos, com demasiados momentos à deriva, é o espírito do Norte de África que parece dar sentido à relação carnal dúbia. Pelo meio, aparece o jovem George Tunner (Campbell Scott), capaz de baralhar as coordenadas afectivas dos protagonistas e introduzir um sentimento de rebeldia necessário para o filme evoluir. O que se destaca ainda em O Chá no Deserto é o seu tom atmosférico, a fotografia de cores quentes e as belíssimas imagens rodadas em Ouarzazate. Eu estive lá, ainda que de passagem, e é essa passagem que me faz olhar de outra forma para este melodrama e esquecer algumas das suas vulnerabilidades, onde Bertolucci revela demasiados tiques artísticos. Ainda assim, como experiência sensível, é um prodígio para o olhar. A génese do cinema, portanto. * * *

31 de agosto de 2006

Pausa para Marrocos

Finalmente, a pausa está a chegar. Aquela há muito aguardada, que esteve até para não vir, mas que se impõe como necessário momento de, à semelhança de um interruptor, estar desligado nem que seja por nove dias. Desta vez, as férias serão em território novo, num ponto de confluência entre África e Europa, com mercados apinhados de gente, paisagens de tonalidades quentes, regateios e passeios demorados. Marrocos é, por isso, o espaço de descompressão e de descoberta, numa sinestesia que se espera devolva a energia que, de momento, parece escassear. Por esta razão, o SIN CINEMA conhece a sua primeira pausa ao fim de dois primeiros meses de actividade intensa, com o teste de fórmulas cinéfilas com algumas (ainda poucas) visitas regulares. Aos amigos que me têm apoiado com mensagens, críticas e elogios, o meu obrigado. Prometo regressar em força, até porque o cinema continua a ser aquele lado bom do dia-a-dia que permite uma submersão por duas horas. Aquela que eu vou agora à procura por nove dias, ao vivo e a cores. Bons filmes e bons pecados!

Pecado do Dia: Preguiça

É o que se pede neste curto período de férias, apesar de, em território novo, pouco dar para descansar com a vontade de ir à procura do mundo que se desconhece. Marrocos é uma terra fértil, até como cenário para bons filmes. Que dizer do remake que Alfred Hitchcock dirigiu em 1956 de um filme seu (ainda no período britânico da sua carreira), O Homem Que Sabia Demais? Inicia-se com James Stewart e Doris Day a passearem-se por Marraquexe, num mercado agitado por comércio de rua, onde se dá um misterioso crime. Neste caso, Marrocos é apenas uma encenação prolífica para uma deliciosa conspiração que só o génio de Hitchcock conseguia concretizar, mas dá uma clara noção da multiplicidade de estilos, cores e dispersões culturais que atravessam Marrocos. Atente-se na cena da viagem de autocarro e na sequência passada num restaurante marroquino em que o casal protagonista adensa as suas suspeitas de que o desaparecimento do filho é apenas a ponta de um longo novelo. O Homem Que Sabia Demais é um dos clássicos mais exuberantes de Hitchcock, criado com meios de encher o olho, uma belíssima fotografia (que assenta como uma luva no exotismo de Marraquexe, onde decorre toda a primeira parte) e um final célebre que envolve um crime e uma orquestra - numa brilhante simbiose de som e imagem. Depois, há ainda o tema Que Sera, Sera, cantado por Doris Day e que acabaria por vencer o Óscar de Melhor Canção em 1956. Este clássico, que passa em Setembro no ciclo "Hitchcock na Esplanada" da Cinemateca, não é talvez a referência mais óbvia quando se pensa em Marrocos no cinema. Na verdade, we always have Casablanca... * * * *

28 de agosto de 2006

Cinema português "falha" na TV

Com excepção dos clássicos dos anos 40 e 50, o cinema português tem muita dificuldade não só em passar nas salas de cinema como em integrar-se nas grelhas das televisões generalistas. Há alguns anos, a SIC revelou vontade em inverter esta tendência, seja na produção de uma série de telefilmes com qualidade e arrojo acima da média para um mercado estagnado, ou no apoio a obras com potencial mediático, como o recente O Crime do Padre Amaro (que, apesar de todas as fragilidades levou às salas cerca de 400 mil pessoas a verem uma produção nacional). Na verdade, e com excepção geralmente da 2: (obrigações de um suposto serviço público?), longa-metragem em português passa sempre a horas tardias, bem perto das televendas. E isso... é quando passa, dado que a TVI, por exemplo, ignora por completo este nicho. Recentemente, a RTP1 ousou passar em horário nobre filmes de temáticas mais amplas - casos de Capitães de Abril, Fátima ou O Delfim -, mas a programação de hoje do primeiro canal é sintomática desta tendência de que não interessa a ninguém, à excepção das pessoas com insónias e olheiras carregadas, verem um filme português. Neste caso, A Falha, de José Mário Grilo, passa às 01.00. Tudo bem que o filme é uma obra menor da carreira do cineasta e professor académico, bastante desequilibrada até, mas não deixa de ser, por exemplo, uma interessante reunião de actores de prestígio, que personificam o novo cinema português. Mas quem é que quer saber disso? A maior parte deles até se apresentam durante longos meses em personagens caricaturais na rotina elementar das telenovelas!

Pecado do Dia: Ira

O que terá passado pela vontade de Mário Grilo - um dos mais interessantes teóricos do cinema vivos - em colocar uma série de personagens fechadas numa caverna forçada é um mistério (talvez houvesse uma tentativa de actualizar a metáfora de Platão, mas que foi completamente desdenhada). O que é certo é que, em A Falha, as personagens andam à deriva. Trata-se de um grupo de oito velhos amigos de escola que se reúnem muitos anos mais tarde e percebem que esse período lhes moldou a personalidade e existem uma série de assuntos por resolver. Na segunda metade do filme, há uma ruptura súbita, porque os protagonistas ficam enclausurados num acidente numa pedreira e o descalabro emocional avança sem avisar. É um jogo de ira, de violação psicológica desconexa, que desequilibra uma obra que nunca se consegue impor em matéria dramática. Resta um bom espectro de personagens e actores - Alexandra Lencastre, Rita Blanco, Rogério Samora, Adriano Luz ou Teresa Roby (no seu último papel em cinema) Mas não é assim que o cinema português se consegue aproximar do público... **

24 de agosto de 2006

NA SALA ESCURA: A maldição do filme do meio

É quase uma regra em filmes de grande dimensão: ao criar-se uma trilogia a partir de obras com elevado património narrativo, o segundo filme é (quase) sempre o que fica a perder. Algo perdido por estabelecer uma ponte entre o capítulo inicial e aquele que irá pôr termo à saga, o filme do meio costuma ter acção em grande escala, distorcer as motivações iniciais dos protagonistas para "baralhar e dar de novo" e, acima de tudo, contar uma peripécia secundária, quase sempre inconclusiva, deixando, no final, um apontamento em aberto para o derradeiro capítulo. Por esta razão, os filmes do meio são uma forma simples dos grandes estúdios ganharem dinheiro. São raros os casos em que esta regra de mais "marketing" do que cinema não funciona, como em O Senhor dos Anéis, mas também nem todas as trilogias se baseiam num universo literário e onírico tão poderoso e complexo como o desenhado pela mestria de Tolkien. É mais habitual que tudo se passe como em Matrix (que chega ao extremo do terceiro ser mesmo o mais fraco dos capítulos), American Pie, Austin Powers ou Parque Jurássico. E o mesmo se parece aplicar com Piratas das Caraíbas, o filme de aventuras que resgatou as grandes fitas de piratas para o topo das bilheteiras e salvou a Disney de mais um fracasso, mas que, depois de uma inventiva obra de estreia, se estendeu ao comprido na sequela que se estreou há pouco nas salas nacionais. O Cofre do Homem Morto é muito divertido mas corrompe qualquer esforço de uma história coesa, desfazendo até as boas premissas do início (aqui, a relação entre Will e Elizabeth passa para segundo plano, além de que o próprio Jack Sparrow anda excessivamente à deriva). Deixa muitas pontas soltas para serem resolvidas no capítulo que se estreará no Verão do próximo ano. Resta saber se esse derradeiro episódio consegue restituir a aura de aventura clássica que o primeiro Piratas das Caraíbas tão bem soube estabelecer.


Pecado do Dia: Preguiça

Se há um aspecto que o primeiro capítulo de Piratas das Caraíbas conseguiu impor foi uma das mais deliciosas composições dramáticas de um herói pouco convencional, à semelhança de Indiana Jones. O pirata Jack Sparrow colou-se à pele de Johnny Depp que, com este filme de aventuras, conseguiu provar finalmente ao grande público que é um excelente actor de comédia, capaz de arriscar nas interpretações, neste caso criando uma hipótese de "mimo" para o século XXI. O que se passa é que neste segundo capítulo, Piratas das Caraíbas: O Cofre do Homem Morto, o realizador Gore Verbinski dá prevalência à diversão pura e dura, aos efeitos especiais de ponta, aos diálogos desconexos, às coreografias de luta excessivas, às reviravoltas narrativas desprovidas de sentido e aos seus vilões (apesar das muitas fraquezas da história, o vilão Davy Jones é talvez o ponto mais interessante desta sequela). Para trás fica Jack Sparrow, o casal Will e Elizabeth, uma intriga sustentada e uma ideia de entretenimento com fundamento. Na verdade, O Cofre do Homem Morto deixa tudo em suspenso, explora mal a introdução da figura do pai de Will e é, por vezes, tão tonto (como acontece na extensa sequência passada na ilha deserta) que chega a embaraçar o espectador. Apesar de tudo, a noção de espectáculo não está ausente e há uma vontade em quebrar alguns constrangimentos do primeiro filme - a ambiguidade da relação entre Elizabeth e Jack Sparrow é ambiciosa perto do final do filme, o monstro marinho é uma boa ideia mas desperdiçada... O que parece é que este O Cofre do Homem Morto foi inteiramente feito para encher os cofres necessitados da Disney. O que esperar de 2007? * *

21 de agosto de 2006

NA SALA ESCURA: O herói que poderia ser pássaro ou avião

Qual o sentido de se actualizar um super-herói associado a uma data específica, os míticos anos 70 e 80, e a um actor que nunca se desprendeu do seu fato - Christopher Reeve? Hoje o herói de "collants" que voa e tem uma força de aço pode atingir o pico da celebridade num período em que as referências são mais descartáveis do que nunca e as imagens ficam cada vez menos presas na retina? Parece que... sim e a razão para isso é colocar na realização um cineasta que seja verdadeiro fã da saga. Bryan Singer, que iniciou a carreira com um filme independente de culto - há alguém que não recorde o "twist" de Os Suspeitos do Costume? - e depois aceitou o repto de fundir BD com cinema em grande escala nos dois primeiros capítulos de X-Men, consegue neste novo Super-Homem - O Regresso, que já chegou às salas há duas semanas e com uma discrição estranha para quem queria ser o "blockbuster" da temporada, uma proeza: actualizar sem corromper o património. Ou seja, apesar desta nova versão (há muito "encalhada" nos estúdios de Hollywood) representar mais um sinal de que é preciso ir às velhas fórmulas para encontrar potenciais êxitos, o filme é surpreendentemente equilibrado entre o "fogo-de-artifício" necessário para um grande espectáculo associado a um super-herói e as nuances emocionais de uma personagem que não se consegue desprender do seu fato (escurecido e, apesar de tudo, com mais classe) e entregar-se ao amor por Lois Lane. As premissas estão cá todas, assim como o vilão Lex Luthor, planos megalómanos, tecnologias medidas com peso e medida e... um gosto assumido pela memória da BD. O segredo deste Super-Homem - O Regresso, que já chegou aos 200 milhões de dólares nas bilheteiras norte-americanas (mas que ainda não deu muito lucro porque esse foi o seu preço de produção), é Bryan Singer, cineasta capaz de dar doses generosas de entretenimento e que não tem medo de arriscar. Até ao ponto de, perto do final deste filme, vermos o herói a ter de entrar num serviço de urgências. Alguém já tinha imaginado Super-Homem a receber massagens de reanimação?

Pecado do dia: Soberba

Apesar de durar quase duas horas e meia (qualidade que parece fundamental para um filme se assumir como épico), Super-Homem - O Regresso é vertiginoso, tem poucos momentos mortos, uma estrutura familiar complexa e um vilão exageradamente cruel que, apesar de pouco profundo, permite a Kevin Spacey exercer o seu cinismo habitual (e irresistível) em doses de número circense próximos do de Jack Nicholson no primeiro Batman de Tim Burton. Desta vez, o tempo passou e quando Clark Kent (Brandon Routh, a fazer esquecer sem convencimento a memória de Christopher Reeve) regressa ao "Daily Planet" percebe que Lois Lane (Kate Busworth) refez a sua vida, é casada e tem um filho. O pior é que Lex Luthor dá novos sinais de vida e pretende criar um espaço só seu. A seu lado está uma bem trabalhada Kitty (Parker Posey, com visual à Wanda Stuart, revela para os mais distraídos que é uma excelente actriz de comédia) e uma megalomania que nos lembra que esta é uma história de super-heróis com as habituais doses de cosmogonia. As cenas de acção são brilhantes - tanto a inicial com um avião a alta velocidade como a do barco -, contrastam com os voos deslizantes do herói com Lois, em momentos de envolvimento romântico. No final, Bryan Singer cumpre a função de actualizar o herói para o novo século, que regressa com o mesmo fôlego de um Homem-Aranha ou um Batman. Não, não é um avião nem um pássaro, é um ícone do entretenimento moderno a mostrar que ainda está vivo... * * * *

16 de agosto de 2006

A identidade, essa noção desconhecida

Os filmes de Woody Allen são como aqueles CDs velhinhos, com o "booklet" dobrado nas pontas, que teimam em não sair da aparelhagem. As comédias fazem sorrir a cada novo visionamento, os diálogos decoram-se como citações de um livro de cabeceira, as piscadelas de olho ao surrealismo encaram-se como apelos à criatividade. A carreira de Woody Allen - mesmo a fase mais ligeira dos seus primeiros e derradeiros filmes, com excepção do negro Match Point - é um vício cultural e o coleccionismo em torno dos DVDs das suas obras traz sempre um pequeno rombo no orçamento mensal e uma passagem atenta às prateleiras dos videoclubes. Ainda há grandes lacunas nas edições nacionais de fitas mestras - onde páram as versões portuguesas de clássicos como A Rosa Púrpura do Cairo, Os Dias da Rádio ou O Herói do Ano 2000? Um dos casos mais flagrantes é Zelig, uma das obras mais interessantes e antigas de Woody (o ano de produção é 1983), que só nas edições importadas da Fnac ou da Amazon se pode encontrar. É uma ficção disfarçada de documentário, sobre um homem que apresenta um curioso distúrbio físico-emocional: transfigura-se em função da pessoa com quem está. O resultado é genial e, apesar de ainda não o ter em formato digital, gosto de rever em VHS e até passou há pouco tempo no Canal Hollywood. De resto, há imagens que ficam impregnadas na mémória. Mesmo as que duram quase hora e meia.

Pecado do Dia: Avareza

Ainda ao lado de Mia Farrow, Woody Allen construiu uma pequena obra, com uma contenção de
meios impressionantes, mas reveladora do seu estilo desconstrutor da identidade. Aqui esta noção é levada ao extremo e assume contornos de fábula, dado que Zelig (Allen) é uma personagem que literalmente se metamorfoseia em função do universo exterior, anulando-se completamente. O seu caso - "cientificamente" espantoso - é apresentado como aberração à semelhança de "Homem-Elefante". É então que entra em cena Mia Farrow na pele da psicanalista que se oferece para entender o bizarro episódio contado em forma de lenda e apresentado segundo os moldes do documentário televisivo dos tempos a preto-e-branco, com imagens granulosas e tudo. Os efeitos especiais são enternecedores por serem tão comedidos, as mutações do protagonista têm, muitas vezes, efeitos perversos de crítica política (a transformação de Zelig em judeu é bom retrato disso mesmo). Mas é a identidade que está em jogo, essa noção complexa e que seria, mais tarde, explorada por Woody das mais diversas maneiras. Em Zelig, o extremo faz sentido e o cineasta que melhor retrata Nova Iorque parece fazer jus à noção de "persona", termo grego de onde vem o conceito de "pessoa" mas cujo sentido original é "máscara". * * * * *

14 de agosto de 2006

Idiossincrasias da Palma D'Ouro

Diz-se que é o maior festival de cinema do mundo, não só porque se estende por vários dias, mas também porque os cineastas mais requisitados de todo o mundo aceleram os processos de pós-produção das suas últimas obras para marcarem presença na programação do evento que deu prestígio à vila francesa de Cannes. Quem se sai bem na competição, pode esperar boa exibição nas salas e, quem sabe, chegar ao grupo de finalistas das estatuetas douradas de Hollywood. Uma Palma D'Ouro não tem o reconhecimento mediático de um Óscar, mas é um galardão aparentemente menos redutor, mais sensível a outras nuances artísticas e aberto às cinematografias que nem sempre possuem o idioma inglês como forma de expressão primordial. Costumo estar mais ansioso pela estreia nas salas nacionais do último filme que foi premiado em Cannes do que o que venceu o Óscar de Melhor Filme (nas estatuetas douradas, prefiro quase sempre os filmes que receberam os prémios para Melhor Argumento Original e Adaptado). Mas se há coisa que a Palma D'Ouro não é, é isenta e, influenciada pelo espírito do seu júri variável, costuma realizar algumas escolhas dúbias e temperamentais - exemplos? Quando Quentin Tarantino presidiu ao Festival de Cannes, o Grande Prémio foi para Fahrenheit 9/11, o panfleto político mascarado de documentário de Michael Moore que, apesar de interessante, não era de todo um objecto de cinema sólido - talvez o seu carácter híbrido seja a sua marca mais interessante. Este ano, com Wong Kar-Wai na direcção do júri, a escolha recaiu sobre Uma Brisa de Mudança, de Ken Loach, que já se estreou há um par de semanas nas salas nacionais. Belo e de tonalidades clássicas, este drama sobre as convulsões políticas do IRA é um claro e rico objecto de cinema, mas a sua mensagem política parece sobrepor-se às suas ambições artísticas. O meio é a mensagem, já dizia McLuhan. A Palma D'Ouro de Cannes parece apostada num cinema de causas, deixando por vezes o bom cinema atrás das costas. Mas, no fundo, a ambiguidade dos filmes também passa por aqui.

Pecado do Dia: Ira

O cineasta Ken Loach constrói o seu Brisa de Mudança como um complexo mosaico sobre o absurdo da guerra, testando as convicções humanas de quem mata pela indepêndencia de um pedaço de terra. Ao centrar-se na Irlanda dos anos 20, que luta contra a invasão britânica, cria um retrato denso em que a violência era cometida com a inexorabilidade da Inquisição medieval. Pode parecer, a espaços, grotesco e maniqueísta, mas há um realismo incómodo e manipulador que, apesar de desconfortável, se encaixa na mensagem pacifista que se pretende passar. O actor Cillian Murphy lidera um elenco intocável de homens movidos por convicções que as levam até às últimas consequências. Apesar de demasiado cru e nem sempre muito objectivo, Brisa de Mudança é tocante, tem uma belíssima fotografia e faz-nos perceber que o cinema também é um jogo expressivo que tanto pode ser um entretenimento aprazível como produtor de um nó na garganta do espectador. A guerra dos anos 20 por um pedaço de terra é cruel. Mas, mais de oitenta anos depois, as interrogações mantêm-se. * * *

11 de agosto de 2006

Na Pré-História já existiam épicos

Comprovei recentemente que há ainda uma série de obras preciosas inexistentes em DVD em edição portuguesa (Ed Wood, de Tim Burton onde estás?). Um fenómeno que tende a ser colmatado por editoras que se preocupam em fugir às estreias obrigatórias e a repescar clássicos esquecidos pela fita falível do VHS. A Atalanta Filmes e a Costa do Castelo têm pregado boas surpresas, revelando estarem atentas ao cinema que se fez e se vai fazendo de vários estilos e nacionalidades. Descobri recentemente na FNAC, uma edição especial do clássico A Guerra do Fogo, de Jean Jacques Annaud, obra europeia de 1981 (!?) que é ainda um excelente exemplo de como o cinema se consegue metamorfosear e quebrar barreiras espacio-temporais, neste caso específico atravessando a linha cronológica das eras e fazer o espectador recuar 80 mil anos. O resultado, asseguro, continua a ser surpreendente. Como a descoberta de que com duas pedras (ou um pau, um tronco e um monte de caruma) se consegue criar fogo.

Pecado do Dia: Inveja

A ideia de Annaud, que se iniciou no cinema com menos de 20 anos e que sempre
demonstrou vontade em experimentar novas tonalidades visuais e dramáticas, é de génio, tão ambiciosa quanto inverosímil para o início da década de 80, segundo os produtores que demoraram a avançar com o projecto. Por isso, só se pode sentir inveja de Annaud que constrói, nesta odisseia Pré-Histórica algo bizarra mas muito emocionante, uma espécie de "cinema-verité", se é que se pode assumir como realista a visão dos homens de há 80 mil anos com base essencialmente em relatos científicos. A Guerra do Fogo funciona e faz-nos acreditar no cinema como manual de História, capaz de partir de uma aventura entre três amigos de uma tribo que vão à procura da chama, uma ferramenta tão útil quanto as armas de caça ou as peles dos animais para criar vestuário. A fluidez com que Annaud gere a ficção com o documento científico é de louvar, ainda para mais em quase hora e meia sem diálogos. Mas para quê, se tudo se pode expressar com um gesto, um som ou um jogo de planos? O DVD recentemente lançado, que resulta de uma parceria entre a FNAC e a Costa do Castelo, possui ainda extras a reter como o "trailer" e um documentário sobre o fenómeno de um pequeno filme europeu estranho, que acabou por ser um êxito mundial em 1981 e conquistou até o Óscar para Melhor Maquilhagem. O resto é História. * * * *